Another Life
4 Chapter 4
Notas iniciais
"Os encontros mais importantes já foram combinados pelas almas, antes mesmos que os corpos se vejam..."
(Paulo Coelho)
...
Era por volta das seis e pouco da manhã, Sara admirava a bela vista das montanhas localizadas do outro extremo do rio Walter. Ela tinha verdadeira paixão por vir aquele lugar. É bem verdade que aquele rio ficava a milhas e milhas de distância de sua casa, mas ainda assim, ela pouco se importava com a distância. Adorava a calmaria e o "som" do silêncio daquele lugar, o qual conheceu meio por acaso, quando veio anos atrás acampar perto dali com um grupo de amigos e seu irmão mais velho que não via desde a morte do pai deles há exatos um ano.
Quanta falta sentia de seu irmão maluco Andrew que morava no Havaí com a esposa e os filhos pequenos deles. Seu irmão morava lá ha anos desde que se casou, e por lá mesmo montou seu próprio negócio. Andrew administrava sua pousada a qual ficava localizada de frente para o mar.
Sara também sentia mais falta ainda de seu velho pai. Culpava-se pela morte dele, pois não conseguiu salvá-lo. Formada em Medicina, Sara era a médica de plantão na noite em que Henry deu entrada no hospital muito mau após ser atropelado por um carro guiado por um jovem inconsequente que se encontrava embriagado ao volante. O pai de Sara voltava do supermercado quando o acidente ocorreu.
Ela tentou de tudo, mas não conseguiu salvar a vida dele. Sentiu-se uma incompetente e diante da perda do pai que morreu sendo operado por ela, Sara resolveu abandonar a profissão e se enterrar num lugar quase inóspito e escondido no meio do nada. Se ela não pôde salvar a vida do próprio pai, então ela não servia para salvar ninguém. Aquela profissão não era pra ela!
Seus colegas de trabalho tentaram persuadí-la daquela idéia de largar a profissão a qual ela tinha um futuro promissor, mas ela não quis ouví-los. Estava desgostosa e muito mal pela perda do pai. Mesmo todos dizendo que a culpa não era dela e tudo o que foi possível pra salvá-lo, havia sido feito por ela, ainda assim, não importava. Em sua concepção, ela havia falhado como profissional e pior, com alguém que era tudo pra ela.
—Sinto tanta a sua falta pai!
Uma lágrima escorreu do canto de seus olhos e outras vieram logo em seguida. Ainda doía demais àquela perda! Perde o pai foi um duro golpe pra Sara. Ela antes disso era uma jovem alegre, sorridente e cheia de vida, depois passou a ser alguém sem vida e triste. Sem contar, que ela também passou a ser alguém solitária. Seu pai era seu companheiro, já que eles moravam juntos. E depois de sua morte, a jovem viu-se sozinha na vida, apesar de ter seu irmão mais velho.
Do Havaí, Andrew ligava direto pra ela. Ele inclusive já a convidou inúmeras vezes nesse um ano pra ela ir passar um tempo com ele e sua família, mas ela sempre dava uma desculpa qualquer.
Estava bem onde estava!
O lugar no qual residia há quase um ano era seu cantinho mais que perfeito para viver aquela vida solitária, longe do barulho da cidade e das lembranças trágicas que ficaram onde anteriormente vivia.
De cabeça baixa, ela começou a caminhar pela extensão da margem do rio. Muitos passos depois, ao levantar a cabeça para encarar o horizonte, os olhos de Sara enxergaram ‘’algo’’ estranho mais a diante.
Era uma massa preta que ela podia jurar que se tratava de uma pessoa deitada de bruços com metade do corpo dentro da água e a outra metade para fora, mas ela não tinha certeza se realmente era uma pessoa. Correu então pra tirar a dúvida e foi então que ao se aproximar, ela confirmou suas suspeitas. Era uma pessoa... Um homem!
Ele estava realmente de bruços e seu rosto não dava para ver completamente. A parte que dava para ver estava ensangüentada por conta de um corte profundo bem acima do supercílio direito do sujeito.
Sara ficou pálida, imediatamente veio a sua mente a lembrança de seu pai machucado na maca, quando dera entrada no hospital. Por segundos, ela encarou estática aquele sujeito desconhecido. Mas depois seu instinto de médica falou mais forte do que seu pavor pelo ocorrido no passado, e ela se agachou pra vê se aquele homem estava vivo.
Ela até podia ter decidido "limar" de vez e pra sempre de sua vida à médica, mas a médica persistia dentro dela mesmo essa não sendo mais sua vontade.
Agradeceu aos céus quando sentiu no homem uma pulsação, porém muito baixa.
Com cuidado a jovem conseguiu com dificuldade virar o sujeito e o arrastar para fora da água. O outro lado de sua face não estava machucado, havia apenas um corte nos lábios. Ela o encarou e mesmo com a face machucada, ele não deixava de ser bonito. O rosto liso, um nariz pequeno, algumas rugas de expressão e uns fios grisalhos que lhe fizeram imaginar que ele passava dos quarenta. Tateou o bolso da calça dele à procura de algum documento que o identificasse, mas nada. Olhou em suas mãos e nenhuma evidência de que ele era casado.
O que ela faria ali no meio do nada com um homem ferido daquele jeito?
Como será que ele chegou ali?
Como o tiraria dali? Seu carro estava morro acima!
Olhou ao redor pra vê se encontrava algo que lhe arremetesse ao sujeito como, por exemplo, quem sabe, o carro dele só que não havia nenhum veículo por ali. Talvez, a correnteza do rio o tenha arrastado.
Ela então começou a chamar pelo desconhecido pra vê se ele despertava, pois com ele desperto, seria mais fácil conseguir informações a seu respeito e também, de tirá-lo dali pra levá-lo a um hospital.
—Ei!... Acorda!... Moço!... Acorda, por favor! – Ela dava pequenas tapinhas no rosto dele pra fazê-lo acordar.
Foi com alívio que o viu abrir seus olhos bem lentamente. Ela teve a agradável surpresa de ver que eles eram azuis como o rio a sua frente. E mais, algo dentro dela balançou assim que seus olhos encontraram-se com os daquele homem desconhecido.
—Ai, minha cabeça! – Ele resmungou num fio de voz.
—Oi! Como você se chama?
Ele a olhou com certa dificuldade e era visível a dor que estampava sua face ensanguentada.
—Eu não sei! – Ele respondeu desorientado e sem a menor idéia de onde estava ou o que havia lhe acontecido.
Ela deduziu que ele, com certeza, no acidente que deve ter sofrido, bateu a cabeça fortemente e perdeu a memória.
Agora como iria avisar a alguém da família dele?
—Tudo bem! Olha, eu me chamo Sara e vou te tirar daqui, mas pra isso preciso que me ajude. Você precisa de cuidados médicos. Vem, eu te ajudo a levantar.
Com cuidado, ela enlaçou sua cintura e o ajudou a levantar-se. Ouviu-o reclamar de fortes dores nas costelas, de certo havia alguma fratura ali.
—Você faz idéia de como aconteceu seu acidente?
—Não! Eu não me lembro de nada da minha vida e de qualquer coisa que aconteceu comigo. É como se eu tivesse acabado de nascer.
A julgar pelos machucados que via nele, ela achou que realmente era aquilo... Ele havia nascido de novo, após o acidente que tinha sofrido.
Com muita dificuldade eles conseguiram chegar ao carro dela. Tiveram que dar uma enorme volta até alcançar uma pequena escada velha de madeira que dava acesso a estrada. Era por ali que as pessoas costumavam descer o morro para chegar ao rio.
Foi cansativo para o sujeito que sentia dores ao caminhar. Tiveram que fazer algumas paradas pelo caminho, mas conseguiram chegar aonde se encontrava o carro
—Vou te levar para um hospital. Você precisa tirar uma radiografia da cabeça e outra das costelas. Acho que deve ter fraturado alguma ou algumas costelas. Além do mais, está pálido, deve ter perdido muito sangue desse machucado em sua testa. Toma... – Ela tirou do porta-luvas uma toalha de rosto que costuma deixar ali para alguma emergência. _... Ponha isso sobre o machucado e mantenha pressão pra estancar o sangramento. O corte foi feio e vai precisar de pontos.
—Você é médica? – Ele a interrompeu.
Ela que ia dar a partida no carro paralisou diante da pergunta dele. Parece que não podia evitar deixar que suas ações de médica falassem mais alto.
—Não! – Mentiu a jovem mulher. _... Mas eu sei do que estou falando.
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