Another Life
30 Chapter 30
Notas iniciais
—Senhorita achei que tivesse esquecido do pedido!
O bom senhor que cuidava da única livraria da cidade, comentou ao ver a jovem chegar em seu balcão nos fundos do estabelecimento.
A bem da verdade é que os últimos acontecimentos, de certo modo, lhe fizeram esquecer disso, mas enquanto estava na sorveteria ela se recordou da sua encomenda e não pensou duas vezes em vir saber se ela havia chego.
—Minha semana foi um tanto... atribulada... — Ela lançou um rápido olhar em direção à Arthur que estava mais afastado de onde ela se encontrava. Ele estava observando alguns livros à venda. _ ... Confesso que realmente até esqueci mesmo dos livros, mas cá estou pra saber se o senhor conseguiu o que lhe encomendei.
—Deu certo trabalho, mas consegui, sim. Inclusive, têm três dias já que sua encomenda está aqui. Vou apanhar lá dentro, é que deixei separado pra minha filha não vendê-los por engano.
—Enquanto o senhor vai apanhar meus livros, eu vou dar uma circulada pelo seu estabelecimento e ver se levo mais alguma coisa além das que lhe encomendei.
—Tudo bem então. Chegaram coisas novas ontem se quiser dar uma olhada. Elas se encontram ali onde está aquele senhor que chegou junto com a senhorita.
—Ah, ok!
Enquanto o senhor saiu do balcão pra ir buscar a encomenda de Sara, a jovem foi até Arthur.
—E aí, sua encomenda chegou?
O homem de olhos azuis tratou logo de saber assim que a jovem se postou ao seu lado.
—Sim. Ele foi buscar lá dentro, pois guardou separadamente. E, você, que livro é esse que estava vendo?
—Sherlock Holmes. Parece bem interessante e instigante.
—E é. Eu tinha um exemplar desse, mas deixei em West Hill assim como também deixei os exemplares que encomendei, e tantas outras coisas que ficaram pra trás naquela cidade.
Arthur notou certa melancolia nela ao falar. E não querendo trazer a tona à conversa lembranças desagradáveis a jovem, o homem de olhos azuis tratou de imediatamente mudar o rumo da conversa ali.
—Será que aqui têm exemplares de culinária?
Sara voltou sua atenção ao seu acompanhante e sorriu.
—Acho que vi uma vez sim. Interessado em adquirir um? Posso comprar pra você.
—Sim, me interessa adquirir um, pois assim terei mais opções pra cozinhar à você.
—Já disse que não precisa se incomodar com isso.
—E eu já disse que não é incomodo algum cozinhar pra você. Eu gosto de fazer isso! — Arthur afirmou abraçando a jovem e lhe dando um selinho. _E se não for abusar demais de sua "generosidade financeira", eu aceito sua oferta de comprar o livro pra mim. Até porque, eu não tenho um tostão furado pra comprar nem uma mísera goma de mascar, quanto mais um livro.
Ele sorriu do próprio comentário e Sara acabou acompanhando-o nisso.
—Pois, eu não vejo qualquer problema em você abusar da minha "generosidade financeira". — Ela repetiu com um sorriso o termo usado por ele. _Vem, vamos procurar livros de culinária pra você!
Rodando por ali o máximo que conseguiram encontrar foram quatro diferentes livros nesse gênero. Arthur tinha em mente escolher e levar apenas um, mas Sara sugeriu levarem os quatro, contudo, o homem rechaçou prontamente essa sugestão, por achar demais isso. No entanto, depois de muito insistir, a jovem acabou conseguindo convencê-lo a aceitar levar todos os quatro.
E com esses exemplares em mãos, eles seguiram pra pegar os outros no balcão e pagar tudo aquilo.
—Nós levaremos estes aqui também para o chefe de cozinha aqui. — Sorrindo, Sara informou ao dono da livraria após Arthur depositar sobre o balcão os exemplares que ela lhe convenceu a aceitar levar.
—Ah, o senhor também gostar de cozinhar pra sua filha?
Sara imediatamente ficou sem ação diante de tal situação. Arthur não parecia assim tão velho a ponto de ser confundido com seu pai.
Apesar da tremenda gafe cometida pelo desavisado senhor, Arthur resolveu tirar por menos aquela saia justíssima que se formou ali. E, em tom leve e descontraído desfez a "confusão" feita pelo dono do estabelecimento.
—Eu até gosto mesmo de cozinhar, e tenha certeza de que seria uma satisfação enorme cozinhar pra uma filha, se eu tivesse uma... o que não é o caso, já que essa linda moça aqui não é minha filha. Ela é algo completamente diferente disso, não é querida?
Arthur abraçou Sara pela cintura e beijou seu rosto. A vontade era beijar-lhe a boca, mas seria constranger demais o pobre senhor a sua frente. Ele já estava mais do que constrangido ao se dar conta de que tinha sido infeliz em suas palavras e Arthur não faria o outro homem passar mais constrangimento, mesmo ele merecendo.
—Minhas mais sinceras desculpas pela confusão.
O bom senhor pediu prontamente ao se dar conta que aqueles dois Não eram pai e filha como ele supôs erradamente. Não tinha nada que ter aberto a boca e perguntado o que não devia. Era por essas e outras confusões que sua filha vire-mexe puxava sua orelha.
—Desculpas aceitas sem problema, não é querida?!
Sara apenas assentiu, sentindo um pouco de dó do senhor do outro lado do balcão, pois se houvesse um buraco ali, certamente, ele se enfiaria lá. Mas também quem manda abrir a boca pra perguntar besteira?
E a jovem morena estava surpresa com a reação de Arthur ante a situação. Outro no lugar dele, não teria tanta "esportiva" e "jogo de cintura" pra levar na boa uma situação tão embaraçosa assim.
—Depois dessa saia justa que causei, me vejo na obrigação de fazer um bom desconto na compra que estão fazendo.
—Olha, não precisa disso. O senhor já nos pediu desculpas e isso, é mais do que suficiente.
—Eu insisto e faço questão disso, senhorita.
O velho senhor havia ficado tão arrependido, sem graça e diminuído com a "gafe" cometida, que tudo o que queria era oferecer bem mais do que somente um pedido de desculpa àquele casal de clientes.
—Sendo assim, aceitamos o desconto.
O homem fez os cálculos em sua máquina, subtraindo do total um bom percentual de desconto e só então, anunciou o total da compra daqueles clientes.
Diante do valor dito e que por sinal era bem mais abaixo do que pagaria, Sara sacou seu cartão sob o olhar de Arthur e estendeu o pequeno objeto ao dono da livraria, informando-o de que era pra passar no débito.
Instantes depois, o casal saia com suas compras devidamente pagas e recebendo, mais uma vez, um novo pedido de desculpas do dono da livraria, que fez questão de lhes acompanhar até a porta de seu estabelecimento. Depois de hoje, ele passaria a manter a boca fechada e não ousaria mais fazer perguntas as quais não devia.
—Nossa, eu acho que nunca vi alguém ficar tão constrangido como aquele senhor.
—No lugar dele também ficaria assim. Me diz uma coisa, Sara, eu sou tão velho assim pra ser confundido com seu pai?
—Claro que não, Arthur.
Ele nem chegava perto disso. Seu pai ele? Ela não sabia de onde raios aquele senhor achou que Arthur tinha cara de ser seu pai.
—Tem certeza disso ou só está querendo ser gentil comigo?
—Certeza absoluta! Não acredita no que eu digo?
—Claro que sim!
—Então pronto. E você soube lidar bem com a situação embaraçosa que aquele senhor criou, outro no seu lugar acho que não se sairia assim.
—Não ia adiantar nada discutir ou brigar com ele a esse respeito, não concorda comigo? — Ela assentiu positivamente pra ele. _Creio que esse é o "risco" que homens mais velhos correm ao estarem com mulheres mais jovens que eles, como é no meu caso. Eu, particularmente, não me importo com a nossa evidente diferença de idade. E, você, se importa com isso?
—Se isso me importasse, a gente não estaria juntos. Pois, eu não teria aceitado dar uma chance à gente, pra começo de conversa.
Ele pediu por aquilo e mereceu. Não era nem pra ter feito aquela pergunta!
—Uau!... Essa doeu! Mas, eu mereci. Me desculpa pela pergunta idiota?
Ele sabia que tinha sido infeliz ao fazer aquela pergunta à ela.
—Desde que não repita esse tipo de pergunta, eu posso desculpar.
—Não repetirei mais. Prometo!
—Então tudo certo. Agora vamos pra casa que esse sol tá demais.
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