Another Life
22 Chapter 22
Notas iniciais
Sara resolveu partir de memórias boas de serem recordadas, pra depois chegar às dolorosas e terríveis lembranças as quais lhe atormentavam há um ano.
—Desde que eu era pequena o meu sonho era ser médica pra salvar a vida das pessoas. Sempre eu dizia isso ao meu pai. Costumava brincar que era médica e minhas bonecas eram as pacientes que eu atendia.
Arthur sorriu involuntariamente diante daquele confissão dela. E em sua imaginação, ele tentou vislumbrar uma Sara pequena, com seus seis ou sete anos talvez, brincando de "atender" suas pacientes. Ela devia ser tão linda e angelical quando criança.
—Quando cresci o sonho continuou o mesmo. Então, fiz vestibular pra medicina e passei em primeiro lugar para o orgulho do meu pai. — Ela sorriu por um breve instante. Nunca ia esquecer a alegria de seu pai quando souberam do seu resultado. Ela havia estudado tanto para aquilo, passado noites em claro e ele estava imensamente feliz pelo esforço dela ter dado o merecido resultado. Mas logo o sorriso da jovem se esvaiu e ela voltou a adquirir a expressão séria que tinha anteriormente. _Me formei como a aluna com o melhor desempenho acadêmico da turma. Fiz especialização em Clínica Geral e recebi o convite de um professor meu que era médico, para integrar a equipe dele em um conceituado hospital de West Hill. Foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu vivi os dois melhores anos da minha vida exercendo a profissão que tinha almejado desde que criança.
As coisas que aprendeu, pessoas que conheceu e atendeu, e os amigos que fez ao longo desse tempo, ela jamais esqueceria. Foi um sonho bom enquanto durou!
Calado e quieto, Arthur só prestava atenção e ouvia atentamente cada palavra que a jovem ia lhe dizendo.
—Mas em uma terrível noite de sexta tudo mudou. O sonho que eu vivia excedendo a medicina virou um pesadelo e chegou ao fim pra mim da pior forma.
Ela fez uma pausa e algumas lágrimas começaram a escorrer por seu rosto e em sua mente começou a vir à tona as lembranças daquela noite terrível. Tudo ainda parecia tão vivo, como se tivesse acontecido ontem e não há um ano.
Arthur queria dizer pra ela parar, pois estava mais do que claro que falar estava fazendo mal a ela, mas ele se recordou que ela havia lhe pedido pra ouví-la sem interrupções. E, desse modo, ele calou-se pra que ela seguisse com sua narrativa. Mas não resistiu em segurar em sua mão como uma forma de lhe passar força suficiente pra continuar a desabar aquilo que guardava. E assim foi, pois Sara retomou sua narrativa.
—Eu era a médica plantonista daquela noite.. — Sara disse enxugando com a mão livre, as lágrimas que teimosamente desciam por seu rosto. _... Quando me avisaram que um homem estava dando entrada muito mal. Ele tinha sido atropelado. Até então, eu não fazia ideia de quem fosse a vítima. Fui prontamente pra ala onde essas pessoas são levadas pra prestar atendimento à ele e quando cheguei lá... descobri que o homem era... o meu pai, Arthur. — Ela então lhe encarou. Seus olhos estavam imersos em lágrimas. A imagem de seu pai na maca aquela noite veio a sua cabeça tão logo a morena contou isso. Aquela imagem nunca sairia de sua mente. _Eu fiquei em choque quando o vi na maca todo machucado. Os paramédicos que prestaram os primeiros socorros a ele, disseram-me que o acidente tinha sido feio e que ele estava com diversas fraturas, e suspeita de hemorragia interna e traumatismo craniano. Foi tão difícil pra mim. Mas mesmo abalada, fiz questão de eu mesma o atendê-lo. Tudo eu fiz pra tentar salvá-lo, mas não foi o suficiente, porque meu pai... morreu enquanto eu o operava, pouco tempo depois dele ter dado entrada no hospital. Ele morreu nas minhas mãos, Arthur!
Assim que ela disse essas últimas palavras, o choro veio forte e convulsivo. Reviver aquele passado doía demais, mas talvez fosse preciso pra exorcizar de uma vez aquele fantasma que há um ano lhe assombra. Chorar daquela forma era seu meio de colocar pra fora toda aquela dor e angústia guardadas dentro dela desde a morte do pai.
Vendo o estado de Sara, Arthur não pensou duas vezes e abraçou-a na clara intenção de consolá-la.
—Sinto muito, honey!
—Eu falhei... como médica. Falhei... justo com... meu pai. Não consegui salvá-lo, Arthur!
Entre os soluços de seu choro ela ia contando aquilo. Mesmo não sendo sua culpa, a jovem carregava esse fardo em suas costas. Pra ela seu pai tinha morrido por sua culpa, que não teve capacidade de salvá-lo, quebrando assim, o juramento que havia feito na faculdade no dia de sua formatura.
—Não diga isso. Você não falhou, Sara. Tudo que era possível tenho certeza que você fez. Mas infelizmente, Deus quis assim. E contra a decisão dele não podemos ir.
—Meu pai era tudo pra mim!
Ela disse caindo novamente em um pranto convulsivo.
Se Arthur pudesse tomar aquela dor dela pra si, ele tomaria sem pensar duas vezes. Estava lhe cortando o coração ouvi-la e vê-la chorar daquele jeito.
Se soubesse que a razão por trás de sua aparente tristeza era algo tão grave assim, ele jamais tinha deixado-a reviver aquela história toda ao contar-lhe aquilo.
Ainda em meio ao choro, ela lhe revelou que foi por conta disso que veio morar aqui e abandonou a profissão. Alegou que não tinha mais condições de seguir clinicando depois do que aconteceu, por isso largou a carreira. Não se via mais como médica. E pediu desculpas por ter mentido pra ele à esse respeito, quando ele a questionou naquele dia.
—Tudo bem. Não se preocupe. Agora entendo suas razões.
Ele a embalava em seus braços, pois ela ainda chorava muito. E por longos e incontáveis minutos, ela permaneceu abraçada a ele chorando e Arthur tentava acalmá-la.
Ela não conseguia tirar aquelas imagens horríveis da cabeça e por isso do choro que não cessava. Mas, ele foi cessando com o passar do tempo e ela acabou adormecendo nos braços de Arthur um tempo depois.
Com todo cuidado pra não acordá-la, o homem de olhos azuis a ajeitou no sofá. Ele queria poder carregá-la e levá-la para o quarto onde, certamente, ela dormiria mais confortavelmente, mas ele ainda não podia fazer esforço por conta de suas costelas ainda machucadas.
Subiu e apanhou no quarto da jovem um lençol e já de volta a sala, cobriu Sara. Ajeitou uma mecha de seu cabelo castanho que escorreu para seu rosto tapando uma parte dele e lhe beijou a testa com extremo carinho.
Se ela soubesse o quão especial já havia se tornado pra ele nesse pouco tempo em que já se conhecem, ficaria surpresa. Arthur não conseguia mais se imaginar longe dela. Podia parecer loucura, mas agora ele torcia pra não recuperar mais a memória. Não queria lembrar de sua vida e correr o risco de esquecer aquela jovem linda que já havia conquistado seu coração por completo.
Pondo-se de pé, ele foi até seu quarto e apanhou seu lençol. Já de volta a sala, Arthur acomodou-se no outro sofá que havia ao lado do que Sara se encontrava. Deitado ali, ele não tirava os olhos da jovem adormecida.
Se ele tivesse poderes mágicos gostaria de livrá-la daquelas dolorosas lembranças que ela carregava na mente e no coração. Mas sabia que estava fora de seu alcance isso. Entretanto, tentaria lhe ajudar a superar essa dor e a conviver com ela sem se martirizar tanto como via que acontecia com Sara.
Ela era tão jovem e já havia passado por algo tão trágico assim. Se não bastasse ter sido abandonada pela mãe quando criança, ainda perde o pai dessa maneira horrível. Arthur só queria agora fazê-la se sentir feliz e esquecer as tristezas que ela carregava. Ele se esforçaria nisso e faria tudo que estivesse ao seu alcance pra isso.
Com esse pensamento e a visão de Sara adormecida, o homem também adormeceu no pequeno sofá.
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