Another Life
107 Chapter 107
Há dois dias Sara não via Grissom e hoje também não veria. O empresário ligou mais cedo todo estranho avisando que estava muito ocupado no trabalho e novamente não poderia vir vê-la. A verdade é que ela não acreditou muito nisso. Parecia mais uma desculpa inventada que uma história verdadeira.
A médica sentia que desde a ligação que trocaram onde ela lhe contou como foi a conversa com Amanda, que Grissom parecia evitá-la. E a pergunta, que ela lhe fez no quarto antes deles serem interrompidos pela ligação da recepcionista avisando que a ex-noiva do empresário queria falar com Sara, ficou sem resposta mesmo.
Vai ver que ele não sabia o que responder, ou na pior da hipótese, ele sabia e apenas não queria lhe dizer a verdade pra não magoa-la já que, com certeza, ele não devia sentir nada por ela.
Mas Sara precisava saber quais eram seus reais sentimentos por ela — se é que havia algum — pra assim tomar um rumo. E tão logo, ela e Grissom tivessem a oportunidade de estarem frente a frente novamente, a médica o questionaria sobre isso.
—Eu sei que prometi ao seu pai que não ia desistir, mas não posso viver eternamente nessa situação, filho. — ela alisava sua barriga. _Se ele disser que não sente nada... Então seremos só você e eu, meu amor.
Ia ser difícil tocar sua vida sem o pai do seu filho, mas caso ele lhe desse uma resposta que não era a que ela esperava, teria que saber lidar com isso e seguir em frente sem seu amado.
Ficou remoendo aquele pensamente até que resolveu sair daquele quarto e dar uma volta na cidade. Ficar trancafiada ali e tendo aqueles pensamentos, não ia lhe fazer bem. Precisava passear, se distrair um pouco. E saindo da cama, a médica foi tratar de se arrumar melhor a fim de sair.
Em pouco tempo já estava cruzando a porta do quarto e saindo pra dar uma volta.
***
Amanda redigia sua matéria enquanto ouvia sua amiga Lorena lhe contar com insatisfação sobre a nova cobrança da sogra por netos.
—Ai, Amanda, eu não aguento mais essa cobrança dela. Quer porquê quer que eu engravide logo. Não sou só eu que ela tem de nora. Por que ela não cobra a Diana?
—Sabe o que eu acho? Que ela cobra você porque o seu marido é o primogênito.
—Ah, e eu com isso?! Não tenho culpa.
Amanda riu levemente de sua insatisfeita amiga. Lorena era casada com August há cinco anos e depois do primeiro ano de casado deles, a sogra de Lorena começou as cobranças por netos. De primeira eram cobrança discretas e esporádicas. Mas de dois anos pra cá as mesmas cobranças se tornaram mais insistentes e nada discretas.
—Fala pra ela que por enquanto você não quer.
—Amiga, eu já falei. Só que ela não entende ou fingi que não entende, e essa insistência toda tá ficando chata já.
—Essa sua sogra também hein?
—Nem me fale!
—Terminei minha matéria. Ufa!
—Já?
Sorrindo Amanda concordou com a cabeça. Só o trabalho e sua amiga Lorena pra distraírem-na um pouco. A jornalista ainda estava tentando aos poucos dar seguimento em sua vida. Aquela conversa com Sara e o término do noivado com Grissom ainda repercutiam dolorosamente na ruiva. Mas ela seguia em frente, sua filha era uma ótima razão pra isso.
Após finalizar sua matéria, a jornalista pôs-se de pé com a intenção de ir entregar ao seu chefe o artigo. Porém, no instante seguinte em que se levantou da cadeira, o sorriso que Amanda ainda exibia, sumiu e uma careta de dor apareceu em seu rosto. Sua mão foi instintivamente parar sobre a barriga local onde ela sentiu uma dor súbita.
—Amanda o que foi?
Lorena se levantou da cadeira e preocupada foi até a amiga na mesma hora em que viu a expressão de Amanda mudar e a mesma segurar a barriga.
—Uma dor tipo como se fosse uma fisgada na barriga.
—Acho melhor você sentar. — Lorena ajudou a amiga a se acomodar de volta a cadeira dela. _Quer que eu ligue pra sua médica?
—Não é necessário!
—Então quer que eu pegue um copo de água pra você?
—Não, calma. Não precisa ficar alarmada assim. — Amanda tentou tranquilizar sua amiga que parecia mais nervosa do que ela ficou com aquilo que sentiu.
A jornalista fechou os olhos e respirou fundo, depois soltou o ar devagar pela boca sentindo a dor que começou na região do abdômen na parte inferior e pareceu se irradiar para a virilha, ir amenizando devagar.
—Tá passando, Amanda?
—Tá. Acho que isso aconteceu devido eu estar há algum tempo sentada e aí ter levantado rápido. — explicou, abrindo os olhos e sentindo o desconforto de antes ir se dissipando lentamente.
—Tem que ter cuidado com a minha afilhada, Amanda. — Lorena passou a mão pela volumosa barriga da amiga que sorriu.
—Se a minha cunhada... Quer dizer, ex-cunhada... — corrigiu-se Amanda com amargor e perdendo o sorriso de outrora. Ainda era difícil se acostumar com a ideia de que não era mais uma mulher comprometida e que Catherine não seria mais sua cunhada. _... Se Catherine te escuta chamar a Lizzie de afilhada vai ter um surto.
—Ai, Amanda, você precisa decidir qual de nós duas vai ser a madrinha da Lizzie. Agora, que ela não vai mais ser sua cunhada, podia deixar esse posto pra mim.
—Lorena não me pressiona. Além do mais, ela só não vai ser mais minha cunhada, mas continua sendo uma amiga pra mim. Alguém de quem eu gosto muito, assim como gosto de você.
—Mas você gosta um pouco mais de mim do que dela, né? Sou sua amiga há mais tempo.
—Olha a chantagem, Loh.
—Não é chantagem. É uma constatação. E, além do mais, o que disser a mim, ela não vai saber. Então admita, eu estou um pouco a frente dela, não estou?
—Sim. E que ela não me escute.
As duas mulheres sorriram, Lorena mais largamente por conta da resposta da amiga querida.
***
Saindo de uma loja infantil no shopping onde comprou um mimo para seu bebê, Sara decidiu ir até a praça de alimentação e comer algo, pois já fazia um tempo razoável desde sua última refeição. Acomodada em uma mesa da movimenta área de alimentação, ela aguardava seu pedido ser trazido. Enquanto isso não acontecia, a médica se deliciava revendo os dois macacões que comprou. Eram lindos! Um verde claro e outro branco. Seu bebê ia ficar uma graça em ambas as peças. Não via a hora de chegar aos noves meses e assim seu bebê nascer pra tê-lo(a) em seus braços. Um pedacinho de Arthur estaria pra sempre com ela caso seu amado não "voltasse" mais pra ela.
Não queria pensar nisso, mas era inevitável. Mesmo mantendo-se confiante quanto a recuperação das lembranças de seu amado, as vezes era impossível não pensar que podia estar criando esperanças em vão.
Quanto tempo mais ia levar pra ele lembrar dela?
E quanto tempo mais ela conseguiria aguentar aquela situação toda dele não lembrando dela?
***
—Não sentiu mais a fisgada de horas atrás?
—Não. Fica tranquila, Lorena.
—Qualquer coisa se você sentir de novo me avisa que eu te levo pro hospital.
Amanda assentiu para sua amiga que tinha vindo a sua sala somente pra saber aquilo. Tão logo Amanda a tranquilizou, Lorena saiu pra voltar para sua sala e terminar de revisar seu artigo.
Sozinha em sua sala, a jornalista suspirou e deslizou a mão pela barriga. Ela não quis contar pra não preocupar sua amiga, mas a verdade é que estava sentindo uma dorzinha de leve do lado direito da barriga. Não era nada alarmante. Mas caso aumentasse a intensidade da dor não ia hesitar em ir ao hospital. Por hora estava tranquilo e ela seguiu seu trabalho normalmente.
***
Reunido em sua sala com Catherine e e Warrick, Grissom revisada pela última vez o contrato que seria fechado para a construção de um moderno hotel em Dubai.
—Que bom que ganhamos esse contrato. Achei que os chineses iam nos tomar isso.
—Ainda não assinamos nada, Cath, então não comemore. Os chineses estão jogando pesado pra levar esse empreendimento pra eles.
—Mas não vão conseguir. Gil, pelo amor de Deus! O projeto que mostrei dá de mil no dos chineses.
—Eu sei. Mas cautela nos negócios é sempre bom. E enquanto esse magnata não assinar esse contrato nada está garantido.
—Grissom tem razão, Cath.
O celular de Grissom tocou naquele exato momento. Sem sequer olhar quem ligava, pois estava com a atenção voltada para a leitura do contrato elaborado por warrick, Grissom atendeu a chamada.
—Alô!... Sim sou eu. Quem fala? — ele levantou os olhos dos papéis e encarou sua irmã com preocupação.
Do outro lado da linha uma voz suave disse quem era, de onde estava ligando e porquê da ligação. Na mesma hora em que ouviu a mulher contar a razão daquele telefonema, o empresário ficou sem chão.
—Grissom o que houve? — Catherine viu o irmão empalidecer do nada.
—Como se chama o hospital mesmo?... Tá em alguns minutos chego aí. — finalizou a chamada.
—Hospital?? O que foi que houve, Grissom?
Enquanto colocava o palitó as pressas e apanhava suas chaves e guardava o celular no bolso da calça, ele contou rapidamente o que a recepcionista do hospital lhe informou.
—Eu preciso saber como ela está.
—Vou com você.
—Não precisa. Eu vou só.
—Mas...
—Você fica. Tem uma reunião importante pra assinatura desse contrato.
—Okay. Mas me manda notícias, por favor.
Ele assentiu já saindo pela porta.
—Deus queira que nada de grave tenha acontecido a ela e a criança.
Catherine assentiu com preocupação para o marido.
***
Em tempo recorde ele cruzou a cidade e chegou ao hospital Saint Louis. Sua preocupação triplicou ao adentrar naquele lugar e uma sensação desagradável fez apertar seu coração pelo ocorrido.
Se dirigiu imediatamente a recepção do local onde havia uma moça negra, de estatura mediana, cabelos presos num coque elegante e que mexia no computador.
—Olá! Sou Gilbert Grissom. Ainda pouco me ligaram avisando sobre uma pessoa que conheço ter dado entrada aqui.
—Fui eu mesma quem ligou, senhor Grissom. Espere só um instante que vou informar ao médico de sua chegada.
Ele apenas assentiu apertando as mãos nervosamente enquanto a recepcionista apanhava o telefone e discava uns números.
—Doutor Hugh, o senhor Grissom já está aqui!... OK! — ela finalizou a chamada e informou a Grissom que o médico já estava vindo pra falar com ele.
—Você pode me dizer como ela está?
—Lamento, mas não estou autorizada a dizer nada a respeito do estado de saúde dos pacientes. O médico lhe dará as devidas informações quando ele vier.
Se ela não queria dizer então era porque tratava-se de algo sério e nisso bateu um medo em Grissom.
Foram apenas poucos segundos de espera, uma espera agoniante pra Grissom. Nunca foi um homem religioso e nem de rezar, mas se viu rezando por boas notícias.
—Senhor Grissom??
Ele se virou pra encontrar um senhor mais baixo que ele e também mais velho, que trazia no rosto uma expressão paternal.
—Sim.
—Doutor Hugh, sou o médico plantonista. — informou o médico estendendo a mão pra cumprimentá-lo. _O senhor é parente da moça?
—Não. — ele contou apertando a mão do médico. _Mas sou o mais próximo disso nesse momento. Como Sara está? — angustiado ele quis saber.
Ele ainda custava a crer que ela havia sido atropelada. Segundo informou a recepcionista quando ligou, pessoas que estavam no local disseram que o motorista avançou o sinal amarelo e pegou Sara em cheio. O sujeito inclusive fugiu do local.
—O estado dela é estável. Sofreu algumas escoriações e fraturou duas costelas. Mas vai ficar bem.
Aquelas notícias foram as melhores que ele poderia ter recebido. Saber que ela estava bem apesar do que houve, era o melhor de tudo.
—Graças a Deus!... E o bebê? Também está tudo bem com ele, não é?
Como o médico não mencionou nada sobre o bebê, Grissom lhe questionou. E o empresário não gostou nada da expressão que viu o doutor adquirir após sua pergunta.
—Então... O impacto do atropelamento que ela sofreu se concentrou todo na altura dos quadris... E isso, lamentável, fez com que ela... perdesse o bebê que esperava!
—Ah, não! — ele sussurrou se encostando a parede atrás de si e fechando os olhos, sentindo uma pontada tão lasciva no peito que lhe fez perder as forças nas pernas. Se não fosse ao bom reflexo do doutor, Grissom teria ido ao chão.
—Michelle traga um copo de água pra ele rápido. — pediu o médico enquanto amparava Grissom e lhe dirigia para acomodá-lo numa das cadeiras ali da recepção.
" ... E isso, lamentável, fez com que ela perdesse o bebê que esperava."
Perdesse o bebê... Perdesse o bebê...
Essas palavras ecoavam na cabeça do empresário feito um chicote açoitando suas costas com toda a força.
Aquilo era um pesadelo.
Sua vontade era de chorar, mas as lágrimas não vinham.
—Tome! Beba essa água.
Feito um autômato ele apanhou o copo e bebeu o líquido transparente meio adocicado por conta da pequena colher de açúcar que a recepcionista pôs ali.
—O senhor era o pai do bebê, não era? — o médico arriscou em perguntar. Pela reação daquele homem ante a notícia que lhe deu, o bom doutor concluiu que ele muito provavelmente era o pai.
Grissom apenas assentiu, confirmando o que o médico já desconfiava.
—Sinto muito. Mas ela é uma moça jovem e saudável. Daqui a dois meses vocês podem tentar de...
—Não, nós não podemos, doutor. Não estamos mais juntos pra tentar. — sua voz não passava de um mero sussurro.
A notícia daquela perda estava doendo tanto nele. Parecia que seu peito estava rasgando de dor. Uma dor que talvez nunca passaria.
—Eu quero vê-la.
—Claro. Mas o senhor já se sente bem pra ir comigo até o quarto dela?
'Bem' era algo que ele não se sentiria tão cedo. Mas naquele momento precisa arranjar forças pra ficar assim... Bem!
—Sim?
—Então venha comigo que vou levá-lo ao quarto em que ela está.
Entregando o copo a recepcionista, Grissom agradeceu a mesma pela água. A moça apenas assentiu. Depois o empresário seguiu com o médico por um corredor.
—Ela está dormindo por conta da sedação que fizemos pra fazer a curetagem e também pra acalmá-la, pois ela estava agitada demais. Ainda vai levar em torno de duas à três, horas pra ela acordar da sedação. — explicou o médico. _Este é o quarto. — o bom doutor achou por bem deixar que aquele sujeito entrasse sozinho. _Vou ver outros pacientes. Daqui há um tempo volto pra ver se ela acordou.
Grissom assentiu e o médico lhe deu as costas pra ir. No que o doutor Hugh se afastou três passos, Grissom o chamou:
—Doutor!
—Sim! — doutor Hugh se virou para ele.
—Já dava pra saber o sexo do bebê?
—Sim! O senhor gostaria de saber o que era?
—Acho que sim.
—Era um menino!
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