Annelise Jackson
3 The Unknown
Notas iniciais
Eram 18 horas e 56 minutos. Estava deitada na minha cama bebendo meu chá e lendo o livro que ganhei da Li: Muralha de Gelo do Peter Grey, meu ator favorito. Ele é de St. Paul e já escreveu quatorze livros com o tema romance, drama e ficção. Seus últimos quatro livros foram os mais vendidos dos Estados Unidos no último ano. Confesso que me sinto mais privilegiada que os outros leitores do Peter, pois conheci a literatura dele quando ele acabava de lançar o seu terceiro livro. Época que ele era pouco conhecido no mundo dos autores.
Minha leitura foi interrompida quando ouvi batidas na porta da frente. Larguei o livro e fui espiar pela minha janela. Não consegui ver nada lá embaixo. Meus pais não podem ser, pensei. Nem a Diana e nem o Lucio. Todos eles tem uma cópia da chave e aqui em casa há uma regra muito rígida: quando sair, leve sua chave de reserva. Ouvi mais batidas e desci para o primeiro andar em direção à porta da frente. Tentei espiar pelo olho mágico, mas um engraçadinho colocou o dedo na frente. Abri a porta. A primeira pessoa que vi foi a Anika: vestido bege com mangas compridas, justo ao corpo e um pouco acima do joelho e um decote disfarçado. Nem um pouco vulgar. Ela odeia vulgaridade. O cabelo castanho e longo estava todo amarrado em um rabo de cavalo alto. O olhar azul dela se destacava com a maquiagem. O vestido caiu bem nela. Anika é magra, mas tem certas curvas, tem corpão. Ela é parecida comigo em relação a corpo. A segunda pessoa que vi foi um cara. Um cara completamente desconhecido para mim. Mais alto que eu e a Anika. Bem mais alto. Mas a pele como a nossa, morena clara. Cabelos loiros e bagunçados, rebeldes, que cobriam quase metade da testa. Olhos sedutoramente azuis e pelo o que pude perceber, frequentava a academia regularmente. Ele usava calça jeans escuras, tênis e uma camisa branca, justa até demais. Confesso, um tremendo gato.
— Finalmente você atendeu, hein? O que estava fazendo? — perguntou Anika.
— Eu... Estava no meu quarto. — respondi dando uma olhada no cara e depois nela.
— Ah, como eu sou distraída. Anne, esse é meu amigo, Josh. Josh, essa é a minha amiga de quem eu falei. — ela deu um sorrisinho malicioso para ele.
Ele me deu uma olhada da cabeça aos pés. — Oi Anne, prazer conhecer você. Eu sou Joshua, mas pode me chamar só de Josh. — ele deu um sorriso e estendeu a mão.
— Oi. Eu sou Annelise, mas pode me chamar de Annelise mesmo. — dei um sorriso forçado e apertei a mão dele.
— Uau. Ousada. Gostei de você. — ele deu um sorriso maldoso e me olhou da cabeça aos pés pela segunda vez.
— Tem três quartos no segundo andar. — falou Anika entrando.
Eles entraram e a Anika se virou para mim. — Esqueci de dizer. —falou Anika para mim num tom de cochicho. — Josh é o modelo gato que pediu teu número. Não disse que ele não era de se jogar fora?
— Eu vou matar você. — devolvi.
— Então. — falou ela com seu tom de voz normal. — Eu e Josh viemos te buscar para ir com nós numa festinha particular.
— Festinha particular?
— De um colega da Bayside. Agora chega de papo e vá se vestir.
— Espera. — cruzei os braços contra o peito e olhei bem para ela. — Nem me perguntou se eu quero ir.
— Você quer ir?
Olhei para Josh. Ele deu aquele sorrisinho torto, sexy, perigoso e pervertido, de novo.
— Não.
— Sim, você quer sim. — ela me pegou pela mão e me levou para as escadas. Eu não tinha escolha. Se eu respondesse que não novamente, Anika me levaria amarrada no capô do carro, mas me levaria. Eu estava afim de ir, mas com ela, não com Josh junto. Por motivos desconhecidos, não me sentia confortável com ele, mas ao mesmo tempo, ele me atraia.
Anika foi até meu guarda-roupas e ficou analisando o que via.
— Anika. Tem um cara completamente desconhecido, sozinho, no andar de baixo da minha casa e ainda você quer me forçar a ficar com ele. — coloquei as mãos na cintura esperando uma resposta muito boa.
— Ele não é desconhecido, é meu amigo. E não estou forçando, estou apenas tentando fazer vocês se conhecerem.
— Isso mesmo. Seu amigo, e não quero conhecer ele, tecnicamente você está me forçando.
— Vista. — ela jogou para mim meu vestido preto para festas. — Esse é perfeito.
— Não.
— É só uma festa. Se você não quer nada com Josh, tudo bem, não terá. Não estou forçando, só quero que nos acompanhe. Mas, baby, vai dizer que ele não é sexy?
— Ele é pervertido.
— Ai, não. Vá se vestir. Vou ver como o Josh tá.
Peguei o vestido e bufei. Contei até dez mentalmente para me acalmar. Vou ir nessa festa, vou dançar com a Anika e será isso. Fim de história. Entrei no banheiro e tomei um banho mais rápido. Quando sai me deparei com o vestido em cima da cama e me deu um desânimo. O vestido eu comprei para ir a um casamento do colega de trabalho do meu pai, mas acabei não indo porque fiquei doente. Ele é bonito. Preto, com brilho em todo o corpete, tomara-que-caia e cheio de babados na parte de baixo, o que dá um volume bom. Depois de vestir ele, ajeitei meu cabelo. Resolvi deixar ele solto. Meu cabelo é castanho claro, mas têm pessoas que dizem que ele é loiro escuro. Não sei se existiria alguma diferença entre os dois termos. Ele é liso, mas com ondas bem grandes que vão da metade do cabelo e se estende até as pontas. Coloquei nele uma quantidade pequena do reparador de pontas, depois espirrei um spray controlador de frizz. Antes de colocar meu salto, fiz uma maquiagem bem leve e fui me ver no espelho. Meus olhos azuis ficaram maiores com a pintura. Ainda assim faltava alguma coisa. Joias, pensei. Coloquei um colar de pedras, brincos, uma pulseira e desci.
Anika estava batendo o pé e olhando para o relógio preso ao pulso. Josh estava de costas para mim fazendo... Nada (?).
— Ah, você está pronta. — Quando desci toda a escada ela me deu uma olhada. — Uau. Que gata.
Josh finalmente parou de encarar o nada e voltou ao mundo real. Ele se virou para mim e pela terceira vez na noite, me olhou de corpo inteiro. Tive a leve impressão que dessa vez ele demorou o dobro das outras vezes.
— Então você é Annelise Jackson. — ele fez o sorriso torto e sexy. — É melhor do que eu imaginava.
Antes de sair de casa, deixei outro bilhete para mamãe avisando minha saída. O carro do Josh era um jeep preto. Ele não gosta de coisas pequenas. Anotei mentalmente essa descoberta para caso eu precisar futuramente. Josh entrou no lado do motorista e eu fui indo em direção aos bancos de trás. Anika chegou perto de mim e sussurrou.
— Eu que vou sentar atrás. Você senta no assento do passageiro.
— Anika.
— Sem mais. — ela me deu um empurrãozinho em direção à porta do passageiro e em questões de segundos se atirou nos bancos de trás e fechou a porta. Disfarçadamente, para Josh não ver aquele fiasco, tentei abrir a porta. Estava trancada.
— Você me paga. — falei apenas mexendo a boca, com o indicador apontado para ela. Ela ignorou minha ameaça e me mandou um beijo. Bufei e desabei no banco do passageiro, ao lado do Josh. Ele engatou a marcha e antes de ligar o carro me encarou e deu um sorriso simpático. Olha. Ele sabe sorrir como gente normal.
Chegamos meia hora depois. Quando entramos no bairro, notei que ele era familiar para mim. Foi então que percebi que era White Stones. White Stones é um dos bairros mais caros e sofisticados de toda a Nova Iorque. Mansões luxuosas, sedãs estacionados nas calçadas, rua perfeitamente limpa e vegetação bem cuidada. Só os muito ricos e milionários da cidade tem uma casa aqui. Modéstia parte prefiro mil vezes o meu bairro. Moro na Bayside, no condado do Queens. Minha escola é no bairro, por isso o nome: Bayside High School. Além das ruas serem bem preservadas, cuidadas, opto pelas casas tradicionais e mais simples da Bayside do que as mansões extravagantes e modernas da White Stones. Moro no lugar certo. Infelizmente, vou ter que deixar esse lugar onde construí toda a minha história para trás.
A festa particular que íamos é de Dan Grier, um garoto da escola. Alto, magro, olhos verdes e cabelo levemente dourado. Nunca toquei uma palavra com ele, a não ser no quarto ano do
fundamental quando ele era meu colega. No máximo nos falamos para pedir material emprestado ou passar colas.
Dava para ouvir a vibração da música há quilômetros de distância. As pessoas vão sair de lá com um belo zumbido no ouvido, pensei. Ah. Eu sou uma dessas pessoas, mas não pretendia ficar muito tempo na festa. A rua da casa, ou, melhor dizendo, mansão do Dan, estava lotada de carros. A maioria de estudantes da minha escola. Tenho certeza. Josh estacionou num lugar vago, não tão longe da entrada e nós saímos do carro. A música era ensurdecedora. Anika teve que gritar, literalmente, para ser escutada:
— Espero que não seja obrigado trazer alguma bebida para poder entrar.
— Não é necessário. Dan não é de fazer essas coisas. Todas as bebidas são por conta dele. — respondeu Josh também em voz alta.
Entramos na festa. Estava lotado de gente. Embora estivesse difícil identificar todos aqueles rostos somente com as luzes de neon coloridas, reconheci muitas pessoas da Bayside.
— Vou ao bar com a Anne para comprar alguma bebida. Você vem junto? — perguntou Anika para Josh.
— Encontro vocês duas depois. Vou falar com Dan.
Eu e Anika nos dirigimos para o bar e nos sentamos nas banquetas, apoiadas ao balcão de bebidas.
— Se você não beijar Josh... — começou Anika.
— Pode pegar ele para você Anika. Eu já entendi que você está querendo ele. Eu, por outro lado, não.
— Você nem deixou eu terminar a frase. — respondeu ela franzindo o cenho. — E não. Já disse que não estou afim dele. Aliás, não estou afim de ninguém no momento. Isso mesmo, ninguém. — ela falou lentamente cada sílaba da última palavra.
Joguei a cabeça para trás e dei uma gargalhada.
— Duvido.
— Quer que eu prove?
Dei uma pensada.
— Quero.
— Façamos uma aposta então. Se um cara bonitinho vim me flertar eu dou o maior fora nele na sua frente. Se eu ganhar, você terá que dançar com Josh.
— Bonitinho? — levantei as sobrancelhas. — Você não é do tipo que goste de bonitinhos. É roubo. Tem que ser um cara muito lindo, que faça teu tipo. Como Ryan Parker.
— Ele não faz mais meu tipo. — ela respondeu me fitando com os olhos cerrados. — Mas, aceito. Vou dar um fora no maior gato que vier em mim, mas quero ver você dançando com Josh.
— E se você perder?
— Hum. — ela parou um momento. — Eu paro de tentar fazer vocês dois ficarem juntos. Se é que eu esteja mesmo tentando algo. Fechado? — ela estendeu a mão para eu apertar com um sorriso orgulhoso e humorado.
— Fechado.
— O que eu perdi? — perguntou Josh se aproximando.
— Eu e Anne fizemos uma aposta. Tenho que dar um fora num cara interessante na frente dela. Se eu ganhar, você terá uma loira gata dançando contigo ao som de uma música eletrônica.
Eu não sou loira.
— Gostei da aposta. — ele disse olhando para mim e dando o sorriso torto. — Será um prazer dançar com você Jackson.
Mereço. Agora ele me chama pelo sobrenome.
Como não falei nada, ele continuou. — Vocês vão querer tomar alguma coisa ainda? Eu pago.
— Não. Sim. — eu e Anika respondemos ao mesmo tempo. Josh parou um momento nos analisando. Ele cerrou os olhos azuis, franzindo a testa. A boca rosada e carnuda fez um leve beiço. Então ele disse:
— Vou pagar um refrigerante para as duas. — Ele chamou a atendente e fez o pedido. Ela trouxe dois copos cheios com refrigerante e gelo.
Nós fomos para a pista. Dancei algumas músicas com Anika, sempre tentando manter uma distância aceitável do Josh e rezando para que nenhum cara chegasse na Anika. O que, confesso, era difícil de acontecer. Minha amiga é a imagem perfeita de mulher que qualquer homem procura: corpo com curvas, rosto angelical, altura mediana, cabelos longos, olhos atraentes e que dança bem.
Como se meus pensamentos tivessem algum tipo de poder, um garoto se aproximou de nós, olhando fixamente para Anika. Ele deveria ter uns 17 a 18 anos. O cabelo castanho claro combinava perfeitamente com a cor dos olhos. Boca exageradamente grande e um corpo atlético. Muito bonito. Quero ver Anika dar um fora nesse cara, pensei.
— Oi. — cumprimentou ele.
— Oi. — respondeu Anika ainda dançando.
— Meu nome é Scott. Pode me dizer seu nome? — perguntou Scott para Anika.
— Anika, prazer Scotty.
— Scott. — corrigiu ele. — Andei observando você. É da Bayside? Porque não me recordo de ter visto garotas tão lindas como você lá. — ele sorriu simpático.
— Hum, para falar a verdade, sou. Você deveria usar óculos, está precisando.
Tive que segurar uma risada.
Scott franziu a testa, mas, ignorando o sarcasmo da Anika, disse:
— Talvez eu precise mesmo. Quero poder te ver de novo na Bayside. Mas, e aí? Quer dançar comigo?
— Não. Para falar a verdade, não gosto de dançar com quem não enxerga direito. Vai que pise no meu pé ou pior, me dê uma cotovelada na cara. Não seria nada legal.
Estava morrendo de rir por dentro, mas me esforcei para conter o riso.
— Ah. — foi a única coisa que Scott conseguiu falar depois de um minuto tentando assimilar o que a Anika disse. Ele fez uma expressão de estranheza. — Tudo bem. Vou voltar para o meu lugar. Prazer conhecer você. — e saiu apressado.
Cai na gargalhada e Josh também riu. Anika, por um lado, só deu uma risada de desânimo.
— Não acredito que você fez isso. Fiquei com dó do garoto! — falei com a mão tapando a boca.
— Eu disse que iria provar, não disse?
Agora lembrei qual seria o prêmio da Anika por ganhar a aposta. Eu teria que dançar com Josh.
— Próxima música. Eu vou dar uma volta para deixar vocês dançarem a vontade.
Josh olhou para mim e sorriu, mas sem mostrar os dentes. Olhei para Anika e fiz a cara mais braba e dura que pude no momento. Ela deu de ombros e foi como se dissesse: “você aceitou a aposta, não me culpe”. E era verdade, eu aceitei. Anika cumpriu a parte dela e agora eu deveria cumprir com a minha. É só uma dança, pensei. Não vai ser difícil.
A música terminou e uma nova começou, do David Guetta. Anika me deu um empurrão de leve para me aproximar do Josh.
— Vou pegar um ar. Aproveitem a música!
Eu e Josh nos entreolhamos. Era a primeira vez que eu ficava sozinha com ele. O jeito dele me olhar fez minha pele se arrepiar.
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