Annelise Jackson
2 A Wonderful Friendship
Notas iniciais
Cheguei em casa às 15 horas e 22 minutos. Na escola não houve nada fora da rotina. Tive biologia, química, sustentabilidade, história, psicologia organizacional e trigonometria. Estava completamente sozinha em casa. Mamãe foi fazer compras no super mercado – conforme um bilhete que ela deixou para mim em cima da bancada -, papai foi ao trabalho, Diana foi à aula de natação e o Lucio avisou que ficaria num amigo. Aproveitei a oportunidade de estar só para por a cabeça no lugar. Durante todo o tempo na escola eu não pensei na mudança, mas agora era a hora. Resolvi visitar a C.I.M. que ainda exalava aquele cheirinho de algo novo pelo ar. Lá em cima organizei meus pensamentos. É como a Diana disse, nós não temos escolha. Pensando bem, não será tão ruim. Eu vou sobreviver. Aliás, nunca na minha vida inteira me deixei abalar por qualquer coisa, por que eu não conseguiria superar essa mudança? Mudanças são coisas positivas, fazem parte da vida de todo mundo, querendo ou não, sem exceção. Se não tem escolha, o que resta é aceitar o que o destino está planejando para mim. Eu ficarei bem. Sempre fiquei. Não fiquei? O toque do meu celular soou do meu lado. Anika, pensei.
— Liiise. Tá afim de um donut? — perguntou ela empolgada.
— Pode ser. Que horas?
— Agora! Eu estou aqui no... — ela parou e ficou em silêncio por uns cinco segundos. — Ai meu deus.
— O que aconteceu?
— Dois caras exageradamente gatos acabaram de passar aqui! O loirinho me deu uma olhada. Minha nossa!
— Anika.
— Ah sim. Estamos aqui no Coffee Time.
— “Estamos”?
— Eu, a Erika e a Li.
— Ok. Em menos de meia hora eu tô ai.
— Até logo, baby.
Tomei um banho, depois abri meu guarda-roupas para verificar minhas opções. Optei por um vestido florido e rodado e sapatilhas. Fiz um rabo de cavalo alto e resolvi passar uma maquiagem leve. Base, corretivo para disfarçar um pouco minha aparência de quem não teve um dia bom, blush de leve, rímel e brilho labial cor-de-rosa. Antes de sair escrevi em baixo do bilhete da mamãe que eu dei uma saída com as meninas. Quando passei pelo balcão vi as chaves do meu carro. Parei por um momento. O Coffee Time fica no centro de Nova Iorque. Para chegar lá teria que pegar vários ônibus ou ir de metrô, o que eu não estava nem um pouco afim. Vou ir no meu Neon, pensei. Não tenho carteira, mas eu sei dirigir. Diana me deu aulas e eu não violaria nenhuma regra de trânsito para algum policial ver que não tenho carteira. Peguei as chaves e fui até o Neon.
Estacionei na frente de uma lojinha de itens japoneses que fica há dois quarteirões do Coffee Time. Percorri o restante do caminho a pé. O Coffee Time é um café que eu e a Anika somos apaixonadas. É um local grande para um café. As paredes são cor goiaba e há quadros antigos em todas as paredes. O piso é cor marrom. O estilo é contemporâneo, as mesas são feitas de madeira e os estofados dos assentos são de um vermelho vivo. O ambiente é cheio de vida. O Coffee Time também vende lanches para viajem, festas etc. Sempre que queremos comer algo antes de ir para a casa ou escola, vamos ao Coffee Time. Sou amante do café de lá e dos donuts. Quando passei pela porta já pude avistar Anika, Erika e Liana. Elas estavam sentadas no mesmo lugar onde eu e Ani sempre gostamos de ficar, bem na janela de vidro, que ocupa toda a extensão da parede. Logo que me viu, Anika balançou os braços.
— Ei! — disseram elas num uníssono engraçadinho.
— Oi! — exclamei com um sorriso. Sentei ao lado da Liana, de frente para a Anika.
— Já fiz nossos pedidos. Cappuccino e muitos donuts para nós. — disse Anika.
— Estamos comemorando algo?
— Ai, não seja assim. É só um encontro normal entre melhores amigas. — Anika levou as mãos para cima. — Tá bom, vocês me pegaram. Eu estou morrendo de vontade de me entufar de donuts. Satisfeitas? — Nós rimos.
— Você chegou rápido Anne. Alguém te deu carona? — perguntou Li.
— Hum. Deve ser um novo pretendente. — Anika disse arqueando uma das sobrancelhas para mim.
— Não preciso de carona. Eu sou minha própria motorista. Sou maior de idade agora. — falei orgulhosa.
— Venho com o teu Neon??? — Li arregalou os olhos. — Mas você não tirou a carteira ainda Anne.
— É. Eu vim rezando para não ser parada por um policial.
— Uau. — falou Anika depois de cinco segundos. — Anne, você se tornou uma fora da lei, Isso é... — ela se interrompeu fazendo um suspense. — IN-CRÍ-VEL. Há cada dia que passa está mudando. Está parecendo... Comigo. Uma garota independente que não tem medo de nada. É assim que eu gosto baby.
— Eu não sou uma fora da lei. — arqueei uma sobrancelha e sorri de canto. — E, além disso, foi a primeira e última vez que faço isso. Não irá mais se repetir.
— Sem graça.
— Menos Anika. Agora a Anne é maior de idade e isso é uma coisa boa, mas também ruim se contar que ela pode ser presa. — alertou Erika num tom sério. A nossa atendente chegou trazendo nosso pedido.
— Vão querer mais alguma coisa? — perguntou ela num tom doce.
— Não. — eu e a Anika respondemos ao mesmo tempo. — Obrigada. — respondi.
— Mudando de assunto. — disse Anika mastigando um pedaço de donut. — Conheci um cara. Tipo, ele é gato com g maiúsculo. Ele tem aparência de modelo, sabe? Se ele investisse na carreira ganharia bem, e Anne, ele pediu teu número e eu dei.
— Você o que?
— Ele gostou de você! E, além disso, ele está procurando alguém. Pobre coitado, tá carente. Achei que vocês dois combinariam.
— Anika. — falei num tom sério.
— O que tem demais? Eu só dei teu número... Se quiser, liga para ele e diz que não vai rolar.
— Não vou ligar para ele. Nem sei quem ele é.
— Poxa, você devia me agradecer. — ela fingiu estar magoada. — O cara não é de se jogar fora.
— Então pega para você.
— Não.
— O que? — perguntou Liana sem acreditar. — Anika dispensando um garoto bonito? Quem é você e o que fez com nossa amiga? — Caímos em gargalhadas.
— Digamos que eu esteja dando um tempo. Não quero nenhum relacionamento no momento.
— Ah sim. Acredito. — Erika arqueou uma sobrancelha para Anika.
— Estou falando muito sério.
— Meninas. Mudando de assunto. Eu preciso dar uma notícia para vocês.
— Notícia? — perguntou Li.
— Eu não sei como explicar então vou direto ao ponto. Nós iremos nos mudar para a Califórnia.
— O que? — as três perguntaram em uníssono.
— Papai está com dificuldades financeiras. — soltei um suspiro sofrido. — Ele conseguiu um emprego melhor na Califórnia. Mamãe tem algo garantido para ela lá também. Nós não temos escolha. — mordi o lábio, nervosa. Eu precisava contar a elas e aquele era o melhor momento para isso. Um longo tempo de silêncio desconfortante pairou sobre nós.
— Isso não pode acontecer! — disse Anika finalmente. — Você não pode ir morar longe. É minha, nossa melhor amiga. Como vamos ficar? — Meu estômago embrulhou e o meu coração perdeu o ritmo começando a bater mais forte. Uma corrente de calor passou por mim, da cabeça ao estômago. Minhas mãos tremiam.
— Eu sei. — finalmente falei. — Sei que é uma mudança radical, porque isso nunca aconteceu. — demorei um tempo antes de continuar. —Eu pensei muito e sei que o que me resta é aceitar. Nós vamos ficar bem. Não é o fim de nada, é apenas o começo. Se vocês não puderem ir me visitar, eu prometo que voltarei para Nova Iorque ver vocês. Além disso, podemos nos falar pelo Skype.
— Não é a mesma coisa. — respondeu Anika.
— Não da para acreditar Anne... — Liana se pronunciou. — Sempre vivemos juntas e agora você vai embora assim? De uma hora para outra?
— Eu sei.
— Eu entendo Anne. Vai ser difícil, mas temos que conviver com isso. O tio Arthur ganhou uma oportunidade que vai ser boa para a família da Anne. Temos que ficar felizes por ela. Temos que ser fortes. Não podemos simplesmente não deixa-la ir. Ela precisa ir. Mudanças ocorrem o tempo todo e precisamos aprender a lidar com elas. Nós não vamos ficar um dia sem entrar no Skype Anne. Eu prometo.
— Obrigada Erika.
Ninguém falou mais nada. Um silêncio que me atormentava cada vez mais. Ficamos vários minutos assim, só trocando olhares, sem dizer uma palavra.
— Isso é inaceitável! — Anika se levantou e foi me abraçar. Um abraço forte e aconchegante. Senti que ela estava chorando. Nem um segundo depois, Liana e Erika nos abraçaram. Ficamos ali, naquele abraço, por vários minutos.
Voltei para casa antes do final da tarde. No Coffee Time, eu e as meninas ainda ficamos horas conversando, falando de garotos, da escola, relembrando situações. Rimos muito, até doer a barriga. Fiquei feliz por saber que elas ficarão bem com a minha mudança. Anika prometeu ficar na minha cola, mesmo à distância, e Li prometeu ligar sempre. Quando cheguei em casa não havia ninguém ainda. Larguei minhas coisas e fui preparar um chá. De repente, pensei o que poderia acontecer se a mãe chegasse em casa antes de mim e não visse o Neon. Ela ficaria uma fera se soubesse que sai com ele por aí sem uma carteira de motorista. Nem pensei nisso antes de sair. Agora pude notar o quão atormentada eu estava em relação à mudança que nem lembrei que ela ou o papai não iriam se agradar da minha atitude. A conversa com minhas amigas foi muito boa para mim. Entrei no Coffee Time pensando que a reação delas com a minha notícia ia me desmotivar a ir embora, mas foi o inverso, só me deu mais forças para aceitar isso numa boa. Vou sentir muita a falta delas, assim como elas irão sentir a minha, mas nossa amizade sempre será a mesma. Uma amizade sem limites e sem fim.
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