Annelise Jackson
1 A Bad Notice
Notas iniciais
Hoje eu completava dezesseis anos e um dia de vida. O dia anterior foi o sinônimo de um dia insano. Fui acordada às seis horas e vinte e sete minutos da manhã com minha mãe dando um pulo para dentro do meu quarto dizendo um histérico “FELIZ ANIVERSÁRIO MINHA MENINA!” com o meu pai logo atrás. Na escola as meninas fizeram uma festinha no vestuário feminino. Na classe, meus colegas cantaram em coro o: “Parabéns para você” e fui recebida com muitos abraços deles e dos meus professores. Mais tarde, em casa, mamãe preparou uma confraternização só para parentes e amigos. Liana, minha melhor amiga, me deu um livro de Peter Grey e uma blusa da banda de rock indie, The Dark Angels, minha banda favorita! Alex, meu melhor amigo, me presenteou com um incrível álbum de músicas compostas e cantadas por ele e um guarda-livros feito de madeira que eu paquerava há dias. Anika e Erika, minhas primas e também melhores amigas, me deram um painel de fotos gigante, já com fotografias de mim com elas, de mim sozinha, e de nós com amigos. Diana e Lucio, meus irmãos, se uniram para me presentearem com uma nova casa na árvore. A casa, que eu e meus irmãos carinhosamente a apelidados de “Casa dos Irmãos Mosqueteiros”, que conforme íamos crescendo reduzimos apenas para “C.I.M.”, foi construída pelos antigos moradores da nossa casa, no ano de 1794. Quando compramos a casa, ela não tinha um estilo de casa contemporânea, mas com um leve toque rústico. Ao contrário da casa, a casinha na árvore tinha uma aparência descuidada. Paredes descascadas, tinta desaparecendo, estrutura caindo aos pedaços. Quando chegamos à residência, papai a limpou e a reformou, mas com o passar dos anos, a C.I.M. ganhou um aspecto de casa velha. Diana e Lucio, sozinhos, a reformaram e ela voltou com o seu ar da graça. E, por fim, papai e mamãe resolveram seguir a tradição entre as famílias americanas no décimo sexto aniversário dos filhos e me presentearam com um Neon Godge prata, novinho em folha. No momento, ele está sendo inútil para mim pelo cruel motivo que eu ainda não tirei minha carteira de habilitação. Não porque não quis, mas por falta de tempo livre.
Agora eram sete horas e vinte e cinco minutos da manhã. Como em qualquer outro dia normal de escola, acordei às 07 em ponto. Tomei um banho, coloquei uma roupa casual e desci para tomar café. Na cozinha, mamãe terminava de preparar seus tradicionais waffles, enquanto papai lia um jornal à mesa. Diana e Lucio aguardavam algo que na hora percebi que não poderia ser o café ou a hora de ir à escola. Eu apareci, mamãe enchia os waffles de mel e quando me viu seu rosto fez uma expressão que interpretei como um: “finalmente, ela chegou!”.
— Anne! Que bom que já acordou, só estava faltando você. — disse mamãe.
— Por que minha consciência diz que não é para o café que estão me esperando?
— E não é. Parece que o papo é sério. Odeio reuniões familiares. — respondeu Lucio.
Mamãe de repente adotou um aspecto de tensão e pediu para eu me sentar à mesa.
— Maninho isso não é uma reunião familiar. Não quando é horário de café e quando faltam alguns minutos para o ônibus escolar parar no bairro. — disse Diana.
Peguei uma fatia de melão e me aconcheguei na cadeira. Mamãe também sentou e fez um sinal para o papai antes de dar a notícia.
— Queridos. Seu pai e eu temos uma notícia muito importante para dar a vocês.
— Boa ou ruim? — perguntou Lucio.
— Bem... É uma notícia boa sim. Seu pai e eu decidimos vender a casa.
— O que? — Senti que meu estômago embrulhou e joguei o pedaço de melão longe. Meu sangue ficou frio de repente. Vender a casa? A nossa casa? Só podiam estar de brincadeira. Eu e meus irmãos moramos nela desde quando viemos ao mundo. Ela foi palco dos melhores e mais importantes momentos que nós vivenciamos. Esse bairro foi o palco da nossa infância até hoje. A casa é cheia de lembranças e traços nossos, como o quintal que eu e papai criamos e cuidamos com carinhos há anos e as paredes da sala de livros – que tecnicamente é minha e da Diana – que nós todos pintamos juntos e fizemos desenhos aleatórios, como nuvens, livrinhos, bonequinhos lendo, letras. Sem contar a C.I.M.! Se venderem a casa, outras pessoas a terão e eu não suporto pensar nessa ideia. Espera, se irão vender a casa, com certeza é para nos mudarmos para um lugar bem mais distante. Como vou ficar sem Liana, Alex, Anika e Erika? Não. Mudar de casa e mudar de bairro não.
— O pai de vocês conseguiu uma oportunidade de emprego muito boa na Califórnia. Arthur foi promovido e essa é uma chance que eu tenho de ficar mais perto da mamãe. Ela está ficando velha e precisa dos filhos e dos netos por perto. Já compramos uma casa linda bem pertinho da casa dela...
— Sei que é uma notícia um pouco ruim para vocês, mas ultimamente não tenho conseguido arcar com as despesas sem Alice. Essa nova oportunidade irá ajudar e muito! Além do fato que a mãe de vocês já tem um emprego garantido na Califórnia numa agência de modelos onde a prima dela trabalha. Sei que vai ser difícil para vocês deixar Nova Iorque e tudo o que vocês têm aqui para trás, mas tenho certeza que quando chegarem na C.A. vocês já terão esquecido. A Califórnia é fantástica! — interrompeu papai.
— Arthur tem razão. Vocês irão se adaptar rápido. Com a escola não precisam se preocupar. Já encontramos uma perfeita para vocês lá, praticamente idêntica à Bayside! E vocês poderão manter contato com seus amigos por telefone, internet. Vai ser bom, farão mais e novas amizades! E aí? — perguntou mamãe ansiosa para saber o que achamos da notícia. Diana foi a primeira a se pronunciar.
— Bom. Eu acho que não temos escolha. Mas, penso que será algo muito bom para todos nós. — ela se interrompeu e antes de prosseguir me encarou como se já soubesse que eu iria protestar para não deixarmos a casa. — Podemos construir juntos, uma nova C.I.M. Até podemos usar as mesmas tintas e texturas. Só fico mal por causa do Jason... Como irei ficar sem ver ele?
Jason é namorado da Diana. Eles namoram há 3 anos então não é de se admirar que ela fique apreensiva só de pensar em ficar longe dele.
— Sinto muito meu amor. — falou mamãe com um olhar doce. — Entendo como vai ser difícil, mas amor verdadeiro supera qualquer barreira. Escute. Se Jason pensar em te deixar por esse motivo, ele não te merece.
— Eu sei. Eu vou ficar bem. Os pais do Jason o deixam viajar o quanto quiser. Ele é dono de si, poderá ir me visitar todos os meses. — Diana falou a verdade. Ela consegue ser madura e forte o suficiente para não se deixar abalar por mudanças como essas. Ela vai ficar bem. Como eu queria ficar também.
— Tudo bem querida. — papai disse com o mesmo olhar terno da mamãe. — Vou pedir para os pais do Jason, permitirem que eu os ajude no pagamento das passagens dele. Você o verá em breve. Lucio?
— É uma mudança e tanto, mas eu encaro. Já vi coisas sobre a Califórnia e uau, uma cidade e tanto. Praia, calor, garotas, a Califórnia foi feita para mim. Na nova escola tem futebol americano? Porque se tiver eu vou numa boa!
— Tem sim Lucio. Mas olhe lá: “manera” na bagunça. — mamãe soltou um suspiro de alívio, porém sofrido. Ela se virou para mim. — E você Anne? Ficou quieta durante toda a discussão. No que está pensando?
Estava pensando como eu não deveria ser tão apegada com tudo. Se Diana e Lucio podem encarar a mudança, por que eu não posso? O que tem de errado comigo? Devo aceitar de uma vez por todas que eu não sei me adaptar às mudanças. Não quero sair da casa, não quero abandonar Nova Iorque e não quero deixar os meus amigos. Não será a mesma coisa sem eles. Como vou ficar na Califórnia sem meus melhores amigos? Exceto minha família por parte de mãe, eu não conheço ninguém na C.A. Só de pensar em deixar para trás tudo e todos que eu tenho aqui me dá um calafrio de medo e insegurança.
Já estava sentindo as lágrimas inundarem meus olhos. Com certeza iriam notar minha aflição no tom da minha voz, então dei um jeito de sair daquela conversa.
— Eu só preciso pensar um pouco. — Levantei e subi as escadas correndo para o meu quarto. Tranquei a porta e desabei na cama. As lágrimas que já estavam ofuscando minha visão caíram. Não resisti e as deixei sair. Agora eu estava sozinha e poderia expressar o quanto eu fiquei triste
com aquela notícia. Eu nunca imaginei sair de Nova Iorque. Amo minha cidade, amo meu bairro e meus amigos. Não suporto pensar na ideia de ficar sem eles. Liana é minha melhor amiga desde meus cinco anos de idade. Sempre estivemos juntas. Éramos e somos inseparáveis. Como ficarei sem a ver?
Liana mora apenas com a mãe, Janet. Janet teve dificuldades financeiras quando estava grávida da Li. A morte do pai dela afetou muito a vida das duas. Agora Janet possui uma perfumaria bem famosa na Times Square Garden. Dinheiro não é um problema para elas, mas não o suficiente para Liana ir me ver todos os meses. Alex, assim como Liana, é meu amigo desde os meus cinco anos. Ele é meu melhor amigo, é como um irmão, eu não gosto de pensar na hipótese de ficar sem ele. Alex mora com a avó. Os pais dele são empresários e viajam pelo mundo há todo o momento. Por isso que ele fica com a avó. Alex até teria condições de ir me ver, os pais dele o ajudariam e muito, mas ano que vem Alex irá para a universidade. Ainda faltam dois anos para eu ingressar numa, mas já tenho ideia do que um universitário passa. Eles quase não têm tempo livre, consequentemente, Alex não poderá me visitar em menos de três meses ou até mais. A mesma situação é com Anika e Erika. Seria muito difícil para elas irem me ver. O tio Mike e a tia Vanessa não teriam condições.
Meus pensamentos foram interrompidos quando ouvi alguém bater na porta. A voz preocupada da mamãe passou por ela.
— Anne? Você está bem?
— Estou. — respondi apressada secando as lágrimas com a manga da minha blusa.
— São 7 horas e 47 minutos. Diana e Lucio já estão indo pegar o ônibus.
— Tudo bem! Eu já vou! — Corri para o meu banheiro. Abri a torneira e lavei meu rosto com água gelada. Fiquei encarando minha imagem no espelho e disse a mim mesma que tudo isso passaria logo. Depois que a aparência de choro sumiu eu desci. Meus irmãos já tinham ido. Olhei no relógio da cozinha: 7 horas e 54 minutos. Sai correndo para a porta quando mamãe me parou.
— Anne!
— Mãe, eu vou perder o ônibus.
— E o meu beijo?
— Mãe!
— A antiga Anne nunca saia sem antes dar um beijo na mãe. — falou ela fingindo estar magoada. Eu ri.
— Desculpa. — Dei um beijo nela e ela me abraçou.
— À tarde conversamos sobre a mudança. — ela cochichou no meu ouvido antes de me soltar.
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