Anne de Green Gables - Um Visitante Inesperado
3 Um Chá Para Esquentar

O coração de Anne encheu-se de alegria ao perceber que Gilbert havia despertado. Contudo, seu corpo pareceu esquecer de como reagir. Entrou na casa ainda olhando para ele e retirou o casaco, do qual pequenos flocos de neve derretiam lentamente com o calor da cozinha.
— Oi, Gilbert. Vejo que acordou. — disse, mantendo-se de costas para ele. Não conseguiu impedir que um discreto sorriso lhe escapasse ao pronunciar a última palavra. — Fico muito feliz por isso. Pensei que fosse morrer! Como pôde entrar aqui daquele jeito? Quase fez meu coração parar ao ver você!
Assim que terminou a frase, Anne percebeu o que havia dito. Sentiu seu rosto queimar e desejou poder esconder-se atrás da chaleira que ainda fumegava sobre o fogão.
Gilbert sorriu de leve e deixou escapar um pequeno suspiro.
— É... geralmente esse é o tipo de impressão que costumo causar quando chego em algum lugar.
Ao dizer aquilo, divertia-se em silêncio ao perceber o rosto corado de Anne.
— Mas, brincadeiras à parte, Anne, muito obrigado por ter cuidado de mim. Se não fosse você, receio que eu não estivesse conversando aqui agora. Eu estava deixando Carmody quando a neve começou a cair com mais força, mas imaginei que logo passaria. Não pensei que a tempestade pioraria tão depressa.
Ele acomodou melhor o cobertor sobre as pernas antes de continuar.
— Encontrei o Sr. e a Sra. Cuthbert no caminho. Eles disseram que, se a neve apertasse, eu poderia me abrigar aqui até que o tempo melhorasse, já que Green Gables fica mais perto do que minha casa. Disseram também que você estaria tomando conta de tudo. Vejo que tinham razão. Você fez um excelente trabalho.
Anne, que já estava corada, sentiu o rosto aquecer ainda mais diante do elogio. Voltou-se rapidamente para a pia de lavagem, despejou o chá que havia esfriado nas xícaras e preparou outro, bem quente. Colocou cada xícara sobre um pires e levou uma delas até Gilbert, que permanecia sentado diante da lareira, envolto por cobertores.
— Não tem de agradecer. Tenho certeza de que faria o mesmo por qualquer pessoa que precisasse de ajuda.
Gilbert recebeu a xícara com um sorriso.
Enquanto ele bebia o chá, os olhos de Anne encontraram os dele mais uma vez. Havia algo naquele olhar tranquilo que sempre a deixava inquieta. Era uma sensação estranhamente familiar, embora ela não soubesse explicá-la. Apenas muitos anos depois compreenderia o verdadeiro significado de todo aquele sentimento que ainda não compreendia.
— Pretende voltar para casa hoje? — perguntou ela, desviando os olhos antes que ele percebesse seu desconcerto. — Ainda está nevando bastante lá fora. Matthew e Marilla chegaram bem a Carmody?
Gilbert tomou mais um gole antes de responder.
— Chegaram, sim. Nós nos encontramos pouco antes de a tempestade piorar. Acho que, assim que melhorar, eles devem retornar para Green Gables.
Gilbert terminou seu chá, e Anne já estava prontamente à espera para retirar a xícara.
— Estava excelente. Muito obrigado.
Ela pegou a xícara e a colocou sobre a mesa. Quando tornou a olhar para Gilbert, percebeu que ele tentava levantar-se, apoiando uma das mãos sobre a borda da lareira.
— Espere, Gilbert!
Anne atravessou a cozinha apressadamente e segurou seu braço antes que ele perdesse o equilíbrio. Os cobertores escorregaram de seu colo e caíram sobre o assoalho.
Por um breve instante, ficaram próximos demais.
Gilbert percebeu o delicado perfume de Anne, misturado ao cheiro de chá e lenha queimando que preenchia toda a cozinha. Sorriu discretamente consigo mesmo, sem dizer uma única palavra.
— Acho que já consigo ficar de pé — disse ele, recuperando o equilíbrio.
Anne soltou seu braço imediatamente e deu um pequeno passo para trás.
— Ainda assim, não faça esforço desnecessário.
Ela caminhou até a despensa e voltou trazendo um prato com pão fresco, fatias de bolo e os biscoitos que Marilla havia preparado naquela manhã. Organizou tudo sobre a mesa de maneira um tanto apressada, bem diferente da perfeição que Marilla costumava exigir.
— Venha. Deve estar com fome.
Gilbert aproximou-se devagar.
— Marilla fez os biscoitos hoje. Estão bem fresquinhos.
Gilbert fez um esforço extra com as pernas para conseguir se mover sem dor. Caminhou até a mesa da cozinha e sentou-se em uma cadeira próxima à ponta.
Anne ficou parada, observando tudo. Pela janela, a neve caía rapidamente, e o som do vento entrando pelas frestas das janelas e das portas quebrava o silêncio entre os dois.
Anne continuava em pé.
— Você não vai se sentar? — perguntou Gilbert, olhando para ela.
Anne arregalou os olhos e se sentou rapidamente na cadeira da ponta.
Gilbert pegou um dos biscoitos e comeu devagar, lançando algumas olhadas discretas para Anne. Depois, pegou outro.
— Você não vai comer? — perguntou novamente.
— Ah, não. Eu já comi — respondeu ela, ao notar que as pernas de Gilbert ainda tremiam. — Meu Deus, você continua tremendo.
— É... acho que o frio resolveu ficar comigo por mais um tempo.
Anne prontamente se levantou, foi até a lareira e colocou mais lenha, ajustando-a com o atiçador.
— Pronto — disse ela. — Isso deve ajudar um pouco.
Em seguida, foi até um cômodo ao lado e voltou com outro par de meias de Matthew. Agachou-se diante de Gilbert e o encarou por um instante.
— Me dê seu pé.
Ele estendeu o pé imediatamente.
Anne colocou as meias com cuidado e, ao terminar, recolheu os cobertores que haviam caído ao chão, envolvendo Gilbert mais uma vez na cadeira, como se quisesse garantir que nenhum fio de frio pudesse alcançá-lo.
— Não quero que, além de uma hipotermia, você fique gripado também — disse Anne, voltando com outra xícara de chá. — Preciso que você volte para a escola para ter alguém com quem disputar. Não teria graça se você ficasse doente, não é mesmo?
Ele deu um leve sorriso e continuou comendo os biscoitos, dando de vez em quando uma golada no chá.
Anne observava-o comer os biscoitos com uma atenção quase excessiva. Ele não demonstrava muita reação ao mastigar, mas, ao vê-lo levar mais um biscoito à boca, não conseguiu se conter.
— Está bom? — perguntou imediatamente, inclinando-se um pouco na direção dele, com os olhos cheios de expectativa.
Gilbert mastigou devagar de propósito, como se estivesse avaliando algo muito mais importante do que realmente era. Engoliu com calma antes de responder, com naturalidade:
— Está ótimo.
Anne franziu levemente a testa, como se não estivesse completamente satisfeita com aquela resposta simples.
— Mesmo? — insistiu, cruzando os braços com um ar desconfiado.
— Sim, mesmo.
Ela o encarou por mais alguns segundos, como se procurasse qualquer sinal de hesitação em seu rosto.
— Tem certeza?
Gilbert soltou uma pequena risada, baixa e contida, como se aquela preocupação fosse ao mesmo tempo divertida e encantadora.
— Tenho certeza… está com medo de que eu esteja mentindo? — perguntou ele, ainda com um leve sorriso nos lábios.
Anne endireitou a postura imediatamente, como se tivesse sido pega em flagrante.
— Não — respondeu, séria demais para a situação. — Tenho medo de Marilla descobrir que servi um biscoito ruim.
Ele não se conteve e soltou uma risada, e Anne não conseguiu evitar rir junto. Os olhares se cruzaram novamente, e por um instante o ar entre os dois pareceu ficar mais leve… e mais estranho ao mesmo tempo.
Anne desviou o olhar primeiro, voltando-se para a janela. Seu semblante mudou aos poucos.
— Acho que a tempestade piorou… — murmurou ela.
Gilbert acompanhou o olhar em silêncio.
— Sim… parece que sim — disse ele, em um tom calmo. — Parece que você vai ter que me aguentar por mais um tempinho, Anne. — Sorriu, como se estivesse se divertindo com a situação.
Anne permaneceu olhando pela janela por alguns instantes, como se não tivesse realmente pensado sobre aquilo.
— Não é como se isso fosse um problema… — respondeu de forma impulsiva, quase sem perceber as palavras que saiam de sua boca. — Te aguentar, quero dizer… sua companhia não está sendo totalmente desagradável. Na verdade… é até melhor do que ficar aqui sozinha nessa tempestade.
Assim que terminou a frase, o silêncio caiu de forma imediata.
Anne arregalou levemente os olhos, como se só naquele momento tivesse entendido o peso do que havia dito. O rosto ficou quente em questão de segundos.
Ela desviou o olhar depressa, encarando a lareira como se aquilo pudesse salvá-la de si mesma. As sardas pareciam se destacar ainda mais em seu rosto quanto mais corado ele ficava.
Gilbert não respondeu de imediato.
Apenas a observou em silêncio, com um pequeno sorriso que ela não viu.
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