Notas iniciais
Pessoal, estou muito inspirada com essa história! 🥹 Acredito que esse seja o penúltimo capítulo dessa fic curtinha, pois a ideia é como se fosse um capítulo extra dentro do próprio livro de Anne de Green Gables. Kkk Estou me divertindo muito escrevendo esses momentos entre Anne e Gilbert e espero que vocês estejam gostando tanto quanto eu estou gostando de criar essa pequena história. Não esqueçam de comentar o que acharam! Quero muito saber a opinião de vocês. ❤️ Beijos, Harvelle

A neve continuava a cobrir Avonlea com seu manto branco, como se o mundo inteiro decidisse permanecer em silêncio por algumas horas. Do lado de fora, o vento soprava entre os galhos secos da Rainha das Neves e de tantas outras árvores que Anne havia nomeado. Dentro da casa de Green Gables, o vento que batia contra as janelas continuava a fazer barulho, quebrando o silêncio que permanecia na cozinha.

Ali, a lareira permanecia acesa, espalhando calor pelo ambiente, enquanto o cheiro de chá e madeira queimada preenchia todo o espaço. Os dois estavam sentados próximos, mas nenhum deles parecia saber exatamente o que dizer. O silêncio permaneceu por alguns instantes.

Anne achava curioso não sentir a mesma raiva que normalmente surgia quando pensava nele. Em outros momentos, bastava ouvir o nome de Gilbert Blythe para que uma lembrança desagradável retornasse à sua mente. Mas ali, naquela cozinha de Green Gables, diante da lareira e do calor daquela tarde de inverno, ele parecia ser apenas Gilbert.

Não o garoto que a havia irritado tantas vezes.

Apenas Gilbert.

Enquanto isso, Gilbert também permanecia perdido em seus próprios pensamentos. Ele não entendia o motivo de seu coração acelerar sempre que a via. Não entendia por que gostava tanto de ouvi-la falar sem parar, como se cada palavra que saísse de sua boca tornasse o mundo um pouco mais interessante.

Enquanto tentava compreender aquilo que sentia, acabou corando sem perceber. Levou uma das mãos aos cabelos castanhos e os bagunçou levemente, como se aquele gesto pudesse ajudá-lo a encontrar uma resposta.

Ele sempre fora confiante. Sabia o que dizer, sabia como responder e nunca costumava ficar sem palavras.

Mas, naquele momento, diante de Anne Shirley, parecia não saber exatamente como continuar a conversa.

Foi depois de alguns instantes de coragem que ele finalmente disse:

— Anne? — chamou ele em um tom baixo.

Mas Anne não ouviu, ela permanecia perdida em seus próprios pensamentos. Pensava em como seria bom poder ser amiga de Gilbert. Talvez Deus esperasse que ela aprendesse a perdoar com firmeza e bondade em seu coração. Ela não gostaria que Marilla ou o pastor soubessem que ainda tinha tanta dificuldade em perdoar alguém.

Anne sabia que o perdão era uma coisa bonita, só não tinha certeza se conseguiria oferecê-lo.

— Anne, o que acha de recitarmos alguns poemas ou jogarmos alguma charada para o tempo passar mais depressa? — perguntou Gilbert.

Ela continuou em silêncio, ainda distante em seus próprios pensamentos.

— Anne? — perguntou ele novamente, sem obter uma resposta.

Dessa vez, Gilbert chegou um pouco mais perto e tocou delicadamente a mão dela sobre a mesa, apenas o suficiente para trazê-la de volta à realidade.

Anne ergueu os olhos rapidamente, surpresa.

— Oh! Gilbert... desculpe, eu não estava ouvindo.

Ele sorriu de leve.

— Eu percebi.

Anne ajeitou a postura, ainda um pouco envergonhada por ter se perdido tanto em seus pensamentos.

— O que você perguntou?

— Eu estava pensando que poderíamos recitar poemas ou jogar alguma charada enquanto esperamos a tempestade passar, parece estar melhorando. Assim o tempo talvez pareça menos demorado.

— Acho uma excelente ideia — disse Anne, ajeitando-se melhor na cadeira, como se aquela mudança de posição pudesse ajudá-la a pensar melhor. — Embora eu deva avisá-lo, Gilbert, que sou muito boa em charadas. Talvez você se arrependa de ter me desafiado.

Gilbert sorriu diante da confiança dela.

— Eu não me lembro de ter dito que isso era um desafio.

Anne ergueu levemente as sobrancelhas e o olhou com aquela expressão que ele já conhecia tão bem.


— Não precisa dizer, Gilbert Blythe. Algumas coisas são claramente compreendidas sem palavras.

Ele soltou uma pequena risada.

— Muito bem, então começarei. Mas será uma charada simples.

Gilbert pensou por um instante antes de perguntar.

— O que é algo que pode encher uma sala inteira, mas não ocupa espaço algum?

Anne levou uma das mãos ao queixo e franziu levemente os lábios, completamente concentrada. Por alguns segundos, permaneceu em silêncio, como se aquela fosse uma das questões mais importantes que já havia enfrentado.

— Uma sala cheia de luz?

Um sorriso apareceu no rosto de Gilbert.

— Exatamente.

Anne pareceu satisfeita consigo mesma, embora tentasse não demonstrar.

— Admito que foi uma boa charada. — disse Anne.

— Apenas boa? — perguntou Gilbert.

— Sim. Não gostaria que seu orgulho aumentasse demais — Respondeu ela, com um pequeno ar de superioridade.

Gilbert balançou a cabeça, divertido.

— Muito bem, agora é sua vez. — Enquanto olhava ver ela pensar, cruzou seus braços.

Anne ficou alguns instantes em silêncio. Precisava encontrar algo à altura da pergunta dele. Não poderia simplesmente escolher qualquer charada, afinal, Gilbert Blythe parecia muito satisfeito por ter começado aquela pequena disputa.

Então, finalmente, sorriu e começou a falar.

— Muito bem. O que é algo que todos possuem, mas ninguém consegue guardar para sempre? — disse ela.

Dessa vez foi Gilbert quem ficou pensativo. Inclinou levemente a cabeça para o lado e franziu os lábios, como se a resposta estivesse escondida em algum lugar distante de sua mente.

Anne observou aquela expressão por um instante, quase surpresa ao perceber que ele também podia parecer tão concentrado quanto ela.


— Uma lembrança? — respondeu ele, com certa animação.

Anne arregalou levemente os olhos.

A resposta era bonita. Na verdade, era uma resposta que ela mesma teria considerado muito adequada.

— Essa foi uma resposta muito bonita, Gilbert. Mas não é a que eu pensei.

Ele pareceu genuinamente surpreso.

— Então qual é?

— O tempo. —Ela sorriu ao dizer a resposta.

Por alguns segundos, Gilbert permaneceu em silêncio.

— Essa foi melhor que a minha — admitiu.

Anne ergueu as sobrancelhas, como se aquela fosse uma afirmação inesperada.

— Você está admitindo que eu venci? – ela perguntou.

— Estou admitindo que você venceu uma rodada. – ele respondeu.

— Uma vitória é uma vitória, Gilbert. — ela se levantou da cadeira para servir mais chá para os dois.

Ele sorriu.

— Eu deveria ter imaginado que você encontraria uma maneira de transformar uma simples charada em uma reflexão sobre a vida. — disse ele sem nenhuma maldade. Anne enquanto servia o chá, pareceu pensar sobre aquilo.

— Talvez porque a vida seja cheia de coisas que merecem ser pensadas. – disse ela com honestidade.

Gilbert a observou por um instante antes de responder.

— Acho que esse é exatamente o motivo pelo qual você nunca fica sem algo para dizer.

Ela poderia ter se ofendido com o que Gilbert dissera. Em outros tempos, talvez tivesse ficado magoada. Mas, curiosamente, daquela vez não sentiu vontade de se irritar. Apenas ouviu suas palavras e pensou sobre elas.

Anne apoiou a xícara sobre a mesa e lançou um olhar para a janela coberta de neve.

— Acho que já tivemos charadas suficientes por enquanto — disse ela. — Posso recitar um poema? Tenho quase certeza de que isso tornará esta tempestade menos sombria.

Gilbert sorriu.

— Mas é claro. Eu nunca recusaria um poema recitado por você — disse, empolgado.

Anne levantou-se imediatamente, como se aquela fosse uma ocasião importante. Aproximou-se da lareira, onde a luz do fogo iluminava seus cabelos ruivos, e ergueu levemente o queixo antes de começar.

— Oh, inverno! — começou ela, gesticulando. Gilbert sorriu imediatamente. — Todas as folhas se foram. Todas as flores se foram. O ar esfriou, e os flocos de neve caíram...

Continuou gesticulando como se estivesse diante de um grande público e entregava-se por inteiro à recitação.

— Caíram sobre a pele e derreteram! Oh, inverno! Sinto o frio do silêncio. Meu cobertor é a esperança. Aguardo o frio passar, recolho minha alma para esperar a primavera, enfim, chegar.

Terminou a última frase fazendo uma pequena reverência, como se aguardasse que sua plateia a ovacionasse.

Gilbert permaneceu em silêncio por alguns instantes. Não porque procurasse palavras para elogiar o poema, mas porque, enquanto Anne o recitava, simplesmente se esquecera da tempestade lá fora. Foi naquele instante que compreendeu o motivo de seu coração parecer tão inquieto sempre que ela estava por perto.

Ele se levantou da cadeira e começou a aplaudir, com grande admiração.

— Belíssimo, Anne! — continuou aplaudindo. — Formidável! Nunca ouvi ninguém recitar um poema dessa maneira. — disse com muito entusiasmo. — Posso tentar agora?

— Claro! Obrigada por ter gostado. Acabei de inventar esse poema! — disse ela, empolgada. — Senti-me muito inspirada de repente. Foi muito divertido poder recitá-lo para alguém. — Anne afastou-se da lareira e voltou a sentar-se na cadeira. — Sua vez.

Gilbert caminhou em direção a lareira. Já parecia muito mais disposto do que quando chegara a Green Gables. O calor da lareira, o chá e as longas horas de descanso haviam devolvido a cor ao seu rosto e as forças ao seu corpo.

Gilbert pigarreou discretamente e sorriu antes de começar.

— Vou inventar um agora também. — disse com calma, colocando-se diante da lareira.— Espero que fique tão bom quanto o seu.

Anne arregalou os olhos.

— Você também sabe inventar poemas? — perguntou, curiosa.

Gilbert sorriu de lado e passou a mão pela nuca.

— Estou prestes a descobrir.

Ele tomou fôlego e pensou em tudo o que acontecera durante o dia: em como Anne cuidara dele, no tempo que haviam passado juntos e em como não gostaria que aquele dia acabasse.

— Há uma cor... — começou ele — que o inverno não consegue esconder, nem apagar. A neve não consegue fazê-la desaparecer. — Respirou fundo e continuou. — Ela permanece aquecendo os dias frios. — Começou a gesticular calmamente com as mãos. — Pode viver nas folhas do outono, nas brasas de uma lareira, na chama que aquece uma casa inteira. É uma cor que lembra a vida. Uma cor que, por algum motivo, sempre aquece meu coração. — Terminou olhando para Anne, com as mãos repousadas sobre o peito

Anne permaneceu alguns instantes em silêncio.

— Eu nunca imaginei que alguém pudesse fazer um poema inteiro sobre uma cor. — disse, pensativa.

Gilbert sorriu discretamente.

— Algumas cores merecem. — respondeu, sabendo muito bem de qual cor estava falando.

Anne respondeu imediatamente.

— Então espero que um dia você escreva um sobre o azul. Sempre achei que o azul do céu de Avonlea merecia um poema.

Gilbert não conseguiu conter um pequeno sorriso. Voltou a sentar-se na cadeira e pegou sua xícara de chá, bebendo um pequeno gole enquanto observava o fogo crepitar na lareira.

"Não, Anne... não é o azul." — pensou, enquanto seus olhos repousavam por um breve instante sobre os cabelos ruivos da garota. Seu coração pareceu acelerar outra vez. Respirou fundo, reuniu toda a coragem que conseguiu encontrar dentro de si.

— Anne... eu queria lhe dizer uma coisa. – começou em voz baixa.

Ela se virou para ele, curiosa.

— Pode falar. Estou ouvindo. — respondeu, voltando toda a sua atenção para ele.

Gilbert baixou os olhos para a xícara que segurava entre as mãos, como se procurasse ali um pouco da coragem que ainda lhe faltava.

— É algo que venho tentando entender há algum tempo... e acho que ainda não consigo explicar muito bem. É estranho, porque eu nunca senti necessidade de entender algo assim antes.

Anne permaneceu em silêncio, prestando atenção a cada palavra.

— Quando estou perto de você, eu sinto que... — Gilbert hesitou por um instante. Um pequeno sorriso sem jeito apareceu em seu rosto, como se ele próprio estivesse tentando compreender aquilo que sentia.

Anne continuou olhando para ele. Pela primeira vez, não tinha uma resposta pronta, nenhuma frase para interromper ou alguma observação para fazer. Apenas queria ouvir o que ele tinha a dizer.

Gilbert percebeu o silêncio dela e sentiu o coração acelerar novamente. Não sabia se deveria continuar, mas havia algo dentro dele dizendo que precisava tentar.

— É estranho, porque eu nunca pensei que alguém pudesse me fazer sentir dessa forma...

Ele desviou o olhar por um breve instante, reunindo coragem.

— Anne, eu... — hesitou, como se as palavras estivessem presas em sua garganta. — Anne, eu acho que eu gost...

Antes que pudesse terminar a frase, um barulho vindo da porta da frente fez Gilbert se assustar. A maçaneta girou e a porta se abriu, trazendo consigo uma corrente de ar frio e alguns flocos de neve.

— Anne, chegamos! — disse Marilla ao entrar na casa.


Notas finais
Agora eu quero saber de vocês... 👀 Se Marilla não tivesse chegado naquele exato momento, vocês acham que Gilbert teria finalmente revelado seus sentimentos para Anne? Ou será que ele ficaria nervoso e mudaria de assunto? Me contem nos comentários!!! :OOOO
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.