Annabele Vermont

6 Aqueles olhos Verdes.


Aquela pergunta me pega de surpresa, ele continua:

–Eu sei que nos conhecemos muito pouco, mas você precisa conversar sobre isso com alguém, e eu estou aqui pra isso.

–Jake...

–Eu entendo se não quiser, mas desabafar ajuda e eu percebi que isso esta de deixando bem triste ultimamente.

Fico em silencio por um tempo.

–Meu pai é uma pessoa complicada..

– O que foi um acidente Anna? Sobre o que estava falando com Quil mais cedo?

Minha respiração acelera, meus olhos piscam mais rápido do que o normal. Eu não falo sobre isso com muita gente. Na verdade só o Quil sabe. É doloroso de mais.

–Vem cá, senta aqui do meu lado! – Jake se afasta para o canto do sofá onde estava.

Eu hesito um pouco, mas me levanto e sento ao seu lado. Seu olhar é fixo em meus olhos, inspira confiança.

–Eu... Eu tinha um irmão mais velho, seu nome era Rick. Nos éramos bem próximos.

Ele balança a cabeça me encorajando a continuar, olho para baixo, para minhas mãos cruzadas sobre meu colo.

–Ele era muito inteligente, sempre comandou os negócios com meu pai. Se formou com honras em economia em Harvard. Ele era lindo, educado e amoroso. Eu sinto tanto a sua falta... meus pais o idolatravam, ele era o grande prodigo da Vermont Company. Quando ele começou a comandar os negócios a empresa cresceu 360% e se tornou uma multinacional. Devemos tudo a ele.

Eu falava rápido demais, como se estivesse calada por muito tempo. Jacob me olhava atentamente, e eu só conseguia falar, não dava mais pra segurar...

–Quando eu tinha 16 anos, tinha acabado de tirar minha habilitação. Rick e eu fomos dar uma volta no carro dele, ele queria que eu aprendesse a andar na autoestrada e me encorajou a aprender com ele. Passamos a tarde inteira dirigindo, paramos em um lago onde molhamos os pés e conversamos sobre o futuro, ele me abraçou antes de entrar no carro novamente, disse que eu não precisaria me preocupar que tudo estava encaminhado. Que ele sempre estaria ao meu lado e que ele sabia que o papai era muito exigente comigo, mas que ele me ajudaria a superar tudo e a tomar minhas decisões. Seus olhos verdes, como os do nosso pai, eram tão puros quanto o que ele falava, e eu acreditei. – Eu mal percebi, mas meus olhos transbordavam de lágrimas – Ele me entregou a chave e disse para eu voltar dirigindo também, eu disse que já havia treinado bastante e que estava cansada, mas ele insistiu. O sol já havia se posto na volta, estava escuro... eu não estava muito rápido. Mas ele me disse para acelerar e em uma curva havia um lobo... um lobo preto e não muito grande, eu tentei desviar... Foi tudo muito rápido, o carro derrapou e saímos da estrada, o terreno era íngreme e então capotamos... o Lobo estava vivo, mas Rick... – Enquanto falava as lágrimas escorriam pelo meu rosto, minha voz falhava – Eu tentei, Jake... Mas eu não pude evitar... foi um acidente ... e aquele maldito lobo estava vivo. – Ele me puxou para um abraço e me segurou firme em seu braços, suas mãos acariciavam minhas costas que tremiam de soluços.

–Meu pai nunca entendeu, ele nunca aceitou. Quando eu acordei no hospital, depois que eu contei o que havia acontecido, ele gritava comigo e repetia freneticamente: “POR QUE O LOBO?”. Eu nunca soube responder... até hoje essa pergunta ecoa em minha mente. Por que o lobo? Por que o lobo? Por que.... Por que não eu?

–Calma Anna. Esta tudo bem.. Não foi sua culpa, foi um acidente...

–Ele nunca entendeu Jake, eu morri junto com o Rick naquele acidente. Era o que ele preferia. Minha mãe nunca falou nada contra meu pai, ela aceita tudo o que ele faz... Eu tive que enfrentar a Vermont sozinha, todos os dias ele me falava o quanto meu irmão era bom nos negócios e o quanto ele fazia falta, mas que ele não estava mais lá. Eu comecei a viajar a trabalho sempre que era necessário, até que um dia não voltei mais pra casa. Eu estava sozinha, era tudo por minha conta. Aprender a lidar com a administração, estudar, me vivar, me proteger.. desde os 17 anos... Eu perdi toda minha família naquele maldito 18 de setembro, naquela noite escura, naquela estrada cheia de curvas, nos olhos daquele lobo, tudo acabou.

Jacob ficou sem saber o que fazer. Eu despejei tudo em cima dele, um segredo que eu não contara a quase ninguém. Minhas lágrimas até molharam a manga de sua camiseta verde escura. Fiquei em seus braços até não ter mais o que chorar. Virei o rosto para o lado do seu pescoço, seu perfume amadeirado trouxe calma. Minha respiração se calmou. Sai de seu abraço, suas mãos acariciaram meu rosto secando minhas lágrimas. Seus olhos estavam inquietos.

–Eu sinto muito. – ele sussurrou.

Respirei fundo.

–Obrigada por ouvir Jake. Desculpa-me despejar tudo assim em cima de você, mas você tinha razão, eu precisava falar com alguém.

–Não precisa se desculpar Anna. Esta tudo bem. – Suas mãos desceram pelos meus braços e pararam em minhas mãos. – você não precisa deixar tudo dentro de si.

Eu sorri em agradecimento, ele serrou os dentes por um minuto.

– Não vou te deixar sozinha essa noite – ele disse levantando.- vá pegar uma muda de roupas e vamos lá pra casa. Meu pai está sozinho mesmo, ele vai adorar nossa companhia.

–Jacob não precisa..

– É claro que precisa, você precisa pensar em outras coisas. Vamos lá. Eu durmo na sala e você dorme no meu quarto. A gente pode fazer uma caminhada na praia ou assistir um filme qualquer. Eu não vou te deixar sozinha Anna, não mais.

Sorri e balancei a cabeça. Não tem como resistir a um convite desses. Subi, arrumei minhas roupas e pegamos a estrada. Ao chegar na casa dele eram 9 hrs da noite. Billy nos recebeu muito bem, fez uma pipoca e nos sentamos na sala para assistir a um filme de comedia, depois de uns 40 minutos ele foi se deitar. Ficamos Jacob e eu até o filme acabar, depois do filme ele me convidou para passear na praia. Eu disse que estava muito tarde e que faríamos isso na manha do dia seguinte. Jake concordou.

Fui tomar banho no banheiro do quarto dele em seguida, estava frio e ventava bastante. Ao sair do banho Jake já havia tomado banho em outro banheiro, ele estava apenas com uma bermuda em seu quarto, sem camisa, estava estendendo um cobertor na cama quando abri a porta. Ele continuou sua tarefa calmamente, meus olhos percorreram seu corpo quase que de forma pejorativa, seus músculos definidos, sua pele morena com gotículas de água que restaram do banho, seu cheiro inundava o cômodo. Ao terminar ele olhou pra mim, ainda parada no batente da porta, e sorriu maliciosamente, desviei meus olhos, caminhei até a bolsa onde coloquei as roupas usadas.

–Coloquei um cobertor pra você. Sei que você sente bastante frio.

–Obrigada Jake, você não precisava se incomodar, eu poderia dormir em casa sem problemas...

–Eu sei Anna, mas não é incômodo nenhum ter você aqui.

–É claro que é! Agora você vai ter que dormir no sofá enquanto eu durmo em sua cama.

–O sofá é confortável.

–Então me deixa dormir lá.

Ele sorriu. E me olhou por cima dos olhos e mordeu levemente os lábios inferiores. Prendi a respiração por alguns segundos involuntariamente. Ele deu a volta na cama e me puxou para um abraço. Se a intenção dele era me fazer esquecer dos meus problemas, com toda a certeza ele conseguiu. Naquele momento eu só tinha consciência de uma coisa: dentro daquele abraço era o melhor lugar do mundo naquele momento.