Notas iniciais
Maaaais um capítulo!!!!!! Queria agradecer para quem comentou no último cap!!! Booooa Leitura!!!!

Eu sentia o tédio tomando conta de mim na aula de “História”. Não era bem história, quer dizer, eles queriam fazer quinze anos atrás parecer um passado remoto. Estupidez. Era quase impossível não dormir ouvindo a minha professora seca e ossuda discursar sobre as “antigas” facções.

A sala iluminada com um pouco mais que trinta alunos tinha cheiro de algum produto de limpeza muito forte. Todos estavam coçando os olhos naquele dia quente.

– Agora, vamos fazer um trabalho... Vocês vão fazer um trabalho– Rosângela começou com sua voz enguiçada, gesticulando veementemente. – Sobre as antigas facções! – ela enfatizou o ‘antigas’. Revirei os olhos – Cada um irá sortear um tema, existem pelo menos cinco temas dentro de cada facção e mais alguns extras. Esse trabalho tem data de entrega para daqui a um mês. Todos terão de apresentar pra a turma, usem os métodos que vocês quiserem, tem que ser criativos. Valerá a nota cheia do trimestre, para trabalhos é claro.

Ouviu-se um suspiro coletivo. A professora em nem notou e continuou com uma alegria indecifrável, sorrindo e saltitando eventualmente.

– Venham sortear os assuntos – ela bateu palmas e pegou um saquinho de plástico cheio de papeizinhos dobrados de dentro da bolsa, sentando-se logo em seguida – Em ordem analfabética!

Fechei os olhos e escorreguei para frente na cadeira. Eu podia dormir, seria a última mesmo. Rosângela foi chamando os nomes e os alunos foram sorteando, alguns anunciam seu assunto para a turma inteira enquanto outros franzindo o seu nariz com ele. Logo a conversa paralela tomou onta da sala.

– Farizeu – soltei um risinho, assim com o resto da turma, quando a professora chamou FZ pelo seu verdadeiro nome. Depois que eu presenciei a crueldade da sua mãe com nomes, finalmente entendi a apelido.

FZ corou e foi sortear o seu tema fazendo pose de galã. Ele passou pela minha mesa e deixou um pequeno pedaço de papel dobrado. Era assim que a gente sempre se falava, por bilhetinho. Escutei-o pedindo pela milionésima vez para que a professora o chamasse pelo apelido, enquanto os meninos aproveitavam para tirar sarro. Ri um pouco antes de tentar decifrar a sua letra desleixadamente rabiscada.

Você quer passar lá em casa depois da aula pra montar o trabalho?

Ps: Acho que eu dormi durante a aula, não faço a mínima do assunto.

Pss: A não ser sobre a Audácia é claro.

Comecei a rir, cuidando para tapar o bilhete, suas desculpas para que eu o ajudasse com os trabalhos estavam cada vez mais esfarrapadas. FZ anunciou orgulhoso para a turma inteira que o seu tema era a “Iniciação da Audácia”. Murmurei um parabéns com os lábios, sabia que ele havia gostado do tema. Mais alguns nomes foram chamados enquanto eu rabiscava um bilhete em resposta.

Não vai dar... Eu tenho que jantar na minha vó hoje, vou aproveitar e ver se tem alguma coisa de útil para o trabalho.

Fica pra próxima, ok?

– Anna – a professora chamou o último nome com um tom autoritário no momento em que eu acabei de dobrar o bilhete. Levantei-me e fui a passos lentos até a mesa dela. Tive que fazer um pequeno desvio para largar o bilhete na mesa de FZ. A professora nem notou e continuou com o último papelzinho na mão para que eu pegasse.

Peguei delicadamente o papel dobrado da mão dela e dei um sorriso educado antes de me virar a tempo de ver FZ acenar com a cabeça, concordando com o meu bilhete. Abri o papelzinho quando já estava chegando ao meu lugar:

“Divergência”

Estava escrito com uma letra desenhada. Dei de ombros antes de sentar. Parecia ser um tema bem interessante.

***

Logo depois da escola eu fui até o apartamento de Evelyn. Ele não era muito grande, mas acolhedor. Nós jatávamos lá mais ou menos uma vez por semana. Cheguei mais cedo daquela e entrei pela porta da frente do prédio usando a minha cópia da chave.

Subi alguns andares de escada e bati na porta. Ninguém respondeu, assim como nas minhas outras tentativas. Por fim, desisti e girei a maçaneta. A porta estava aberta.

– Evelyn? Vó? Evelyn? – chamei algumas vezes, entrando de vagar, porém sem obter respostas. Ascendi à luz e me dei com o apartamento em perfeito estado, pelo menos, nada de ruim acontecera.

Fui entrando com passos hesitantes, ainda chamando pela minha avó. A sala estava arrumada como sempre, as almofadas dispostas meticulosamente. A cozinha era simples, porém impecável.

Fui seguindo pelo corredor silencioso. Olhei no quarto de hóspedes e nem sinal dela ou de alguma coisa estranha.

Entrei por fim, no quarto de Evelyn. Ele estava como sempre, o guarda-roupa, a estante, a cômoda e a cama de solteiro. Normalmente o quarto estaria arrumado nos mínimos detalhes, porém os lençóis estavam desajeitados e o guarda-roupa revirado.

Larguei a mochila na porta e fui olhar aquilo mais de perto. Andei por todo o quarto com o cenho franzido. Por fim parei em frente a cômoda bege, quase intocada. Ali, em cima dela, estava uma pequena estátua eu nunca havia visto antes.

Ela era linda. Feita de vidro azul cintilante. Parecia uma cascata que estava a cair lentamente, porém que o tempo havia parado no momento perfeito. O pequeno objeto era delicado e resistente o mesmo tempo. Não tinha nenhuma função útil ou aparente.

Meus olhos brilharam. Eu estava encantada. Aquele objeto simples e pequeno parecia carregar anos de uma revolta silenciosa. Ajoelhei-me para poder ver melhor e experimentei segura-la em minha mão. A estátua era leve. Pude senti-la, centímetro a centímetro, como se estivesse a descobrindo mais uma vez.

Meu encanto foi quebrado rapidamente por passos firmes e magoados vindos de trás de mim. Eles silenciaram-se assim que a pessoa me viu. Tentei largar a estátua na cômoda antes de me virar, mas eu não podia. Evelyn tinha entrado sem que eu percebesse.

Levantei-me girando meu corpo em direção á figura parada perto da porta. Evelyn estava abismada em me ver ali, sua figura acabada me olhava de cima a baixo. Ela vestia roupas cinza e grosseiras, algo como um grande manto, que escondia a sua beleza. Seus cabelos soltos e emaranhados contrastavam com seus olhos inchados de tanto chorar.

– E-evelyn – engoli em seco tentando me explicar e passado as mão desajeitadamente pelos meus cabelos, como se aquilo surtisse algum efeito – Vó...desculpe eu não...

Ela ergueu a mão para que eu me calasse, e foi o que eu fiz. Evelyn cruzou os braços sobre o peito e tentou sorriu da forma mais protetora o possível. Por fim, ela disse, olhando fixamente para a estátua em minha mão, como se estivesse prestes a me contar todos os segredos do universo:

– Anna, já é hora de eu lhe contar uma história. – seu tom foi firme, direto e não me deixou dúvidas de que nossa conversa seria bem mais profunda do que eu imaginara.

Notas finais
E aí, gostaram? Comentários? Favoritamentos? Recomendações? Não custa tentar ué...