Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido

6 Capítulo 5 - Já é hora de eu lhe contar uma história


Notas iniciais
Boa tarde leitooores!!!! Mais um capítulo, espero que gostem!!! Queria agradecer a todos que estão acompanhando a fic até agora, muito obrigada!

O barulho do liquidificador impedia que a cozinha caísse em um silêncio desconfortável. Evelyn estava claramente tensa, mas mantinha-se firme. Ela havia me mandado esperar na cozinha enquanto lavava o rosto, dava um jeito no cabelo e trocava de roupa. Minha avó insistiu que uma limonada faria bem e eu acabei concordando.

Finalmente o barulho cessou. Evelyn derramou o conteúdo em dois copos e tomou um grande gole de um antes de se sentar e estender o outro para mim. Murmurei um agradecimento antes que ela começasse a falar.

– Anna... Seu pai já lhe contou sobre as antigas facções? – Evelyn perguntou o com olhar longe, como se já soubesse a resposta.

– Um pouco – respondi baixando os olhos e tomando um gole do líquido verde – Quase nada.

– Querida, me escute: quando tiver que fazer uma escolha, nunca a faça por falta de opções melhores – Evelyn tomou as minhas mãos para si, me olhando nos olhos – Foi assim que eu fiz a pior escolha da minha vida: A abnegação.

– Não sabia que você foi da abnegação... – sussurrei. Na verdade eu não sabia nem o que era a abnegação direito.

– Eu me casei muito jovem Anna, não tinha certeza sobre nada ainda e fui ao altar com um monstro ao meu lado – ela continuou, desviando rapidamente o olhar, como se tivesse acabado de admitir o pior erro da sua vida – Marcus era maníaco por altruísmo, obediência, perfeição. E ele tinha os piores jeitos de conseguir aquilo da própria família. Foram os piores doze anos da minha vida.

Evelyn tossiu um pouco e fixou os olhos em um ponto qualquer, como se estivesse sentindo as lembranças na pele.

– Comecei a odiar quarta-feira. Era o dia da reunião do conselho e Marcus sempre voltava para casa tarde e irritado. Ele não cansava de me repreender, fisicamente na maioria das vezes, como se eu fosse sua filha desobediente, um machismo sem tamanho. – Ele suspirou e apertou a minha mão com mais força – Depois disso, eu engravidei. Já tinha aprendido a valorizar os momentos bons da vida e temia pela minha criança. Marcus nunca teve um ‘cuidado especial’ quando eu estava grávida, era muito egoísmo. Eu continuei fazendo trabalho voluntário, sendo vítima de sua raiva, cozinhando, passando, lavando, até dar a luz.

– A Tobias – completei por ela, esboçando um sorriso. Eu devia estar um pouco pálida pra falar a verdade, mas ela estava mais.

– Sim, até dar a luz ao meu bem mais precioso neste mundo: Tobias, meu filho – vi seus olhos se encherem de lágrimas enquanto ela abria um sorriso – Tive que dar ao meu menininho o sobrenome do pai. Do pai que tentou espancar a criança com poucos meses de vida. Eu não deixei. Marcus dizia que leite materno em excesso era luxuria e ele não iria criar um filho egoísta. Eu continuei o amamentando, até que pudesse andar sozinho.

Ela olhou para o chão ao seu lado, um pouco mais a frente. Pude jurar que ela via um menininho caminhando até seus braços. Evelyn sorriu, enquanto uma lágrima escorria de sua bochecha.

– Eu temia por mim e pelo meu filho. Tentava que Marcus não o surrasse, mas ele trancava Tobias em um armário enquanto eu chorava e lutava para tira-lo de lá. Aos poucos fui ensinando pequenas ‘brincadeirinhas’ para o meu filho, que usávamos para nos distrair. Esperar a volta de Marcus.

Evelyn mordeu o lábio inferior e tomou delicadamente a estátua de minhas mãos. Ela fitou o pequeno objeto com tanta devoção e apego quanto possível o segurando como se fosse o seu bem mais preciso.

– Eu dei esta estátua para Tobias quando ele ainda era pequeno, mas grande o suficiente para saber que isso era algo proibido na abnegação, afinal, não tinha nenhuma utilidade prática – ela mordeu a língua e suspirou antes de continuar – A escondíamos dentro de um baú trancado. Eu disse a Marcus que ele servia para guardar cobertores, que Tobias sentia frio à noite. Com o tempo aquele segredo virou o bem mais precioso de Tobias, que foi fazendo uma coleção de coisas inúteis dentro daquele baú.

Tentei abrir um sorriso solidário, mas eu estava pálida como um fantasma, ou pior. Evelyn tremia um pouco, mas se manteve firme.

– Tudo continuou horrível. Eu preferia morrer a permanecer naquele inferno. Não dava mais para aguentar, então, quando Tobias tinha nove anos, a única solução possível apareceu a minha frente. Eu tinha que fugir, forjar a minha própria morte e me tornar uma sem facção – Evelyn mordeu o lábio inferior. Com o pouco que eu sabia sobre a abnegação eu podia imaginar quanta coragem ela teve que ter para fazer uma coisa dessas. – Foi o que eu fiz, fugi. Em uma noite sem lua. Marcus sabia que eu havia o deixado, Tobias não. Ele contou para todos que eu morri, tentando dar a luz, e o suposto bebê também. Depois disso, não me tornei apenas uma sem facção, mas a líder deles. – ela suspirou e apertou minhas mãos mais uma vez – Eu sabia que uma grade guerra estava por vir, que o sistema de facções iria cair e que nós, os sem facção, deveríamos ganha-la. Tobias continuou a mercê de Marcus. Eu morria de saudades, tinha que traze-lo para junto de mim. Depois de sete anos, chegou o sua da sua cerimônia de escolha. Tobias fugiu, fugiu para a Audácia.

Pensei em como meu pai conhecia toda a sede como a palma de sua mãe, o soro do medo, o telhado e tudo o mais relacionado à facção. É claro que ele havia escolhida a Audácia.

– Ele precisava de um novo nome, uma nova identidade, e seu número de medos deu isso a ele – Evelyn continuou, parecendo orgulhosa. Murmurei “Quatro” e ela sorriu – Tobias foi perfeito durante a iniciação, ficou em primeiro lugar da sua turma. Então, eu decidi que era a hora de vê-lo, dar sinal de vida, convida-lo a juntar-se a nós. Deixei um bilhete no apartamento dele, em uma quarta-feira de noite, “No dia em que você mais odeia. Na hora em que ela morreu. No lugar onde você pulou” – ela parecia recitar as exatas palavras do bilhete deixado – Eu sabia que só ele desvendaria aquelas palavras. E desvendou, naquele mesmo dia, nos encontramos no telhado da audácia, as duas da manhã. Eu lhe disse sobre a guerra, que ele não podia ficar ali, mas Tobias me amaldiçoou por ter fugido e depois foi em bora. Dias após isso eu recebi um bilhete dele, dizendo que naquele momento ele ficaria na audácia.

Comecei a imaginar meu pai na audácia, pensar em suas tatuagens, medos e lutas. Deveria ser impressionante.

– Ele estava cansado de ser ‘fantoche’ dos outros. – Evelyn continuou – Tobias virou instrutor de iniciação e ficou trabalhando na sala de controle o resto do tempo. O que o deu oportunidade para investigar Max e Janine, eles estavam planejando um grande ataque á Abnegação e seu pai foi um dos primeiros a descobrir. No mesmo ano do ataque, no mesmo ano da iniciação da sua mãe. – ela soltou um suspiro, como se estivesse sonhando – Tris encantou Tobias desde o instante em que ele colocou os olhos nela, eles eram tão apaixonados Anna... E você é a prova disso. – vi um sorriso sincero se formando em seus lábios – Tris adoraria te ver assim, tão crescida, linda, corajosa...

Inalei uma grande quantidade de ar, como se estivesse enchendo meu coração. Tris, minha mãe, Tris. Senti um sorriso se abrir em meus lábios. Tris, Tris, Tris, Tris. Beatrice. Minha mãe. Orgulhosa de mim. Fechei os olhos e me permiti desfrutar da paz que eu estava sentindo por dentro.

Tris, Tris, Tris, Tris, Tris, Tris, Tris. Continuei repetindo, como um mantra, uma oração particular. Será que ela se orgulharia de mim agora? Será que gostaria de me ter como filha?

O que teria acontecido se ela não tivesse morrido? Acho que eu teria uma mãe, Beatrice Prior, Tris. Que se orgulharia de mim, que me colocaria pra dormir quando pequena, me ajudaria com a lição, daria uns berros quando eu saísse da linha, não se cansaria da falar sobre como ela e ‘papai’ se conheceram e fazer piadinhas com garotos. Ter uma mãe seria bom, muito bom. Eu amaria ter Tris ao meu lado.

– Me conte... – minha voz saiu quase como se fosse um sussurro enquanto eu abria os olhos – Me conte sobre Tris, por favor – supliquei, olhando diretamente para os olhos profundos de Evelyn e desejando mais do que nunca que ela mesma estivesse viva para me contar.

Minha vó me fitou por intensos segundos, suspirou e largou as minhas mãos na mesa gelada, balançando a cabeça diversas vezes – Desculpe Anna, você vai ter que descobrir sozinha – não consegui esconder a minha decepção ao ouvir aquilo. Suspirei pesadamente, largando os ombros, mas Evelyn continuou.

– Já ouviu falar sobre o Departamento? – ela disse, acendendo uma chaminha de esperança dentro de mim. Balancei a cabeça, esperando que Evelyn continuasse.

Ela se levantou e saiu da cozinha, fazendo sinal para que eu esperasse. Segundos depois voltou com algumas folhas de caderno, manuscritas e as estendeu para mim. As segurei com uma certa relutância curiosa que se assemelhava ao vazio dentro de mim.

– Leia isso quando estiver sozinha. E, quando você chegar lá, no Departamento, fale com uma mulher chamada Juanita, pergunte sobre David, e encontre o diário de Natália Prior, você estará no caminho certo.

Departamento, Juanita, David, Natália Prior. As palavras rodavam a minha cabeça. Pareciam algum tipo pistas, sobre o passado da minha mãe. Eu não queria pistas, queria respostas. Franzi as sobrancelhas: não estava na hora de bancar a detetive, estava?

– Eu vou indo – respondi de vagar após olhar para fora e ver que já havia escurecido. Levantei-me vacilante, meio confusa, olhando para as folhas de papel em minhas mãos. Evelyn se despediu de mim com um aceno – Obrigada vó, por tudo – completei.

– Ei, Anna – ela me chamou de volta – Fique com isso, por favor – ela estendeu a estátua para mim mordendo o lábio inferior e a olhando bem pelam talvez, última vez.

– Obrigada – respondi hesitante. Peguei a estátua das mãos dela com uma delicadeza exagerada e a segurei com as duas mãos. Recebi um aceno em concordância antes de sair pela porta da frente, com os passos trêmulos.

Eu desci as escadas do prédio correndo e fui andando até em casa. A noite estava escura com o breu. Meu coração batia acelerado. As palavras giravam em minha mente mais confusa do que nunca. Eu ansiava por ler a folha em minhas mãos. Eu precisava saber.

Naquela noite eu decidi uma coisa: iria atrás do Departamento, se aquilo me ajudasse a descobrir quem fora Tris Prior, eu iria até onde fosse.

Notas finais
E aí, o que acharam? Estão gostando? Sugestões? Críticas? Comentem!