Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido
23 Capítulo 22 - É exatamente isso: Eu Te Amo.
Notas iniciais
As escadas eram escuras e frias. Eu já não sentia mais meus pés de tanto tropeçar e correr. Eu não sabia para onde ir ou o que fazer.
Eu tinha plana consciência da arma em minha mão, das lágrimas quentes que corriam pelo meu rosto e de que o guarda poderia estar atrás de mim naquele exato instante. A cada lance de escadas as minhas coxas queimavam mais e mais. Eu não fazia ideia do andar em que eu estava.
Mais um, dois, três degraus com a arma balançando perto de mim. Quatro, cinco e eu senti meu tornozelo prendendo-se a alguma coisa. Pude ver o meu corpo caindo no chão frio enquanto uma dor ardente subia por toda a minha perna.
Minha vontade era de continuar ali para sempre. Deitada no chão como se nada importasse. Fechei os olhos por alguns segundos, mas a dor ardente em meu tornozelo não me deu o sossego que eu queria.
Rolei para o lado e me sentei, apoiada nos cotovelos. Aquele era o último degrau da escada, o que me dava, pelo menos, um lugar para sentar. Respirei fundo e segurei o meu tornozelo direito.
Senti um fluido manchando as minhas mãos. Sangue. Procurei sentir a quantidade e, para o meu alívio, não era muito, só um corte superficial. Tirei o tênis e a meia cano-curto, que estava machada de sangue e, deixando-os de lado, analisei o corte.
Segurando o tornozelo, fiz o meu pé ficar “de ponta” e voltar umas duas vezes e, depois de gira-lo mais algumas, certifiquei-me de que ele não estava quebrado. Eu ainda tinha um pouco de dor, mas a deixei de lado e segurei a meia machada contra o corte para estancar o sangue.
Suspirando, eu olhei para a arma, agora deixada de lado. Na pouca luz eu não podia ver quase nada, mas a arma e si me assustava. Tomando coragem, peguei-a com a mão direita, enquanto a esquerda pressionava o corte. Testei seu peso tremendo, eu não fazia ideia de quantas balas aquela coisa tinha.
Eu não tinha a mínima vontade de me levantar e ficar vagando as cegas. Eu não sabia o que fazer. Me encostei na parede e fechei os olhos, contando até dez de vagar. Soltei a meia, pois o sangue já havia parado de correr, mas ainda ardia.
Sequei o meu rosto com as mãos enquanto uma súbita vergonha me atingiu. Eu odiava chorar. Chorar só mostrava como eu era fraca. E eu não queria ser fraca. Mas, mesmo que eu tentasse, nunca conseguia deixar de chorar. As lágrimas simplesmente vinham a tona sem que eu pedisse, e para-las era uma tarefa impossível.
Senti um aperto no coração e continuei com os olhos fechados, sem saber o que fazer. Fiquei mais ou menos um minuto assim, até que um som chegou aos meus ouvidos.
Passos.
Tinha alguém vindo.
Fiquei de pé em um pulo, o que fez meu tornozelo arder. Deixei meu tênis de lado e segurei a arma com as duas mãos e o indicador no gatilho. Eu podia ouvir que os passos vinham de cima, por isso apontei a arma nessa direção. Eles ficaram cada vez mais altos e, no instante em que eu distingui alguém na minha frente gritei, com a voz firme.
– Para ou eu atiro! – disse, com todo o ar dos meus pulmões, Eu estava tremendo e tentando não engolir em seco. A pessoa tinha uma lanterna na mão, que apontava para si ocasionalmente. Pude ver que era um garoto, mais alto que eu e com cabelos tão familiares quanto a sua voz.
– Anna? – ouvi-o com sua voz doce e um pouco rouca me chamando. Agora eu podia vê-lo com mais clareza. Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto um sorriso surgia em meus lábios. Era ele, e não um estranho. Larguei a arma no chão no mesmo instante.
– FZ? – chamei, com a voz cheia de esperança. Saber que ele estava ali me trazia um conforto inexplicável. Vi um sorriso brincando em seus lábios e, no mesmo instante eu soube que ele estava prestes a me abraçar. Mas fui mais rápida e me pendurei em seu pescoço, sentindo seus braços quentes me envolverem.
Foi um abraço apertado, reconfortante e caloroso. Nossos corpos se encaixaram de uma maneira perfeita, com seus braços em minha cintura e os meus nos seus ombros. Encostei a cabeça delicadamente no peito de FZ, tentando não chorar. Ele começou a mexer no meu cabelo com uma das mãos enquanto a outra continuava na minha cintura.
Sem que eu notasse, nossos corpos exauridos já haviam se sentado. FZ estava me puxando para si desesperadamente e eu o puxava para perto com uma força esplêndida. Uma sensação gostosa se espalhou pelo meu coração e eu me senti feliz. Como se o abraço de FZ fosse um porto seguro em meio a uma tempestade.
– O que aconteceu com você Anna? – ele perguntou, após longos minutos de silêncio. Eu fechei os olhos e contei até dez, não tinha a mínima vontade de contar o que acontecera. E, além disso, eu estava a um passo de chorar.
Respirei fundo e fiquei alguns minutos quieta. FZ era paciente, mas eu sabia que ele estava se coçando para não me bombardear de perguntas. Abri a boca para falar assim que tomei coragem, mas, ao invés de palavras saíram soluços. E, sem que eu pudesse controlar, lágrimas quentes começaram a rolar por todo o meu rosto.
FZ deixou que eu encostasse a cabeça em seu ombro e fez cafuné no meu cabelo enquanto eu me derramava em prantos. Minha vontade era de bater em mim mesma, mas eu não podia controlar. Meus ombros tremiam e eu soluçava, chorando violentamente. Naquele momento, amei FZ por me deixar em paz, sem perguntas ou consolos exagerados, apenas um abraço que colocou o meu coração nos eixos.
Ele me ofereceu, silenciosamente, sua camiseta para eu secar meu rosto. Eu aceitei e deixei que minhas lágrimas molhassem sua roupa. E, depois de respirar fundo diversas vezes, eu finalmente comecei a falar.
Com a voz chorosa e fraca, contei a FZ cada detalhe. Desde a reunião falsa. Depois a “conversa” com David, então sobre os guardas. Terminei contando como eu fugi e juro que vi um sorriso em seus lábios, apesar de toda a sua preocupação om a minha segurança.
FZ pediu para ver a arma que eu havia roubado, eu fiz que sim com a cabeça e me estiquei para pega-la. Assim que eu coloquei as mãos na arma, notei uma coisa que eu não havia visto antes: Nossas mochilas, três no total, estavam jogadas no canto da escada.
– Você as trouxe até aqui? – perguntei, impressionada, pois as três tinham um peso considerável e FZ devia ter caminhado muito para chegar até aquele lugar. Me levantei em um salto e, logo em seguida, o meu tornozelo (que ainda me fazia ter uma pontada de dor) me lembrou que eu não podia fazer aquilo.
– A, é – FZ começou, como se estivesse se esquecido da existência das mochilas. Mas logo abriu um sorriso do tipo “Eu sou o máximo” e completou – Me esqueci de perguntar se você queria pegar alguma coisa.
Sorrindo, arrastei as três mochilas para perto de nós e me sentei no degrau novamente. FZ tinha uma lanterna, mas duas não fariam mal algum. Abri o zíper da mochila e tirei a lanterna de um bolso, ascendendo-a e iluminando a ambiente.
– Eu não faço ideia do que fazer – informei, com um descaso forçado e colocando o rosto nas mãos com um suspiro. FZ não parecia ter uma resposta mágica para a minha quase pergunta, então ficamos calados por um tempo.
– Eu tenho que procurar David – me pronunciei, após alguns minutos. FZ me olhou com os olhos arregalados. Eu apenas levantei em um pulo, amaldiçoando o meu tornozelo de novo, mesmo que a dor fosse mínima.
– Não, você não tem – ele rebateu, se levantando também. Franzi a testa, ele tinha uma ideia melhor? Cruzei os braços na frente do corpo e respondi, com a voz firme.
– O que você sugere então? – as lanternas estavam ligadas, mas não iluminavam muita coisa e eu logo teria que desligar a minha para não gastar a pilha. FZ suspirou e eu acrescentei, com uma certa ironia – Deixa eu adivinhar: A sua maravilhosa ideia é “vamos pra casa, lá é mais seguro”.
Nenhum de nós riu, até porque não foi piada. FZ continuou com o semblante sério, assim como eu. Apenas os nossos suspiros podiam se ouvidos na escuridão. Desliguei a minha lanterna, deixando o ambiente mais escuro.
– Você sabe que eu me importo com você Anna. Com a sua segurança – ele disse baixinho, acentuando “você” e “sua” como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo. Apertei os lábios até eles virarem uma linha fina. Minha vontade era de ceder para o seu tom carinhoso, mas eu continuei firme. Afinal, ele tinha que aprender que as minhas decisões eram só minhas.
– Eu estou segura FZ! Você me acha que eu não consigo me defender? Você não confia em mim? – gritei, gesticulando veementemente e indignada ao mesmo tempo. Quem ele pensava que era, querendo mandar em mim? Ouvi FZ suspirar várias vezes, como se estivesse pensando em uma resposta a altura.
– Anna, você é a pessoa mais forte que eu conheço. E eu confiaria a minha vida a você. Eu não confio é nos outros. – ele respondeu, em um tom preocupada e firme ao mesmo tempo, o que me lembrou muito de meu pai. Ele adorava falar assim comigo, como se a sua missão de super-herói fosse me proteger do mundo. FZ respirou fundo e completou – Mas você estava com uma arma na cabeça, a ponto de levar um tiro! Como você pode pensar em procurar a pessoa que fez isso com você?
Meu estômago parecia estar fervendo, meu peito estava em chamas e o meu esôfago já havia se enchido de lava fumegante. Mordi o lábio e cerrei os punhos. Do que ele estava me chamando? De fraca? Irresponsável? Só porque meteram uma arma na minha cabeça? Ta brincando, eu não tinha o que fazer!
– A, agora a irresponsabilidade é minha? Porque colocaram uma arma na minha cabeça? O que você teria feito no meu lugar, ein? – esbravejei, me segurando para não acertar um tapa naquela bochecha que eu havia beijado calorosamente horas antes. Ai meu deus, estávamos brigando horas depois de nos beijarmos? E qual era o motivo da porra daquela briga?
– Anna, não. Não foi isso que eu quis dizer – ele respondeu, fechando os olhos como se estivesse realmente arrependido. Suspirei, como raios FZ podia ser tão fofo no meio de uma briga? Como? Ele abriu os olhos segundos depois e comprimiu os lábios, como se estivesse pensando no que dizer. Ficamos alguns minutos em silêncio, mas, assim que ele abriu os olhos e olhou dentro das minhas pupilas, ouvi as palavras mais verdadeiras saindo de sua boca – Eu quis dizer que você é preciosa para mim, Anna. Que eu não aguento um segundo pensando que você pode correr perigo. E que...Meu Deus! Você importa mais do que tudo no mundo Anna!
Fechei os olhos e contei até dez de vagar. De certa forma, eu entendia sua preocupação quase fofa. Mas eu não era uma criança! Eu sabia me defender sozinha e estava cansada de todos querendo me dizer o que fazer e o que não fazer!
– Me diz FZ: você não pode me tratar como uma pessoa normal? Porque eu sou tão preciosa assim pra você? – soltei, quase fumegando de raiva. É claro que eu odiava falar assim com FZ, mas ele tinha que entender que eu não precisava de um “cavalheiro de armadura brilhante”!
FZ fechou seus olhos de chocolate bem de vagar. Ouvi um suspiro vindo da sua parte, logo depois, ele abriu os olhos repentinamente. Dava pra ver que as suas emoções estavam estouradas, assim como as minhas. Ele mordeu o lábio inferior várias vezes e inflou o peito. Eu reconheceria aquela expressão em qualquer lugar: era a mesma do dia em que nos beijamos pela primeira vez. Um segundo depois de eu perceber isso o peito de FZ se inflou de novo e ele confessou, com a voz carinhosa e o coração aos pulos.
– Porque Eu Te Amo Anna! – ele disse. Meu coração disparou no mesmo instante, eu não acreditava no que ele havia acabado de confessar. Verdade? Verdade mesmo? Como se FZ lesse a minha mente, ele inflou o peito e soltou tudo de uma vez – É exatamente isso: Eu Te Amo. Eu me preocupo com você. Eu levaria um tiro por você! Eu. Te. Amo. Você ainda não percebeu? Eu te Amo desde Sempre, e te amarei Para Sempre!
Senti meu coração agitado, quente e descompassado. Foi como se uma onda de calor tivesse se espalhado pelo meu peito. Aquela era, definitivamente, a melhor e mais inusitada sensação do mundo. Se sentir amada era algo absolutamente fantástico. Não amada pelo meu pai, minha avó ou algum suposto tio ou tia. Mas sim amada daquele jeito. Por aquela pessoa especial.
Tudo em mim gritava “Eu também te amo, te amo muito!”. Várias e várias vezes, cada célula do meu corpo me mandava dizer isso a ele, gritar bem alto, para que todos ouvissem. O sorriso imenso em meus lábios calou a minha boca por alguns momentos, eu não acreditava que ele havia dito que me amava!
Porém, quando eu estava a beira de gritar que o sentimento era recíproco, eu encontrei uma coisa bem mais útil para fazer com a boca. Não existia forma melhor de demonstrar o que eu sentia por ele.
Mesmo na fraca luz do corredor eu podia distinguir o seu rosto apreensivo, seus ombros largos e sua boca vermelha. Segundos antes de eu me jogar em direção a boca de FZ eu senti meus olhos marejados, marejados de felicidade.
Dei um passo, depois mais um, e então, a distância entre nós parecia mínima. Agarrei a sua nuca quente sem dó, e o puxei para baixo, em direção ao meu rosto, até que eu conseguisse lamber o seu lábio inferior. Passei minha língua quente pelo seu lábio superior também, afinal, ele estava boquiaberto. E fui assim, encostando a minha boca de leve na dele, como se estivesse o despertando suavemente.
De início, FZ ficou parado, perplexo. Eu me senti meio estanha, como se estivesse beijando uma parede. Mas então, eu percebi o meu pé descalço e tive uma ideia. Coloquei-o por cima de um de seus pés e me apoiei um pouco. FZ logo despertou e, apesar de um pouco incrédulo, retribuiu o beijo.
Eu estava sem saber o que fazer, o beijo estava lento, meio confuso, quase como o nosso primeiro. Fechei os olhos, rezando para que aquilo acabasse. Escutei um baque surdo e percebi que FZ havia largado a sua lanterna, agora, estávamos completamente no escuro. Pude perceber o meu coração martelando contra o peito, sem luz era bem melhor.
Segurei os ombros de FZ com firmeza, depois fui deslizando minhas mãos para as costas, tentado deixar o beijo mais rápido. Ele foi colocando suas mãos em meus quadris, e, depois de segura-los com firmeza, os puxou para junto dos seus. Então, sua boca pareceu ter despertado e começou a beijar a minha com avidez.
Aquele beijo sem graça pareceu nunca ter existido. Ficamos mais rápidos de uma hora para a outra. Nossas bocas consumiam uma a outra desesperadamente, como se já tivessem feito aquilo diversas vezes. Eu fechei os olhos e só deixei que acontecesse, ocupando-me de satisfazer o ritmo intenso do beijo que se desenrolava.
De repente, eu não sabia mais qual língua era de quem. Eu não tinha mais nenhum pudor em relação a FZ e o escuro parecia nos proteger de olhares curiosos. Agora, eu mexia na gola da camisa dele e ele enfiava os polegares no passador de cinto da minha bermuda. Seus lábios estavam quentes e os meus, em lava ardente.
Nenhum dos dois tinha vontade de parar. Nós não perdemos o ritmo e nem o ar. Eu estava desinibida a ponto de passar o pé pela sua panturrilha apenas para “apimentar” as coisas. Nossas bocas pareciam ter nascido para se encaixar.
Mas então, eu senti.
Uma mordiscada nada suave. Primeiro de nossos lábios juntos e, depois, só no meu. Aquilo doeu e eu tive vontade de estapear FZ. Porque ele queria parar de me beijar? Tentei reiniciar o beijo, passando a língua por seus lábios, mas ele se afastou.
E a paixão se esvaiu.
Eu não perguntei. Mas ele sabia que eu queria saber o porque. Passaram-se alguns minutos, com FZ a dois passos de mim e ambos calados, até que ele respondesse.
– Nós temos coisas mais importantes com o que nos preocuparmos – ele estava rouco e frio, gelado. Fiquei incrédula, onde estava o FZ que me amava? Que havia me beijado daquela forma? Aquilo me atingiu como uma estaca no coração. O que era mais importante?
– Como por exemplo? – perguntei, com a voz baixa e ofendida, desviando o olhar. Eu queria que ele visse que eu não havia gostado nem um pouco da súbita interrupção. E, dentro de mim, a confusão de emoções estava inacabável. Ele percebeu e pegou a minha mão de vagar, me pedindo silenciosamente para olhar em seus olhos.
– Me diz Anna, vocês, mulheres, tem alguma coisa com fugir? – seu tom chegava a ser irônico. Eu franzi o cenho com um certa raiva, não era hora para ironia. Lancei a FZ um olhar assassino e ele suspirou, respondendo seriamente o meu “porque?” silencioso – Julia fugiu também.
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