Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido
22 Capítulo 21 - Nem tudo estava tão mal assim
Notas iniciais
Me lembro das algemas serem tão frias quanto a arma que continuava sendo pressionada sobre a minha cabeça. Os corredores pelos quais me arrastaram eram escuros e vazios. Os dois guardas me seguraram pelos braços durante tudo o caminho, como se eu pudesse escapar.
A verdade era que eu não tinha mais forças para tentar. A conversa com David não fora das melhores e descobrir que a reunião era falsa me deixara mais feliz.
Depois de um certo tempo, eu perdi a conta do número de corredores, escadas e andares pelos quais passamos. Só conseguia me lembrar de estar sempre indo para baixo, cada vez mais baixo. Talvez algum tipo de subsolo.
Por fim, chegamos a um corredor com, aproximadamente, o triplo do tamanho dos outros. Àquela hora, meus olhos já haviam se acostumado com a escuridão, por isso consegui distinguir várias barras verticais de ferro, que formavam quadrados em seu interior e encostavam-se nas paredes.
Celas.
Eles haviam me trazido para uma espécie de prisão.
Tentei acalmar o meu coração acelerado enquanto os dois homens continuavam me arrastando. Avistei, a distancia, outro guarda sentado em uma cadeira no fundo do corredor. Assim que nos viu, ele se levantou e veio cumprimentar os colegas.
O que não estava segurando a arma apontou para a última cela da esquerda. O terceiro guarda, entendendo o recado, pegou um maço de chaves do bolso e, depois de analisa-las meticulosamente, segurou uma entre os dedos. Ele a colocou na fechadura da porta, girou duas vezes e abriu-a.
O segundo guarda já havia soltando o me braço e apenas o que segurava a arma estava me puxando pelo mesmo. Ele me arrastou, com as mãos algemadas atrás das costas, para dentro da cela. O segundo guarda veio junto e o terceiro já havia sumido de vista.
O “guarda dois” sacou uma chave do bolso e, pegando das minhas mãos, abriu a algema da mão direita. Eu já ia esfregar os pulsos e agradecer quando ele me puxou brutalmente para o chão e prendeu-a no pé do único banco daquela cela. Enquanto isso, o “guarda um” continuava segurando a sua arma contra a minha cabeça.
Logo que o terceiro apareceu com o molho de chaves em mãos, ambos saíram da cela. Assim que o primeiro desistiu de me ameaçar com uma arma, o das chaves trancou a cela. Os três trocaram apertos de mãos e foram saindo quando o segundo pareceu se lembrar de uma coisa.
Ele se virou e vasculhou nos bolsos por alguns instantes, e logo tirou uma chave de lá, a mesma que ele havia usado para abrir a minha algema. Chegando bem perto de cela, o guarda jogou as chaves por entre as barras para o outro canto da cela. Tentei esticar a minha mão para pega-la, mas foi em vão, pois o espaço era muito grade. Mesmo a cela sendo pequena, eu não conseguia alcançar.
Os três guardas continuaram ali, me assistindo, como se me desafiassem a pegar aquele chave. A minha vontade era de mandar os três a merda. Parei de tentar e fiquei sentada. Eu não seria o macaquinho deles.
Depois de alguns minutos, eles perceberam que eu não faria o que eles queriam. Desapontados, os dois guardas que haviam me arrastado até ali se despediram do terceiro.
Aparentemente, ele ficaria cuidando para que eu não fugisse. O guarda caminhou até o fundo do corredor e puxou a cadeira na qual estivera sentado até a frente da minha cela. Encostando-a na porta ele se sentou, de costas para mim. Era um guarda gordo, na faixa dos trinta e com o cabelo bagunçado.
Esperei alguns minutos para confirmar que ele estava indiferente a mim e, depois de perceber isso bem claramente, eu estava pronta para colocar o meu plano em prática. Eu teria a aquela chave a qualquer custo.
Tentei esticar a mão mais uma vez. O que não deu certo, mais uma vez. Como eu estava presa pela mão esquerda, iria usar o pé direito, para que ele fosse mais longe. Comecei tirando os tênis, que, surpreendentemente, não estavam fedidos.
Depois de deixa-lo sem a meia senti um pouco de frio, afinal, eram por voltadas onze da noite. Ignorando a pequena corrente de vento em comecei a esticar todo o corpo, praticamente deitando no chão. Fui alongando a perna até que o meu pé chegasse a milímetros da chave.
Fiz um pouco mais de esforço e senti meu dedão tocando o metal frio. Um pequeno sorriso surgiu em meus lábios, como se o destino quisesse me dizer “Ei, está tudo bem”. Fechei os olhos, tentando me concentrar, um chaveiro circular prendia a chave eu tinha que coloca-lo no meu dedão.
Comecei a tentar com a ajuda do indicador. Depois de alguns minutos de tentativas falhas ele finalmente prendeu em um dedo, o mindinho. Triunfante, fui puxando a minha perna ao encontro da mão. Assim consegui alcança-lo coloquei as mãos na chave com outro sorriso no rosto.
Era uma chave pequena, perfeita para o encaixe da algema. Coloquei-a no buraco perto da algema esquerda e girei algumas vezes até ela abrir um com sonoro clic. Esfreguei meus pulsos vermelhos e, logo depois, tratei de calçar o tênis de novo.
O banco era preto, de madeira e comprido, do tipo que acomoda três pessoas. Deixei a algema no chão e, me apoiando nele, sentei, esticando as pernas. Assim que virei a minha cabeça para o lado vi uma espécie de bandeja rústica, com dois pedaços de pão e um copo de água.
Senti o meu estômago roncar assim que eu coloquei os olhos na comida. Ok, eu havia jantado alguma coisa na corrida, mas mesmo assim...Estiquei a mão para pegar a bandeja quando um pensamento me deteve.
Por quanto tempo eles planejavam me manter ali? A comida poderia significar que por muito mais tempo do que eu imaginara. Pensei por alguns instantes, mas eu planejava escapar não planejava? Mordi o lábio, considerando.
Depois de alguns minutos, dei de ombros, puxando a bandeja para o meu colo. Eu iria escapar, de um jeito ou de outro. E fazer aquilo de barriga cheia parecia mais interessante.
Tomei um gole de água antes de começara a comer. Pegue uma fatia e dei umas mordiscadas, não era o melhor pão do mundo, mas quebrava o galho. Fechei os olhos e me encostei na parede gelada – aliás, naquele lugar, tudo era gelado – tentando pensar com clareza.
Comecei a juntar as informações. David conhecia a minha avó, Natalie, mas o que ele sabia sobre a minha mãe? Pude deduzir que ele a conheceu por causa do “Essa é a terceira Prior que eu conheço”. Ele parecia ter alguma relação complicada com a minha mãe e a minha avó, por ter me tratado daquela forma, parecia nutrir algum ódio pelo nosso sobrenome.
Então, pela primeira vez desde que fugi de casa, eu pensei no meu pai. Será que ele estava sentindo a minha falta? Que pergunta óbvia, é claro que sim. Ele me amava, me tratava como o cristal mais precioso do mundo.
Comecei a sentir um pouco de culpa. Meu pai sempre me protegera tento e eu havia o abandonado. Tudo o que eu queria, naquela hora, era dizer para ele que eu não fugi por mal, que ele não precisava se preocupar e que eu o amava de forma infinita.
Meu Deus, o que foi que eu fiz?
Já com os olhos marejados, lembrei-me de FZ. Àquela hora ele já devia estar preocupado e querendo me encontrar. Torci para que ele não viesse atrás de mim. Porque se viesse estaríamos os dois ferrados.
De toda a forma eu tinha que encontrar um jeito de escapar. Encostei a cabeça no ombro enquanto eu suspirava e tentava lembrar a mim mesma de que nem tudo estava tão mal assim.
***
“Eu tenho que sair daqui, eu tenho que sair daqui, eu tenho que sair daqui” era tudo o que eu conseguia pensar. Já devia ter passado da meia noite e eu inclusive já havia cochilado. Mas, agora, o meu foco era fugir daquele lugar.
“Pensa Anna, pensa. Deve ter um jeito, tem que ter” eu ficava matutando. Continuava sentada no banco e encostada na parede fria, o pão já havia sido reduzido a migalhas e o copo estava vazio.
Obriguei-me a levantar para pelo menos esticar as pernas e ver se eu pensava em um plano melhor. Comecei a andar em círculos, tentando raciocinar. Mas nenhuma ideia mágica me veio a mente.
Suspirando, coloquei meus olhos no guarda. Ele parecia sonolento e tirava cochilos de vez em quando. Analisei-o de cima a baixo. Seu uniforme era todo preto, do tipo que tem botas e uma jaqueta grossa. Ele tinha um cinto de utilidades na cintura, com o molho de chaves preso de um lado e uma arma presa do outro.
Espera: Uma arma.
Presa do lado direito. Virada para mim. Uma arma.
Meu coração parecia socar os pulmões como dois sacos de box. Uma arma mais um guarda sonolento meu rendiam uma ideia perigosamente excitante.
Comecei a pensar. Será que eu conseguiria pegar a arma sem que ele notasse? Eu o acordaria? Medi mentalmente o espaço entre as barras e logo percebi que a minha mão com uma arma não passaria ali sem chamar atenção. E eu não podia arriscar, só tinha uma chance com o guarda sonolento. Se eu falhasse, ele ficaria alerta outra vez.
A cadeira estava perto da porta. Então, a minha única chance era abri-la. Mas o com que? A chave? Era mais arriscado ainda...Suspirei, obrigando-me a pensar com clareza. Tinha que haver um jeito, havia um jeito. Eu só tinha que acha-lo.
Por algum acaso do destino, ou sorte, não sei dizer, eu senti meu rabo frouxo e fui aperta-lo. Passei as mãos por toda a cabeça até tocar no meu cabelo cor do ouro preso com um elástico preto. Dividi o rabo em duas mechas e as puxei, uma para cada lado, sentindo que a pressão aumentar. Foi quando eu toquei em uma pequena coisa de metal.
Um grampo. Eu tinha um grampo.
Senti meus lábios sendo puxados em direção as orelhas. Eu sabia o que eu podia fazer com um grampo. Quer dizer, na teoria é claro. Mas não podia ser difícil.
Era só colocar o grampo na fechadura e abrir, certo? Errado. Era um grampo, não uma chave. E eu precisaria de um pouco mais do que sorte para fazer o que eu queria.
Encostei-me na parede e escorreguei até ficar sentada, o que me rendeu um punhado de poeira nas roupas. Fechando os olhos, me concentrei em fazer o ar circular por todo o meu corpo. Ele começou roçando as narinas, foi descendo até o pulmão e então chegou no diafragma, enchendo toda a minha barriga de ar. Fui mandando-o para fora gradualmente, expirando pela boca e tentando me acalmar.
Eu tinha que pensar direito.
Quando eu finalmente consegui colocar meu coração nos eixos comecei a raciocinar. “Como abrir cadeados com um grampo de cabelo” é sempre uma matéria útil. Minha sorte é que meu pai havia me ensinado isso uma vez para “caso eu me esquecesse a chave de um cadeado”. Mas, só agora eu entendi as verdadeiras intenções dele.
Cheguei mais perto da porta, tentando ver se era um cadeado ou uma fechadura. Mesmo no escuro consegui ver que a fechadura na verdade não era uma fechadura, Era um cadeado que prendia dois círculos, um na cela e um na porta. Suspirei de alívio, um cadeado era bem mais fácil de abrir.
Fechei os olhos e tentei refrescar a memória. Primeiro tira...As bolinhas da ponta! Me lembrei subitamente e, com a unha, fui raspando as bolinhas até elas saírem. Depois...Acho que tinha que que abrir o grampo. Forcei as extremidades até que elas formassem um ângulo de noventa graus.
Ótimo, agora eu tinha que lembrar qual parte se usava: A ondulada ou a reta? Acho que era a ondulada, não, espere, a reta. Esqueça, acho que é a ondulada. É a ondulada. Segurei o grampo pela parte com ondinhas e me preparei para abrir. Como se abre mesmo?
Pensa Anna, pensa. Tentei me lembrar de como meu pai me explicou, de sua voz doce me mostrando tudo passo a passo, várias vezes, para que eu conseguisse. Coloca a parte ondulada e depois...Puxa! Puxa na direção contraria! Então...Gira como uma chave! Forcei a minha mente a se lembrar.
Coloca a parte com ondinha, puxa na direção contrária e gira como uma chave. Repeti para mim mesma várias vezes. Eu tinha que gravar passo a passo.
Depois de me certificar que eu sabia o que fazer, tudo o que faltava era coragem. O plano era relativamente simples: Eu puxaria o cadeado para dentro, a abriria sem fazer ruídos, tiraria ele, abriria a porta, pegaria a arma e ameaçaria o guarda.
Respirei fundo. Uma arma. Será que eu saberia segura-la? Meu pai guardava uma em casa, mas eu nunca o vi usando. Não deve ser muito difícil, não é? Fechei os olhos e contei até dez mentalmente, eu precisava fazer aquilo.
Repassei o plano na minha cabeça por inúmeras vezes. Era fácil. Deveria ser. Mas, mesmo assim, meu coração batia descontroladamente. Olhei para o grampo aberto em minhas mãos. Vamos lá Anna, é só abrir.
Vi que o guarda havia pegado no sono, então, o momento era perfeito. Respirei fundo e esgueirei a minha mão direita entre duas barras e puxei o cadeado. Colocando ao outra mão pelas barras do lado eu virei o grampo para a parte ondulada ficar de frente para a abertura do cadeado.
Com as mãos tremendo, coloquei a grampo dentro da abertura. Virei-o e puxei em direção ao lado de dentro. Respirando fundo, girei o grampo como e ele fosse uma chave. Tudo parecia estar passando bem de vagar enquanto eu piscava para continuar lúcida.
Um “clic” pode ser ouvido assim que eu acabei de girar. Analisei o cadeado e vi que ele havia sido aberto. Um sorriso pintou o meu rosto, eu havia conseguido. Estava a um passo de fugir dali.
Com o máximo de cuidado que era possível, eu puxei o cadeado, deixando a porta destrancada. Olhei para o guarda, ele não havia se mexido um centímetro e a arma continuada em sua cintura. Tirei o grampo do cadeado e os deixei no chão mesmo, afinal, não pareciam ter muita utilidade.
Empurrei a porta alguns milímetros, para ver se fazia muitos ruídos. Ela era um pouco barulhenta, mas não acordou o guarda. Respirei fundo, abrir um cadeado era a parte fácil, roubar uma arma e ameaçar um guarda, nem tanto.
Analisei toda a cena mais uma vez. Eu tinha que colocar um pé para fora, abrindo a porta o mínimo possível, esticar a mão, prende-la na arma e puxa-la subitamente. Isso faria o guarda acordar, então eu abriria tudo e gritaria para ele ficar quieto.
Calculei que, de pé, eu não alcançaria a sua cintura sem acorda-lo. Por isso me abaixei, sentindo minhas coxas. Então, com muito cuidado, eu empurrei a porta cerca de dois palmos e coloquei um pé para fora, assim como metade do meu corpo.
Tentando ignorar o meu coração desenfreado, coloquei a minha mão na arma. O cano estava preso virado para baixo, de modo que eu acomodei toda a minha mão e o indicador no gatilho. Minhas mãos tremiam como duas batedeiras.
Três, dois, um.
Puxei.
Tudo aconteceu muito rápido. Minha mão puxou a arma. O guarda se acordou. Eu empurrei a porta e me levantei. Eu não conseguia ouvir nada com o meu coração ecoando por todo o corpo.
Minhas mãos estavam trêmulas e eu estava tonta. “Não desmaie Anna, não desmaie”, eu torcia e tentava segurar a arma com precisão. O guarda gritou alguma coisa que eu não escutei.
– Parado, parado – ordenei, apontando a arma para ele. O guarda ficou onde estava e colocou as mãos para cima. Eu continuei andando em direção ao fim do corredor enquanto o ameaçava.
Assim que virei a curva, a velocidade tomou conta dos meus pés, as lágrimas de meu rosto e o desespero se instalou em minha mente.
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