Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido
19 Capítulo 18 - Qual é a palavra-chave?
Notas iniciais
Puxei FZ pela bainha da camiseta enquanto eu me abaixava, para que ele viesse junto. Depois de alguns cutucões, finalmente conseguimos ficar quietos e abaixados, escutando.
Eu já estava estupefata. Como assim “novo experimento”? Eu havia lido direito? O que eles planejavam fazer com a nossa cidade? Bom, se eu li, direito ou não, a resposta viria logo a seguir.
– O soro já está perdendo o efeito – o homem começou e a mulher voltou seus olhos atentos para ele, assim como eu. Cutuquei FZ para que ele escutasse, mesmo que já estivesse prestando atenção. – A maioria está começando a se lembrar. Depois de analisar todos os dados, chegamos a uma conclusão óbvia: Chicago precisa recomeçar – a mulher assentiu com a cabeça, como se concordasse com cada palavra. Eu já estava de boca aberta, mas, o que ele disse depois, só me deixou mais louca ainda – E, desta vez, não vamos ser piedosos a ponto de jogar o soro da memória, afinal, tem muita coisa em jogo. Vamos bombardear cada centímetro.
Eu quase me esqueci que estávamos nos “escondendo” e me levantei para contesta-lo. Bombardear? Ele só podia estar brincando. Que merda eles pensavam que iam tentar fazer? Só tentar mesmo!
Virei-me e vi FZ quase tão indignado quanto eu. Então uma ideia me veio a mente. Fui me levantando para fazer o que seria a coisa mais louca da minha vida quando FZ me puxou pelo braço e, assim eu ameacei gritar, colocou a mão na minha boca. E eu, é claro, lambi a mão dele.
– Vou aparecer, obrigada – a mulher respondeu. O homem logo assentiu e foi saindo pelas escadas, deixando-a sozinha com os papéis. Assim que eu botei os olhos naqueles saltos que a mulher usava, uma grande e louca ideia me veio a mente.
FZ já tinha tirado a mão da minha boca quando eu virei para ele com os olhos brilhando com de expectativa. Tentei mostrar para ele o que eu iria fazer, mas nem com gestos veementes FZ entendeu. Era um corredor vazio, um banheiro e uma mulher de salto com papéis que nós precisávamos. Qualquer um que somasse dois mais dois entenderia o que eu planejava fazer.
Esperei alguns minutos até que ela resolvesse parar de ler e andar, bem na nossa direção. Os passos dela pareciam os de uma tartaruga, de tão ansiosa que eu estava, e, pra completar, FZ estava me cutucando, querendo saber o que eu iria fazer.
Mais três, dois, um e ela estava na nossa frente. Estiquei a minha mão e, sem fazer muito esforço, puxei o tornozelo dela. Um grito abafado pode ser ouvido ecoando por todo o ambiente e a mulher já estava no chão, completamente apavorada.
Corri até ela o mais rápido possível e coloquei as duas mãos sobre a sua boca vermelha, tentando que os gritos cessassem. Pelo jeito não funcionou, a mulher continuou se debatendo enquanto se recusava a me ouvir. FZ estava tentando me ajudar, mas ainda estava surpreso com o que eu tinha feito, e eu não o culpava, afinal, eu também estava boquiaberta.
– Shhhhhh – tentei, ainda segurando a boca dela e tentando transmitir calma, mesmo com o meu coração aos pulos – Eu não vou te machucar – comecei olhando bem nos olhos da mulher e tentando não engolir em seco – Só preciso desses papéis.
A mulher pareceu finalmente desistir e parou de se debater, afinal, ela era só uma cientista com os cabelos horrivelmente despenteados. Ainda assim, eu deixei a mão esquerda na boca dela. Na verdade, eu precisava de um pouco mais do que aqueles papéis. Fui esticando com cuidado a outra mão, que por sinal estava trêmula, até a pasta e a peguei sem protestos. Mas, logo em seguida, escutei um sussurro em meu ouvido.
– Anna, o que você está fazendo? – soltei um suspiro de alívio ao perceber que a voz vinha de FZ. Ele estava tão perto que, em outra situação eu teria ficado vermelha.
–Salvando Chicago – respondi, sussurrando também. Podia ouvir meu próprio coração martelando contra o peito. Eu tinha que fazer alguma coisa, só não sabia o que. Um segundo depois, uma ideia me surgiu – FZ, veja se o feminino está vazio.
Ele ficou parado, pronto para me contestar, mas mudou rapidamente de ideia, entendendo o sentido do “plano”. FZ se levantou e foi até o banheiro. Eu pude ouvi-lo abrindo todas as portas e conferindo se ninguém estava lá enquanto a cientista continuava apavorada.
Uns minutos depois, ele reapareceu e acenou com a cabeça, me dando a minha resposta. Eu engoli em seco e fechei os olhos, pegando coragem, sabia o que tinha que fazer, só não sabia se eu conseguia.
Passei a mão pela faca presa no cinto do meu short, como se estivesse perguntando silenciosamente a FZ se eu deveria mesmo fazer aquilo. Ele deu de ombros, mas parecia me dizer que tudo bem. Engoli em seco mais uma vez e fui desembainhando-a , que, na verde era uma faca de carne, afiada e com uns trinta centímetros.
– Eu não vou te machucar, prometo – eu disse enquanto ia trazendo a faca para frente com a mão direita e continuava tapando a boca dela com a esquerda. Pude ver o horror em seus olhos, mas mordi o lábio inferior, eu tinha que continuar – Agora eu vou tirar a mão da sua boca, mas você tem que prometer que não vai gritar – a mulher assentiu com a cabeça freneticamente e eu tirei a mão da boca dela de vagar. Ainda estupefata, ela não ousou se mexer.
– Anna... – FZ chamou, eu virei a cabaça, ainda com a faca apontada na direção da mulher. Ele apontou para a porta do banheiro feminino, como se dissesse “Não é melhor você ameaçar uma pessoa dentro do banheiro?”. Assenti com a cabeça, é, era mesmo.
– Só responda algumas perguntas e vai ficar tudo bem – olhei nos olhos da mulher e ela acenou com a cabeça, ainda muda – Ótimo, agora se levante devagar – comecei a me levantar de vagar e ela fez o mesmo, com movimentos cautelosos.
– Entre no banheiro, a última porta é o reservado – FZ especificou, com os braços cruzados e uma “cara de mau” imperdível. A mulher foi caminhando de vagar enquanto eu ainda segurava a faca com a mão direita e apontada na sua direção.
Depois de um punhado de passos, algumas respirações entrecortadas e minutos com uma tensão palpável no ar, finalmente chegamos ao banheiro feminino. Era um banheiro normal, com algumas pias, quatro cabines e uma para deficientes (que era um pouco maior). Sinalizei com a cabeça para que a mulher entrasse ali, ela obedeceu, eu fui logo depois e FZ trancou a porta assim que passou.
– Qual é o seu nome? – comecei, segurando a faca firmemente apontada na sua direção. FZ ainda segurava a pasta e, assim que tivéssemos calma, leríamos tudo aquilo.
– Bruna – ela respondeu, sem hesitar, mas com a respiração pesada. Eu acenei com a cabeça. Na verdade aquilo era um pouco engraçado, considerando que eu tinha praticamente a metade da altura daquela mulher e estava a ameaçando com uma faca.
– O que está escrito nesses papéis? – eu perguntei, cogitando seriamente subir no vaso para ficar mais alta, mas logo a ideia me pareceu estúpida.
– Leia você mesma – Bruna respondeu, dando de ombros. Eu apenas engoli em seco e fui aproximando a faca dela cada vez mais, até estar a centímetros da sua garganta. Seus olhos foram ficando arregalados de pavor, mas, pelo menos, ela respondeu. – Sobre o bombardeamento de Chicago.
Seu tom indiferente me fez ferver de raiva, mesmo já sabendo sobre aquilo. FZ estava boquiaberto e eu também, não, não podia ser verdade. Alguns minutos se passaram com todos mudos, com a respiração pesada e a minha faca pertinho da garganta da mulher.
– Essa reunião – comecei, em voz baixa e com o maxilar cerrado – Quando vai acontecer? – tentei ser dura a medida do possível, mas eu estava tremendo.
– Esta noite, o resto está nos papéis – a mulher respondeu, apontando para a pasta nas mãos de FZ – É só uma cidade idiota. Porque você se importa? – completou, dando de ombros. Juro que, naquele instante a minha vontade era de afundar a faca na sua garganta os centímetros que faltavam.
– Porque eu moro em Chicago – respondi, com a mandíbula cerrada e os dentes rangendo de fúria – E eu tenho uma faca – lembrei, mexendo-a milimétricamente.
FZ parecia estar se segurando para não rir. Eu quase virei a faca para ele daquela vez. Sério? Ele estava rindo? Era engraçado? Suspirei em um claro ato de reprovação.
Mais alguns minutos se passaram, eu não sabia bem o que perguntar. A mulher parecia assustada, mas do tipo que não sabe muitas coisas. Aquele silêncio ruim continuava ali, até que FZ me salvou.
– Qual é a palavra-chave? – ele perguntou, olhando nos olhos da mulher e com a maior cara de detetive. Eu franzi as sobrancelhas, assim como ela. Que palavra-chave?
– Hã? – Bruna disse, claramente confusa. Mas acreditem, eu estava mais. O que tinha acontecido com FZ? Não era para eu fazer as perguntas? Afinal, a faca estava na minha mão.
– Que você sussurrou para o homem – FZ rebateu. Comecei a entender tudo: se era uma reunião secreta, tinha que haver algum tipo de senha, não? E aquilo que ela sussurrou para o homem antes? Era muito óbvio, estava de baixo do meu nariz e eu não havia percebido.
– Não se faça de desentendida – eu ajuntei, com um leve sorriso no rosto. Senti a sua respiração se tornar mais pesada enquanto seus olhos perdiam-se no vazio, como se estivesse se decidindo entre contar ou não. Por fim, depois de um longo suspiro, Bruna mostrou que a sua lealdade não é das melhores.
– Soro do Medo – relevou. Abri um sorriso triunfante, afinal a “senha” era ridiculamente fácil. FZ também estava sorrindo, e, provavelmente pensando que ele tinha “salvado o dia” – E a resposta é “Sem facção”. – completou, baixando os olhos.
– Obrigada, você foi de grande ajuda – completei, com um que de “eu venci”. – E não se esqueça: você não vai para a reunião, entendido? – informei, tentando parecer ameaçadora.
– E se eu for, o que você pretende fazer? – ela desafiou, tentando não sair em completa desvantagem. Pude ouvir uma risada ecoando pelo banheiro, assim que virei a cabeça e vi que ela pertencia a FZ. Mas, antes que eu o repreendesse, ele ajuntou.
– Se eu fosse você – começou, em um tom mórbido – Eu não tentaria descobrir em que me pagassem – completou. Eu fui trazendo a faca para cada vez mais perto da sua garganta, minhas juntas estavam brancas de tanto aperta-la, mas, pelo menos, a ameaça surtiu o seu efeito.
– Nós nunca estivemos aqui, lembra? – eu disse em um tom baixo e fui trazendo, com a mão trêmula, a faca cada vez mais perto de sua bochecha. – Você não vai contar a ninguém, não é? – rocei a faca em sua face pálida, e, logo em seguida, apertei um pouco mais. Um fluido vermelho-rubi começou a escorrer pela sua bochecha de leite, a deixando aterrorizada.
A mulher assentiu freneticamente com a cabeça. Achando que tudo já estava pronto eu apontei para a porta, FZ a destrancou e ela saiu sem olhar para trás.
Só então eu percebi o quanto estava trêmula. Larguei a faca no chão, produzindo um som cortante. Quanto mais eu pensava no que eu havia feito e no que estava prestes a fazer, mais enjoada eu ficava e o banheiro girava cada vez mais rápido. Me encostei na parede e fui escorregando, eu não fazia ideia do que estava acontecendo.
– Anna! – FZ correu até mim, passando seus braços quentes ao redor do meu corpo trêmulo. – Você está bem? – pisquei várias vezes, me forçando a ficar lúcida. Apenas concordei com a cabeça, desfrutando de seu abraço até ter forças para continuar.
– FZ? – chamei, quando eu finalmente consegui pensar com clareza. Ela olhou para mim, com total atenção, como se dissesse “pode falar”. Eu respirei fundo e soltei – Eu vou para aquela reunião.
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