Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido
18 Capítulo 17 - Tem como não desconfiar?
Notas iniciais
– Anna, Anna – ouvi uma voz me chamando. Ela era familiar e confortável, me fez bem. Eu me sentia leve, feliz e contente. Abri meus olhos de vagar, já sorrindo de forma abundante.
Deparei-me com FZ me olhando fixamente, com um semblante preocupado. Ele colocou a mão na minha testa enquanto comentava:
– Ela não parece bem – sua voz estava ansiosa, vi que ele temia por minha sanidade. Mas temer o que? Eu estava muito bem! Muito feliz! Queria sair pulando por toda a sala!
– É o efeito do soro – um homem de jaleco explicou. Ele parecia tão simpático! Porque não estava sorrindo? – Vai passar, a dosagem é pequena – eu fiquei sem entender, o que iria passar? Eu estava muito bem!
Mas...eu estou muito bem! – eu disse, quase gritando. O cientista revirou os olhos, FZ só pareceu mais preocupado ainda. Me dei conta de que eu estava sentada em uma cadeira, tentei me levantar, mas FZ me segurou pelo pulso. Lancei um sorriso a ele, que vontade de beija-lo! Queria me pendurar em seu pescoço para nunca mais soltar!
Ainda – sorrindo eu virei a cabeça e me deparei com Nita sentada em outra cadeira. Haviam várias pessoas ao redor dela, todas a ajudando com curativos, vi que o seu nariz estava sangrando. Tentei me lembrar o que havia acontecido, até me dar conta de que eu tinha dado um soca nela.
Mas afinal, porque u tinha feito aquilo? Eu não deveria ter dado um soco em Nita quando eu podia...fazer carinho nela! Abri um sorriso, meio que para compensar o que eu havia feito. Nita me respondeu com um olhar assassino e moveu os lábios para formar uma palavra muito feia.
– Quanto tempo ela vai ficar assim? – FZ perguntou para o homem de jaleco, que mordeu o lábio, pensativo. Ele virou o rosto na minha direção com uma ruguinha de preocupação. Não pude deixar de sorrir, como aquela ruguinha era fofa!
– Um pouco mais de meia hora – o cientista respondeu, suspirando e completou – Não exageramos na quantidade – eu não dei a mínima importância para as suas palavras, afinal, quase nenhuma delas fazia sentido.
FZ continuava preocupado e eu continuei sorrindo para ele. Então notei Julia batendo palmas e rindo de alegria, ela parecia a única naquela sala que estava tão feliz quanto eu.
***
Julia, na verdade, estava batendo palmas para a briga. E eu fiquei uns quarenta minutos sob influência do soro da paz. Pois é, FZ parecia o único responsável ali. A, mas Nita merecia apanhar daquele jeito, não negue.
– Eu to morrendo de fome – comentei, meio sem graça, logo depois do efeito do soro ter passado. O que eu tinha feito sobre influência dele era inacreditável. FZ deu de ombros, estávamos parados no corredor e era quase meio dia.
– Vamos pro refeitório então – ele respondeu, dando de ombros outra vez. Eu suspirei e Julia acenou com a cabeça.
Fomos andando mudos em direção ao refeitório, muito bem informados através de placas. Depois que eu “desdopei” do soro da paz, ficamos mais um tempo tentando convencer os cientistas a não chamarem um tal de Matthew, que pelo jeito era o chefe desse lugar. No final eles foram convencidos a deixar tudo quieto, contanto que não aprontássemos mais nada.
– Ta, mas afinal, o que nós vamos fazer? – perguntei, após vários segundos de um silêncio mórbido. Julia abriu um sorriso discreto e foi abrindo a boca para propor alguma coisa quando FZ a cortou.
– Ir pra casa – ele disse, com um tom claro que não deixava dúvidas que aquela era a sua “sentença final”.
– Voltar não faz sentido, não agora – rebati, cruzando os braços e parando de caminhar de repente.
– Deixa de ser chato FZ, vamos continuar – Julia ajuntou, tão decidida quanto qualquer um ali.
– Mas ficar aqui faz menos sentido ainda! – FZ disse, já elevando o tom de voz. Agora ele querida discutir, sendo que a doze horas estávamos nos beijando? A, eu iria discutir.
– Nós temos que ficar aqui – respondi, quase gritando e enfatizando a palavra “temos”. Em um tom que não deixava dúvidas da minha decisão.
– Nós temos que voltar – FZ rebateu, enfatizando o “temos”, exatamente como eu. Bufei, ele não podia concordar comigo pelo menos uma vez?
– Você vai voltar– esbravejei, mais brava do que o normal, muito mais – E eu vou ficar. – continuei, com o maxilar cerrado e completei, em um tom cortante que eu não deveria ter usado – Você não toma as decisões por mim FZ!
O silêncio parecia um véu que havia coberto todos nós. Eu mordi o lábio enquanto FZ me encarava fixamente. Eu não havia dito mais do que a pura verdade, e o pior é que eu me sentia mal por isso, muito mal.
– Mas eu me importo com você Anna – ele disse. Então levantou a cabeça e me olhou fixamente por vários segundos, como se pudesse enxergar dentro da minha alma. – Me importo o suficiente para te seguir em um plano maluco desses, por que Anna eu...
“Eu te amo” era o que eu queria ouvir. Era o que ele não disse.
Gosto de pensar que foi por causa de Julia que ele ficou quieto. Que se ele não estivesse ali FZ teria dito, eu plantaria um sorriso em meus lábios e repetiria a sua declaração. E depois haveria um beijo de outro mundo.
Mas aquela não era a verdade, e eu sabia que Julia era apenas um mero detalhe.
De novo, aquele silêncio perturbador. Fiquei encarando FZ e rezando para que alguém falasse alguma coisa. Depois de vários minutos mordendo o lábio e passando o peso do corpo de uma perna para a outra finalmente aquele desconforto foi quebrado.
– Então, vamos comer? – Julia perguntou, meio hesitante. Eu e FZ acenamos com a cabeça exatamente ao mesmo tempo. Fui me virando na direção do refeitório enquanto respondia, tentando não deixar o alívio evidente na minha voz.
– Sim, vamos comer.
***
Depois de comer, uma comida fantástica por sinal, tínhamos que decidir que raios iríamos fazer. Nosso primeiro palpite foi um “requisito básico”: Não destruir nada ou esmurrar a cara de alguém.
Eu imediatamente votei em procurarmos Matthew. FZ meio que concordou, mas tinha um porém: não sabíamos onde ele estava. E qual era o único jeito de chegar até ele? Arrumando confusão. O que anulava o nosso “requisito básico”. Ótimo.
Julia já saiu com as suas ideias malucar que envolviam roubar armas e invadir lugares. Pois bem, depois de pensar muito (tipo uns quinze minutos) achamos melhor que ela ficasse no quarto enquanto eu e FZ tentávamos encontrar o “escritório de Matthew”.
Claro que a garotinha, teimosa como era, insistiu em ir conosco e só não fez “birra” porque já tinha passado da idade. Depois de muita argumentação (eu quero dizer muita mesmo) conseguimos deixa-la sozinha no quarto com “ordens” para não sair de lá.
– Ei, Anna – FZ me cutucou, enquanto andávamos por um corredor, atentos a todas as placas nas portas. Eu parei de andar e me virei pra ele.
– Meu nome, por que? – respondi, cruzando os braços e com um tom divertido. Eu finalmente havia encontrado um rabicó na minha mochila e conseguido livrar o meu cabelo das costas, além de colocar uma rupa mais fresquinha, é claro. E, por precaução, pequei também a faca que eu tinha levado comigo.
– Foi mal – ele disse, um pouco mais baixo e mordendo o lábio inferior. Eu sabia sobre o que ele estava falando, e não precisava o torturar com perguntas, afinal, eu também mão havia sido muito gentil.
– Tudo bem – falei, dando de ombros. FZ olhou para mim com um sorriso já brincando em seus lábios e eu sorri também, apesar de estarmos longe do nosso objetivo, aquela viagem tinha sido uma verdadeira montanha russa.
Eu fico me perguntando: se nós não tivéssemos embarcado nessa aventura maluca, será que eu teria beijado FZ? Ou nós teríamos continuado só amigos? Como será que eu teria descoberto esse lugar ou a tirolesa? E de que outro jeito eu daria um murro na cara da Nita (mesmo não considerando ela tão-vadia-assim antes do que ela fez)?
Senti algo roçar na minha orelha enquanto um calafrio de espalhava por tudo o meu corpo. Me virei instintivamente e vi FZ ajeitando uma mecha rebelde, que havia se soltado do rabo, atrás da minha da mesma. Abri um sorriso despreocupado, pensando em como eu derretia fácil.
– Sério FZ – repreendi, mas com um tom divertido – Vamos procurar de verdade, tá?
Ela soltou uma risada alta e eu revirei os olhos. Continuamos subindo algumas escadarias e andando por corredores, diga-se de passagem, todos iguais. Pelo jeito, não estávamos dando muita sorte.
– Ei, olha – FZ sussurrou, me cutucando. Estávamos em um corredor amplo, com algumas salas, mas, apesar disso, pouquíssimas pessoas. Virei na direção que ele estava apontando e imediatamente vi o que FZ queria me mostrar.
Uma das únicas pessoas no corredor, além de nós claro, era um homem meio...suspeito. Ok, ok, sem essa coisa de filme de mistério, mas convenhamos: o cara era alto, usava um chapéu mesmo estando dentro do Departamento e estava vestido de preto da cabeça aos pés, sendo que a maioria aqui se vestia de branco. Tem como não desconfiar?
E para completar ele tinha uma pasta na mão, uma barba mal feita e olhava no relógio sem parar. FZ franziu as sobrancelhas e apontou para aporta que levava as escadas, como se dissesse “Puta que pariu, vamos sair logo daqui”.
Eu me segurei para não rir, ele me mostrou uma coisa interessante e misteriosa e agora quer que eu saia dali e a ignore. Nem morta, eu já estava curiosa.
Eu coloquei o indicador na frente da boca, em sinal de silêncio, enquanto FZ revirava os olhos. “Vem” eu disse, só mexendo os lábios, mas sem emitir som. Puxei FZ até um banheiro no meio do corredor, bem mais perto do “homem misterioso”. O banheiro tinha um pequeno vão, entre o masculino e o feminino, que era perfeito para ficarmos escondidos, ouvindo tudo e sem sermos vistos.
Depois de puxar FZ para lá e manda-lo ficar quieto enquanto ele repetia que “aquilo não era uma boa ideia”, finalmente começamos a prestar alguma atenção. Nos primeiros minutos tudo foi sem graça, eu já estava pensando em desistir quando um mulher apareceu, vindo das escadas.
Ela era tão alta quanto o homem, com cabelos pretos, cacheados presos em um rabo e uma pele branca como o leite. Para completar ela usava um vestido vermelho vivo, com saltos da mesma cor, por baixo do jaleco branco. Fiz, de novo, sinal para FZ ficar quieto.
A mulher foi andando até o homem, enquanto meus olhos atentos devoravam toda a cena. Ela colocou a boca no ouvido dele, com as mãos em concha, e ficou lá alguns segundos, sussurrando algo que eu não pude ouvir. Depois disso, o homem confirmou com a cabeça e passou para ela um portfólio preto com meia dúzia de papéis.
– Tudo o que você precisa saber está aí – ele falou, apontando para os papéis. A mulher abriu a pasta e tirou alguns papéis de dentro, dando uma rápida folhada.
– Obrigada – respondeu. O homem acenou com a cabeça e continuou parado enquanto ela lia os papéis e me dava algum vislumbre deles.
– Anna, vamos – ouvi FZ sussurrando no meu ouvido, já estávamos abaixados e tentando ao máximo ler o que estava escrito nos papéis. Eu simplesmente o ignorei enquanto esticava o pescoço.
Três segundos depois, consegui ver o que estava escrito em cima da folha, como se fosse um título. Engoli em seco, nós não podíamos deixar pra lá uma coisa daquelas.
“Destruição de Chicago – Novo Experimento”
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