Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido

2 Capítulo 1 - Você foi um milagre Anna


Notas iniciais
Aeeeeee!!!! Aqui estou eu com mais um capítulo!!!! Ele é narrado da visão da Anna (protagonista, filha do Tobias e da Tris) Muito obrigada para quem comentou! Espero que gostem!

Capítulo Um

Eu sentia o vento ricocheteando por entre as minhas pernas nuas do joelho para baixo. Não sabia dizer se estava calor ou se estava frio, mas lá, na beirinha do antigo telhado da audácia, estava ventando muito. Meus cabelos loiros e sem muita vida roçavam suavemente em minhas costas mesmo estando por cima da uma camisa azul celeste.

Senti uma sensação de calmaria me invadindo lentamente, como se eu estivesse sento levemente balançada e sentisse o aroma de flores. Um sorrisinho maroto escapou dos meus lábios enquanto meu coração se estabilizava lentamente.

Meus olhos perdiam-se de desejo ao olhar para baixo, eu amaria pular. Já me flagrava imaginando como seria a queda: aquela sensação de desespero a consumindo lentamente enquanto o seu corpo corta o ar. Aquele sorriso que poderia escapar dos seus lábios quando se dava conta de que estava indo muito rápido. O alívio percorrendo cada centímetro do seu corpo quando ele finalmente tocasse a rede em segurança com o seu frágil coração feliz batendo mais rápido do que o normal.

‘Vamos Anna, sopre as velinhas e faça um pedido’ Escutei a voz penetrante e terna do meu pai ecoando em meu pequeno ouvido. Acontece que eu estava fazendo quatorze anos aquele dia. Não teriam velinhas nem bolo de chocolate. Se bem que, tinha bolo de chocolate todos os anos.

Abri um sorriso psicopático enquanto lembranças da minha mente maluca me inundavam vagarosamente. Eu tenho tantos pedidos estranhos, sempre tive. A sorte de todos é que atirar não estava na lista mental desse ano.

Uma arma?! Você vai cair só de tentar segura-la sua tola! Podia ouvir as vozes maldosas que ecoariam em meus ouvidos caso eu mencionasse o meu desejo. Mas não, eu nunca mencionaria aquilo. Nunca seria humilhada daquela forma. Minhas bochechas nunca queimariam do jeito que estavam queimando agora em público, jamais.

É claro que talvez tivessem razão. Eu podia ser comparada facilmente a um passarinho: Com um corpo frágil e quebrável, mas que não teme a liberdade e sim a admira. Sorri tristemente, lembrando a mim mesma o quanto eu era medrosa, o quanto eu não queria ser e o quanto eu me odiava por isso.

Eu havia vindo ali, no abismo, logo depois da aula. Não, eu não tivera ‘um dia ruim’. Acho que só saudades. Aquele tipo de saudades que te consome de dentro para fora, sorrateiramente, como se você nunca mais fosse existir de verdade caso não a espantasse. Na verdade eu tinha saudades de alguém que nem conhecia. Ou de algo, nunca tive certeza. Talvez apenas me sentisse vazia e aquele lugar acalmava os meus nervos.

Eu estava tão dispersa que nem vi o tempo passar. Meu pai já deveria estar me procurando com o semblante sério e se corroendo de preocupação. Tobias provavelmente estava temendo pela sua princesinha de cristal naquele exato instante. Se eu odiava aquilo? É claro. Com cada fibra do meu ser. Na verdade com uns setenta por cento do meu ser. Uma partezinha de mim ainda não consumida por aquela raiva da sua superproteção sabia que ele era só um pai preocupado tentando proteger a sua filhotinha.

Pensei em me levantar quando passos distantes e preocupados caracterizados pelo desespero incumbido surgiram atrás de mim. Tobias suspirou de alívio quando me viu pronto para descarregar suas emoções exaltadas repreendendo sua pequenina por estar fora de casa a essa hora.

– Anna – Seu tom era carinhoso e ao mesmo tempo repreensivo. Senti seu olhar fuzilante mesmo de costas. Tobias odiava o meu lugar favorito. Ele foi andando rapidamente até me alcançar – Por onde andava? Eu fiquei preocupado, nunca mais faça isso! – Ele começou o discurso habitual se sentando ao meu lado. Vi um leve tremor por trás de seu semblante sério. Meu pai estava evitando olhar para baixo.

Dei de ombros – Aqui mesmo, desculpe-me –Funguei levemente. Daquele jeito eu parecia uma daminha do século dezenove, comportadinha e se desculpando gentilmente.

– Nunca mais faça isso – Tobias repreendeu com os dentes cerrados. Ele relaxou por alguns instantes e passou uma mão pelos meus ombros. Eu senti um calor distante me envolvendo gradualmente, um calor gostoso, que me fazia relaxar. Acho que se chama carinho. Deitei levemente a cabeça no ombro do meu pai sem deixar que aquela sensação escapasse por entre os meus dedos. Senti seu braço enrijecer, como se ele não pudesse me deixar quebrar – Você foi um milagre Anna... Não quero perde-la tão facilmente.

Pisquei de vagar. Um milagre? Eu? Senti algum orgulho me invadindo. Do tipo: Veja só eu sou um milagre! Um pequeno sorriso aterrissou no meu rosto – Isso é bom? – Perguntei com a inocência de uma criança de cinco anos querendo saber se o Papai Noel existe. Vi um sorriso triste se formando nos lábios de Tobias. Ele parecia indeciso em mostrar-me toda a verdade ou proteger a sua princesinha do mundo grande e cruel. Eu amaria a primeira opção, mas ele escolheu a segunda.

– É ótimo – Tobias tentou sorrir, mas parecia estar lutando com várias emoções ao mesmo tempo. Por fim, olhou para o nada com uma expressão firme e completou – Vocês duas foram as melhores coisas que já me aconteceram.

Eu apenas relaxei em seu abraço, fechando os olhos de vagar. Sabia que não devia perguntar sobre o ‘vocês’ e reabrir um ferida passada que ainda doía muito nele. Por isso me concentrei em me sentir plena e não sucumbir ao desejo de pular.

– Pai? – Perguntei por fim, sem me aguentar e soltei tudo de uma vez – O soro. O soro do medo. Eu quero experimentar – Desejei colocar as palavras de volta na minha boca assim que eu vi a sua expressão de choque. Porém levantei o queixo e continuei – Eu sei que você tem um pouco. E que mesmo tentando esconder o ‘Quatro’ você ainda quer provar a si mesmo que é merecedor desse apelido – Completei com a língua cortante.

O arrependimento me consumiu, pouco a pouco, devorando todo o meu ser de vagar. Eu vi a avalanche de mágoas passadas e feridas reabertas refletidos em seus olhos inexpressivos agora me fitando pouco a pouco. Tobias tirou o braço dos meus ombros de forma rude e piscou algumas vezes, olhando para o nada.

– Isso não é assunto seu, Anna – Ele disse por fim, com um semblante sério – Fique sabendo que o soro era aplicado em iniciados com dezesseis anos – Vi sua expressão de raiva contida enquanto eu murmurava desculpas esfarrapadas, me sentindo realmente mal – Mas, se você quer mesmo sua teimosa, eu te deixo – Eu abri um sorriso e algumas borboletas voaram em meu estomago apesar de seu semblante preocupado me deixar mais tensa – A segunda porta a direita do corredor mais estreito depois das casas – Fui tomada por um desespero repentino: será que eu iria injetar aquele líquido laranja em mim mesma totalmente sozinha? – Eu pulo primeiro e te espero lá em baixo – Tobias completou se levantando – Tem uma rede, caso queira saber.

Eu já sentia o meu coração batendo mais rápido do que o normal. O sangue fervilhava em minhas veias, ansiando e ao mesmo tempo temendo o ‘perigo’ eminente. Levantei-me de vagar percebendo que eu estava trêmula.

Tobias olhou para mim e acenou com a cabeça. Por um momento de fragilidade ele hesitou, provavelmente pensando na minha segurança. Eu fiz o possível para manter o olhar determinado. Funcionou, segundos após ele se equilibrou na beirinha e pulou, sem olhar para baixo.

Ouvi um grito reprimido e depois o som de um corpo aterrissando na rede. Após alguns minutos, o grito do meu pai dizendo que eu podia pular chegou aos meus ouvidos. Arregalei os olhos e caminhei trêmula até a beirada. Me estômago borbulhou quando eu olhei para baixo.

Fechei os olhos e vi a minha frente uma frágil garota da abnegação prestes a ser a primeira a pular. Seus olhos castanhos se viraram lentamente para mim. Mamãe, eu tentei dizer. Tris abriu um sorriso terno e me estendeu a mão. Pule querida, ouvi-a sussurrar. Acenei com a cabeça e abri os olhos de vagar. Respirei fundo algumas vezes com o coração a milhão.

Pulei.

Notas finais
E aí, gostaram? Comeeentem!