Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido
3 Capítulo 2 - Seja corajosa Anna
Notas iniciais
Não tenho certeza se eu estava feliz por ter finalmente realizado o meu sonho ou angustiada com a possibilidade do meu corpo frágil não tocar a rede em segurança. Quer dizer, eu deveria estar pensando algo como “Nossa que perfeito estou realizado o meu sonho!” acontece que a minha cabeça estava mais inundada de pensamentos do tipo “Puta que pariu eu vo virar pó lá em baixo!”.
Assim que meus pés livraram-se da beirada do telhado a agonia me envolveu completamente sem nem um pingo de delicadeza. Eu queria fechar os olhos como o meu pai havia feito, mas não conseguia. Estava simplesmente com medo de mais para mexer se quer um dedinho do pé.
Parecia que meus pulmões nunca mais voltariam a respirar normalmente. Nem para gritar eu tinha forças. O vento zunia nos meus ouvidos como um recado da morte. Meu corpo parecia pesar cem vezes mais, como se chumbo misturado com adrenalina corresse em minhas veias.
Não me lembro de ter caído graciosamente. Ou de ter caído sem parecer um peixe. Eu ainda estava tremendo quando o meu corpo frágil e inocente quicou na rede.
Senti meu pai deslizando-me até seus braços fortes, me segurando em seu colo com se eu fosse uma criança recém-nascida. Depois, pousando meus pés trêmulos no chão gradualmente ainda com os braços carinhosos em volta de mim, aparentemente sem querer me largar.
– Está tudo bem Anna, está tudo bem, só se acalme filha, está tudo bem – Tobias acariciava meus cabelos gentilmente, me fazendo parecer segura em seus braços aconchegantes que faziam meu coração se aquecer.
Então de repente eu tinha sete anos mais uma vez. Chorava desesperada em seu colo gritando agoniada que “doí muito papai” enquanto a médica engessava meu tornozelo quebrado no antigo complexo da Erudição. Ele dissera a mesma coisa na época “Vai ficar tudo bem pequena, aperte a minha mão filinha, vai ficar tudo bem...”. E eu havia escondido o rosto molhado em seu peito tentando suportar a dor embalada por suas palavras doces e firmes ao mesmo tempo.
Balancei a cabeça enquanto tentava de distanciar de seu abraço reconfortante. Eu não tinha mais sete anos. Tentei sentir o máximo de felicidade que pular havia me proporcionado. E consegui de certa forma, parecer realizada. Não fora tão ruim assim. Mas eu não iria pular de novo, não mesmo.
– Eu to bem pai – minha voz saiu um pouco mais trêmula do que o esperado, mas eu consegui me desvencilhar do abraço de Tobias. Tentei esboçar um sorriso e ignorar o fato de que eu ainda tremia por completo– Foi legal.
Tobias esboçou um sorriso divertido e preocupado ao mesmo tempo – Estou vendo – comentou com desdém – Tem certeza que ainda quer fazer isso Anna? Não acha que um bolo de chocolate seria bem mais... seguro? – ele parecia estar lutando consigo mesmo para resistir à tentação de me “mandar para um lugar menos perigoso”, nem que fosse a força.
– Pai! É só um soro – eu retruquei parecendo uma criancinha fazendo birra – Você já usou várias vezes. – cruzei os braços sobre o peito, teimosa, apesar do temor que crescia dentro de mim – Mamãe também...
Seu maxilar enrijeceu e, em segundos, sua expressão se tornou muito mais fria do que o normal. Tobias odiava que eu mencionasse Tris, minha própria mãe. Ele suspirou pesadamente e me lançou um olhar fuzilante.
–Eu tenho quase trinta e cinco anos, você tem quatorze – “não tente se comparar comigo”. A frase não dita estava impressa em seus lábios. Nem perdi tempo pedindo desculpas ineficientes. Apenas o segui quando ele se virou com o olhar perturbado e os músculos rígidos, caminhando em direção ao soro do medo.
***
O antigo complexo da audácia era usado agora como um centro de esportes, lutas principalmente. Aproveitando o que já existia a maioria das pessoas, ou quem quisesse, tinha noções básicas de autodefesa. Em uma parte do espaço também havia alguns prédios, casas e, é claro, moradores.
Tive que apertar o passo para acompanhar o ritmo do meu pai, que caminhava ligeiramente á minha frente. Passamos depressa por todo o centro e após pelas moradias, atraindo alguns olhares curiosos.
Tobias entrou em um corredor rústico, meio escondido e um pouco baixo de mais para ele, perfeito para mim. Apesar de o sol raiar do lado de fora, a passagem estreita estava um breu, apenas um pouco iluminada pela luz que vinha de fora.
Meu pai tateou a parede direita até char uma porta, metros depois do início. Ele andou mais um pouco e tateou outra entrada. Sua mão foi rápida até a maçaneta emperrada e a forçou bruscamente até abri-la.
– Entre – ele me chamou com a mão assim que estava dentro da sala. Aquele cômodo já fora branco, há muito tempo, agora um bege sujo cobria as paredes de cima a baixo. Bem no centro da sala, havia uma cadeira de metal reclinável, já meio gasta pelo tempo. Perto da cadeira havia algo que se assemelha a uma escrivaninha com um computador bem velho e algumas gavetas. – Você tem certeza Anna?
– Tenho – respondi ainda tremendo, mais pálida do que o normal – É só uma simulação, não é? – acho que acabei gaguejando um pouco. Tobias apertou seus lábios até eles formarem uma linha fina. Ele apenas inclinou a cabeça para que eu me sentasse. Foi o que eu fiz, com passos vacilantes e inseguros.
Meu pai me olhou piedosamente mais uma vez antes de eu ver uma seringa com um líquido laranja em suas mãos. Sua mão esquerda foi gentilmente até o meu pescoço, afastando meu cabelo louro para o outro lado. Ele pressionou uma agulha perfurante em minha pele e foi empurrando o líquido como se aquilo doesse nele. Suas mãos estavam trêmulas.
–O soro vai entrar em vigor em sessenta segundos. – Tobias começou, engolindo em seco – Ele estimula a amígdala, que é a parte do cérebro relacionada no processamento de emoções negativas, como medo, e, em seguida, induz uma alucinação. – vi em seus olhos um brilho diferente e hostil, como se ele tivesse vinte anos outra vez – Você fica na alucinação até que se acalme, diminua sua frequência cardíaca e controle a sua respiração.
Eu apenas ascendi com a cabeça, já me sentindo tonta de mais para falar. Tobias apertou a minha mão com força, como em um gesto de súplica.
– Seja corajosa Tris – ele sussurrou olhando através de mim – É... Anna, seja corajosa Anna – ouvi ele se corrigir rapidamente antes de entrar na alucinação, fitando intensamente seus olhos negros.
***
Eu abri os olhos gradualmente. Fitei uma parede marrou escura que a minha frente, ao meu lado, outra da mesma cor, assim como no outro, e atrás de mim também. O chão era da mesma cor, assim como o teto. Passei os olhos por toda aquela sala, caixa melhor dizendo. Não haviam janelas nem portas, além disso ela era menor do que o normal. De repente comecei a ter dificuldade para respirar.
Tossi levemente quando me dei corta do que era aquele estranho barulho que eu escutara. A água começou a inundar a pequena caixa de madeira gradualmente, fazendo o meu coração bater cada vez mais rápido e minhas palmas suarem.
Eu estava imersa no líquido transparente até os tornozelos quando algo começou a mudar. A parede direita estava vindo em minha direção, a esquerda também. O teto estava cada vez mais baixo e todas as paredes pareciam querer me esmagar enquanto a água subia cada vez mais rápido.
Eu estava apavorada, tremendo, sozinha, suado frio e clamando por ajuda. Meu coração nunca batera tão rápido, eu estava apavorada. Comecei a chorar sem me dar conta. Tentei secar as lágrimas com o dorso da mão enquanto me debatia para sair dali.
O pânico me dominava cada vez mais. A caixa estava pequena a porto de eu ter que abraçar os joelhos sentada com a água me cobrindo até o pescoço para caber ali. Tentei acalmar meus batimentos para poder sair daquele pesadelo interminável. Mas eu não conseguia, a angústia dominava cada centímetro do meu ser agora que água quase não me deixava respirar e a caixa não passava de um cubículo.
“Seja corajosa Anna” Tobias dissera. Abri meus olhos negros com uma facilidade incrível enquanto inflava meu peito o máximo que eu conseguia. Eu vou ser.
Fale com o autor