Anna Júlia - Quisera Eu
3 Capítulo 3 - Eu, que nunca me liguei em nada, tinha me ligado em ti.
Era engraçado como ser “famoso” no ensino médio era praticamente a mesma coisa que ser famoso de verdade. Em poucos dias aquele ninho de ratos já comentava sobre nós dois. Nós dois, Júlia. Enquanto era só um nó, as pessoas falavam de nós, quando finalmente se tornou nós, pararam de falar e aceitaram. Quando voltou a ser nó, Júlia… Quando voltou a ser nó, não sei se ainda ligavam.
Eu passava pelo corredor quando vi um grupo de gurias ao teu redor, te enchendo de perguntas e você revirando os olhos para todas elas, foi quando me aproximei.
— Oi, princesa – falei contigo, colocando o braço em volta do teu pescoço, e pelo canto do olho vi todas morrerem de inveja de ti.
— Não enche meu saco – você respondeu ríspida, retirando meu braço de ti.
— E tu ainda quer mentir que vocês dois não tem nada, Anna Júlia? Nos poupe, vai. Assume logo que tu também já ficou com ele de uma vez por todas e para de fazer o Matheus de palhaço – uma das gurias falou, me fazendo sorrir.
— Matheus? – perguntei.
— É. O guri dela – ela respondeu. — Meu irmão.
Olhei pra ti, que desviava o olhar daquela cena e voltei a falar.
— Esse é o problema aqui? – perguntei a ela, que confirmou. — Bom, a gente nunca ficou.
Elas me olharam espantadas, arregalando os olhos e abrindo a boca em formato de zero. Principalmente a que dizia ser a irmã.
— Mas isso não significa que eu não vou tentar – prossegui. — Fala com teu irmão que agora ele tem um concorrente. De peso — saí dali te puxando pelo braço e nos fechando em uma sala vazia.
— Por que tu fez isso? – você perguntou quando te soltei. — Agora elas vão falar mais ainda.
— Tu tem um namorado? – te perguntei, interrompendo sua fala.
— Ele não é meu namorado.
— Não foi isso que pareceu.
— A gente fica, só isso.
— Ele deve gostar de ti, senão a irmã dele não estaria fazendo o papel de boa samaritana – fiquei te encarando. — Tu gosta dele?
— Porque tu te importa?
— É por causa dele que tu não deixa eu me aproximar?
Era a única coisa que fazia sentido pra mim nessa hora. Eu não era de ninguém, Júlia, mas tu já tinha teu dono e o nome dele não era Jerry.
— Para de transformar isso no que quer que seja que tu queira comigo e te concentra no fato de que tu DESTRUIU o meu relacionamento!
— Tu disse que não é namoro.
— Não importa – você se conteve. — Não importa o que seja. Por tua causa eu vou ter que discutir com ele agora.
— Por que, Júlia?
— Porque é isso que as pessoas fazem, Jerry. Elas discutem quando se sentem traídas, elas colocam tudo em cima da mesa e veem se vale a pena guardar no armário de novo e deixar lá trancado, até alguém ter coragem de virar a chave de novo.
— Não, Júlia. Porque tu não me disse logo que tu tinha um namorado.
— EU NÃO TENHO UM NAMORADO, DROGA! – gritou estressada.
— Tu tem noção de que desde que te fiz aquela promessa eu não fiquei e nem pensei em ninguém a não ser em ti? – falei ignorando o que tu tinha dito, quebrando tuas pernas. Teus olhos se focaram nos meus, e eu acabei me perdendo nos teus.
— Desfaz – você falou ainda me encarando, e meu cenho se franziu. — Desfaz tua promessa.
— Eu não quero.
— Tu é o gato burro, então. E não o rato.
Rato?!
— Rato?!
— É, o do desenho… Tom e Jerry.
— Isso não faz o menor sentido.
— TU NÃO FAZ O MENOR SENTIDO – você gritou, apontando o dedo para o meu peito.
— EU TE ODEIO, MANO. PUTA QUE PARIU! – tentei respirar pra me acalmar, mas sem sucesso. — COMO QUE JUSTO TU FOI FAZER ISSO COMIGO – soquei a parede atrás de ti, fazendo com que tu desse um pulo assustada e arregalasse mais ainda os olhos para mim.
— QUE PORRA… ME DEIXA SAIR – você gritou, mas eu te segurei.
— Tu não podia ter feito isso, Júlia – falei, ainda te segurando.
— Pelo amor de Deus, o que foi que eu fiz contigo?
— Tu mentiu!
— Eu não menti, eu não namoro, eu não te quero em minha vida e eu mandei tu te afastar. É tu quem vive voltando.
— Como se tu não gostasse.
— Gostar? – você riu ironicamente. — Ninguém me conhecia nesse colégio e foi só você aparecer pra eu me tornar a namoradinha do que não tem namoradinha.
— Tu não é isso.
— É CLARO QUE EU NÃO SOU! Tu consegue entender, ou ver, o que tu fez comigo? Tu colocou uma porra de holofote muito brilhante em cima de mim, atraiu todas as atenções e olhares pra alguém que nunca teve… Tu… – você reteve as palavras, as deixando pela primeira vez aprisionadas em teu próprio pensamento invés de jogá-las em cima de mim.
Eu nunca te respondi, mas eu entendia, Júlia. Eu tinha desestabilizado toda a tua vida, que era completamente regrada. Eu tinha te tirado da invisibilidade e te tornado aquilo que tu tanto não queria ser: da minha laia. Era até aceitável que tu me odiasse por isso, mas, assim como tu, eu tinha virado o assunto mais comentado e nem era por ter ficado com uma outra menina gostosa, mas sim, por estar ligado em uma, que até então, as pessoas não sabiam nem o nome. Isso me fodeu, Júlia. Porque não só o Lê, mas todo mundo do colégio sabia que eu estava na tua e tu na minha, menos nós dois.
Você foi embora me deixando com as palavras soltas, o pensamento confuso e um nó cego na garganta.
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