Anna Júlia - Quisera Eu
4 Capítulo 4 - CORDAS.
Notas iniciais
Tu foi um grande problema em minha vida, Jerry, daqueles difíceis de resolver. No início era fácil perceber que éramos errados assim como dois mais dois são quatro, uma conta simples que com o passar dos dias se tornou uma daquelas equações medonhas que só de olhar a gente sabe que não vai conseguir encontrar a resposta. Eu nunca soube a tua resposta, ou te dar uma resposta. Justo eu, que sempre tive as palavras na ponta da língua e sabia muito bem o que responder para as pessoas numa discussão, não conseguia fazer o mesmo contigo. Meu raciocínio era lento quando tu estava do meu lado, Jerry. Você fazia as coisas funcionarem devagar, o mundo parecer um lugar agradável em que festas, bebidas e pegações eram a solução dos problemas. Essa não era a solução do nosso problema, que era justamente assumir que gostávamos um do outro. E isso era difícil, tanto para mim, que sempre pensei que nunca cairia em teu papinho barato, comprado em vários botecos de esquina, quanto pra ti, que sempre conseguiu as mulheres com essa lábia. Você era multidão, enquanto eu era escanteio, Jerry, só por isso era fácil afirmar que nunca seríamos um casal. A probabilidade era minúscula demais para ser levada em consideração. Mas eu passei a gostar de ti de um jeito que eu pensava não ser capaz de gostar de ninguém na vida. Por conta disso, eu lutava com meus demônios internos, que praticamente imploravam para que eu caísse, e resistia. Eu não queria ser mais uma na tua coleção de corações partidos, ou na de gurias que queriam apenas ficar contigo. Decidi, definitivamente, não ser nenhuma das duas, naquele dia, em que a Laura, mais uma vez, pulou em teu pescoço, beijando ele todo e te abraçando com força, durante o intervalo.
Eu estava conversando com a Rafa quando vi a cena. E por incrível que pareça, você também me viu e sorriu ao me ver, para logo depois, lançar um beijo na Laura. Fiquei encarando por um tempo, percebendo como ela te beijava com vontade e como você se aproveitava disso.
— Acho que alguém está com ciúmes – a Rafa falou, percebendo minha cara de pateta. Ignorei o que ela disse, assim como ignorei vocês dois, te guardando novamente num cantinho escuro do meu guarda-roupa, e fui comprar uma coxinha.
Mas não dava pra te ter escondido no escuro por muito tempo, porque tu sempre aparecia pra clarear as coisas. Dessa vez não foi diferente. — Oi — você soprou em meu ouvido, enquanto eu pegava a minha coxinha, o que me fez arrepiar dos pés à cabeça e tremer tanto, mas tanto, que meu lanche caiu. Virei completamente desconcertada para você, que sorria. — Sai da minha frente — falei. — A gente podia pelo menos tentar conversar feito duas pessoas normais — você ignorou totalmente o que eu tinha dito. — Eu não quero conversar contigo, guri. Pra minha sorte o sino tocou, te impedindo de retrucar. Me desviei de ti e fui pra sala, porém eu não consegui prestar atenção em mais nenhuma das aulas, e quando cheguei em casa, pensei que dormir pudesse me ajudar. Nem isso eu consegui. Meu celular tocou diversas vezes, e o nome do maldito sempre era “Não atenda”, ou seja, você. Foi quando tu me mandou uma sms, que eu, muito estúpida, abri: “Mesmo tendo a Laura nas mãos, eu ainda queria que fosse você”.
Filho de uma puta, foi tudo que consegui pensar. E logo em seguida, chegou outra mensagem: “É mais fácil lidar com toda a nicotina dos meus cigarros do que com uma guria feito tu”. Joguei o celular para longe, caso chegasse mais alguma daquelas mensagens idiotas, porém, invés disso, a campainha tocou, e era você, Jerry, seu grande filho de uma puta, babaca e idiota.
— O que tu quer? – perguntei ríspida.
— Tu tem alguma coisa que me faz voltar. Sempre – você me respondeu, se arrastando nas palavras.
— Tu tá bêbado?! – perguntei indignada. — Que porra.
— Eu só queria te ver… Pra saber se as coisas iriam melhorar só de olhar pra ti. Não sei se tu quer saber, mas melhoraram. Tu é uma bela visão.
Te olhei preocupada dessa vez, reparando em quão mal você parecia estar.
— Meu deus… – fechei a porta devagar, me aproximando mais de ti. — O que aconteceu contigo?
— Tu aconteceu comigo – disse, olhando no fundo dos meus olhos.
— Tu parece péssimo, vou pegar uma água pra ti – tentei me afastar, mas você segurou meu braço.
— Eu tenho um monte de motivo pra estar péssimo.
— Sou um deles? — perguntei receosa.
— Tu?! Tu nunca seria. Nem tu, nem toda a pinga que bebi. Tu tem raiva de mim, Júlia? – me perguntou em um devaneio desses de bêbados. Exalava álcool não só de tua boca, mas de todo teu corpo, Jerry. Eu nunca tinha te visto em um estado tão deprimente.
— Raiva de ti? Porque eu teria?
— Porque eu destruí tua vida, como tu mesma disse. Eu desestruturei tudo que tu tinha de concreto.
Sorri.
— Desculpa por isso, não era muito bem o que eu queria dizer.
Mentira. Tu tinha me fodido de todos os tons possíveis, e sabia disso.
— Era sim, não precisa consertar agora. Eu vi quando tu olhou eu e a Laura hoje.
— Eu não ligo, Jerry.
Outra mentira.
— Eu queria que tu ligasse, assim como eu ligo.
— E porque tu liga?
— Porque eu gosto de ti, da melhor maneira que isso possa soar.
— Tu gosta de ti mesmo, Jerry. E de mostrar pros outros que tu é capaz de ficar com a guria que quiser.
— Não fiquei contigo até hoje.
— É por isso que tu continua voltando. Porque tu fez uma promessa de que iria me fazer cair e eu não esqueci disso, mas eu não me deixei cair.
— Tu já caiu faz tempo, Júlia – você sorriu ao falar. — E quando tu percebeu que tinha caído tu quis soltar a corda e me deixou segurando ela sozinho. Tua ponta tá solta, só esperando que tu a agarre, mas tu não agarra e eu não quero soltar a minha porque vou esquecer o caminho que me leva até ti. Não quero perder isso também.
O mundo se desmoronou ao meu redor, junto com minha máscara de menina durona que nunca iria cair no teu papo.
— Tu pode me responder uma coisa? Com a maior sinceridade do mundo, Júlia?
Assenti.
— Tu pensa que eu sou um cara bom? Um cara realmente bom?
Fiquei te olhando alguns instantes antes de responder.
— Tu não precisa da minha opinião. Tu é que tem que te achar bom.
— Não foge da minha pergunta… – você fechou os olhos com força. — Não dessa.
— Não… – hesitei. – Não acho que tu seja, mas isso não quer dizer que acho que tu seja ruim.
— Meu pai é um cara bom.
— Teu pai?
Você confirmou com a cabeça.
— Tu tá certa, Júlia – você se aproximou de mim, o que fez meu coração bater mais forte que o normal. — Eu não sou um cara bom, e nunca vou ser. Nem pra ti.
— Jerry…
— Tu merece um cara bom, Júlia. Um cara que não apareça podre de bêbado na tua porta; um cara que valha a pena tu chorar numa madrugada e eu com certeza não sou esse cara, mas o Matheus deve ser. Tu merece ele, porque provavelmente ele não pega outra guria em tua frente só pra te fazer sentir – você se conteve. — Sabe? O cara que tu sonha em conhecer, e eu não sei se é o Matheus mesmo, mas sei que ele vai aparecer em tua vida. Porque ele é tão invisível quanto tu e por isso vocês vão dar certo… Porque eu sou todo errado, Júlia.
Sem mais nem menos, eu dei um passo para frente, nos deixando mais próximos ainda. Te abracei forte, enlaçando meus braços ao redor do meu pescoço e ficando na ponta dos pés, porque sou mais baixa que você. Você apertou minha cintura, afogando o rosto em meu ombro, sentindo o cheiro do meu cabelo. Ficamos assim por um tempo que não sei dizer se foi muito, ou se durou apenas alguns segundos. Acabei te soltando, o que fez nossas respirações se confundirem e nossos olhares se cruzarem um no do outro. A partir daquele momento, minhas decisões acabaram virando pontos de interrogações e reticencias. O mundo parou de girar aos poucos, o ar se tornou rarefeito, e tua boca, que tinha gosto de pinga e cigarros, era tudo que eu sentia.
— Eu vou soltar a corda – você sussurrou quando paramos de nos beijar, me dando as costas. Levando consigo uma parte de mim que eu nunca tinha conhecido, até tu aparecer para me mostrá-la.
Não fui atrás, não te pedi pra ficar, nem me esforcei para sequer gritar o teu nome e te impedir de continuar se afastando. Naquela hora eu era confusão, e enquanto uma parte de mim gritava e esperneava para que eu não te deixasse ir, a outra sussurrava dizendo que seria melhor, que as coisas iriam voltar ao normal, que minha vida seria a mesma de antes, sem toda a tua bagunça.
Porém, Jerry, eu tinha passado a gostar daquela bagunça. E eu não queria que ela fosse embora, ou se arrumasse. Eu queria as coisas zoneadas, eu queria aquele beijo de novo, que durante o tempo que durou, pareceu certo. Eu queria você, mas era covarde demais para admitir.
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