Anna Júlia - Quisera Eu

13 Capítulo 13 - Choque de realidade


A gente brigou naquele dia e eu nem me lembro direito o porquê. Só sei que tinha a ver com o que aconteceu na minha casa e as palavras do meu pai que me assombraram durante o resto da noite. Eu estraguei teu aniversário, Júlia. O primeiro – e único – aniversário teu que passamos juntos eu fiz questão de estragar, porque esse era o tipo de coisa que eu fazia. Eu não conseguia ver algo em minha vida dando certo que eu ia lá e arrumava uma maneira de fazer dar errado, e foi justamente o que fiz contigo. Tu era o que eu sempre desejei ter em minha vida, mas não soube cuidar quando tive. O tipo de guria que poderia ser considerada como acerto na loteria e mesmo assim eu te afastava de mim.

Fui pra casa do Lê pra esvaziar a cabeça e acabei encontrando a Laura por lá. Fazia tanto tempo que eu não trocava uma ideia com os dois juntos que nem parecia que éramos amigos mais. Não vou dizer que foi tua culpa eu ter me afastado dos meus amigos, Júlia, mas eu tava tão vidrado em ti, que cheguei em uma fase que só conseguia enxergar você em minha vida e mais ninguém, e enquanto isso tu continuava tendo as tuas amigas e vivendo no teu mundinho. Mas eu sabia que o problema de continuar vivendo no meu mundo seria te perder. Em um determinado momento eu tive de fazer uma escolha, você ou todas as festas, drogas, e meninas sem nome. Acontece que eu te escolhi, menina. Dentre tudo que eu tinha nas mãos, eu escolhi aquilo que mais me escapava.

— Olha só quem resolveu dar o ar das graças – o Lê brincou.

Me larguei no sofá da sala e dei um suspiro forte. Fechei os olhos e resolvi não pensar em nada, mas tu me veio na cabeça.

— Vocês brigaram né?! – o Lê voltou a falar.

Ignorei.

— Eu sei que tu só tá aqui porque vocês brigaram, cara. Não tem problema, é assim mesmo que acontece.

Abri os olhos e o encarei.

— É, Jer. A gente arruma uma minazinha pra chamar de nossa e esquecemos que temos outras coisas além delas. Aí quando elas nos fodem, a gente lembra das outras coisas – ele parou um segundo. — As coisas no caso sou eu e a Laura – apontou pra ela.

— Não esqueci de vocês dois.

— Ah, claro. Qual foi a última vez que tu saiu com a gente?

Demorei a responder porque na real eu não sabia a resposta.

— Só esqueci desse mundo que eu vivia. É diferente.

— Por causa dela – ele falou.

— Por causa dela – confirmei.

— E agora ela te fodeu.

— Tô fodido desde que nasci, Lê. Ela só piorou tudo.

— Tu realmente gosta dela hein, Jer – a Laura resolveu falar e a voz dela soou como música para os meus ouvidos.

Fiquei a encarando por um bom tempo, até que ela ficou sem graça.

— Seria tão mais fácil gostar de ti, Laura.

— Mas tu não gosta.

— A gente sempre gosta daquilo que mais fode com a nossa cabeça, puta que pariu – deitei a cabeça de novo no sofá.

— Vocês vão se acertar, Jer, fica tranquilo.

— Não tenho mais certeza disso, cara. Na verdade eu não sei se eu quero que a gente se acerte, entendeu?

— Peraí, QUE? – o Lê falou. — Tu tá tendo tipo dúvidas sobre o que sente por ela?

— Não, mano. Eu sei muito bem o que sinto por ela e não é pouca coisa. Mas às vezes é tão foda que dá vontade de desistir, cara. Sei lá. Eu só quero morrer.

— Tu não quer morrer, deixa de drama – a Laura falou.

— Tenho uma coisa perfeita pra te animar, porque esse assunto só vai se afundar mais ainda – ele se levantou e voltou minutos depois com uma paranga na mão.

O Lê bolou bem rápido e subimos pro telhado da casa dele. Ficamos fumando o beck e falando sobre qualquer assunto que não fosse você, Júlia. Me peguei olhando pra um ponto qualquer e agradecendo a quem quer que fosse por ter aqueles dois ali comigo, mesmo eu tendo ignorado a existência deles por um tempo. E também agradeci por te ter sempre disposta a abrir a porta para mim.

Juro pra ti que não sei como cheguei em tua casa nesse dia. Em um momento eu tava no telhado rindo de uma merda qualquer e no outro tava parado na tua porta, contigo me encarando com raiva no olhar. Era incrível como alguma coisa em ti sempre me puxava de volta.

— Tu precisa urgentemente parar de fazer esse tipo de coisa – você falou após me ver.

— Que coisa?! – perguntei lesado de toda aquela maconha.

— Me machucar e vir passar o merthiolate depois. Tu arde mais que essa porcaria de remédio, Jerry.

Sorri de canto pra ti.

Uma lágrima escorreu em teu rosto.

— Por que... – travei. — Porque tu tá chorando?

Eu não entendia o que tinha feito dessa vez, Júlia. Sabia muito bem que a gente tinha brigado e que eu não tinha o direito de aparecer assim, como se nada tivesse acontecido, mas...

— Não chora por minha causa, Júlia, por favor – falei me aproximando mais de você, que se afastou o mais rápido que pode.

— Se tu pudesse se olhar no espelho agora tu desejaria não estar aqui, Jer.

Passei por ti entrando em tua casa e fui até o espelho grande que ficava na parede da sala. Eu nem conseguia me enxergar direito na imagem do tanto que meus olhos estavam fechados e a minha visão embaçada, mas pude perceber o lixo humano que eu aparentava ser. Com toda certeza as pessoas na rua, ao passarem por mim, me confundiram com um mendigo. Eu tava deplorável, Júlia, e nem sabia te explicar como eu fiquei daquele jeito.

— Eu não sei o que aconteceu – falei devagar, ainda encarando meu reflexo.

— Tu nunca sabe, Jer. É a tua vida.

— Tu sabe que não é, Júlia – fui até você, que se encontrava parada entre o sofá e a televisão, com os braços cruzados. — Tu sabe muito bem que eu deixei minha vida de lado por tua causa – afirmei veemente.

— Tu tem certeza?

E você me calou.

— Tu me fode até quando não tem a intenção de fazer isso – falei quando senti a voz voltar.

Você deu de ombros, desviando o olhar do meu. Teus olhos estavam vermelhos de tanto chorar, os meus de fumar maconha.

— Me fala porque tu tá chorando, por favor.

— Por tua causa, Jer! – você gritou, me assustando.

— Tu não pode chorar por mim, cara. Chora por qualquer coisa, mas não por mim. Eu não mereço isso de ti.

Ficamos em silêncio, só olhando um pro outro, sem saber direito o que dizer ou até como nos mexermos.

— Olha pra mim, cara – abri os braços me expressando. — Olha bem pra mim! Eu sou um lixo, Júlia e tu merece alguém que te faça bem e não que te faça chorar! Eu odeio te deixar mal, mano, puta merda.

Tu segurou meu rosto e me beijou com força, fazendo tudo dentro de mim sumir por alguns instantes. Você me salvou de mim mesmo, guria, mas não conseguiu a salvar a si própria de mim e de tudo que eu despertava em ti. Porque eu te fazia tremer, se perguntar se valia a pena… Oscilar entre o querer e o não querer, e acabar querendo.

Quando paramos de nos beijar você disse algo que eu preferi fingir que não ouvi, mas que precisou ser dito.

— Eu vou embora, Jer.

Fiquei travado te olhando sem saber o que dizer ou falar.

— Pra onde... – gaguejei sem querer. — Pra onde tu vai?

Tu se conteve um instante.

— Estados Unidos.

Notas finais
eaii genteee, me digam oq estão achando!!! vcs podem falar comigo no twitter @ w_quiseraeu quinta feira posto maiss, beijinhos