Anna Júlia - Quisera Eu

14 Capítulo 14 - O dia


Você sabe o número melhor do que eu, Júlia. E você odeia o número tanto quanto eu.

Eu ouvi o que tu tinha me dito, só não podia ser real, não poderia estar acontecendo. Não era com a gente, e mesmo repetindo isso na minha cabeça, eu sentia os olhos cheios de lágrimas.

— JERRY – você gritou, estalando os dedos na frente do meu rosto para ver se eu demonstrava alguma reação. Pisquei os olhos com força e fiquei te encarando. — Tu ouviu o que eu disse?

Demorei mais do que deveria pra te responder, por um lado, devido ao efeito da maconha, e por outro, por não querer mesmo acreditar que aquilo era verdade.

— Ouvir eu ouvi, só não quero acreditar – fechei os olhos. — Se eu ficar assim, fingir que tu não tá aqui, não falar nada, nem eu e muito menos você, porque você não está aqui, isso vira sonho?

Fiquei com os olhos fechados por um tempo, até que você pegou minhas mãos e falou em sussurro.

— Jer...

— Não, tu não tá aqui – tapei o rosto com as mãos, só pra não sentir as tuas tocando nelas.

— Jer...

— Tu. Não. Está. Aqui. – falei pausadamente, como se isso fosse fazer com que tu realmente sumisse. — Eu te deixei em casa depois daquilo tudo. Eu tô sozinho. Eu tô na casa do Lê. Fumando com ele e com a Laura. Isso é só uma brisa.

— Não é brisa, Jer. Eu realmente tô aqui, na minha casa, e tu também. – Você tirou minhas mãos da frente dos meus olhos, me fazendo abri-los. — É real.

— Eu não quero que seja, tu quer?!

Você balançou a cabeça dizendo que não.

— Mas...

Parei de ouvir qualquer coisa que fosse que estivesse saindo da tua boca. Meu cérebro simplesmente renegou decifrar o monte de palavras que tu dizia e decidiu se focar em teus gestos, na tua movimentação, em ti. Foi quando eu descobri que eu era apaixonado por você, Júlia. Que por mais que eu não estivesse escutando mais nada do que tu me falava, eu amava ouvir tua voz. Amava o teu jeito de consertar o cabelo, colocando-o atrás da orelha. Eu era simplesmente apaixonado em como tu limpava os lábios ao perceber quão secos eles estavam. Tu me tirava a voz, os sentidos, os pensamentos e agora me tirava de ti também.

— Eu te amo – falei te cortando e te fazendo ficar tão espantada que nem soube o que me responder. — Eu te amo, Júlia. É isso aí. Eu amo tudo relacionado a você; gosto quando tu vem me contar sobre o teu dia, porque eu amo ouvir tua voz, e adoro ficar reparando o jeito que tu se mexe enquanto fala. Se tem uma coisa que eu sou louco é em ouvir tuas teorias malucas, ou só em ficar observando você dormir e, aliás, você ronca.

Você tentou me interromper, só para contradizer minha última frase, mas não deixei.

— Eu sou completamente louco por você, guria, eu gosto de tudo em ti, até daquilo que eu não gosto. Tu não pode me tirar isso, Júlia. Tu não pode ir embora — falei tão rápido que nem sei se tu entendeu alguma coisa. Você tentou me impedir de continuar, mas eu ignorei. — Eu sei que não sou o cara certo pra ti. Tô ligado que minha vida é uma zona e eu acabei transformando a tua em uma também, mas porra... Tu não pode simplesmente chegar, fazer com que eu me apaixone por ti e depois me dizer que tá indo morar na puta que pariu. Tu não pode cara!

Eu não queria ter elevado a voz para você, mas eu tava com raiva, Júlia, caralho. Eu tinha escutado do amor da minha vida que eu nunca mais ia vê-lo de novo. Ninguém te ensina a lidar com esse tipo de coisa.

— Tu tem noção de que eu vim aqui pra me acertar contigo e agora tu tá me dizendo que tá indo embora? Caralho... – balancei a cabeça em negativa.

— Jer... – você me abraçou com força me acalmando de um jeito que ninguém jamais tinha conseguido. Toda a raiva sumiu ao sentir o teu toque.

Ficamos assim não sei nem dizer por quanto tempo. Parecia que nenhum dos dois queria se desfazer do abraço, porque sabia que teria que encarar a realidade. Tu teria que me ouvir e eu teria que te deixar ir, mesmo não querendo.

— É isso que eu não quero perder – falei, cortando o silêncio. — Não quero perder essa paz que tu me dá. Tu é tipo uma droga e eu sou completamente viciado em ti – balancei a cabeça discordando daquela situação, e aproveitei para limpar uma lágrima que escorria.

— Se eu tivesse que escolher entre ficar o resto da minha vida contigo e viajar agora mesmo eu não pensaria duas vezes e escolhia você, Jer, mas não é assim que as coisas funcionam.

— Por que não, cara?! Se tu quer ficar comigo é só tu ficar.

Abri os braços me expressando, tentando demonstrar para você que a conta era bem simples. Se tu realmente quisesse, nada nem ninguém te impediria daquilo.

— Não piora a situação, por favor. Eu também tô sofrendo com isso. Eu gosto mais de ti do que gostaria, não pensa que tá sendo fácil pra mim imaginar que amanhã eu não vou poder te ligar te pedindo pra vir pra minha casa passar o dia comigo. Não tá, cara, não tá nada fácil.

E aí tu começou a chorar de novo e meu mundo caiu mais ainda.

Eu odeio ver qualquer pessoa chorando na minha frente, mas quando era você e quando era por minha causa... Eu só queria que um buraco fosse aberto no chão pra que eu pudesse me enfiar lá dentro só para não te ver triste.

— Cara... – te abracei. — A gente pode tentar – falei baixinho no teu ouvido. Isso te fez levantar a cabeça e me fitar curiosa. Olhei tão fundo nos teus olhos que foi o suficiente pro pingo de esperança que eu tinha se esvair. — Esquece – te soltei. — Não dá pra mim. Não dá pra te chamar de namorada se tu não tá aqui comigo de verdade.

Me sentei no sofá e fiquei fitando um ponto qualquer, depois de alguns minutos tu se aproximou e se sentou ao meu lado.

— Eu sei que tá foda...

— Mais que foda – te cortei.

— Ehh, tá mais que foda. Tá muito foda, eu sei muito bem disso. Pode ter certeza que tudo que tá passando na tua cabeça agora já passou na minha e continua passando. E tudo que tu tá sentindo eu também tô sentindo.

Peguei o maço de cigarros do meu bolso e acendi um. Eu precisava de alguma coisa pra me acalmar que não fosse você. Assim que coloquei o cigarro entre os dedos percebi o quanto eu tremia e tu, ao também notar, encostou as mãos nas minhas fazendo a tremedeira passar, me assustando mais ainda com o efeito que tu tinha sobre mim.

— Que dia tu vai?

Você novamente se reteve em me responder. Franzi o cenho pra ti e voltei a perguntar, dessa vez com mais força na voz.

— Que dia, Júlia?!

— Amanhã! – você soltou, se levantando, provavelmente pra esconder o rosto de mim.

Fiquei calado por um tempo, tentando digerir toda aquela situação.

— Há quanto tempo tu já pensava nisso? Tu nunca me disse, cara. Puta que pariu.

— Não foi assim, Jerry – você se virou. — Tu sabe que meus tios moram lá.

Te olhei sem entender.

— Eles me chamaram no dia do meu aniversário, tipo um presente.

— E tu não me falou nada? Tu deixou eu estragar o único aniversário teu que eu ia passar contigo aqui e não disse nada??

— Eu ainda não sabia, Jer!

— Caralho, Júlia... – balancei a cabeça renegando aquilo tudo. Eu sentia uma coisa muito ruim no peito e, naquele momento, eu só queria virar um espaço oco, sei lá.

— Vamos... – você falou receosa, e se sentou perto de mim novamente, depois de um tempo. — A gente pode tentar, Jer. A gente realmente pode.

— Eu odeio sentir saudade de ti, Júlia – te olhei, com os olhos cheios de lágrimas.

Não queria que tu me visse chorando ou que percebesse que no fundo eu era na verdade frouxo pra caralho. Mas não dava pra esconder o sentimento ruim que tava no meu peito só de pensar que tu tava indo embora. No dia seguinte.

— Odeio, odeio mesmo. Eu odiava ter que ir embora da tua casa, que só fica a três quarteirões da minha, imagina como eu vou me sentir sabendo que tu tá a milhares de quilômetros de distância de mim, cara! Eu não quero ficar na bad por saber que tu não tá aqui do lado e não quero que tu fique também.

Eu queria ficar contigo, Júlia. Queria que a gente tivesse tentado, mas eu sabia que uma hora eu iria acabar aprontando e ia te fazer muito mais mal do que bem. Já tava cansado de ouvir e ver relacionamento à distância de amigos meus e a história sempre terminava do mesmo jeito. A nossa, com certeza, não seria diferente. Porque eu sou eu e você é mil vezes melhor do que o cara que eu sonhei em ser. Não ia dar certo, disso eu tinha certeza.

— Não quero ter que ser obrigado a sentir saudade tua.

Você me abraçou tão forte que senti minha respiração falhar.

— Eu gosto tanto de ti... – você falou.

Meus olhos se fixaram em qualquer lugar, menos em ti. Nem o abraço que tu me dava eu fui capaz de retribuir, porque eu queria ver e sentir qualquer coisa que fosse, menos o teu toque e o teu olhar de tristeza.

— Que chega a doer – completei retribuindo o teu abraço. Te apertando com tanta força de volta que pude sentir tuas costelas estalarem. — Queria que desse certo...

— Mas não dá. Eu também sei que não dá – você falou com a voz rouca.

— Que eu fosse mais certo.

— Tu é certo – você disse, me olhando bem fundo. Com o olho apertado de tanto chorar. Passei a mão em teu rosto limpando a lágrima que escorria. — Tu é certo pra mim, ou pelo menos foi durante esse tempo.

— Eu tenho certeza de que isso que eu sinto por ti não vai sumir com o passar do tempo, muito menos diminuir como as pessoas falam. Eu nunca me senti assim com ninguém, Júlia; meu coração nunca palpitou forte a ponto de parecer que eu ia ter um infarto só em ouvir o nome de alguém. E eu nunca fiquei tão feliz em ver o sorriso de alguém igual eu fico quando vejo o teu – você sorriu, mesmo chorando. — É por isso que eu sei que tu é a certa pra mim e que vai continuar sendo, mesmo daqui 10, 20, 30 anos. Eu vou esperar por ti, cara. Eu juro que vou.

Tu me deu um selinho e eu voltei a falar.

— Quero que tu seja feliz, que tu corra atrás dos teus sonhos e eu sei que lá vai abrir muito mais portas pra ti do que qualquer lugar nesse país, então eu vou te deixar ir, com a esperança de que tu vai voltar.

— Eu vou voltar – você falou rouca, e assoou o nariz. — É claro que eu vou voltar.

— E eu vou estar aqui te esperando quando isso acontecer. Mas eu só quero que tu volte se tu achar que vale a pena e não porque a gente falou isso aqui. Espero que tu volte porque tu quer.

Você sorriu ao me ouvir falando aquelas coisas, por mais que no fundo elas doessem.

— Isso tá mesmo acontecendo né?

— É.

— A gente tá...

— Tá.

Ninguém queria falar a palavra.

— Uma hora ia ter que acontecer.

— Uhum.

— Só não achei que fosse ser assim – te olhei sem entender. — Numa boa.

— Pois é – sorri. — Tu me mudou, guria. Pra melhor – te beijei até esquecer o meu próprio nome.

No outro dia tu já ia estar dentro de um avião e eu não poderia mais fazer aquilo. Agora o certo era aproveitar os últimos minutos que tínhamos.

— Vou juntar uma grana e vou te visitar. Não vou pedir meu pai porque tu sabe, mas eu arrumo um trampo e aí vou pra lá. Se tu não quiser me ver não tem problema...

— Deixa de ser bobo – me deu um tapinha. — É claro que eu vou querer te ver.

— Te amo – te beijei.

— Te amo – você disse, pela primeira vez, quando paramos de nos beijar. Te olhei tão feliz e com tanto brilho nos olhos que a tristeza que invadia o meu corpo sumiu por poucos segundos. Tive que te beijar de novo e realmente esquecer que existia uma vida fora daquela casa e que ela insistia em nos afastar.

Ficamos apenas nós dois até o dia seguinte. Até tu pegar o avião e levar consigo uma parte de mim.