Anklebiters
1 Capítulo 1 - Não exatamente uma expulsão
Notas iniciais
Os corredores estavam vazios e silênciosos. É claro, todos os alunos estavam na sala. Era assim todo dia. Eu estava sentada no chão, encostada a parede, em um canto mais afastado. Tinha que terminar de ler aquilo em um minuto. A prova seria na próxima aula e eu não tinha estudado nada. Típico de mim, claro, tudo bem... mas eu realmente queria ir bem em pelo menos uma das matérias.
Era um dia completamente normal na escola. Eu vestia o uniforme de sempre, com a saia abaixo dos joelhos, cinza e feia. O casaco de lã também cinza era 3 tamanhos maiores que eu, por isso, eu puxava as mangas e deixava minhas mãos totalmente escondidas, me protegendo do frio. Li mais uma vez o quarto parágrafo... mais uma vez... mais uma vez. Eu estava tendo terríveis problemas em prestar atenção naquele livro. Era uma chatice sem fim de baboseiras que eu provavelmente nunca usaria na minha vida.
- Uh, veja quem está aqui...
Dei uma rápida olhada para cima só por hábito, já que eu não duvidava que a dona da voz anasalada fosse ela. O cabelo castanho longo caía liso, preso de lado por um enfeite de borboleta que não combinava com sua cara de porco. Ela usava o mesmo uniforme que eu, tirando pela saia, que era uns quatro números menores do que o recomendado para ela. Seus olhos pareciam muito mais perversos como no dia em que eu a conheci. Foi nessa mesma escola há uns 2 ou 3 anos, não tenho certeza. Agora a diferença é que é ela quem tem suas assistentes. Antes ela era a assistente. Era meio difícil imaginar Sophie Marie Lacerda de las Rosas Fontaine sendo uma assistente, mas acredite, era ela.
- Nicky feinha.
Ela disse meu apelido como se ele continuasse sendo engraçado. Sabe, ser chamada de "feinha" até pode ofender um pouco, no começo. Mas depois de anos sendo chamada por um apelido, você quase o considera parte de seu nome. Mas sim, era irritante. A praga do "Nicky feinha" tinha começado com uma loira irritante que tinha saído da escola há uns anos, lembro que Sophia era um tipo de cachorrinha de estimação dela e, depois que essa menina saiu da escola, Sophia ficou com seu posto de abelha rainha. Eu não me lembro o nome da loira, mas pense naqueles filmes americanos estilo high school. Sim, aqueles com armários, times de basquete e bailes. Agora pense na vilã desses filmes, na maioria deles ela é a loira malvada. Agora multiplique essa loira malvada por cinco. E pronto, essa era a antiga abelha rainha do "Instituto Joddine — Escola interna para garotas". Por quê uma menina riquinha como ela estava em uma escola como aquela eu nunca soube dizer. Tanto que a escola nem é tão má assim.
Quer dizer, é uma escola cara. Você gasta muito dinheiro para manter sua filha em uma escola dessas, mas é um bom preço a pagar para mantê-la longe o resto do ano. Indo para casa só nos feriados. Eu realmente prefiro ficar na escola nos feriados do que ir para casa. A sensação de estar sozinha naquele prédio enorme me atraía, por algum motivo. Bom, nunca estava sozinha, na verdade. As irmãs sempre estavam no prédio.
Sim, o Instituto Joddine é uma escola de freiras. Bem, não exatamente... você não vai ser uma freira, não vai aprender a fazer... essas coisas de freira. A escola é cuidada por freiras. Nossas professoras são freiras, enfim... O lugar é cheio de freiras, o que, na minha opinião, deixa tudo um pouco mais sinistro.
Resumidamente, a Escola Joddine era uma creche para meninas riquinhas como a Sophie-cara-de-porco.
E eu me lembro, todo santo dia, do por quê ter parado aqui. Como eu já disse, faz um certo tempo. Minha mãe simplesmente chegou um dia e disse: "Olá, querida! Consegui um novo emprego e agora colocarei você em uma ótima Escola interna em Mouthe, na França!" E eu só ouvi: "Certo, é isso, eu consegui um novo emprego e agora você vai para uma escola lá no quinto-dos-infernos".
Sabe, isso é bem irônico. Me referir a esse lugar como "quinto dos infernos", já que a escola é comandada por freiras. Sem tirar o fato de que eu estou congelando. Eu acho que o quinto dos infernos é mais quente que essa parte da França. Ah, não ligue para o que eu disse. A França é linda e tudo mais, mas sinto falta da Espanha.
- Uuuuh, Nicky está lendo — Ela puxou o livro das minhas mãos rapidamente. Me levantei, por impulso. Sophie riu, jogando o livro pela janela.
Ahn, ok. Tentativa frustrada de me irritar, sabe como é... jogar um livro que nem era meu pela janela não é o melhor jeito de me deixar brava.
- O que você quer, Sophie?
A expressão dela mudou de repente. Ela me olhou com muita raiva, como se tivesse acabado de lembrar o porquê de ter ido até ali falar comigo. Ela praticamente enfiou o dedo no meu olho, apontando para meu nariz.
- Eu ouvi dizer que você andou falando com o Éric e só queria esclarecer uma coisinha. Ele é meu, entendeu? O Éric é meu e você não vai pegar ele de mim, não com essa sua cara. Ouviu bem? Não adianta ficar em cima dele como uma cadela no cio. Você sabe que não tem chance contra mim.
- Chance? Do que você está falando, Sophie? Por acaso vai me desafiar no xadrez ou coisa parecida?
A pergunta veio na minha cabeça e, como na maioria das vezes, eu a soltei sem pensar. Mas era verdade. Ela era do meu tamanho. E, provavelmente, mais magra que eu, tirando pela cara de porco. Sophie não conseguiria me bater, de jeito nenhum. Bom, não sem suas amigas. Quando entrei na escola eu era bem diferente. Ela me trancava no armário, as vezes. Mas as coisas tinham mudado. É, uma escola de freiras com patricinhas pode te mudar muito.
Sophie agora tinha lágrimas nos olhos. Nunca a vira assim antes. Sorri, por que ia ficar dando uma de boazinha. Aquela menina me atormentava á anos e não é por causa de uma simples cena de novela mexicana que eu iria virar amiguinha dela e consolá-la.
Aí, de repente, ela agarrou minha blusa e bateu minhas costas contra o armário, apontando o dedo mais uma vez para minha cara.
- É só um pequeno aviso.
- Não que eu te deva satisfações, cara-de-porco, mas eu não saio da escola. E nós estudamos em uma escola para meninas. Meio improvável que tenha um Éric aqui.
- É o meu namorado, sua idiota.
- Tem certeza que é seu namorado? Escola só para garotas. Nada de meninos. Acho melhor checar uma certa coisa no Éric. Vai ver na verdade ele é Érica e você não está sabendo.
Ela abriu a boca em um perfeito "O", então me deu um belo de um tapa na cara. Ok, com certeza os dedinhos afiados da cara-de-porco ficariam marcados no meu rosto. E se você já levou um tapa na cara, mesmo que de brincadeira, sabe que é aí que seu orgulho e sua dignidade entra em jogo. E eu não sei dar tapa na cara. Fui direto no chute. Minha mãe sempre me disse que eu era meio moleque quando criança.
Sophie caiu para trás. Sua blusa estava suja por causa da sola do meu sapato. Ela se levantou e puxou o meu cabelo para trás com toda a força que podia. Ok, ela não era tãaao fraquinha assim e já estava bem preparada, se eu quisesse dar outro chute, ela iria se defender.
Droga. Se ao menos eu não tivesse o hábito de roer as unhas, quebrar, lixar e fazer todas aquelas merdas com elas, eu poderia muito bem arranhá-la agora. Ela soltou um pouco mais meu cabelo, mas continuou o puxando. Foi aí que vi minha chance. Minha mão estava livre.
"Ok... lembre-se daquele dia em que você estava assistindo luta livre internacional na TV, Dominique... ao menos faça isso direito".
Meu punho acertou seu queixo, um pouco de seu lábio. Ela soltou meu cabelo com o susto. Tinha uma fina linha de sangue escorrendo de um corte na boca.
- Isso não foi justo! — Ela disse, a voz um pouco estranha, ficando mais aguda. — Eu te dei um tapa, você me deu um soco! Madame Ellen, ela... ela...
Olhei para trás. Uma freira com uma expressão severa estava parada atrás de mim. Freiras parecem boazinhas, né? Nem sempre.
Putain de merde. Meu momento "Like a Boss" tinha acabado. Ela tinha provas de que eu havia batido nela. Eu só tinha uma marca qualquer no meu rosto e meu cabelo desarrumado para provar que fora ela quem começou a briga. E como, geralmente, meu cabelo estava sempre desarrumado, não duvidava nada de que não acreditariam em mim.
A única coisa que consegui dizer foi:
- É que tapa no rosto é gay demais para mim.
Não é uma coisa muito inteligente de dizer na frente de uma freira raivosa.
Agora eu estava andando pelo corredor atrás de Madame Ellen. Ela parecia muito, muito brava. Era como se eu estivesse andando direto para a minha morte. Mas era só a sala da Madame Consuela, que é tipo a chefona da escola. Ela é legal em comparação com Ellen-monstrenga-vai-comer-seu-fígado-no-café-da-manhã-se-você-fizer-bagunça.
- Acha que ela vai ser expulsa? — Ouvi uma dizer. Não tive certeza de quem era porque depois que eu dei um soco (merecido) em Sophie, tinha saído gente até do esgoto para ver o que estava acontecendo.
Entrei na sala. Me sentei na cadeira em frente a mesa. Madame Consuela parecia muito perigosa naquele momento.
- Senhorita Melièse.
- Ela mereceu!
- Não é por isso que está aqui, embora sua atitude fora completamente contra o intuito da Escola Joddine.
- Ah... Não?
- Não.
- Então por quê?
Madame Consuela respirou fundo umas três vezes, então suspirou. Me lançou um olhar misterioso.
- Chegou algo muito importante para vo...
A frase de impacto de Madame Consuela foi interrompida por um toque alto de celular. Aparentemente, alguém realmente gostava de ficar ouvindo Alvin e os Esquilos cantando Like a G6, porque ninguém atendeu. Madame Consuela tinha ficado vermelha. Então ela mexeu nas suas vestes longas de freira e tirou de lá um celular, apertou a tela e a música parou. Arqueei as sobrancelhas. Madame Consuela tinha um celular. E o toque de celular era Alvin e os Esquilos cantando Like a G6. Certo, não foi a coisa mais estranha que eu vi na vida, mas está na lista de bizarrices.
- Como eu estava dizendo, chegou algo muito importante para você. Uma carta, hum... como você deve saber, todas as cartas que chegam, nós supervisionamos e... lemos antes de entregarmos.
Estreitei os olhos. Não, eu não sabia daquilo. Bom, não fazia diferença mesmo, era a primeira vez que eu recebia uma carta. "Tomara que seja algo interessante. Uh-uh, tomara que seja uma carta me convidando para ser jurada no Ídolos!"
Ela me entregou uma folha já meio amassada. A peguei com receio. Li rapidamente, me levantando da cadeira a cada linha.
"Querida Dominique,
Primeiramente peço que não fique chatiada. Não fique irritada com as mulheres-freiras da sua escola, nem com as tiazinhas da cantina. Não grite, não chute, não bata em ninguém, não surte. O que eu tenho para te falar é muito, muito importante".
Certo, eu tinha ficado fora por uns três anos. E definitivamente eu tinha mudado durante esses três anos. Minha mãe não sabe nada sobre mim. Eu nunca iria gritar com as tiazinhas da cantina. Elas me dão comida. Eu gosto de comida!
"Essa carta é sobre seu pai. Sei que digo que ele estava morto desde que você tinha 4 anos. Lembra-se do dia em que você me perguntou pela primeira vez o que havia acontecido?"
Ora, é claro que eu me lembrava. Quando uma mãe diz para sua filha de 4 anos que seu pai fora abduzido por alienígenas tarados, não é algo que se esquece facilmente.
"Então. Serei direta e reta. Curta e grossa. Ele não está morto. E eu realmente acho que vocês devem se conhecer. Ter um relacionamento de pai e filha. É por isso que você está indo para a casa dele em Buenos Aires
Com amor, sua mãe, Lúcia".
- Putain de merde! — Exclamei com os olhos arregalados, me levantando da cadeira brutalmente e a derrubando, sem querer.
- Cuidado com seu palavreado, menina. Sabe o que fazemos com bocas-sujas. Nós a lavamos com água sanitária.
Me sentei de novo e prometi não falar mais nenhum palavrão. Eu nem sabia o que sentir naquela hora.
Raiva? Sim.
Raiva por ela não ter me contado antes. Por me ter feito acreditar na história dos alienigenas tarados. E por estar me fazendo ir para a casa dele, de repente.
Certo, eu nunca acreditei na dos ET'S. Mas depois ela me contara sobre ele ter sido atropelado por um ônibus. Essa era mais realista.
- O que eu faço agora?
- Arrume suas malas. Sua mãe já comprou sua passagem. Você vai amanhã.
- Hahaha, engraçado, Madame Consuela. Mas eu não vou á lugar algum.
- Ah, vai sim. Não vamos desobecer ordens de sua responsável. Além do mais... ela já cancelou seu cadastro nessa escola.
- Ela fez o quê?
- Ela cancelou seu cadas...
- Foi uma pergunta retórica.
Maudit. Por que ninguém liga para o que eu penso? Ora, isso não importa, não é? "Vamos simplesmente ficar mandando a Domi para os quatro cantos do mundo. Que tal ela conhecer o pai que achava que estava morto? Oh, sim, tenho certeza que ela vai adorar."
- Putain de merde — Murmurei, mais uma vez, me dando conta que eu realmente teria que ir para a casa dele.
- Eu já disse que não permitimos esse vocabulário.
- Que se dane, Madame Consuela. Eu não sou mais aluna daqui.
~
Tirei aquele uniforme horrível. Coloquei uma calça jeans e uma jaqueta. Peguei minhas malas. Desci as escadas dos dormitórios. Fiz de tudo para que a notícia não se espalhasse pela Escola Joddine. Ninguém precisava saber sobre minha vida, e mesmo que eu não fosse popular (Coisa que eu certamente não sou. No máximo, sou conhecida por já ter arranjado briga com uns moleques chatos da minha idade e por ir muitas, muitas, muitas vezes para a diretoria).
Um carro me esperava. Entrei em silêncio, ele só iria me levar até o aeroporto. Coloquei os fones de ouvido em uma música triste, combinando perfeitamente com o momento. Olhei para o lado de fora da janela. Fingi estar em um clipe depressivo.
Observei bem o prédio da escola ficando cada vez mais longe. Até que o perdi de vista. Seria uma viagem de 15 horas. 15 horas dentro de um avião. Eu nunca tinha andado de avião.
Remexi os bolsos de minha mochila e achei um caderninho. Peguei uma caneta qualquer que estava no porta-luvas do carro. Tentei ver as vantagens em tudo isso. Eu não teria que olhar para a cara de porco por um tempo. Eu podia arranjar novas amizades. Eu podia descobrir o nome do meu pai (Acreditem ou não, nem isso minha mãe me disse naquela carta e eu nunca parei para perguntar). Eu iria conhecer Buenos Aires.
Não consegui pensar em uma quinta vantagem. "Deixa pra lá, depois eu penso nisso". Joguei o caderninho dentro de uma das malas. Desci do carro, não agradeci ao motorista, o que foi um pouco mal-educado, mas eu estava ocupada demais para isso.
Achei meu assento no avião e fui para lá. Ficava bem ao lado da janela. Peguei uma revista qualquer dentro da minha mala e comecei a folheá-la. Pensei em como eu poderia ficar 15 horas sentada em um avião. Sem mexer em nada. Sem fazer nada. Me lembro de quando eu ia para a sala de Madame Consuela e ela simplesmente me perguntava: "Você não consegue ficar quieta? Fique sentada e não quebre nada!"
- Oi — Disse alguém do meu lado. Certo, era exatamente o que eu precisava: Um colega de assento chato, que não vai ficar quieto a viagem toda. Uma menina que devia ter minha idade, com os cabelos louro-claro presos em um rabo-de-cavalo e parecia ter um rosto meio "artificial" se sentou do meu lado. Ela fuçou na sua bolsa e retocou o gloss.
- Indo embora ou voltando para casa?
- Como? — Perguntei.
- Você está indo embora da sua casa na França ou está voltando para sua casa em Buenos Aires?
Ai meu cerébro. Que pergunta confusa.
- Hum, eu estou indo morar em Buenos Aires por um tempo.
- Interessante — Ela disse, não parecendo muito interessada. — Tem família lá?
- O que é isso, um interrogatório? — Murmurei. Ela sorriu.
- Estou indo para Buenos Aires para dizer á um garoto que eu o amo, antes que ele se case com a pessoa errada. Essa viagem vai mudar minha vida para sempre — Ela não parecia muito preocupada. — E você?
Dei de ombros.
- Só viagem mesmo. Nada muito interessante.
Não, nada muito interessante. Só estou indo morar com meu pai que eu pensei que estava morto. Super normal, sabe...
E depois de 15 longas horas sentada em um avião, finalmente pousamos em Buenos Aires.
~
Eu estava num carro com um tal de Ramalho. Ele disse que trabalhava para meu pai, que descobri se chamar Germán. Eu realmente torci para que Ramalho estivesse falando a verdade e não fosse um pedófilo ou algo do tipo.
- Você lembra muito Germán — Ele disse.
Olhei para meus sapatos. Bom, é claro que fiquei sem graça com a comparação. Mas se eu realmente era parecida com Germán, então Germán devia ser bem bonito. O que? Eu sou uma garota de autoestima, poxa.
- Ele é casado? — Perguntei num fio de voz. Era estranho que eu estivesse tão calada desde que Ramalho começara a falar sobre Buenos Aires, sobre meu pai e tudo mais.
- Ele tem uma noiva, Angie. E já foi casado com Maria, mãe de Violetta.
Acho que meu cerébro parou por um momento. Meu coração também não devia estar funcionando direito. Eu esperei que meus ouvidos também não.
- Germán tem uma filha?
- Na verdade, tem duas filhas.
- DUAS FILHAS?
- Violetta e você.
Certo. Eu já estava prevendo. Germán era um daqueles empresários milionários, Violetta devia ser algo bem parecido com Sophie. Riquinha. Metida. Insuportável.
"Por favor, que ela não seja nada disso. Que ela não seja nada disso".
A casa era enorme. Enorme mesmo. Ramalho segurava minhas malas, a cena até seria engraçada se eu não estivesse com tanto medo. Minhas pernas? Pareciam gelatina. Meu coração? Já devia ter parado faz tempo.
Respirei fundo umas cinco vezes. O que eu falaria para ele? Eu não poderia simplesmente bater na porta e dizer "Olá, meu nome é Dominique. Ah, a propósito, eu sou sua filha". Toquei a campainha. Meu coração estava saindo pela minha garganta. Ramalho olhava ansioso para a porta, mas não tanto quanto eu. Minha mão tremia. Minhas pernas tremiam. Até meu cérebro tremia.
Ouvimos um barulho dentro da casa, como se um atropelasse o outro para atender a porta. Quem abriu foi uma mulher. Ela era branca e seu olhar mostrava gentileza, como se ela fosse um anjo ou algo assim. Seus cabelos caiam lisos e cacheados no final, louros. Ela estendeu a mão e eu a apertei. Percebi que a mulher também tremia, mesmo demonstrando tanta calma.
- Olá, Dominique. Meu nome é Angie.
Logo atrás, uma mulher meio gorducha usava um avental colorido. Seu cabelo era enrrolado de uma maneira esquisita. Ela me olhou meio estranho, mas estendeu a mão. Seu nome era Olga.
Acho que o pior foi apertar a mão da menina. Eu diria que ela se parecia muito com Angie. Segurava um caderninho de capa roxa em uma das mãos. Com a outra, ela me cumprimentou, tremendo também e mais pálida que papel.
- Violetta? — Disse eu, adivinhando. Ela só assentiu e entrou de novo na casa, tímida.
Mas na verdade, o pior mesmo foi cumprimentar o homem. Ele era alto, parecia forte. Cabelos escuros e olhos escuros. Bonito. Me olhou como se eu fosse um fantasma. Eu o olhei como se fosse um fantasma. Todos nós nos olhamos como se fossemos fantasmas, e no meio dessa troca de olhares, eu sorri minimamente. Era ele. Estendi a mão, que ele apertou trêmulo.
- Sou Dominique Melièse — Disse. — Filha de Lúcia.
Os corredores estavam vazios e silênciosos. É claro, todos os alunos estavam na sala. Era assim todo dia. Eu estava sentada no chão, encostada a parede, em um canto mais afastado. Tinha que terminar de ler aquilo em um minuto. A prova seria na próxima aula e eu não tinha estudado nada. Típico de mim, claro, tudo bem... mas eu realmente queria ir bem em pelo menos uma das matérias.
Era um dia completamente normal na escola. Eu vestia o uniforme de sempre, com a saia abaixo dos joelhos, cinza e feia. O casaco de lã também cinza era 3 tamanhos maiores que eu, por isso, eu puxava as mangas e deixava minhas mãos totalmente escondidas, me protegendo do frio. Li mais uma vez o quarto parágrafo... mais uma vez... mais uma vez. Eu estava tendo terríveis problemas em prestar atenção naquele livro. Era uma chatice sem fim de baboseiras que eu provavelmente nunca usaria na minha vida.
— Uh, veja quem está aqui...
Dei uma rápida olhada para cima só por hábito, já que eu não duvidava que a dona da voz anasalada fosse ela. O cabelo castanho longo caía liso, preso de lado por um enfeite de borboleta que não combinava com sua cara de porco. Ela usava o mesmo uniforme que eu, tirando pela saia, que era uns quatro números menores do que o recomendado para ela. Seus olhos pareciam muito mais perversos como no dia em que eu a conheci. Foi nessa mesma escola há uns 2 ou 3 anos, não tenho certeza. Agora a diferença é que é ela quem tem suas assistentes. Antes ela era a assistente. Era meio difícil imaginar Sophie Marie Lacerda de las Rosas Fontaine sendo uma assistente, mas acredite, era ela.
— Nicky feinha.
Ela disse meu apelido como se ele continuasse sendo engraçado. Sabe, ser chamada de "feinha" até pode ofender um pouco, no começo. Mas depois de anos sendo chamada por um apelido, você quase o considera parte de seu nome. Mas sim, era irritante. A praga do "Nicky feinha" tinha começado com uma loira irritante que tinha saído da escola há uns anos, lembro que Sophia era um tipo de cachorrinha de estimação dela e, depois que essa menina saiu da escola, Sophia ficou com seu posto de abelha rainha. Eu não me lembro o nome da loira, mas pense naqueles filmes americanos estilo high school. Sim, aqueles com armários, times de basquete e bailes.
Agora pense na vilã desses filmes, na maioria deles ela é a loira malvada. Agora multiplique essa loira malvada por cinco. E pronto, essa era a antiga abelha rainha do "Instituto Joddine — Escola interna para garotas". Por quê uma menina riquinha como ela estava em uma escola como aquela eu nunca soube dizer. Tanto que a escola nem é tão má assim.
Quer dizer, é uma escola cara. Você gasta muito dinheiro para manter sua filha em uma escola dessas, mas é um bom preço a pagar para mantê-la longe o resto do ano. Indo para casa só nos feriados. Eu realmente prefiro ficar na escola nos feriados do que ir para casa. A sensação de estar sozinha naquele prédio enorme me atraía, por algum motivo. Bom, nunca estava sozinha, na verdade. As irmãs sempre estavam no prédio.
Sim, o Instituto Joddine é uma escola de freiras. Bem, não exatamente... você não vai ser uma freira, não vai aprender a fazer... essas coisas de freira. A escola é cuidada por freiras. Nossas professoras são freiras, enfim... O lugar é cheio de freiras, o que, na minha opinião, deixa tudo um pouco mais sinistro.
Resumidamente, a Escola Joddine era uma creche para meninas riquinhas como a Sophie-cara-de-porco.
E eu me lembro, todo santo dia, do por quê ter parado aqui. Como eu já disse, faz um certo tempo. Minha mãe simplesmente chegou um dia e disse: "Olá, querida! Consegui um novo emprego e agora colocarei você em uma ótima Escola interna em Mouthe, na França!" E eu só ouvi: "Certo, é isso, eu consegui um novo emprego e agora você vai para uma escola lá no quinto-dos-infernos".
Sabe, isso é bem irônico. Me referir a esse lugar como "quinto dos infernos", já que a escola é comandada por freiras. Sem tirar o fato de que eu estou congelando. Eu acho que o quinto dos infernos é mais quente que essa parte da França. Ah, não ligue para o que eu disse. A França é linda e tudo mais, mas sinto falta da Espanha.
- Uuuuh, Nicky está lendo — Ela puxou o livro das minhas mãos rapidamente. Me levantei, por impulso. Sophie riu, jogando o livro pela janela.
Ahn, ok. Tentativa frustrada de me irritar, sabe como é... jogar um livro que nem era meu pela janela não é o melhor jeito de me deixar brava.
- O que você quer, Sophie?
A expressão dela mudou de repente. Ela me olhou com muita raiva, como se tivesse acabado de lembrar o porquê de ter ido até ali falar comigo. Ela praticamente enfiou o dedo no meu olho, apontando para meu nariz.
- Eu ouvi dizer que você andou falando com o Éric e só queria esclarecer uma coisinha. Ele é meu, entendeu? O Éric é meu e você não vai pegar ele de mim, não com essa sua cara. Ouviu bem? Não adianta ficar em cima dele como uma cadela no cio. Você sabe que não tem chance contra mim.
- Chance? Do que você está falando, Sophie? Por acaso vai me desafiar no xadrez ou coisa parecida? Ou já esqueceu que ano passado você decidiu brigar comigo e eu acabei quebrando seu nariz?
A pergunta veio na minha cabeça e, como na maioria das vezes, eu a soltei sem pensar. Mas era verdade. Ela era do meu tamanho. E, provavelmente, mais magra que eu, tirando pela cara de porco. Sophie não conseguiria me bater, de jeito nenhum. Bom, não sem suas amigas.
Quando entrei na escola eu era bem diferente. Ela me trancava no armário, as vezes. Mas as coisas tinham mudado. É, uma escola de freiras com patricinhas pode te mudar muito.
Sophie agora tinha lágrimas nos olhos. Nunca a vira assim antes. Sorri, por que ia ficar dando uma de boazinha. Aquela menina me atormentava á anos e não é por causa de uma simples cena de novela mexicana que eu iria virar amiguinha dela e consolá-la.
Aí, de repente, ela agarrou minha blusa e bateu minhas costas contra o armário, apontando o dedo mais uma vez para minha cara.
- É só um pequeno aviso.
- Não que eu te deva satisfações, cara-de-porco, mas eu não saio da escola. E nós estudamos em uma escola para meninas. Meio improvável que tenha um Éric aqui.
- É o meu namorado, sua idiota.
- Tem certeza que é seu namorado? Escola só para garotas. Nada de meninos. Acho melhor checar uma certa coisa no Éric. Vai ver na verdade ele é Érica e você não está sabendo.
Ela abriu a boca em um perfeito "O", então me deu um belo de um tapa na cara. Ok, com certeza os dedinhos afiados da cara-de-porco ficariam marcados no meu rosto. E se você já levou um tapa na cara, mesmo que de brincadeira, sabe que é aí que seu orgulho e sua dignidade entra em jogo. E eu não sei dar tapa na cara. Fui direto no chute. Minha mãe sempre me disse que eu era meio moleque quando criança.
Sophie caiu para trás. Sua blusa estava suja por causa da sola do meu sapato. Ela se levantou e puxou o meu cabelo para trás com toda a força que podia. Ok, ela não era tãaao fraquinha assim e já estava bem preparada, se eu quisesse dar outro chute, ela iria se defender.
Droga. Se ao menos eu não tivesse o hábito de roer as unhas, quebrar, lixar e fazer todas aquelas merdas com elas, eu poderia muito bem arranhá-la agora. Ela soltou um pouco mais meu cabelo, mas continuou o puxando. Foi aí que vi minha chance. Minha mão estava livre.
"Ok... lembre-se daquele dia em que você estava assistindo luta livre internacional na TV, Dominique... ao menos faça isso direito".
Meu punho acertou seu queixo, um pouco de seu lábio. Ela soltou meu cabelo com o susto. Tinha uma fina linha de sangue escorrendo de um corte na boca.
- Isso não foi justo! — Ela disse, a voz um pouco estranha, ficando mais aguda. — Eu te dei um tapa, você me deu um soco! Madame Ellen, ela... ela...
Olhei para trás. Uma freira com uma expressão severa estava parada atrás de mim. Freiras parecem boazinhas, né? Nem sempre.
Putain de merde. Meu momento "Like a Boss" tinha acabado. Ela tinha provas de que eu havia batido nela. Eu só tinha uma marca qualquer no meu rosto e meu cabelo desarrumado para provar que fora ela quem começou a briga. E como, geralmente, meu cabelo estava sempre desarrumado, não duvidava nada de que não acreditariam em mim.
A única coisa que consegui dizer foi:
- É que tapa no rosto é gay demais para mim.
Não é uma coisa muito inteligente de dizer na frente de uma freira raivosa.
Agora eu estava andando pelo corredor atrás de Madame Ellen. Ela parecia muito, muito brava. Era como se eu estivesse andando direto para a minha morte. Mas era só a sala da Madame Consuela, que é tipo a chefona da escola. Ela é legal em comparação com Ellen-monstrenga-vai-comer-seu-fígado-no-café-da-manhã-se-você-fizer-bagunça.
- Acha que ela vai ser expulsa? — Ouvi uma dizer. Não tive certeza de quem era porque depois que eu dei um soco (merecido) em Sophie, tinha saído gente até do esgoto para ver o que estava acontecendo.
Entrei na sala. Me sentei na cadeira em frente a mesa. Madame Consuela parecia muito perigosa naquele momento.
- Senhorita Melièse.
- Ela mereceu!
- Quem mereceu? Melièse, andou brigando com outra menina de novo? Bem, isso não importa. Você não está aqui por causa disso.
- Ah... Não?
- Não.
- Então tá.
Madame Consuela respirou fundo umas três vezes, então suspirou. Me lançou um olhar misterioso.
- Chegou algo muito importante para vo...
A frase de impacto de Madame Consuela foi interrompida por um toque alto de celular. Aparentemente, alguém realmente gostava de ficar ouvindo Alvin e os Esquilos cantando Like a G6, porque ninguém atendeu. Madame Consuela tinha ficado vermelha. Então ela mexeu nas suas vestes longas de freira e tirou de lá um celular, apertou a tela e a música parou. Arqueei as sobrancelhas. Madame Consuela tinha um celular. E o toque de celular era Alvin e os Esquilos cantando Like a G6. Certo, não foi a coisa mais estranha que eu vi na vida, mas está na lista de bizarrices.
- Como eu estava dizendo, chegou algo muito importante para você. Uma carta, hum... como você deve saber, todas as cartas que chegam, nós supervisionamos e... lemos antes de entregarmos.
Estreitei os olhos. Não, eu não sabia daquilo. Bom, não fazia diferença mesmo, era a primeira vez que eu recebia uma carta. "Tomara que seja algo interessante. Uh-uh, tomara que seja uma carta me convidando para ser jurada no Ídolos!"
Ela me entregou uma folha já meio amassada. A peguei com receio. Li rapidamente, me levantando da cadeira a cada linha.
"Querida Dominique,
Primeiramente peço que não fique chatiada. Não fique irritada com as mulheres-freiras da sua escola, nem com as tiazinhas da cantina. Não grite, não chute, não bata em ninguém, não surte. O que eu tenho para te falar é muito, muito importante".
Certo, eu tinha ficado fora por uns três anos. E definitivamente eu tinha mudado durante esses três anos. Minha mãe não sabe nada sobre mim. Eu nunca iria gritar com as tiazinhas da cantina. Elas me dão comida. Eu gosto de comida!
"Essa carta é sobre seu pai. Sei que digo que ele estava morto desde que você tinha 4 anos. Lembra-se do dia em que você me perguntou pela primeira vez o que havia acontecido?"
Ora, é claro que eu me lembrava. Quando uma mãe diz para sua filha de 4 anos que seu pai fora abduzido por alienígenas tarados, não é algo que dessa criança vai esquecer facilmente.
"Então. Serei direta e reta. Curta e grossa. Ele não está morto. E eu realmente acho que vocês devem se conhecer. Ter um relacionamento de pai e filha. É por isso que você está indo para a casa dele em Buenos Aires
Com amor, sua mãe, Lúcia".
- Putain de merde! — Exclamei com os olhos arregalados, me levantando da cadeira brutalmente e a derrubando, sem querer.
- Cuidado com seu palavreado, menina. Sabe o que fazemos com bocas-sujas. Nós a lavamos com água sanitária.
Me sentei de novo. Eu nem sabia o que sentir naquela hora.
Raiva? Sim.
Raiva por ela não ter me contado antes. Por me ter feito acreditar na história dos alienigenas tarados. E por estar me fazendo ir para a casa dele, de repente.
Certo, eu nunca acreditei na dos ET'S. Mas depois ela me contara sobre ele ter sido atropelado por um ônibus. Essa era mais realista.
- O que eu faço agora?
- Arrume suas malas. Sua mãe já comprou sua passagem. Você vai amanhã.
- Hahaha, engraçado, Madame Consuela. Mas eu não vou á lugar algum.
- Ah, vai sim. Não vamos desobecer ordens de sua responsável. Além do mais... ela já cancelou seu cadastro nessa escola.
- Ela fez o quê?
- Ela cancelou seu cadas...
- Foi uma pergunta retórica.
Maudit. Por que ninguém liga para o que eu penso? Ora, isso não importa, não é? "Vamos simplesmente ficar mandando a Domi para os quatro cantos do mundo. Que tal ela conhecer o pai que achava que estava morto? Oh, sim, tenho certeza que ela vai adorar."
- Putain de merde — Murmurei, mais uma vez, me dando conta que eu realmente teria que ir para a casa dele.
- Eu já disse que não permitimos esse vocabulário.
- Que se dane, Madame Consuela. Eu não sou mais aluna daqui.
~
Tirei aquele uniforme horrível. Coloquei uma calça jeans e uma jaqueta. (http://www.polyvore.com/dominique_meli%C3%A8se/set?id=84505737) Peguei minhas malas. Desci as escadas dos dormitórios. Fiz de tudo para que a notícia não se espalhasse pela Escola Joddine. Ninguém precisava saber sobre minha vida, e mesmo que eu não fosse popular (Coisa que eu certamente não sou. No máximo, sou conhecida por já ter arranjado briga com uns moleques chatos da minha idade e por ir muitas, muitas, muitas vezes para a diretoria).
Um carro me esperava. Entrei em silêncio, ele só iria me levar até o aeroporto. Coloquei os fones de ouvido em uma música triste, combinando perfeitamente com o momento. Olhei para o lado de fora da janela. Fingi estar em um clipe depressivo.
Observei bem o prédio da escola ficando cada vez mais longe. Até que o perdi de vista. Seria uma viagem de 15 horas. 15 horas dentro de um avião. Eu nunca tinha andado de avião.
Remexi os bolsos de minha mochila e achei um caderninho. Peguei uma caneta qualquer que estava no porta-luvas do carro. Tentei ver as vantagens em tudo isso. Eu não teria que olhar para a cara de porco por um tempo. Eu podia arranjar novas amizades. Eu podia descobrir o nome do meu pai (Acreditem ou não, nem isso minha mãe me disse naquela carta e eu nunca parei para perguntar). Eu iria conhecer Buenos Aires.
Não consegui pensar em uma quinta vantagem. "Deixa pra lá, depois eu penso nisso". Joguei o caderninho dentro de uma das malas. Desci do carro, não agradeci ao motorista, o que foi um pouco mal-educado, mas eu estava ocupada demais para isso.
Achei meu assento no avião e fui para lá. Ficava bem ao lado da janela. Peguei uma revista qualquer dentro da minha mala e comecei a folheá-la. Pensei em como eu poderia ficar 15 horas sentada em um avião. Sem mexer em nada. Sem fazer nada. Me lembro de quando eu ia para a sala de Madame Consuela e ela simplesmente me perguntava: "Você não consegue ficar quieta? Fique sentada e não quebre nada!"
- Oi — Disse alguém do meu lado. Certo, era exatamente o que eu precisava: Um colega de assento chato, que não vai ficar quieto a viagem toda. Uma menina que devia ter minha idade, com os cabelos louro-claro presos em um rabo-de-cavalo e parecia ter um rosto meio "artificial" se sentou do meu lado. Ela fuçou na sua bolsa e retocou o gloss.
- Indo embora ou voltando para casa?
- Como? — Perguntei.
- Você está indo embora da sua casa na França ou está voltando para sua casa em Buenos Aires?
Ai meu cerébro. Que pergunta confusa.
- Hum, eu estou indo morar em Buenos Aires por um tempo.
- Interessante — Ela disse, não parecendo muito interessada. — Tem família lá?
- O que é isso, um interrogatório? — Murmurei. Ela sorriu.
- Estou indo para Buenos Aires para dizer á um garoto que eu o amo, antes que ele se case com a pessoa errada. Essa viagem vai mudar minha vida para sempre — Ela não parecia muito preocupada. — E você?
Dei de ombros.
- Só viagem mesmo. Nada muito interessante.
Não, nada muito interessante. Só estou indo morar com meu pai que eu pensei que estava morto. Super normal, sabe...
E depois de 15 longas horas sentada em um avião, finalmente pousamos em Buenos Aires.
~
Eu estava num carro com um tal de Ramalho. Ele disse que trabalhava para meu pai, que descobri se chamar Germán. Eu realmente torci para que Ramalho estivesse falando a verdade e não fosse um pedófilo ou algo do tipo.
- Você lembra muito Germán — Ele disse.
Olhei para meus sapatos. Bom, é claro que fiquei sem graça com a comparação. Mas se eu realmente era parecida com Germán, então Germán devia ser bem bonito. O que? Eu sou uma garota de autoestima, poxa.
- Ele é casado? — Perguntei num fio de voz. Era estranho que eu estivesse tão calada desde que Ramalho começara a falar sobre Buenos Aires, sobre meu pai e tudo mais.
- Ele tem uma noiva, Angie. E já foi casado com Maria, mãe de Violetta.
Acho que meu cerébro parou por um momento. Meu coração também não devia estar funcionando direito. Eu esperei que meus ouvidos também não.
- Germán tem uma filha?
- Na verdade, tem duas filhas.
- DUAS FILHAS?
- Violetta e você.
Certo. Eu já estava prevendo. Germán era um daqueles empresários milionários, Violetta devia ser algo bem parecido com Sophie. Riquinha. Metida. Insuportável.
"Espero que ela não seja nada disso" Pensei.
A casa era enorme. Enorme mesmo. Ramalho segurava minhas malas, a cena até seria engraçada se eu não estivesse com tanto medo. Minhas pernas? Pareciam gelatina. Meu coração? Já devia ter parado faz tempo.
Respirei fundo umas cinco vezes. O que eu falaria para ele? Eu não poderia simplesmente bater na porta e dizer "Olá, meu nome é Dominique. Ah, a propósito, eu sou sua filha". Toquei a campainha. Meu coração estava saindo pela minha garganta. Ramalho olhava ansioso para a porta, mas não tanto quanto eu. Minha mão tremia. Minhas pernas tremiam. Até meu cérebro tremia.
Ouvimos um barulho dentro da casa, como se um atropelasse o outro para atender a porta. Quem abriu foi uma mulher. Ela era branca e seu olhar mostrava gentileza, como se ela fosse um anjo ou algo assim. Seus cabelos caiam lisos e cacheados no final, louros. Ela estendeu a mão e eu a apertei. Percebi que a mulher também tremia, mesmo demonstrando tanta calma.
- Olá, Dominique. Meu nome é Angie.
Logo atrás, uma mulher meio gorducha usava um avental colorido. Seu cabelo era enrrolado de uma maneira esquisita. Ela me olhou meio estranho, mas estendeu a mão. Seu nome era Olga.
Acho que o pior foi apertar a mão da menina. Eu diria que ela se parecia muito com Angie. Segurava um caderninho de capa roxa em uma das mãos. Com a outra, ela me cumprimentou, tremendo também e mais pálida que papel.
- Violetta? — Disse eu, adivinhando. Ela só assentiu e entrou de novo na casa, tímida.
Mas na verdade, o pior mesmo foi cumprimentar o homem. Ele era alto, parecia forte. Cabelos escuros e olhos escuros. Bonito. Me olhou como se eu fosse um fantasma. Eu o olhei como se fosse um fantasma. Todos nós nos olhamos como se fossemos fantasmas, e no meio dessa troca de olhares, eu sorri minimamente. Era ele. Estendi a mão, que ele apertou trêmulo.
- Sou Dominique Melièse — Disse. — Filha de Lúcia.
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