Anjos da Morte
1 I
Acordei assustada na madrugada de nove de dezembro. A janela estava semi-aberta, mas dava para sentir o ar gélido da noite entrar e se espalhar pelo quarto, torturando meu corpo de roupas mínimas. Estava escuro e sem vida. Tentei voltar a dormir. Nada. Fiquei simplesmente parada sobre minha cama e tremendo de frio, assustada por tanta escuridão á minha volta. Olhando de um lado para o outro, procurei por alguma distração para me fazer esquecer o vazio que sentia por dentro, como se meu coração estivesse pulsando cada vez mais lentamente. Foi então que percebi algum movimento repentino vindo da parte aberta da janela, que me deixou curiosa, e ponderando se podia ser uma coruja ou algum outro animal.Devagar, levantei-me sobre minhas pernas trêmulas e fui cambaleando até a janela, cada vez mais interessada e forçada a continuar olhando. Percebi o que era. Um animal sim, mas não uma coruja. Um corvo. Um corvo? Aqui, em Kislovskiy? Nunca tinha ouvido um relato sequer de alguém que tenha visto um. Não nessa época do ano. Fiquei paralisada. Tentei me mover, tentar sair dali, fechar a janela na cara daquela criatura e a espantar. Não conseguia. Fiquei pensando. Imaginando. Eu sempre fora uma garota muito supersticiosa desde criança, acreditava em tudo o que era lenda, verdadeira ou não. Eu sabia muito bem o que um corvo preto por ali significava. Era por isso que não me movia. De terror. De agonia. E permaneci ali até o amanhecer.
Quando os primeiros raios de sol surgiram pela minha janela, seis horas da manhã, meu despertador tocou com toda força ao lado de minha cama, me fazendo pular de susto. Eu estivera dormindo naquela noite, provavelmente o que eu vira tinha sido um sonho. Um sonho muito, muito ruim. Então me levantei da cama e fui direto ao banheiro me arrumar para meu primeiro dia em Volskyev, a escola para garotos ricos e garotinhas mimadas. Que ótimo. Ouvia dizer que era bem estranha por sinal, então estava em dúvida do que vestir para poder parecer normal ali, ou seja, estranha. Decidi por uma saia de seda, uma blusa e um casaco de pele bem quente, não iria querer congelar lá fora. Calçei minhas botas e desci para o café da manhã. Como se fosse novidade, meus pais não estavam em casa. Eles nunca estavam. Nunca. Então preparei meu próprio café da manhã, me virando com o que tinha na cozinha. Percebi que estava quase na hora de partir, e a escola ficava a quatro quarteirões de distância desta casa, então não tinha que me preocupar com nenhuma droga de ônibus. Comi minha torrada queimada em 2 segundos e saí. Lá fora estava bem mais quente do que eu imaginara, então decidi por voltar e deixar meu casaco dentro de casa. No caminho avistei várias crianças brincando no gramado de suas casas, e nenhuma delas eu tinha jamais visto. Aliás, eu raramente saía de casa. Kislovskiy não me parecia uma rua muito amigável, para combinar com minha paixão por livros e ódio da maioria das pessoas. Muitas se machucam por conta dos outros, eu não. Elas não prestam, então não mantenho contato. Já tivera amigas. Me traíram. Desde então as pessoas não me parecem mais tão agradáveis. Mas de certa forma esperava encontrar algumas em Volskyev que me pareceriam diferentes o suficiente das pessoas que estava acostumada a conviver e aturar.
Uma certa neblina pairava no ar, apesar do calor de 21°. Era como caminhar sozinha pelas ruas desertas de algum filme de terror antigo. E o terror permanecia mesmo em mim, por não saber o que encontrar quando pusesse os pés naquela escola. Eu só tentaria não ser notada e amigável.
Faltava uma rua apenas para chegar aos muros da escola, um lugar antigo, mas não muito tradicional. Mas, do nada, uma criatura negra enorme que eu imaginava ser mais um corvo, veio do céu em minha direção com tanta força que me fez tropeçar e cair com a cara no chão. Doeu. Muito. Fiquei desacordada por alguns minutos. Não entendi o que estava acontecendo. O que diabos estava acontecendo? Aonde eu estava? Abri cada olho lentamente para ver quem era que estava me tocando daquele jeito. Consegui apenas distinguir um vulto acima de mim dizendo coisas sem nexo. Não entendia nada. Então percebi que havia mais dois vultos também, mas estes estavam bem acima e ao lado do outro vulto. Eu estava aterrorizada, e á essa altura, cega por lágrimas. Gritei. Gritei forte até aquelas criaturas saírem. Funcionou. Eu estava começando a enxergar direito, e pude deduzir que eram mulheres um pouco mais altas que eu e vestindo roupas escuras.
- O que está acontecendo? – tentei sussurrar
- Nós também não sabemos, quem é você? – perguntou o vulto que estava acima de mim.
- Por favor, me ajude a levantar — Ela estendeu a mão e a segurei com força tentando encontrar algum equilíbrio. Fiquei de pé cambaleante e pude perceber que ainda era dia e que estava no mesmo lugar em que havia sido atingido pelo animal anteriormente. Minha cabeça latejava e doía muito. Coloquei minha mão sobre o topo dela e estava sangrando demais. Caralho, logo hoje. Vi um rio de sangue que se formara no lugar aonde havia caído, e era de imaginar que aquele cheiro horrível ali só poderia vir do sangue. Pude ver agora com clareza como eram as três garotas que ali estavam paradas. Uma delas, a que parecia mandar nas outras, tinha cabelos loiros e olhos azuis, era a mais baixa, e também a que exibia uma expressão mais ameaçadora e malévola. A outra tinha cachos ruivos e grandes olhos azuis, e também uma face de boneca. Parecia que se ao menos tentássemos tocá-la, quebraria. Havia por fim outra, a mais alta e mais magra, com brilhantes olhos castanhos e belos cabelos pretos que lhe caíam até a cintura. Todas elas tinham um ar aterrorizante e estranho. Pareciam estar curiosas a meu respeito e sabia que estavam prestes a gritar comigo. Afinal, quem elas eram?
- Desculpe-nos, devíamos tê-la levado até a enfermaria, não sei o que estávamos pensando. – disse a garota com rosto de boneca.
- Tudo bem, vou ficar bem. São alunas de Volskyev?
- É uma também? – se intrometeu á garota loira
- Ah... é, eu sou, sou do primeiro ano.
- Então você pode muito bem andar sozinha até a droga da enfermaria e tratar da sua cabeça. Vamos. – ordenou ela ás outras.
Elas saíram andando como se nada tivesse acontecido e me vi mais uma vez sozinha naquela rua. Não sei por quanto tempo permaneci ali, imobilizada pelo meu medo. Mas depois de alguns minutos que me pareceram uma eternidade, peguei minha bolsa e voltei á caminho da entrada do colégio. Eu nem imaginava onde se encontrava a tal enfermaria que a garota loira havia me dito mais tarde, e a dor tomava cada vez mais o controle sobre mim. Estava desesperada. Sangrando. E sem ninguém ali para me ajudar, porque todos pareciam já estar nas aulas. Aquele lugar me assustava. Era medieval demais. Colossal demais. Então procurei pela minha sala, número 0413. Para minha sorte era a que estava na minha frente. Então sem nem pensar duas vezes, abri a porta com uma força que nem imaginava possuir. Ainda estava cambaleante, mas pude muito bem distinguir aqueles sons. Estavam todos olhando para mim e rindo, rindo abertamente e sem descrição nenhuma, como se eu nem estivesse ali ou fosse a coisa mais engraçada do mundo. Os sons estavam cada vez mais altos, e mais, mais altos. Me apoiei na parede, desejando incontrolavelmente que aquilo parasse. Alguém que supus ser a professora veio rapidamente em minha direção e perguntou qual era meu nome.
- Mary, senhora. Maryana Carolline Minsk.
- O que aconteceu contigo, quem fez isso a você?
- Eu... eu não sei — Á essa altura a dor já tomava lugar á razão e parecia querer me matar. Tudo rodava.
- Venha, a levarei daqui para que as enfermeiras possam cuidar de você.
Ela me puxou para que a acompanhasse, e depois de andarmos tanto, chegamos a um lugar muito iluminado. Não enxergava, e agora meus olhos doíam também. Não ia agüentar mais.
- Me ajude, por favor, por favor... – sussurrei baixinho.
Mas aí a dor me tomou por completa e não me lembro de mais nada.
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