Estava correndo. Corria como se minha vida dependesse disto. E dependia mesmo.

Fazia três dias desde meu acidente em frente á escola. Desde então convivia com a dor, uma dor forte e latejante em minha cabeça que piorava quando eu estava em pânico. Naquele dia, logo que saí da enfermaria, não fui muito bem recebida. Pra começar todos á minha volta só tinham olhos pra mim, como se fosse uma aberração. Cochichos, risadinhas e xingamentos vinham de todos os lugares. Era com isso também que tinha de conviver. Brincadeiras de mau gosto comigo se tornaram rotinas, parecia que as pessoas gostavam de me ver sangrar e chorar, só porque não me encaixava ali. Eram todos muito, muito estranhos. E irônico como garotas que me agrediam tanto usavam um crucifixo em seu pescoço e se diziam de Cristo. Cristo uma ova. Pura crueldade. Era muito raro encontrar pessoas ali que fossem gentis comigo, até agora só era recebida a pontapés e surras. E sempre voltava para casa chorando. Sozinha. E descontrolada. Comecei a ter muitas crises de raiva, precisava bater em algo ou gritar para extravasar. Era muito ruim. Não me lembro de quando minha vida começou a tomar esse rumo. Não deveria ter entrado naquela escola. Nunca. Mas agora não tinha como voltar atrás.

Eu corria pelas ruas que separavam minha casa da escola, fugindo de sete garotos atrás de mim que vinham com pedras e pedaços de madeira para me agredir. Geralmente eles só me batiam no interior de Volskyev, mas hoje estavam realmente muito inspirados. Quando estava cada vez mais perto de casa, pude avistar o carro de meu pai na garagem, ele tinha finalmente chegado de viagem. Corri mais ainda, desejando desesperadamente estar a salva em seu colo. Consegui entrar, batendo a porta com força atrás de mim justo quando uma pedra enorme iria me atingir. Ofegante, fiquei ali paralisada e olhando para a porta, ouvindo gritos e vaias que vinham do outro lado. Tudo passava pela minha cabeça naquele momento.

- Filha? – perguntou uma voz atrás de mim. Me virei e meu pai estava parado com uma expressão reconfortante e assustada também.

- Pai! – corri para ele o abraçando com força. – Não imagina a falta que eu senti! Por favor me ajude! – tentei explicar o que estava acontecendo, porque eu queria que ele ficasse ali comigo e enfrentasse todas aquelas pessoas por mim. Mas a cada segundo fui percebendo que sua expressão ia mudando gradualmente de interessada a sarcástica.

- São só jovens como você tentando integrá-la ao grupo, Mary. Pare de fugir por um instante e vá ser amiga deles, tenho certeza que não podem te machucar.

- Pai você não entende! – podia sentir a raiva pulsando dentro de mim. — Eles já me machucaram! Eles não gostam de mim só porque sou normal e não arrombada como eles!

- Mary, cale a boca! Nunca mais diga isso de pessoas com as quais você convive e que gostam de você!

- Não gostam! Venha, eu te mostro! – puxei seu braço para que saísse comigo para o gramado, onde ainda podia ouvir o barulho da respiração de todos eles.

Assim que abrimos a porta, todos estavam lá parados, mas já não haviam pedras ou pedaços de pau. Se não os conhecesse, eu diria que eram adolescentes bem inocentes e comportados, exibindo uma expressão falsa no rosto.

- Maryana, nós não queríamos brigar com você. Queremos ser seus amigos. – todos disseram em um coro muito bem ensaiado.

- Eles estão mentindo! – gritei para que meu pai não lhes desse ouvidos..

- Basta. Você vai ficar aqui fora e não entrará de novo até que aprenda sua lição!

O medo e a tensão me consumiam, eu não podia ficar aqui fora, ele tinha que acreditar em mim. Então em um segundo, empurrei-o para o lado e entrei em casa correndo o máximo que consegui, mas ele agarrou meu pé, o que me fez tropeçar e cair. Me arrastou para fora e eu gritava, gritava de agonia e de tristeza.

- Não! Não, por favor pai, não me deixe aqui.

- Desculpe, Mary. – E entrou, trancando a porta.

Fechei os olhos. A tensão fervia no ar. Podia ouvir seus passos cada vez mais próximos. Mas se passou um tempo e nada aconteceu, então me levantei e me virei a tempo de ver uma pedra enorme sendo arremessada em minha direção.