Anjos da Morte
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Notas iniciais
- A vadiazinha está com medo? Vai chorar, vai? – um dos garotos gritava, que naquela hora me parecia mais um sussurro.
Estava caída onde havia sido atingida pela pedra, que me acertou bem no estômago, me fazendo quase vomitar tudo o que havia comido no dia. Eles continuavam ali, gritando vaias e palavras que eu desconhecia, e que não me pareciam muito educadas. Estava acabada. Humilhada por desconhecidos. Havia chegado ao fundo do poço, e não poderia fazer nada. Meu próprio pai não acreditava em mim, quem mais iria? Por um bom tempo continuei ali, caída e de olhos fechados. Provavelmente durante uma hora. Já havia perdido toda a aula do dia, e isso nem era o pior. A esse ponto minha cabeça voltara a doer e latejar violentamente. A dor me consumia. E o ódio. Um ódio muito, muito profundo. Cheguei até a sentir medo de mim mesma pelo que sentia. Era ridículo como eu que sempre me considerei forte, pudesse ser enganada daquele jeito. Todos me odiavam ou então me tratavam como se eu não soubesse de nada. Eu gritava por dentro para encontrar redenção. Atordoada.
Me levantei dali muito assustada. Não poderia voltar para casa, não com meu pai lá. E na escola me machucariam mais ainda. Então decidi por entrar pelos fundos dela, uma passagem que quase ninguém conhecia, mas como eu já estava acostumada a fugir, conseguira encontrá-la. Bem devagar, fui andando por essa passagem, subindo e descendo degraus até chegar ao banheiro feminino que estava em reforma. Ali, não havia ninguém. Perfeito. Sentei no chão dentro de uma cabine e desatei a chorar. Como eu era burra. Como as pessoas eram más. Tudo naquele momento me parecia ruim. Tudo o que eu queria era encontrar alguém com quem desabafar, com quem contar fofocas e rir. Algum amigo.
Ouvi um estrondo do lado de fora. Fiquei paralisada e atenta. Ás lágrimas transbordavam dos meus olhos, mesmo quando tentava segurá-las. Ouvia passos, cada vez mais próximos dentro do banheiro. Alguém havia arrombado.
- Nós sabemos que você está ai. Venha, queremos falar com você.
As vozes soaram estranhamente familiares. Como havia me achado? Lentamente, enxuguei meus olhos e fiquei de pé, segurando trêmula a maçaneta.
- Pare de chorar, queridinha, você não deveria estar assim.
Ela tinha razão. Eu estava sendo infantil. Então criei coragem e abri a porta. Lá estavam as mesmas garotas que havia encontrado no dia em que me machuquei em frente à escola, com as mesmas roupas e mesma aparência. Porém suas expressões e seus jeitos haviam mudado. Elas pareciam bem diferentes, até amigáveis. Como se me convidassem a serem suas. Meu medo aumentou mais ainda.
- Mary, é isso? – confirmei com a cabeça. – Nos desculpe por não termos te ajudado naquele dia. Nós estávamos atrasadas, mas queríamos ser gentis contigo. Não somos como os outros estudantes que só querem o seu mal. Nós gostamos de você. Sabe disso, não sabe? — algo em seu olhar me instigava, ela estava sendo amável demais, estranha demais. Isso não era o que eu via em uma loira que eu considerava arrogante á três semanas atrás. Ao mesmo tempo, era a primeira pessoa que estava sendo legal comigo durante aqueles dias terríveis. Meu medo foi diminuindo e eu dava lugar àquela garota sensivel que estava ocultada em meu interior.
- Quem são vocês? – tentei falar com a voz mais calma possível.
- Ah, desculpe-nos, não nos apresentamos. – Seus cabelos loiros na altura dos ombros brilhavam impecavelmente, assim como seus olhos. Ela parecia perfeitinha demais. – Eu sou Elissa, estas são Louise e Kátia. – disse apontando com a cabeça para a garota de cabelos flamejantes e a morena, respectivamente.
Fui me sentindo melhor, porque era bom alguém naquela escola não me odiar pelo menos. A falsidade ainda podia ser explicitamente vista em seus olhos, mas já não me importava. Eu desistiria de tudo apenas para ter alguém comigo.
- O que vocês querem? – perguntei.
- Mary, nós vimos o que fizeram com você. Nós sabemos como é isso. E é horrível! – As outras duas confirmaram com um gesto.
- É mesmo! – como me senti inocentemente aliviada, por alguém me entender. – Mas afinal, o que há de errado comigo?
- Não é o que há de errado com você, deveria saber disso. É o que há de errado com eles. Na verdade já fomos vítimas.
- Sério? – disse eu com uma grande ironia.
- Quando estávamos no primeiro ano, assim como você. E era horrível, para todas nós. – as duas outras estavam paradas e com um olhar de malícia; apenas confirmaram com a cabeça. – Se houvesse três garotas que viessem falar comigo e me ajudassem, com certeza gostaríamos de tê-las ouvido. Mas não tivemos esta sorte que está tendo agora Mary. – Ela falava tão suavemente enquanto mexia em meus cabelos que me parecia um sopro, como um anjo. E me induzia cada vez mais, podia ver que já estava me sentindo bem como há dias não me sentia. Era como se eu gostasse que ao menos mentissem pra mim, já que a realidade que vinha experimentando me aterrorizava.
- São de que ano? – fiquei surpresa como até meu tom de voz já soava mais brando.
- Terceiro. Ano que vem vamos embora daqui, e queríamos ao menos ter feito uma amiga.
- Então me considerem uma. – disse com um sorriso no rosto.
Elas também sorriram, e assim nós nos tornamos amigas. Repentinamente. Até hoje não lembro de como fui me render tão fácil. Talvez se alguém conhecesse o sentimento que aquela época me assombrava, teriam feito o mesmo sem ao menos querer saber mais sobre pessoas que seriam boas com elas. Não me parecia a coisa certa a fazer, já que desde pequena aprendi a não me aproximar tanto de estranhos, mas naquele dia, tudo mudou. Dentro de mim. Senti que estava mais viva com a presença delas. Como se algo novo estivesse prestes a começar em minha vida, uma mudança. Bem grande.
Ainda naquela tarde, quando voltei ao meu armário para pegar meus livros a fim de ir a mais uma aula entediante, algo chamou minha atenção ao meio à multidão que ria de mim e gritava palavrões.
Um garoto de mais ou menos um metro e oitenta de altura, cabelos castanho claros na altura dos ombros e olhos incrivelmente verdes veio em minha direção com um olhar apreensivo. Meu coração disparou fortemente, e soube desde aquele instante que estava apaixonada. Quer dizer, nunca havia me apaixonado de verdade antes, mas este sentimento era muito forte, que parecia querer rasgar meu coração em pedaços.
- Mary? – confirmei — A professora Yulia mandou lhe entregar isto, é o livro didático que você não recebeu semana passada. – ele me passou um livro grande e pesado de no mínimo 500 folhas. Eu estivera tão centrada em minha vida pessoal que havia esquecido totalmente da acadêmica. Eu já devia ter perdido umas quatro aulas só estes dias, e estava bem atrasada com relação a todo o resto da turma. Mas naquele momento não consegui me concentrar em livro algum ou em matéria nenhuma que havia perdido, tudo o que existia era aquele garoto, e aqueles olhos esmeralda brilhantes e profundos.
- Aah... Bri-brigada. – foi o que consegui verbalizar.
- Magina. Espero que algum dia você resolva aparecer nas aulas e assim podemos nos tornar mais amigos. – ele piscou e, com um sorriso, saiu andando na mesma direção em que veio. – Além de que, seria bem melhor eu não precisar mais trazer suas coisas já que você mesma pode pegar.
Dei um sorriso em troca e fiquei ali parada. Paralisada. Ele era tão lindo. Era daqueles caras que só se vê em filmes americanos ou esculturas gregas. Havia algo nele que eu não conseguia identificar. Como uma aura, um brilho próprio e um dom para cativar com o olhar.
Suspirando, andei até a saída para voltar pra casa, e rezava para que meu pai não estivesse mais lá. Então alguém agarrou meu braço e me virou na direção oposta a qual tentava ir. Era Louise, umas das garotas que conheci hoje e da qual me tornei amiga.
- Oi. O que aconteceu? – perguntei, sabendo que ela não parecia estar bem.
- Eu apenas a estava procurando por todo o colégio. – disse, arfando. – Bem, nós queremos que você vá até a casa da Elissa esta noite, sabe, como é nossa primeira amiga de fora do nosso grupo – eu sabia de que grupo ela falava. Ou ao menos pensava saber, já que as conhecia havia um dia. Vestiam roupas escuras, usavam maquiagens escuras, unhas escuras e pareciam muito melancólicas. As pessoas deviam ter medo ao chegar perto delas, talvez fosse por isso que eu era a primeira. – então queremos dar uma festa de boas-vindas, e quem sabe possa se tornar uma de nós – ela esboçava um sorriso e olhava pra mim com um olhar bem sincero.
- Não sei se vou querer virar gótica. – A melancolia podia até combinar comigo, mas não me parecia tão bem viver apenas disso.
- Talvez você nos conheça melhor com o tempo e mude de idéia.
- É, quem sabe. – disse sem muita animação. Já estava tão, mas tão cansada daquele dia que mais me parecia uma eternidade, que só pensava em deitar em minha cama quentinha e descansar. A dor já havia até passado.
- Tudo bem, me parece legal. Só me passa o endereço que eu vou.
- Já escrevi aqui. – ela me deu um pedaço de papel branco com algumas palavras gravadas que deduzi ser um endereço não tão longe de minha casa.
- Então eu te vejo as nove. Não se esqueça de ir. – Ela já saía andando, ao encontro de Elissa e Kátia, supus. Pensativa, voltei a andar para o caminho de casa, que me parecia mais longo hoje, com aquela idéia muito estranha da festa á noite ainda na minha cabeça.
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