Anjos Sombrios

2 Olhando para o Sol


Eu não gosto do sol. Me sinto fraca quando passo um tempo exposta em sua luz e seu calor. Meu pai diz que é algo normal, já que nasci na Rússia. Claro, a Rússia é um lugar bem frio, mas não vejo como isso pode explicar meu mal estar. Meus pais vieram para os Estados Unidos pouco tempo depois que nasci, para desfrutar de uma adorável e pacta vida no campo, no maravilhoso Estado do Kansas. Provavelmente foi um pedido da minha mãe, pois meu pai viaja muito a trabalho, uma vida simples no campo combina com ela.

De novo o sol me incomodava, olhei para cima por um instante e imediatamente coloquei a mão no rosto como proteção. A luz era muito intensa. Ouvia conversas e risos ao meu redor, mas não estava envolvida em nenhuma. Não que alguém aqui falasse comigo. O sinal tocou exigente e eu sabia que estava na hora de entrar para a aula.

Os adolescentes da minha cidade não gostavam de mim, eu era estranha demais, mas eu não me importava realmente. Naquele ambiente havia uma abelha rainha, a filha do prefeito. Clichê. Todos que queriam status e convites de festa viravam seus seguidores. Eles amavam tudo que ela amava, riam de tudo que ela achava engraçado e claro, odiavam tudo que ela odiava. Eu.

Eu estava no meu quarto e último ano, logo estaria livre dos adolescentes caipiras do Kansas. As primeiras aulas passaram depressa, mas a de matemática do senhor Williams pareceu um inferno. Não vou descrever as aulas, os professores ou a escola. Imagino que sejam todas iguais e entediantes.

O sinal tocou novamente e eu guardei meu mateiral na mochila, enquanto suspirava feliz. Ir a pé para o centro da cidade não demorava muito e eu havia prometido ao casal Benson que almoçaria em sua lanchonete. Era um lugar muito movimentado, mas numa cidade tão pequena como a nossa só havia duas opções: o restaurante caro dos Smith e a lanchonete Benson. Eu abri a porta eum sininho tocou.

– Bem-vind ... Oh querida, entre! – a senhora Benson sorria.

– Sim, senhora Benson. – acenei para ela e sorri.

– E então como foi a aula hoje?

– Nada de novo ou de interessante ... tudo muito entediante. – eu disse a ela enquanto me sentava em uma mesa, que ela arrumava para mim – Vou querer o mesmo de sempre, por favor!

– O senhor Benson já deve estar preparando o seu “almoço” e eu vou fazer seu achocolatado! – ela piscou pra mim, enquanto ía preparar minha bebida e criticava o fato de eu achar que hamburguer com batata frita era almoço.

Ela estava certa, eu conseguia ouvir a cantoria feliz do senhor Benson na cozinha. Ele tinha o costume de cantar e cozinhar ao mesmo tempo. Assim que minha comida foi servida, eu a comi o mais depressa que pude. Queria voltar para casa.

Corri porta afora, enquanto me despedia e agradecia pela comida. Consegui ouvir o riso do senhor Benson e os gritos de indignação de sua esposa. O ônibus não demorou muito e a viagem para casa foi tranquila. O motorista me deixou no portão da casa. Uma casa grande demais, para uma menina que passava muito tempo sozinha.

Minha mãe amava aquela casa e o jardim. Toda aquela vida simples a deixava em êxtase. Ela era linda com seus grandes olhos castanhos, seu cabelo ruivo chanel e sua pele branca. Infelizmente ela tinha câncer e seu corpo não aceitou a quimioterapia. Ela morreu quando eu tinha 10 anos. Meu pai ficou arrasado.

Fui até o telefone que havia na sala, mas não tinham mensagens para serem ouvidas. Meu pai já tinha ligado para os Benson alguns dias atrás afirmando que logo estaria de volta. Não disse que dia, nem que horas. Sempre uma pessoa muito calada. Sua aparência me lembrava um soldado, com cabelos negros em corte militar. Seu corpo estava sempre em forma, bem treinado em lutas e forte. E seus olhos eram negros e profundos, aparentando mais idade do que dizia ter. Mas sua pele era bem pálida, como se nunca tivesse sido atingida pelo sol.

Eu não parecia em quase nada com meus pais. Meu cabelo era negro e cheio de cachos, enquanto meus olhos eram de um verde esmeralda. Eu treinava luta com meu pai, mas nem de longe tinha um corpo tão atlético. Minha altura? Patéticos 1,60cm, o que dava uns 20cm a menos do que minha mãe chegou a ter. Já minha pele era pálida, porém parecia muito mais saudável que a do meu pai.

Minha pele não tão saudável me fez lembrar de tomar meu “remédio”. Eu tomava vitaminas desde pequena em forma de cápsulas vermelhas. Fui até a cozinha e peguei o vidrinho na bancada. Suspirei quando percebi que estava vazio e isso me renderia broncas do meu pai. Ele chegaria logo, tudo que eu tinha que fazer era não passar mal.

Olhei para o relógio, eu tinha horas até o jantar e provavelmente comeria na lanchonete de novo. Cozinhar não era problema pra mim, mas fazer comida para uma pessoa só era triste. Olhei ao redor, o ambiente estava impecável. Eu devia ter problemas com limpeza e organização. Pensei em subir para o meu quarto e estudar, afinal eu estava no meu último ano e deveria me esforçar para entrar em uma boa faculdade.

Não. Estava sem vontade para estudar, então sentei no sofá da sala e liguei a televisão. Uma maratona de “Senhor dos Aneis” estava passando, Gandalf não parecia lembrar por qual caminho seguir. Havia deixado meu notebook ligado quando fui pra escola, peguei ele e fui direto na minha playlist. Minha banda favorita agora estava tocando, “Miss May I”, meu pai odiava. Eu sorri comigo mesma, aproveitando a casa vazia para ouvir um pouco de metalcore.

~

Acordei desnorteada. A televisão era a única que me permitia enxergar a sala. Eu provavelmete adormeci ali mesmo, pois já era noite. Meu notebook desligou sozinho após a bateria acabar e os créditos finais de “As Duas Torres” passavam na tv. Levantei do sofá, mas acho que foi rápido demais pra mim. Me senti tonta por um segundo.

A sala parou de girar e eu corri para o banheiro. Precisava tomar banho, me vestir e pegar o ônibus, pois ainda não havia jantado. O banho quente desfez os nós dos meus músculos, o que foi maravilhoso para alguém que adormeceu no sofá. Vesti minhas roupas de sempre: uma camiseta, uma calça jeans, minha jaqueta de couro e o coturno. O som do ônibus fez com que eu me apressasse, não me deixando alternativas além de manter o cabelo solto.

Uma das poucas coisas que apreciava na cidade pequena, era o fato do motorista do ônibus conhecer meus horários e ter a bondade de me esperar, enquanto corria desesperada pelo portão. Ele riu de mim quando entrei no ônibus. Consegui acenar para ele com a cabeça como forma de agradecimento, enquanto tentava recuperar meu fôlego.

A viagem foi tranquila como de costume e eu desci no ponto que havia perto da lanchonete. Uma brisa fria me recebeu, enquanto caminhava pela rua. Abri a porta da lanchonete, ouvindo o sininho tocar e sem saber que aquela noite o rumo da minha vida seria mudado.