Anjos Da Morte

3 Capítulo 3 / Anjos da Morte / Pesadelo


Notas iniciais
Peter parece cada vez mais se afundar em seus próprios medos, e depois de um pesadelo o seu céu desaba.

"Abri os olhos. Percebi que meus braços ainda estavam ardendo, mesmo que os sangramentos já parecem por completo. Consegui me sentar na cama com certa dificuldade, e minhas costas estavam muito doloridas. Era uma dor suportável.

Eu não me lembrava de nada, nada mesmo. Só sei que estava sozinho em um quarto todo preto e com escrituras vermelhas na parede. Parecia ser tinta, ou pelo menos eu quisesse que fosse tinta para não desmaiar de novo se descobrisse ser sangue. Fui pela lógica, claro! Que lugar teria sangue na parede? Estou numa escola, não na casa daqueles assassinos russos que se via nos filmes americanos.

A realidade franca é que eu me sentia vazio, no cúmulo do universo. Não sei descrever onde eu estava, e muito menos quem era. Eu nunca havia sentido aquilo, pois era uma sensação muito macabra. Hesitei, e como nas poucas vezes em que sou corajoso, sai daquele quarto e fui explorar o local. Todas as paredes eram de tons neutros e escuros, como preto e cinza, e tinham escrituras em vermelho sangue.

As palavras, não eram mais palavras, mas sim nomes. Nomes de pessoas que tinham, por alguma razão, parados ali. E era um sentimento horrível, como se em cada palavra estivesse preza uma alma que clamava liberdade.

Depois de subir todas as escadas, me encontrei no topo do prédio. Foi quando eu provavelmente vi a coisa mais fantástica e surreal de toda minha vida, afinal, coisas desse tipo nunca faziam sentido. Pelo menos no meu mundo. Estava lá Orion, o garoto esquisito. Mas não podia ser ele, nem nenhuma outra pessoa normal. Aquilo não era um ser humano, era um anjo, um anjo de asas negras! Ele estava de costas prestes a se jogar, foi quando inevitavelmente consegui segurá-lo. Estávamos caindo no chão, quando a lua passou de branca para vermelha, e nossos corpos se chocaram juntos num gramado molhado."

Foi quando meu coração disparou repentinamente, e eu acordei. Me senti plenamente aliviado por ter escapado daquele pesadelo, só que mesmo assim demorei a por as coisas no lugar e descobrir que tudo não passava de um sonho ruim. Minhas costas doíam ainda mais do que no sonho, o que era uma coisa horrível, e meus braços ainda sangravam. Percebi que eles estavam enfaixados, e que havia vários materiais que são utilizados para curativos na cabeceira da cama.

Não tinha nem forças para me levantar e ficar em pé, então fiquei sentado na cama, admirando tudo que havia no quarto. Pelo visto, esse era o apartamento de Alex. As paredes eram cheias de posters dos anos 80/90, com discos de bandas alternativas daquela época. Reparei também que havia um relógio na parede, encima da porta. O mesmo marcava 16h30min exatas, o que não era uma coisa muito boa, pois já era de tarde. Alex e Rick deveriam estar na escola, logo eu estava sozinho naquele apartamento sem sequer conseguir levantar.

Percebi o silêncio, e fiquei refletindo. E chorei. E continuei chorando ainda mais, não só por estar triste, mas sim por estar com raiva. Eu estava me afogando nas próprias lágrimas, e isso era uma situação ridícula. Pensei que minha vida não fazia sentido, e lembrei-me de todas as coisas horríveis que aconteceram comigo desde que cheguei nessa escola. Nada de bom havia acontecido aqui. Eu tinha sido esnobado, humilhado, assaltado, agredido, apunhalado e poderia acabar com toda aquela porcaria ali. Poderia sumir. Mas eu não queria fazer aquilo, então parei de chorar.

Foi quando alguém abriu a porta e entrou no quarto. Era Alex, a menina dos cachos mais lindos do mundo, e por um momento eu sorri. Ela me viu com o olho vermelho, e acho que deveria estar ainda mais preocupado pela sua expressão facial, então continuei sorrindo pra fingir que estava tudo bem.

Então ela disse:
– Oi Peter. Está melhor? – Era meio estranho ela falar assim, como se nada tivesse acontecido.
– Hã, é... tô bem melhor. – Menti.
– Isso é bom. Você se lembra do que aconteceu ontem à noite?
– Acho que não. Só sei que fui assaltado, e... Bom... – Não estava mentindo desta vez, eu realmente não me lembrava de nada. Nada mesmo.
– Sid te salvou.
– Sid?
– Orion.
– Ah, sim... O garoto estranho.
– Ele mesmo. Sid disse ter te encontrado no jardim do prédio, todo ferido. Ele estava desesperado e correu em disparada, te trazendo até aqui. Trouxe consigo alguns curativos e remédios, para que sua situação não piorasse. Foi bem generoso e ficou boa parte da madrugada conosco, vendo sua situação. Parecia muito preocupado. – Nos olhos de Alex não havia nada além de verdade, e pude perceber isso. Mas algumas versões da história contada por Orion não tinham cabimento. Mas não liguei, afinal, eu estava muito mal e deveria ter enxergado coisas demais.
– Algum adulto sabe do que aconteceu? – Estava preocupado, vai que mamãe sabia de alguma coisa.
– Ninguém, nem mesmo os orientadores sabem. Sid pediu para eu manter sigilo sobre o assunto, porque isso iria piorar ainda mais sua “fita” na escola. Rick também concordou que a melhor escolha era manter segredo.
– Ah, entendi. – Falei isso em um tom de preocupação, aliás, minha vida social naquele colégio estava indo por água a baixo.
– Vá tomar um banho, peguei algumas roupas suas no seu quarto quando Eduardo saiu pra escola.
Só concordei com o que Alex disse. E ela continuou:
– Agora tenho que ir pra próxima aula, o intervalo está acabando e não posso chegar muito atrasada. Cuide-se bem, Peter.

E assim ela se fora. E novamente eu estava sozinho. Só que desta vez não estava triste e deprimido, mas sim feliz. Porque eu sabia que teria alguém que se importasse comigo no mundo, sem ser minha mãe. E essas pessoas, além de tudo, eram meus amigos. MEUS amigos, e não havia alegria maior do que essa.

Enfim, tomei meu banho. Comi boa parte da comida que havia no apartamento, e só esperava que a companheira de Alex fosse tão legal e caridosa como ela era. Depois de tudo, caminhei para o meu apartamento. Vi César no corredor, e ele comentou:
– A note foi boa, hein calouro!
Só consegui acenar com um sorrisinho tímido.
Acho que ele não falaria nada ao diretor, porque era um cara legal e já havia sido aluno. Bom, pelo menos eu acho que sim.

Entrei no meu quarto, e lá estava escrito um bilhete de Eduardo encima da minha cama: “Tô com saudades bundão”. Confesso que fiquei feliz por ele ter notado minha presença. Vesti um casaco preto e fui pra rua, com o capuz na cabeça. Já estava quase na hora da saída, logo, os professores também estava indo pra casa. Eu precisava falar com um adulto, e não havia pessoa melhor do que Edmundo. Acho que ele iria entender as minhas crises.

O vi saindo cautelosamente, então gritei:
— Hey, Sr Ed.
– Hã, é você Peter?
– Sim, sou eu mesmo professor.
– Porque faltou hoje?
– É uma longa história, e creio que aqui não seja um lugar muito adequado para conversarmos. – Respondi francamente.
– Hm, ok. Quer ir para minha casa?
– Porque não? – E então dei um riso tímido.

Fui para a casa de Ed em seu carro, que era bem bonito e caro. Acho que o salário dele não deveria ser tão ruim.
No caminho, conversamos sobre várias coisas, menos sobre o sonho. Paramos numa padaria para comprar pães de queijo, até chegarmos ao seu apartamento. Era um AP muito bonito, com móveis rústicos e uma TV de 50 polegadas, também havia vários cd’s de Blues e Jazz, seus estilos favoritos.
Enquanto ele fazia café e assava os pães de queijo, fiquei sentado ouvindo seus cd’s, que por sinal eram muito bons.

Enfim, nos sentamos à mesa, e começamos a conversar.
– Então Peter, qual o seu problema? – Perguntou Ed.

– Você acredita em anjos? – Fui direto ao assunto, o que não foi muito inteligente de minha parte.
– E porque eu não acreditaria?
Odiava que respondessem minhas perguntas com outras perguntas, era ridículo e dava raiva. Mas prossegui:
– Hoje à noite eu tive um sonho. Um sonho com um anjo, com nomes, com sangue, com morte. Foi horrível, Ed.
– Entendo como é, mas acredito que todo sonho tenha, no fundo, um significado. Basta você querer descobri-lo.
– Orion era o anjo. E ele se jogava. E ele morria, junto comigo! – Respondi, em um tom meio desesperado.
– Você não está bem, Peter. O que houve?
– Fui assaltado e apunhalado ontem à noite, e vi alguém me salvando, como se fosse um super-herói com poderes sobrenaturais. Era Orion!
– Tenha certeza que esse menino não é nenhum X-men perdido por aí, já que qualquer pessoa com um pouco de conhecimento sobre lutas poderia bater em dois bandidos.

Se fez um silêncio horrível. Meu sangue voltava a escorrer pelo pulso, o que chamou atenção de Edmundo. Ele não queria acreditar naquilo, mas acho que já abria hipóteses sobre o que aconteceu. E continuou falando:
– Peter, quero muito ser seu amigo, mas sou só um professor, não um psicólogo. Não poderei te ajudar como um profissional ajudaria, mas espero que você fique bem e pare de ter essas ilusões.
– Ah, ok. – Só assenti.
Levantei-me sem dar tchau para Edmundo, com um pouco de arrogância. Foi quando ele perguntou:
– Quer dormir aqui? Você não está em condições de ir embora sozinho pra casa garoto.
– Não, obrigado, eu sei me virar.
– Já tá escuro também, por favor. Aceita pelo menos uma carona?
– Acho que não. Queria muito sua ajuda pra chegar até em casa, mas você é só um professor, não um taxista. Prefiro não incomodar muito o senhor.

Foi quando fechei a porta na cara de Edmundo, e fiquei me auto lamentando por ter sido tão ignorante.
Então, desci as escadas e fiquei esperando um táxi, no qual eu não sei como teria dinheiro para pagar.