Anjos Da Morte

4 Capítulo 4 / Anjos da Morte / Diálogo


Notas iniciais
Depois da discussão fervorosa com seu professor de Português, Peter passa uma madrugada inteira na rua.
Na sua volta desacreditada para a escola, acaba tendo grandes surpresas.

Depois de minha última discussão com meu professor de Língua Portuguesa, Edmundo, fiquei meio perturbado. Então resolvi ficar vagando pela rua durante a madrugada, o que não era uma coisa muito inteligente, pois os bandidos tinham cisma comigo. Não me importei muito, então fiquei subindo nos maiores prédios da Av. Paulista, até chegar ao terraço deles.

Aliás, eu sempre tive medo de altura, só que naquela hora eu precisava me libertar. Vi a porta de um dos condomínios aberta, então entrei no prédio correndo e subi as escadas, até o último andar. Senti o vento bater na minha cabeça, e a garoa caindo de um jeito sereno no chão.

Foi quando eu percebi o que realmente era a madrugada, ela não era boa ou má, clara ou escura. Ela era dia e noite, céu e inferno, como um anjo seria depois de virar demônio. E isso era tudo que eu podia descrever naquele momento.

Confesso que não ando muito bem ultimamente, com essas crises lunáticas. Isso é muito ruim, pois era patético pensar que uma pessoa como Orion seria um super-herói com poderes. Talvez o Sr. Ed estivesse certo, e eu precisasse de um tratamento psicológico. Ou talvez ele estivesse errado, e o meu sonho tivesse um significado fora do normal. A verdade é que eu estava com medo de dormir e me tornar refém de meus próprios pensamentos

Já estava quase amanhecendo, quando resolvi voltar pros apartamentos da escola. César andava pelo jardim, acho que ele tinha acabado de acordar, então estava meio lesado e inconveniente. Tanto é que nem reparou em mim entrando. Eduardo também não estava no quarto, deveria ter ido pra Cafeteria, logo aproveitei para trocar meus curativos e tomar um cumprido. Minhas dores já haviam melhorado bastante.

Tomei um banho e me troquei, só que dessa vez eu estava com um visual muito mais desbotado, parecendo um grunge dos anos 90. Aproveitei o tempo livre para rasgar minhas calças, deixar meu cabelo bagunçando, e vestir minha gravata vermelha por cima de uma camisa de botões preta.

Já era quase 10h00min da manhã quando resolvi fazer uma visitinha no apartamento de Alex pra mostrar meu novo visual, acho que ela iria gostar. Aconteceu que Alex estava na Cafeteria e quem me atendeu foi sua colega de quarto, que não era nada hospitaleira e só pediu pra eu cair fora.

Quando cheguei à Cafeteria vi Alexandra conversando com outro cara, só que dessa vez não era Rick, e sim um estudante da faculdade. Ele parecia ser pelo menos cinco anos mais velho do eu, além de ser mais forte e bonito.

Confesso que fiquei com a autoestima muito baixa depois de ver aquela cena, pois quanto mais Alex cuidava de mim, mais eu gostava dela. Não acredito em paixão a primeira vista, mas mesmo ela me conhecendo só há três dias, tinha cuidado mais de mim do que minha própria irmã quando eu ficava doente, o que era deprimente.

Dei de ombros, então resolvi sentar na última mesa do salão, como fazia quando não conhecia ninguém. Abaixei a cabeça e fiquei refletindo em tudo que aconteceu. Acho que eu dormi por uns 30 minutos, até sentir alguém me dar um tapinha nas costas, dizendo:
– Acorda aí lobo solitário – Era uma voz muito familiar.
Levantei a cabeça, meio zonzo. Era meu amigo Henrique.
– Hã, é... Oi Rick. Bom dia. – Falei com uma voz sonolenta.
– Já tá melhor?
– Acho que sim.
– Hum, gostei do visual.
– Obrigado. – Agradeci com um riso tímido.
– A noite foi boa pelo jeito, né?
– Não fiz nada além de tomar café. – Respondi sinceramente.
– Acho que você deveria se cuidar melhor.
– Eu sei.

Então, Rick prosseguiu:
– Hoje é Sexta-feira, e nos finais de semana a escola nos libera para fazer qualquer coisa. Vou sair com Alex e alguns amigos de noite, quer vir junto?
– Acho que sim...
– Você pensa muito garoto, não pode ser assim.
– É um dos meus piores defeitos.
– Entendo. Mas você vai vir de qualquer jeito Peter, mesmo que amarrado, porque eu estou de te obrigando. Você precisa conhecer o mundo lá fora. – Disse Rick, com um tom de voz obrigatório.
– Ok. – Concordei.
– Ah, agora preciso ir amiguinho. Toca aqui! Mais tarde a gente se fala. – Se despediu Rick, todo animado.

Eu só acenei como quem agradeceria por ficar sozinho novamente.
Acho que não estou em condições de encontrar Edmundo depois da noite de ontem, então vou faltar de novo na escola. Eu ainda tinha um atestado por três dias, pra que se preocupar?

Foi quando eu estava quase esquecendo minhas perturbações com Orion que o vi na minha frente, no mesmo corredor. Ele estava pendurado na janela, fumando um cigarro, o que era meio intrigante.
Resolvi falar com ele de uma vez por todas, para esclarecer todas as dúvidas dele ser ou não uma aberração fora do normal. Também não podia deixa-lo de agradecer por ter me salvado.
Me aproximei, então disse:
– Hã, é... Oi.
– Quem é você cara?
– Sou Peter... Peter Harrison. Você me salvou naquela noite.
– Ah, tá. Pensei que era mais um dos babacas que adoram falar mal de mim por não ouvir suas bandinhas favoritas. – Falou Orion, com bom humor.
– Ah, então é isso... Queria agradecê-lo. Você foi um cara muito legal. – Falei timidamente, gaguejando.
– Eu sei que sou legal. Tento sempre ser assim. Mas acho melhor você cair fora, sua aula já tá começando.
– Vou faltar hoje. Meus ferimentos ainda tão doendo.
– Para de ser mariquinha garoto, nem foi tão grave assim.

Ele pausou a fala. Deu uma última tragada no cigarro e o jogou pela janela. Engoliu em seco, e enfim continuou:
– Os ferimentos nem foram tão graves assim, tanto é que você curtiu um cafezinho com o professor.
Naquela hora eu gelei. Como ele poderia saber daquilo?
– Hã, é... Mas... Mas... Como você sabe?! Passou por lá naquela hora?
– Quem tem bons olhos e ouvidos pode descobrir outros mundos sem mesmo estar neles. – Falou misteriosamente.
Por fim, Orion se levantou. E então se despediu:
– Foi bom conversar com você. E por favor, não me chame de Orion em seus pensamentos, Sid é um nome muito mais legal.

Sid deu de ombros e seguiu para o fim do corredor iluminado. Creio que essa foi à coisa mais interessante que aconteceu desde então.