Anjos Da Morte

1 Anjos da Morte - Capítulo 1 / Escola nova.


Notas iniciais
Inspirado nos deuses da morte do anime Death Note, essa história é contada a partir do ponto de vista de Peter, um adolescente que acaba de se mudar de escola e enfrenta alguns problemas de socialização, além de uma imensa curiosidade sobre um jovem aluno de tom misterioso.

Era uma manhã fria e chuvosa, típica do inverno paulista. Levantei-me por volta das 06h00min, para tomar café e me arrumar para um novo dia de escola. Resolvi me vestir bem hoje, trajando uma camisa preta com gravata vermelha e jeans escuros. Eu provavelmente seria alvo de gozações por parte dos meus colegas, por ter somente 15 anos e já utilizar gravatas, caso esse dia não fosse uma grande ocasião. Para muitos não era, mas para mim, sim. Não estou indo para uma formatura, nem para um baile, mas sim para meu primeiro dia de aula numa nova escola. Consegui ganhar uma bolsa de estudos, e vim de Santos para cá. Como não se pode trazer parentes para morar conosco em São Paulo, o colégio iria disponibilizar apartamentos para os seus alunos em suas redondezas, como nas universidades americanas.

Cheguei à capital por volta das 09h00min da manhã, por conta de um grande fluxo no trânsito. Me despedi de mamãe dando-lhe um beijo na testa. Ela disse que ficaria com saudades, mas ao mesmo tempo estava orgulhosa de mim. E eu também estava. Por fim, só assentiu:
– Cuide-se bem querido. – Aquela altura já estava com lágrimas nos olhos.
Logo após o táxi de mamãe partir, o orientador do colégio apareceu na porta do prédio, me convidando pra entrar. A princípio, era um rapaz novo, que beirava os 20 anos, tendo cabelos castanhos claros e um olho verde escuro. Era o tipo de cara que todas as garotas gostariam de sair.
Por fim, se apresentou:
– Oi, meu nome é César, tenho 19 anos e sou um dos orientadores daqui da escola. Qual o seu nome mesmo calouro?
– Ah, é... Me chamo Peter. Peter Harrison. – Respondi meio timidamente, gaguejando.
– É inglês garoto?
– Não, só herdei esses nomes de meus bisavôs.
Ser descendentes de ingleses, provavelmente, era a coisa mais legal que se poderia saber sobre mim. Não sou uma pessoa muito interessante.
César me mostrou o quarto onde ficaria hospedado, e por fim me desejou boa sorte na escola. Depois conversamos um pouco sobre o tempo enquanto ele me ajudava a guardar as roupas no armário. Enfim, deu tchau educadamente.

Passei o resto do tempo livre terminando de arrumar minhas coisas numa pequena estante, pois o meu colega de quarto havia saído para tomar café e não voltaria tão cedo. Pelo visto, era uma pessoa bem desorganizada.
Aconteceu que ele não voltou, então terminei meu lanche e fui pra escola. O prédio do colégio ficava há menos de 200 metros dos apartamentos, e de certo modo era bem bonito. Devia ter no mínimo cinco andares.
Quando entrei no prédio percebi que todos olhavam pra mim com uma cara estranha, o que não era muito agradável. Fiquei me perguntando se tinha algum abacaxi encima da minha cabeça, mas pelo visto não havia nada além de cabelo.

Eu pensava que por ser a melhor escola pública do estado, as pessoas iriam ser legais como eu era. Mas não, eu estava errado. Completamente errado. Subi as escadas até o último andar, que no caso era onde ficavam todas as salas do primeiro ano do ensino médio. Havia duas garotas bonitas na porta, conversando, até que as mesmas se viraram pra mim com certo desgosto, dizendo:
– Olha lá Vick, mas um nerd babaca para a nossa sala. – A primeira que me insultou era loira, e dificilmente dava impressão de ter só quinze anos.
– Me diz aí bebê, em que brechó sua mãe comprou esse terninho? – Continuou insultando a segunda garota morena.
Aquela altura eu já estava extravasando de raiva, e provavelmente iria bater nelas, porém o professor de Língua Portuguesa havia chegado. Pelo seu crachá, chamava-se Edmundo.
Entramos na sala normalmente, tirando o fato de que o professor fez questão de que eu me apresentasse. Então, me resumi em poucas palavras:
– Me chamo Peter Harrison, tenho 15 anos e vim de Santos. Adoro livros, vídeo-games e música.
Me sentei na última carteira e comecei a escrever uma redação sobre a violência urbana, que era o tema de hoje da aula. Edmundo parecia ser um ótimo educador, era o tipo de cara legal que você dificilmente iria imaginá-lo como professor caso o visse na rua. Era alto, magro, cabelos negros e olhos castanhos. Vestia-se elegantemente com um suéter e óculos vintage.
A garota ao meu lado era bem bonita, tinha uma pele branca macia e olhos claros que cintilavam com seus cachos dourados. Parecia ser baixinha, e seu nome era Alexandra.
No fim da aula, ela pediu para ler minha redação e disse que estava muito boa, tirando alguns erros grotescos de ortografia. O professor de Português também a elogiou e disse que era a melhor da sala, dizendo:
– Você tem talento, garoto.
E foi isso. Nas aulas seguintes não teve nada de muito interessante, só conheci outros professores que eram ranzinzas e nada parecidos com Edmundo.

No intervalo me sentei sozinho, novamente na última mesa do salão. Percebi que não era o único a estar sem companhia naquela sala. Pelo menos por enquanto. Lá no outro extremo do salão estava um garoto de cabelos tão negros como a noite, com olhos do mesmo tom. Trajava uma jaqueta preta, e por baixo estava com uma camiseta branca dos Sex Pistols. Sério, eu adoro Sex Pistols. Não entendi porque um cara como ele estava sozinho, visto que ele seria muito popular em ocasiões normais.
Quando terminei de lanchar, e fui jogar o saquinho do hot-dog no lixo senti alguém me empurrando por trás. Eu só não cai porque estava segurando na mesa, até que o cara do empurrão disse:
– Se quiser pertencer a MINHA escola, é melhor você começar a se vestir que nem gente, fedelho. É o último aviso que te dou. – Falou o garoto, que provavelmente tinha uns 18 anos, pela barba mal feita.
Em situações comuns eu teria surtado de medo e feito xixi nas calças, mas não fiz isso. Aturei a situação como um homem de verdade, estufei o peito, e disse tremendo:
– Quem você pensa que é?
Bastou aquilo para eclodir um silêncio incrível na Praça de Alimentação. Acho que nenhum novato naquela escola deveria ter respondido o valentão até então. Percebi isso nos olhos dele. Estava simplesmente intacto querendo me esmurrar até eu pedir piedade, até que ele me deu o primeiro murro. Naquele momento, tudo veio à tona em minha mente, e de certo modo com que não pude descrever, explodi. Não sei o que aconteceu a seguir. Só sei que bati bastante nele. Talvez minha estatura tenha me ajudado, eu era mais alto que ele. Ou foi pura sorte. Só sei que ambos estavam no chão sangrando a ponto de desmaiar, sendo que tinha mais de 20 caras chutando minhas costas antes do orientador chegar. Desmaiei.
Quando acordei, estava numa sala com cores neutras, sendo que provavelmente era a enfermaria da escola. Levantei um pouco zonzo e fui pra sala do diretor, onde já se encontrava o garoto que me bateu. César me orientou até lá, depois se retirou.
O Diretor, a princípio, pegou pesado comigo. Muito pesado. Me deu inúmeras broncas, ligou para minha mãe e disse que meu comportamento foi horrível para um primeiro dia de aula, e ainda citou que se ouvisse qualquer “pio” sobre mim nessa semana a coisa iria ficar feia. E ficaria mesmo.
Aliás, o nome do garoto que me agrediu era Eduardo. Ele até tinha má fama na escola, portanto o diretor já estava até acostumado. Mesmo assim, o moleque era muito inteligente, o que já era uma garantia que ele não seria expulso tão facilmente.

Fui dormir de cabeça quente, muito mal. Mal mesmo. Aquele dia já entrava para os piores da minha vida, senão o pior. Eu só queria dormir bem e ter um bom parceiro de quarto. Quando abri a porta do AP, vi Eduardo. Sim, era ele! Já não bastava o cara me espancar e estragar completamente o meu dia, eu ainda teria de dividir meu único lugar de lazer naquele inferno com uma pessoa tão desprezível. Mas ele já estava dormindo, o que já era bom. Pelo menos por enquanto.
Me deitei na segunda cama do quarto e simplesmente desabei, de tanto cansaço que estava. Além de tudo, não havia sentido minhas costas pelo resto do dia.



Enfim, tudo acabou. Ufa! Assim, dormi tranquilo naquela garoa fina, onde minha única expectativa era ter pelo menos fazer um amigo amanhã.