Anjos Da Morte
2 Capítulo 2 / Anjos da Morte / Assalto
Notas iniciais
“Acordei hoje com vontade de não ter acordado”. Essa frase me definia por inteiro, pelo menos por enquanto. Quando abri os olhos à primeira coisa que fiz foi ir a cafeteria do prédio (deveria ser muito cedo, umas no mínimo 06h00min), porque eu simplesmente não conseguiria fazer nada pelo resto do dia caso não tomasse café.
Havia pouquíssimas pessoas na Cafeteria, por volta de umas sete. Todas me olharam meio estranhas. Acho que estavam pensando: “Foi esse cara que teve coragem de bater no Eduardo?”. No fundo, não queria que pensassem isso de mim. Acho que eu já dei uma impressão de ser um péssimo aluno, o que era horrível para um calouro.
Enfim, vi a garota loira da minha sala. Ela estava bem bonita, mesmo sem maquiagem. Ela ficou olhando uns 20 minutos pra mim enquanto comia seu sanduíche, até que eu deixei de ser tímido e resolvi falar com ela. Eu não faria isso em situações comuns, porque costumo ser um “bundão”. Mas desta vez algo me motivou, e não me pergunte o que era.
Me sentei ao lado dela e disse:
– Oi.
– Ah, Oi. Você é o inglês da minha sala né? Prazer em conhecê-lo.
– Uhum.
– E então, o que você tá achando da nova escola?
– Acho que é só mais um inferno sem demônios. – Eu geralmente não falava frases muito inteligentes, talvez porque as pessoas que eu costumava conversar não as entenderiam.
– Nossa você é bem inteligente pra sua idade. – Ela falou aquilo como se fosse bem mais velha do que eu – E então, qual sua idade?
– Hã... É... Tenho 15 anos, fiz no último mês de maio há uns dias atrás. E você?
– Tenho 16.
– Ah, legal.
Eu pensei que a conversa morreria ali, mas não. Ela era o tipo de garota que sabia muito bem como conversar com caras tímidos como eu, além de ser muito legal. Deixou até eu chamá-la de Alex, como era conhecida por todos. Enfim, conversamos sobre livros, música e filmes, sendo que ela tinha um gosto muito parecido com o meu.
Até que chegou um cara negro e alto, bem alto, e sentou com a gente. A princípio era muito estiloso, usando tocas, camisa xadrez, óculos vintage, correntes do ouro e tênis de marca. Parecia ser um ex-jogador de basquete americano que seguiu carreira na música, mas tinha certeza que ele era muito novo pra isso.
Foi quando, então, ele abraçou Alex e a beijou na bochecha. Era o tipo de beijo que só namorados carinhosos dariam, mas logo depois ela disse:
– Hey pare com isso Rick!
– Ah, só estou sendo carinhoso Alex.
Por fim, ele notou minha presença e perguntou quem eu era. Odeio perguntas assim, mas respondi francamente:
– Ah, é... Meu nome é Peter Harrison, tenho 15 anos e sou novo na escola.
– Hum, legal. Meu nome é Henrique, tenho 17 anos, sou veterano e jogo no time de basquete daqui. – Então, acrescentou:
– Pode me chamar de Rick, Peter.
E foi isso. Os dois pareciam ser muito felizes juntos, até que perguntei:
– Há quanto tempo vocês tão juntos?
Tenho certeza que foi a pior pergunta da minha vida desde que nasci. Eles só ficaram rindo, até que Alex ironizou:
– Ora, ele é só meu primo seu besta.
Não quero ser preconceituoso, até porque não sou, porque quem costuma ter preconceito são as pessoas comigo. Mas eles não pareciam pertencer à mesma família, até porque tinham características completamente diferentes. Mas eu também tinha primos e tios diferentes de mim, então só dei um riso tímido.
Estava tudo bem descontraído, até surgir o garoto esquisito de ontem. É estranho chamar uma pessoa de esquisita, porque eu também sou esquisito. Mas isso não diminuía o fato de ele ser mais estranho do que eu.
Fiquei olhando para ele, até que num ar de curiosidade perguntei a Rick e Alex:
– Ah, então... Quem é esse cara?
Eles me olharam com expressões de dúvida. Creio que nenhum novato iria reparar no menino excluído, até que Rick falou:
– Todo mundo o chama de Sid em alusão ao baixista falecido do Sex Pistols, os dois são bem parecidos. Seu nome verdadeiro é Orion, ele está na escola há dois anos e tem as aulas de matemática comigo. O menino é um gênio, porém não tem nenhum amigo. Alguns dizem que seu único companheiro se chamava Pedro, porém ele morreu há alguns meses. É tudo que sei de boatos.
– Ah, que cara estranho. – Comentei.
– Parece com você, ué. – Disse Alex. Percebi que ela não estava sendo maldosa, pelo contrário, só estava brincando.
Eu só ri. Então nos despedimos e cada um foi para os seus quartos, e eu já começava a ficar feliz pelo fato de estar fazendo novos amigos. Até que vi Eduardo acessando a internet, e a única coisa que ele disse foi:
– Senta aí pateta, vou te mostrar uns jogos maneiros.
Eu não entendia muito esse cara. Em um dia ele quase me mata, e no outro quer ser meu amigo? Então, sentei e fiquei o vendo jogar games de tiro em primeira pessoa, o que não era uma coisa muito interessante.
Não queria ser amigo de Eduardo, mas acho que ele admirou minha atitude de enfrentar ele e de não ser medroso como os outros calouros, então se identificou com meu tipo e quis me conhecer melhor.
E foi isso. Fiquei deitado na cama ouvindo Nirvana pelo celular e esperando a hora da aula começar.
O almoço foi bem tranquilo. Sentei-me sozinho e comi só um pouco de macarrão com almondegas, que por sinal estava muito bom, a ponto de não me deixar com saudades da comida de mamãe.
Segui subindo as escadas até encontrar o laboratório, até que vi o menino misterioso agarrado com uma garota. Não era uma cena muito “quente”, só uns beijinhos, mas poxa! Como um cara como aquele poderia ter namorada? Isso me deixou intrigado pelo resto do dia, mas não liguei muito, afinal ele não era feio. Só estranho. E seria justo ele namorar uma garota do mesmo estereótipo do que ele, voltada pro Punk Rock. Aliás, uma menina muito bonita.
O resto do dia foi tranquilo. Fui péssimo em Matemática e ótimo em Língua Portuguesa, o que já era um costume pra mim. O Sr. Edmundo era muito legal, e até me deixou chama-lo de “Ed”, pois ele me chamaria de “Harry” quando fossemos falar particularmente. Não entendi o porque do “Harry”. Eu não era parecido com o Harry Potter, mas talvez fosse por causa do meu sobrenome. De uma forma ou de outra, o apelido não era tão ridículo.
O Sr. Ed disse que só não fui expulso ontem porque ele convenceu o diretor que eu era um gênio e tinha condições de me destacar no ano escolar. Ele também falou que o diretor, que por sinal se chamava Anderson, era um homem amargurado que tinha problemas com bebidas e drogas.
Não entendi porque uma pessoa com tantos problemas seria diretor da melhor escola do estado, mas ele me assegurou que Sr. Anderson não era tão ridículo assim.
No último intervalo me sentei novamente ao lado de Alex e Rick. Eles eram muito legais, e até me convidaram pra ir ao quarto deles mais tarde. Eu disse que com certeza marcaria presença, afinal, não poderia perder essa chance de ter novos amigos.
Já estava um pouco tarde quando sai da escola, pois estava na enfermaria cuidando das minhas costas. A enfermeira disse pra mim tomar um remédio regularmente para aliviar a dor, porque mesmo que nenhum osso tenha sido quebrado, fiquei com vários hematomas e eles iriam me atrapalhar bastante na hora de dormir.
Quando sai da escola, vi dois homens de preto parados na esquina, no canto do prédio. Acho que eles estavam fumando, e um portava um pau cheio de pregos na mão. O outro se encontrava com a mão no bolso.
Fui caminhando normalmente, até passar entre eles. Os mesmos me abordaram, com frases do tipo: “Passa a grana Playboy!”. Eu disse que não tinha dinheiro nenhum, até que um sacou canivete e o outro me apunhalou pelas costas. Caí feio no chão. Tentei fazer alguma reação com chutes e socos, mas eles eram muito mais fortes do que eu e meu antigo agressor Eduardo. Até que um utilizou o canivete para me arranhar todinho, até parar no pescoço. Foi quando me ameaçou:
– Se você não der a grana, já sabe o que pode acontecer né?
Foi quando eu já estava quase desmaiando de susto que uma coisa tão veloz quanto um raio surgiu. Parecia o garoto estranho que adorava Sex Pistols, era ele, mas ao mesmo tempo não era. Não sei explicar o que aconteceu. Só sei que dentro de alguns segundos os assaltantes estavam no chão sangrando.
Depois eu me vi com bastante sangue nos braços, que era aonde eles me arranharam. Não suporto ver muito sangue, então desmaiei. Só lembro-me de estar com o cabelo molhado de suor e de ser carregado para um quarto dentro do prédio. No quarto estava Alex e Rick. Só sei disso e do silêncio repentino que emanava naquele local.
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