Jorge Machado encarou o computador por segundos inteiros, perdido em pensamentos. A cabeça ainda doía, desde a manhã, e por algum motivo sabia que não tinha sido uma boa ideia ficar no escritório até mais tarde. Olhou ao redor: as outras mesas estavam vazias, os computadores desligados, a luz comum apagada. Não percebeu quando o monitor do seu computador desligou.

Quando voltou a atenção para a tela, contudo, achou-se surpreso. Apertou o on/off diversas vezes, conferiu os fios atrás do monitor, mas nada indicava o problema. Levantou-se da cadeira e ajoelhou-se no chão, procurando qualquer fio que tivesse desconectado. Todos em perfeita ordem. Seguiu o fio da extensão e o descobriu desplugado da tomada. Apesar de achar estranho, Jorge ligou-o novamente. Ao abaixar-se não viu a silhueta que levemente passou entre ele e a mesa mais próxima, porém ele sentiu.

Endireitou-se abrupto e olhou ao redor. Pensou que estava ficando doido, não havia nada ali. Voltou para sua mesa e o computador continuava desligado. Olhou para a extensão novamente e a descobriu desplugada mais uma vez.

— Mas que...

Jorge conectou a extensão em outra parede, nervoso, a outra poderia estar frouxa ou qualquer coisa do tipo. Atrás dele um porta-lápis caiu da mesa de um colega e espalhou canetas pelo chão do escritório. Jorge virou-se assustado. Por algum motivo ele sentia que não estava sozinho ali. Olhou as horas no relógio da parede. 20:35. Não sabia explicar como se permitira ficar tanto tempo fazendo hora-extra.

Já meio trêmulo, pegou as canetas do chão e as recolocou na mesa. Ainda observava a sala quando o seu monitor tornou a ligar sem qualquer aviso, no mesmo momento em que a luz do poste lá fora apagara. No terceiro andar da empresa, Jorge pode ver com exatidão a lâmpada se apagando. Desejou ter saído mais cedo, como todos os outros. Pensava em ligar para alguém, mas nem sabia se tinha trazido o celular. Quis sair correndo dali, mas alguma coisa dentro dele também dizia que era apenas o cansaço e a dor de cabeça pregando uma peça nele. De fato, estava completamente assustado.

Foi até a sua mesa perto da janela e não conseguiu evitar de olhar lá para baixo. Do outro lado da rua, seu carro estava estacionado no mesmo lugar em que ele deixara naquela manhã. Do lado dele, entretanto, Jorge viu alguém parado com as mãos nos bolsos. Era homem, talvez, apesar de só poder ver parte do perfil do rosto saindo pelo capuz da blusa. Lentamente a pessoa virou o rosto e encarou Jorge. Afastou-se da janela rapidamente, tendo certeza de que se tratava de um homem, ou melhor, um garoto.

Como qualquer paranoico, pegou a tesoura de ponta compartilhada no escritório. Pretendia usá-la caso fosse preciso, era melhor enfrentar um pivete na rua do que aquela presença estranha dentro do escritório. Voltou a olhar pela janela e o garoto já não estava mais lá. Aquela sensação da presença voltou a atingi-lo em cheio. De uma só vez várias coisas caíram ao chão: canetas, lápis, pastas e grampeadores. Mas não foi o repentino barulho que assustou Jorge. Não, foi virar-se e não se encontrar sozinho na sala. O garoto que estava lá fora agora estava lá dentro. Ele olhava para o chão como que interessado nos objetos. Seus olhos levantaram-se lentamente e encontraram os de Jorge.

— Para trás! — gritou Jorge, brandindo a tesoura ameaçadoramente. Dava conta daquele garoto, tinha certeza.

O garoto avançou. Jorge vacilou para trás, a tesoura ainda firme na mãos.

Um passo...

Uma gota de suor escorreu por sua testa.

Dois passos...

O garoto sorriu.

Três passos...

O pé de Jorge enroscou no fio da extensão que ele mesmo esticara. Sentiu o equilíbrio desaparecer quando seu corpo caiu para trás de encontro ao vidro da janela, estilhaçando-o. Sentiu o frio da noite quando começou a cair do terceiro andar, o vidro rasgando sua pele e a incapacidade o dominando. Mas nenhumas dessas sensações podiam superar o pavor ao encarar os olhos daquele garoto enquanto caía. Naqueles milésimos de segundo em que os viu, tivera certeza que estava encarando os olhos da morte.

Notas finais
Comentem por favor, qualquer crítica é bem-vinda.