Quando os primeiros raios de sol entraram pela abertura entre as cortinas do quarto, Diogo já encarava o teto. Não dormira naquela noite, como em qualquer outra desde que completara quatorze anos. A lista, a faca, a promessa... tudo tinha acontecido tão rápido. Mas agora, quase quatro anos depois, ele sentia que nunca tivera tempo para pensar no que realmente fizera durante todo esse tempo. Deitado na cama, ele abraçou o próprio corpo, e estremeceu com o frio do inverno belo-horizontino.

Diogo sabia que tinha que levantar, em menos de uma hora precisava estar no colégio, pronto para mais um dia de aula. Era parte do plano, do disfarce, ele costumava a pensar. Não podia se isolar do mundo, pois ainda havia alguma chance de ter uma vida normal. Ainda havia alguma humanidade nele. Pelo menos era nisso que Diogo queria acreditar. Levantou da cama e coçou a cabeça. Os cabelos castanhos crescidos a ponto da franja passar das sobrancelhas irritavam-no.

Tomou banho e se arrumou como de costume, vestiu o uniforme como qualquer outro, mas na mochila ao invés de livros, a única preocupação dele era que levasse a faca. Não uma faca qualquer, mas a faca. Ainda se lembrava do dia em que colocara suas mãos nela pela primeira vez, o poder que sentiu, a força...

Os pais e o irmão ainda estavam dormindo quando o garoto saiu pelo portão e começou o costumeiro caminho para a Colégio São Petrus. Os fones eram apenas decoração, Diogo não escutava música, mas mesmo assim ele os colocou nos ouvidos. O caminho não era longo, ele morava bem perto da escola. Quando chegou perto dos portões de grade, vários carros faziam fila para parar na frente do prédio. Alunos desciam dos carros e precipitavam direto para as propriedades da escola; Diogo os ignorou todos.

Queria manter aquela imagem de revoltado, de garoto problema, o quanto fosse, mas alguma coisa nele atraía as outras pessoas. Sua intenção era mantê-las afastadas, contudo acontecia o contrário. Diogo era considerado popular no Colégio São Petrus.

— E aí? — Diogo escutou alguém chamando. Tirou os fones e olhou para trás. Lucas estava encostado em uma das duas pilastras da entrada do prédio do ensino médio. Numa mão o smartphone, na oura a alça da mochila. — Vai falar que não viu o que eu te mandei no whats?

— Não vi — mentiu Diogo. Foi até o amigo e os dois se cumprimentaram com um aperto de mão.

— Sei. — Lucas não parecia convencido. — Olha aí agora.

— Não trouxe o celular. — De fato Diogo não havia trazido. Tentando parecer um pouco mais interessado: — O que era?

— Meu pai me mandou fotos de uma morte muito incrível! — Diogo levantou uma sobrancelha. Sabia que o pai de Lucas era policial de alta patente, aquele tipo de comentário era normal. — O cara se jogou do prédio onde trabalhava ontem, com uma tesoura na mão, cara...

Lucas tocou o celular algumas vezes, Diogo olhou em volta. Tinham poucos minutos até o primeiro sinal tocar. O amigo estendeu o celular e Diogo viu a foto: o homem estava estendido com o rosto virado para o chão; o braço direito embaixo do corpo. Diogo sabia que na mão direita estava a tesoura, provavelmente enfiada no peito.

— Hum... — foi tudo o que Diogo conseguiu dizer.

— Louco, né? — Eles entraram no prédio, Lucas guardou o celular no bolso. — O pior você não sabe ainda...

Não havia nada pior do saber que ele causara aquela morte e não sentia remorso algum, mas Diogo não fez comentários.

— Ele é pai da Isabela.

— Quem é Isabela? — quis saber Diogo.

— Aquela da turma dois... que andava com Pricila um tempo atrás e...

Diogo parou de escutar. Ele sabia quem era Isabela, já conversara com ela antes. Sentiu-se de leve incomodado. Ficou chocado em descobrir que talvez a garota não viesse à escola para chorar, ou ir velório, algo do tipo. Nunca pensara na família das vítimas antes. Almas, não vítimas! Corrigiu-se.

Ao entrar na sala, Diogo se sentiu entediado como sempre e acabou esquecendo da noite anterior e da foto que Lucas o mostrara. Todos os horários foram igualmente inúteis, o garoto não sentia nada de diferente nas aulas. No fim do último horário, porém, Diogo voltou a prestar a atenção por causa de Ana, sua outra amiga da escola.

— Você está convidado, viu? — disse ela para Diogo se referindo à comemoração do aniversário dela. Sentavam-se perto um do outro e Ana tinha a cabeça inclinada em sua direção. — Às sete e meia na minha casa.

Diogo balançou a cabeça em afirmação, mas sabia que não podia ir. Toda noite, sem exceções, ele saía pela janela do quarto escondido, andava pelos telhados e ia fazer o seu... trabalho. Contudo ele ão quis dar desculpas naquela hora, preferia não ir e explicar depois. Lucas, por outro lado, estava bastante animado com a festa. Diogo sabia do envolvimento dos dois amigos, apesar de nunca ter ouvido uma palavra sequer da boca de Ana a respeito, por isso entendia. Mas não conseguia deixar de pensar o quanto aquilo era inútil... aquelas vidas, aqueles planos. Tudo o que ele precisava fazer era fechar os olhos e, se por acaso do destino viesse os nomes deles, ambos estariam mortos. Diogo suspirou, queria sentir remorso.

Quando o último sinal da manhã tocou, Diogo já havia guardado seus materiais. Saiu da sala antes de todos, não se despediu de ninguém, e já rumava para fora da escola quando a viu: parada na porta de uma sala qualquer, ela tinha os cabelos castanhos e lisos caídos por parte do rosto, os braços cruzados e olhava para o chão. Isabela não fazia o tipo perfeito de garota, estava longe disso, mas Diogo por algum motivo a achou deslumbrante.
Como se soubesse que estava sendo observada, Isabela levantou a cabeça voltou seus olhos para Diogo no mesmo instante em que os demais alunos saíam de suas respectivas salas. Olhos verdes e de cílios grandes, estavam inchados e eles eram penetrantes... mas não foi a beleza que incomodou Diogo, foi a tristeza. Ele podia sentir o desconforto da garota. Pela primeira vez em anos, Diogo se sentiu dominado pela sensação vergonhosa de ter feito algo errado, de saber que afetara alguém, que machucara alguém.

Culpa? Se perguntou. Não, medo... Alguma coisa naqueles olhos verdes sabiam da noite anterior, sabiam o que ele era. Foram esses olhos que fizeram Diogo deixar a escola o mais rápido possível.

Notas finais
Comentem!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.