New Orleans
November 13th, 1996

Aconteceu assim:

Uma palavra, um simples nome, foi tudo que ele ouviu naquela manhã antes do prédio inteiro ruir a sua volta. Ah, como ele queria que aquele nome não fosse nada alem de um nome. Que a presença daquelas palavras não o movesse da maneira que movia.

Só um nome, só isso.

Mas não era só um nome.

Era o nome dela.

Mas tudo aconteceu tão rápido, tanto que ele não pode parar o ruído oco de sete andares de cimento e tijolos caindo na calçada. Destruindo e despedaçando tudo que estava do lado de dentro.

Incluindo ela.

Ele tentou, apesar da dor, mover os tijolos, enquanto gritava seu nome. Chamando-a com todas as forças que ainda tinha dentro de si. Talvez ele chegasse a ela. Talvez ainda não fosse tarde demais.

Ah, como ele queria que não fosse tarde demais.

Porem os gritos nas ruas e o som de sirenes o fizeram desistir. Ele não chegaria a ela, não a tempo. Não sozinho. Ele não arrancaria tudo aquilo do caminho antes de chegar a ela. A dor que sentia não permitiria que ele a pegasse nos braços.

Nunca mais.

Sentindo-se fraco e sem propósito algum no mundo, ele caminhou até o outro lado da rua e esperou. Com as bochechas úmidas por conta das lagrimas, ele se apoiou na parede do prédio atrás dele. Imaginando, com as partes mais sombrias do seu ser, como seria se o prédio que caíra fosse aquele que, no momento, suportava o peso de seu corpo. Um fardo que ele duvidava ser capaz de levar pelo resto da vida.

Era estranho que seu corpo pesasse tanto, enquanto o corpo dela parecia não pesar nada.

Onde quer que ela estivesse.

O mundo estava desmoronando a sua volta conforme o caminhão de bombeiros se aproximava. Os cantos de sua visão começaram a escurecer enquanto o mundo a sua volta se iluminava pelas luzes das sirenes e lanternas.

Nessas horas seus olhos procurariam pelos dela, procurando um ponto de foco. Procurando a luz no meio de toda aquela escuridão em que se encontrava. E, por um estúpido impulso, seus olhos se voltaram novamente para o prédio caído na calçada. Procurando pela sua luz.

A dor era grande demais.

O ar a sua volta parecia empurrá-lo cada vez mais para baixo. Sua garganta parecia fechar conforme o resto do ar escapava de seus pulmões, como se estivesse escapando da escuridão que agora o consumia.

Estava sufocando.

Porque sabia que ela, onde quer que estivesse abaixo daqueles sete andares, estava sufocando também. Ele sentia a vida ser sugada de seu corpo, com uma dor tão excruciante quanto a própria escuridão em si.

A escuridão tomava conta de sua visão.

O grito que ouvira antes do prédio ruir ecoava em sua mente, dando-lhe a impressão de que, se em algum momento parasse de ouvi-lo, fosse esquecer aquele nome, daquele rosto. E, se isso acontecesse, ela finalmente pararia de existir.

Uma ultima, e desesperada tentativa de encher seus pulmões de ar mais uma vez antes de desistir. Uma única tentativa antes de aceitar o fim.

Então acabou.

E ele mergulhou na escuridão da própria alma.