Angel With a Shotgun
2 One
Savannah, GA
17 anos depois.
– Parabéns! – Elize gritou com seu irritante sotaque francês.
Coloquei a mão em sua boca, sem a mínima vontade de ser gentil. Estávamos no meio do corredor, próximas ao meu armário, com todos os outros alunos da escola passando por nós. Mesmo sabendo que todos estavam ocupados demais com as próprias conversas para prestar atenção em nossa pequena discussão, não queria arriscar que alguém ouvisse e todos acabassem descobrindo que dia era. Se eu pudesse ter uma escolha, nunca nem passaria por esse dia.
– Mas... – Elize protestou, balançando a cabeça com força, me fazendo tirar a mão de sua boca. – É seu “dia especial” – ela fez aspas no ar, era engraçado como ela conseguia fazer algo assim tão simples parecer um ato ridiculamente dramático. – Não fique rabugenta logo hoje. – ela arqueou a perfeita sobrancelha loira, me desafiando.
– É meu aniversario. – resmunguei, me sentindo minha avó quando xingava a minha mãe por mudar de canal. – Não é um dia nada especial.
Já não bastava meus pais que, naquela mesma manhã, me acordaram com um enorme discurso, me chamando de bebê milagroso, dizendo que meu aniversário marcava o dia mais importante da vida deles. Dizendo que tinham uma enorme surpresa para mim naquela noite, que seria o melhor presente que eu ganhara em anos.
Passeis as duas ultimas semanas implorando a Elize que ela não me desse uma festa, surpresa ou não. Ela simplesmente resmungava algo sobre como eu não “sei me divertir, e devo começar a viver a minha vida ao máximo”, o que me deixava com mais medo ainda de que ela convencesse meus pais que era isso que eu queria.
– Mon amour... – suspiro. – Clhoe... – outro suspiro. – Você está bem grandinha pra saber o quão importante um aniversário é.
– Elize... – suspirei, imitando o olhar dramático dela. – Vá pro inferno.
Ela revirou os olhos. – Vocês americanos... – assim que o garoto alto que estava ao nosso lado saiu de perto de seu armário, Elize se apoiou nele e começou a me analisar da cabeça aos pés.
Eu odiava quando ela fazia isso.
Elize era loira dos olhos verdes, com pernas longas e um corpo surreal, que fazia com que eu me sentisse levemente desconfortável ao lado dela. E, naquele momento, apoiada no armário, com a calça jeans justa, o suéter branco e o cachecol vermelho, ela parecia saída de uma capa de revista francesa. O que não era estranho, levando em consideração que ela realmente era da França.
Eu não tinha nem metade da aparência dela. Minhas pernas eram longas, mas eu não tinha nem metade da graça com a qual ela se movia, eu parecia estar sempre me encolhendo e tropeçando por ai. Meu cabelo era castanho e vivia bagunçado, não tinha as ondas que aquela imensidão loira dela tinha.
Odiava que ela me avaliasse porque sentia que não tinha nem metade da aparência dela.
– Nós americanos o que? – perguntei arqueando a sobrancelha.
Por não ter os penetrantes olhos verdes de minha melhor amiga, eu não conseguia parecer assim tão ameaçadora quanto ela. Na verdade, meus olhos âmbar faziam tudo que eu falava soar como um pedido infantil, eu não conseguia ser assim tão expressiva com os olhos. Por mais ameaçadora que eu tentasse parecer.
– Nada, mon amour, nada. – ela esfregou as têmporas como se aquela conversa a estivesse dando uma dor de cabeça insuportável. – Vamos para a aula. – ela olhou pra mim e sorriu.
Elize começou a andar e eu troquei minha bolsa de ombro antes de segui-la. A primeira aula estava prestes a começar, então o numero de pessoas no corredor começou a diminuir gradualmente. Depois de três curvas, as únicas pessoas no corredor éramos nós duas e uma garota correndo para a aula.
– Já estamos quase na metade do ano letivo. – Elize murmurou ao meu lado. – E os novatos ainda acham que é necessário correr para as aulas.
Observei a garota correndo não muito longe de nós. Era engraçado como não fazia assim tanto tempo que eu era como ela. Correndo para a aula, achando que faria alguma diferença.
Imaginei, por um segundo, como Elize deveria ser naquela idade. E me perguntava se naquela época ela já tinha amigos. Porque desde que eu chegara naquela escola – dois meses antes – ela não falava com mais ninguém alem de mim. Claro que, de vez em quando, ela ficava rodando com um garoto em particular na aula de Inglês, mas tirando isso éramos só eu e ela.
– Chole, – Elize chamou minha atenção. – Você está com aquela cara de viagem ao passado.
Antes que eu pudesse responder, Elize beijou meu rosto de entrou correndo na sala de Álgebra Avançada, me largando sozinha no meio do corredor. Essa era uma das poucas aulas que não fazíamos juntas. E, enquanto ela estava com seus nerds em uma das mais complicadas na história, eu sofria na aula de Biologia.
Não que eu odiasse Biologia.
Ok.
A matéria era um saco.
Mas o meu problema com Biologia era o meu parceiro de laboratório. Por chegar no inicio do segundo mês de aula, todos já tinham um parceiro, menos Bradley Fuhrer, o asiático mais complexado da história. Aparentemente, a vida dele complicou no segundo em que a família americana de seu pai não quis colocar um nome chinês nele, e agora ele era o asiático americanizado. E a família de sua mãe – completamente crente da cultura chinesa e sua religião – odiava isso.
Porem essa não era a pior coisa que aconteceu com ele.
Aparentemente desde que Brad entrara no Ensino Médio ele teve problemas com todos os seus parceiros de laboratório. Até que, em Janeiro daquele ano, o colocaram com um garoto que acabou sendo o parceiro perfeito. Eles se davam super bem, como parceiros e como amigos. Então o ano letivo acabou, e durante as férias de verão o antigo parceiro de Brad fez alguma merda, então três semanas depois das aulas começarem – uma semana antes de eu chegar na escola – o garoto foi pego e levado para um reformatório por tempo indeterminado.
Brad me contou isso tudo no nosso primeiro dia juntos.
A sala de Álgebra não ficava assim tão longe do laboratório, então consegui chegar lá a tempo. O Sr. Griffin, diferente de todos os outros professores, não fechava a porta na cara dos alunos atrasados, mas ele os fazia limpar todas as bancadas no fim do dia. Então chegar atrasado não era uma opção.
Entrei no laboratório faltando apenas alguns segundos para o segundo sinal tocar. Todos estavam em seus lugares, incluindo Brad, que, ao me ver, acenou freneticamente com um sorriso que ia de orelha a orelha.
– Senhorita Fairley... – o professor disse ao me ver sentando sorrateiramente. – Estava me perguntando se a senhorita se juntaria a nós, ou se eu ganharia uma nova assistente.
Ouvi umas risadinhas no fundo da sala, mas ignorei.
Sr. Griffin provavelmente foi muito bonito um dia, mas esse dia passou há uns cem anos atrás. Ele tinha adquirido uma aparência de cientista maluco. Com o cabelo bagunçado, num tom branco que as vezes parecia prateado quando a luz do laboratório refletia nele. Como era de costume, o professor estava com uma calça bege, uma blusa social branca e o jaleco branco de laboratório. Seus olhos eram verdes, e realmente muito brilhantes de um jeito até assombroso, mas ficavam perdidos no meio de todas aquelas rugas e o debaixo daqueles óculos fundo de garrafa.
– Bom, aproveitando que a senhorita Fairley nos presenteou com sua presença, temos um assunto importante a discutir. – Sr. Griffin se apoiou na primeira bancada. – Já que o Senhor Grayson teve um problema com sua parceira... – não consegui evitar olhar para trás. Richard Grayson, o quarterback da escola, tinha um sorriso presunçoso nos lábios, enquanto a aba do boné do Patriots cobria seus olhos. O espaço ao lado dele estava vazio, procurei pela garota que geralmente sentava com ele, e a vi sentanda com duas amigas, que olhavam para Richard com raiva. – E como o antigo parceiro do senhor Fuhrer voltará para a escola amanhã... – Sr. Griffin continuou e a sala inteira ficou em completo silencio. – Como iremos resolver isso?
Brad olhou pra mim como se eu fosse uma namorada da qual ele quer se livrar porque tem algo melhor. Claro, o nosso relacionamento não era a melhor coisa do mundo, e eu daria tudo para não ouvir mais uma história sobre como era ser o único asiático da escola. Mas era horrível me sentir rejeitada por ele.
Desviei os olhos do meu parceiro de laboratório e olhei para o quarterback. Mais da metade da escola gostaria de estar naquela situação. E quando ele tirou o boné entendi porque. Seu cabelo era preto e seus olhos incrivelmente azuis. Tão azuis que quando encontraram os meus, fiquei completamente sem fôlego e minhas pernas tremeram.
Então foi a vez dele me analisar.
Seus olhos desceram pelo meu corpo, passando lentamente pelas minhas pernas. Prendi a respiração quando os olhos dele encontraram os meus outra vez. Mas não durou muito tempo, pois ele logo voltou a me analisar. Só que, dessa vez, seus olhos focaram na minha camisa. Ele arqueou a sobrancelha como se tivesse visto a coisa mais irônica que conseguia imaginar, me obrigando a olhar para o que estava vestindo.
All star branco, calça jeans justa e minha camisa favorita.
A camisa do Jets.
– Eu fico com a senhorita Fairley – ele disse tirando os olhos de mim e encarando o professor.
Sr. Griffin olhou para Brad, que não disse nada, mas dava para ver em seus olhos que ele estava prestes a dar pulinhos de alegria, e então olhou para mim. Eu simplesmente baixei os olhos sem dizer mais nada. O que ele, aparentemente, encarou como um sim.
– Tudo bem, então. – o professor disse. – Amanhã então todos sabem com quem sentar. Vamos começar então.
Brad começou a fazer anotações, mas eu não estava mais tão animada com a matéria de Biologia. Então procurei pelo livro que sempre trazia na mochila. O livro da vez – que, por pura coincidência, ou talvez não, era o meu livro favorito – era Conto de Duas Cidades. Era uma cópia realmente antiga, eu jurava que se não a segurasse direito tinham muitas chances dela simplesmente se reduzir a pó em minhas mãos, e era tão velha que eu tinha uma séria crise alérgica sempre que o lia por conta da poeira. Mas podia muito bem aturar ficar espirrando durante horas do que prestar atenção na aula.
– Chloe. – depois de um bom tempo de silencio, Brad me chamou em um sussurro. – Eu sinto muito. O Dean foi liberado dois dias atrás... Ele viria hoje, mas é um dia muito difícil pra ele. – olhei para meu futuro ex parceiro de laboratório a tempo de vê-lo balançando a cabeça. – Eu sinto muito, devia ter comentado antes.
– Não tem problema, Brad. – sorri.
Realmente não tinha problema. Eu entendia que Bradley Fuhrer não podia se dar ao luxo de perder um dos poucos amigos que tinha. Se eu estivesse no lugar dele, escolheria Elize antes de qualquer pessoa, sem nem pensar duas vezes. E se esse... Dean? Se esse Dean era amigo dele, eu entenderia.
– Você é legal... – ele sorriu. – Sei que se daria bem com qualquer parceiro de laboratório. Só não queria que fosse com o super herói da escola.
– Por quê?
– Sei lá. – ele deu de ombros. – Nunca me dei bem com o time de futebol em geral. – como fazia sempre que estava sob pressão, Brad arrumou nervosamente seu cabelo preto. – Eles não são as pessoas mais legais do mundo.
Na minha antiga escola o time de futebol inteiro achava que era bom demais para se envolver com o resto de nós. Eles, literalmente, só namoravam lideres de torcida, e desfilavam com elas pela escola como se fossem troféus. Mas quando se tratava de jogar, eles eram horríveis. Eles nunca ganhavam nada. Nenhum deles despertou o mínimo interesse dos olheiros das faculdades. Nem um único jogador.
E nos dois meses que passara nessa escola, soube que as coisas eram bem diferentes.
Elize vivia dizendo como o time da escola era o melhor. “Grayson levou essa escola a vitória mais vezes do que qualquer outro quarterback nos últimos anos.” ela dissera enquanto caminhávamos pelo corredor no meu primeiro dia de aula. E não era só ela que achava isso, a escola inteira concordava.
Menos Brad.
O único asiático da escola e o único asiático americanizado da família. Baixinho, do cabelo e olhos pretos. Que sempre parecia perdido naquele infinito mar de gente que rondavam os corredores da escola. E que eu podia muito bem imaginar sendo enfiado em um armário pelos brutamontes que tinham por ai.
– Eu entendo. – falei, sorrindo.
– Obrigado por entender.
Ele voltou a anotar e eu voltei a ler.
A aula de biologia passou rápido. Assim que o sinal tocou, eu joguei todo meu material de volta na bolsa. Brad me olhava como se eu fosse maluca por não tomar um cuidado absurdo com o caderno de Biologia. Ignorei o fato de ele me repreender com o olhar e dei um sorriso para meu ex parceiro de laboratório antes de sair da sala.
Quando eu estava saindo da sala, Richard passou por mim e sorriu. Como se já me conhecesse desde sempre. Ele já estava com o boné, então foi fácil acompanhá-lo com o olhar pelo corredor.
Ele foi para próximo do resto do time, foi quando percebi que ele era o único sem a jaqueta do time. O que era ainda mais irritante, porque percebi – também – que ele conseguia ficar bem só de jeans e uma camisa branca. Só uma roupa simples, e mesmo assim ninguém duvidaria que ele é jogador de futebol ou modelo de cueca.
Não que eu estivesse imaginando Richard Grayson de cueca.
Até agora.
– Chloe – Elize segurou meu braço me tirando dos pensamentos pervertidos com o quarterback.
– Desculpe. – comecei a andar ao lado dela. – Estava só pensando no que aconteceu na aula hoje.
– Brady Chang saiu do armário? – ela arqueou a sobrancelha.
– Não seja má.
– O que? O garoto é estranho, admita. – ela revirou os olhos. – O que rolou?
– Aquele garoto, antigo parceiro do Brad... – fiz uma pausa tentando lembrar o nome dele. Nada. Então dei de ombros. – De qualquer maneira, ele volta pra escola amanhã. E como o quarterback partiu o coração da ultima parceira dele... Eu vou ter aula de biologia ao lado do Deus Grego da escola. – olhei para Elize, sorrindo, porem o sorriso morreu quando ao ver o pânico nos olhos dela.
– Dean Chevalier está voltando para essa escola?
Assenti.
– Aquele bastardo psicopata. – ela cuspiu as palavras no ar. – Aquele garoto estava preso por um bom motivo. Três meses? Simples assim? – o olhar dela parecia capaz de destruir a escola inteira.
– Elize. – segurei o braço da minha melhor amiga com força. – Não precisa explodir tudo aqui. O garoto cumpriu a pena dele por sei lá o que ele fez.
– Ele matou aquela garota. – ela rosnou.
Agora foi a minha vez de entrar em pânico.
– Ele matou alguém? Tipo... Literalmente?
– Não – ela bufou. – A garota praticamente se suicidou, ou pelo menos essa é a história dele. – ela parecia perdida em uma lembrança muito distante. – Eles estavam juntos na casa de Dean, ele terminou com ela. Assim como termina com todas as garotas que se importam com ele. Ela pegou uma das estranhas armas medievais que ele tem em casa. – ela estava sombriamente calma. – Eles brigaram pela adaga. Parece ridículo, não? Mas perfurou um órgão e ela teve hemorragia interna.
– Se foi um acidente, por que ele foi parar no reformatório?
– Ninguém pode provar que foi isso que aconteceu, Chloe. – ela suspirou. – Mas também não podiam provar que não foi. – ela parou ao lado do meu armário com um sorriso melancólico. – Só esperava que ele ficasse lá por mais tempo.
Abri o armário e peguei meu livro de inglês, deixando o material de biologia lá. Elize continuava em seu próprio mundinho de melancolia. Eu não sabia como ajudar, porque não conhecia a garota, muito menos o garoto. Para falar a verdade eu não conhecia ninguém naquela escola a não ser Elize. Mas sabia de uma coisa: minha melhor amiga foi a primeira naqueles corredores a sequer comentar sobre aquela história. Nenhuma outra alma viva havia dito alguma coisa, nem mesmo quando o professor disse abertamente que o psicopata voltaria para escola em vinte e quatro horas.
– Só me prometa uma coisa. – ela disse assim que fechei o armário e começamos a andar para a próxima aula. – Prometa que não vai deixar que o sorriso dele te faça esquecer do que ele fez. Como vai acontecer com toda a população feminina dessa escola.
– Prometo. – ergui a mão direita. – Nada jamais acontecerá entre o bastardo psicopata e eu.
– Ótimo. – ela deu um sorriso fraco antes de entrar na sala. – Não preciso de mais uma melhor amiga morta.
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