Angel With a Shotgun
3 Two
Depois do almoço toda a energia da escola caiu, então fomos todos mandados para casa mais cedo. Elize se ofereceu para me dar carona. Apesar de eu ter carteira de motorista, meus pais não tinham exatamente uma quantidade absurda de dinheiro para me dar um carro aos meus dezesseis anos. Então, um ano depois, eu ainda dependia de carona para sobreviver.
Saímos do estacionamento da Jenkis antes da maioria dos alunos do nosso ano. Todos estavam ocupados demais com o inicio dos preparativos para o “labirinto”. Faltavam apenas uma semana e meia até o grande dia, então todos estavam preparando o “ritual de passagem dos formandos”.
Diziam que a tradição tinha vinte anos.
Mas os pais nunca confirmaram nada.
A coisa toda era bem simples.
Todos os formandos da Jenkins, liderados por um formando que tenha sido escolhido pelo líder do ano anterior, na noite da morte do dono da fazenda abandonada que tinha, não muito longe pela floresta na parte mais medonha de Savannah, se fantasiavam – como se fosse Halloween – e iam passar a noite na fazenda. Quarenta e seis formandos sozinhos em uma fazenda abandonada.
Apesar de soar completamente errado, quase não houve problema algum.
Quase.
– Chlo! – Elize praticamente gritou para me fazer olhar para ela. – Finalmente... Você ouviu o que eu disse?
Dei de ombros, envergonhada.
– Af, nem sei mais porque pergunto.
– Sinto muito. – falei, realmente sentia.
Elize aturava muita coisa desde que nos conhecemos. Eu não era exatamente um exemplo de melhor amiga, tinha meus problemas e na maioria das vezes não estava 100% presente nas nossas conversas. Eu tinha meu próprio mundo, para o qual eu adorava viajar sempre que podia, e acabava deixando minha amiga falando sozinha.
Mas acontecia, eu simplesmente desligava.
Depois de uma ligação muito suspeita, Elize me perguntou se eu queria passar na casa dela. Quando eu disse que achava melhor não, ela ficou tensa por uns bons cinco segundos antes de conseguir achar forças para começar a insistir que eu fosse. Dizendo que a família de seu pai estava vindo para Savannah e que ela precisava da minha ajuda para escolher uma roupa.
– Tudo bem... – cedi.
– Essa é a minha garota. – ela piscou pra mim, e, com isso, nossa discussão havia chegado ao fim.
A casa de Elize ficava na direção oposta da minha, e o tempo da escola até lá era um pouco mais demorado. Porem valia a pena. A casa de Liz era incrível. Parecia ter sido tirada de um catalogo Frances dos anos 1980. Era clássica e simples. Mas era exatamente isso que a tornava assim tão maravilhosa. E a mãe de Elize se orgulhava mais daquela casa do que da filha. Talvez seja porque a casa foi o primeiro símbolo de rebeldia que ela teve na vida, ou só porque comprar aquela casa marcou o fim do casamento e o começo de uma nova vida. Não importava o motivo, aquela casa era a liberdade dela.
Enquanto Elize era a única coisa que a prendia ao ex marido.
Como de costume joguei minha bolsa no primeiro degrau da escada de madeira e fui direto para a cozinha. Como tínhamos almoçado há mais de uma hora, nenhuma de nós estava exatamente com fome, mas tinha uma coisa naquela cozinha que nenhuma das duas podia simplesmente ignorar. Escorreguei para cima da cadeira e esperei enquanto Liz procurava as coisas pela cozinha. Ela colocou uma lata de Mountain Dew na minha frente, olhando para mim como se não soubesse porque eu bebia aquela coisa, e pegou o saco de doce no armário.
A casa dos Tweener era a casa menos visitada durante o Halloween. A mãe de Liz podia ser uma boa pessoa, mas nessa época do ano ela tendia a exagerar. Se ela não estivesse assustando as crianças com uma história de terror – ou com alguma fantasia, ou armadilha escondida no jardim – ela reclamava e gritava com aqueles que a chamavam de Senhora Tweener. Então, de qualquer maneira, as crianças costumavam a sair de lá chorando e sendo carregada pelos pais, traumatizadas.
Então eu e Liz tínhamos a oportunidade de acabar com os doces que sobravam.
E não nos importávamos nada com isso.
– Como estão as coisas entre você e Robbie? – perguntei abrindo meu terceiro Kit Kat.
– Estão normais. – Elize respondeu colocando um pirulito em formato de abobora na boca.
– E com normais você quer dizer...
Vi que Liz ficou desconfortável, ela tirou o pirulito da boca e me avaliou por alguns segundos sem dizer nada. Realmente, eu não era nada a favor do que estava acontecendo entre eles dois, mas eu ainda era a melhor amiga dela.
A melhor amiga viva dela.
– Normal... – uma pausa. – Eles ainda estão juntos.
– Achei que ele fosse terminar com ela.
Na verdade, eu tinha certeza que ele jamais terminaria com ela.
– Aparentemente não. – ela murmurou.
Robbie Mainhartt era o lixo da raça humana.
Ta bom, talvez não da raça humana.
Mas ele era o lixo da sociedade masculina.
Ele namorava uma líder de torcida, o que é até típico considerando que ele era jogador de futebol, mas passava todas as aulas de Inglês – e os dias em que a namorada sanguessuga dele estava ocupada demais caçando almas inocentes para ir à aula – com Elize. Na maioria que ele passava por nós no corredor, estando com a boneca inflável dele nos braços ou não, ele encarava minha amiga de uma maneira tão sugestiva que me dava nojo. Não estava lá quando isso tudo começou, mas conhecia a história tão bem quanto se estivesse.
Alem de Liz, ele era o único aluno da escola que não era americano – claro, também tinha Brad, mas ele havia nascido aqui, então isso não contava –, e, por isso, eles acabaram se dando bem logo de cara. Os olhos castanhos e o sotaque britânico faziam as garotas perderem a noção do certo e errado, não da maneira que Richard fazia – isso sendo apenas uma suposição, obviamente, não é como se eu tivesse perdido qualquer sentido que fosse quando ele olhou pra mim –, e certamente com Liz não foi nada diferente. Desde o dia em que se conheceram, ela se sentiu completamente atraída por ele.
E de todas as garotas que queriam algo com ele, alem da namorada, Robbie só percebera uma delas.
Elize Tweener.
Desde que se conheceram, Robbie e Liz se provocavam em todas as chances que tinham. Sempre que ele olhava pra ela no corredor, daquela maneira sugestiva, ela fingia estar ocupada demais analisando cada centímetro do corpo dele pra notar qualquer olhar que ele desse pra ela. Se ele estivesse em uma festa, ela apareceria com a roupa mais sensual que conseguisse encontrar. Se ele estivesse com a namorada, ela apareceria com um garoto. Ambos numa briga eterna para ver quem acabaria cedendo.
Até que um dia ele cedeu.
Foi uma semana antes das aulas acabarem. Era uma das festas que os formandos davam na ultima semana entre a formatura e os resultados finais. Elize foi, e Robbie estava lá sozinho. Eles começaram a conversar, como a maioria do pessoal faz quando está numa festa lotada de formandos que não conhece. Porem depois que o quinto cara chegou perto de Elize o bastante pra poder engravidá-la ali mesmo, Robbie não agüentou mais.
Ele a puxou em um canto – o beco ao lado do prédio em que estava, para ser mais exata – e surtou como uma garotinha. Liz, sendo quem era, disse que se ele realmente se sentia tão incomodado que ela se divirta com outros garotos que faça alguma coisa e não reclame como uma menininha que acabou de perder a boneca da Barbie.
E ele fez. Quando ela voltou para dentro da festa ele a seguiu, e ali, no meio de todos os formandos da escola, mais um bando de gente que nenhum deles conhecia, ele a beijou. Ela me disse que imaginou que o primeiro beijo deles fosse ser mais romântico do que aquilo, mas que de qualquer maneira foi perfeito.
Depois disso ele prometeu que tudo iria mudar.
Meses depois ele ainda estava namorando, e nada havia mudado.
– Você já acabou? – Elize perguntou olhando para o Kit Kat em minha mão.
– Sim. – sorri. – Vamos.
Arrumamos tudo na cozinha, dessa vez eu a ajudei e não deixei que fizesse todo o trabalho sozinha, então pegamos nossas coisas na escada e começamos a correr em direção ao segundo andar. Por não estar com uma bota de salto, assim como minha melhor amiga, eu cheguei no quarto dela primeiro e me joguei na cama. Liz passou por mim, me xingando em francês, e entrou no closet.
Fiquei deitada olhando para o teto, ouvindo enquanto Elize brigava com a bota de couro em algum lugar dentro do closet gigante dela. Tirei meu all star com um movimento rápido e sorri para mim mesma, triunfante.
A casa de Elize podia ser antiga, mas o quarto dela não.
As paredes eram rosa e lisas, tirando a que tinha atrás da cama, pois nessa havia uma Torre Eiffel pintada que ocupava a parede inteira. Aos lados da cama tinham duas mesas de cabeceira, uma com um abajur e a outra com o carregador do celular de Elize. Não precisava nem olhar nas gavetas para saber o que tinha por lá. Maquiagem e papeis, era só isso que ela guardava. Na parede oposta a cama tinha uma escrivaninha branca, com o laptop de Liz e algumas fotos, e acima disso tudo tinha uma TV de tela plana. Na parede a minha direita tinha a porta para o banheiro, ao lado um quadro de fotos. E na parede a minha esquerda a porta para o closet, e no canto uma poltrona com um abajur ao lado.
Meu olhar voltou para o quadro de fotos na parede rosa. Levantei-me com cuidado e fui até lá. Tinham varias fotos e alguns recados e desenhos. Algumas das fotos eram de Elize sozinha, outras dela com o pai e uma dela com a mãe, e tinham também algumas de nós duas. E pronto. Não havia mais nada, nenhuma imagem de quem quer que fosse a antiga melhor amiga de Liz. Fui até a escrivaninha branca e olhei para os porta-retratos, exatamente a mesma coisa. Ela com os pais ou ela comigo.
Eu podia entender porque ela não gostava de falar no assunto, eu odiaria ter de reviver a morte de minha melhor amiga varias vezes sempre que alguém perguntasse o que aconteceu com ela. Mas não faria o que Liz estava fazendo. Era quase como se a garota nunca tivesse existido.
Como se Elize não quisesse que ela estivesse viva.
Ou quisesse que ela sequer tivesse existido.
Um calafrio percorreu minha espinha quando minha mente começou a passar e repassar a imagem de Liz sozinha no quintal de casa, fazendo uma fogueira e tacando nela qualquer lembrança de sua melhor amiga.
Ouvir Liz xingar de dentro do closet e voltei a realidade.
– Que cor você vive dizendo que combina comigo? – ela gritou por trás da porta branca.
– Vermelho.
Outro xingamento que eu não fazia idéia do que significava. – Mas eu não tenho nada vermelho, alem do batom, é claro. – ela abriu um pouco a porta e colocou a cabeça para dentro do quarto. – E é um almoço em família, não posso aparecer de vermelho.
– O vestido branco de renda que comprou mês passado.
Ela pareceu pensar sobre aquilo por alguns segundos, então entrou novamente no closet e fechou a porta. Sem dizer nada, nem um “obrigada”, ou até mesmo um “boa idéia”, só uma portada na cara.
Não demorou muito para ela ficar pronta.
O vestido era todo branco. Por baixo era um tomara que caia, que parecia ser feito de cetim, eu não lembrava muito bem de quando compramos ele, e por cima era uma renda tão fina que parecia inexistente. As alças de renda eram finas, o vestido ia até pouco a acima do joelho, e não tinha decote, mas ela conseguia parecer uma super modelo mesmo assim. E ela estava com uma sapatilha prateada que combinava com as pulseiras e o colar dela.
– O que achou? – ela perguntou girando duas vezes no mesmo lugar.
– Está ótima. – sorri.
– Agora é a sua vez!
Não foi até aquele momento que eu percebi que ela carregava algo preto em um dos braços e um salto na outra mão. Arregalei os olhos sem acreditar no que ela queria que eu fizesse, e no que ela provavelmente estava planejando. Abri a boca para começar a surtar, mas ela me interrompeu.
– É um vestido antigo, não da mais em mim. – ela estendeu o vestido. – E o salto é um presente de aniversário. – ela deu de ombros. – Só quero ver como ficam em você.
O jeito que Liz me olhava, me fez perceber que não era só isso, ela estava mentindo. E não estava nem se esforçando para parecer convincente. Mas, apesar de tudo, não ia comprar uma briga com ela. Porque eu sabia que ela acabaria vencendo de qualquer maneira.
– Ta, mas você me deve uma. – peguei o vestido e fiz uma careta ao ver a pouca quantidade de tecido que tinha. – Ok, talvez mais do que uma.
Entrei no closet só com o vestido em mãos. Passei pelo pequeno labirinto de estantes e cabides até a parte aberta. Não era exatamente um espaço muito grande, era um quadrado nos fundos do closet, dez metros quadrados no máximo, com uma janela que deixava bastante luz do sol entrar, no canto um espelho que corpo inteiro, e algumas estantes com sapatos. Era onde ficava mais fácil de se vestir.
Comecei a tirar a roupa, tentando não derrubar nada a minha volta – o que não era completamente impossível, considerando o quanto eu era desastrada. Fiquei um tempo encarando o vestido preto e suspirei, me sentindo vencida. Elize estava aprontando alguma e aquela era a prova disso.
Mas não era como se eu pudesse fugir semi-nua pela janela.
Coloquei o vestido, esperando que ele fosse ficar horrível. Rezando que ele ficasse grande demais ou pequeno demais. Mas não. Pelo contrario, o vestido ficou tão bem que eu podia jurar que ele havia sido feito para mim.
Era justo na parte de cima, com alças que amarravam em minha nuca, e um decote que me fazia parecer ter mais a oferecer do que eu realmente tinha. Apesar de ser justo na parte de cima, ele chegava em minha cintura e ficava mais solto, era até um pouco rodado. Não tinha um centímetro daquele vestido que não fosse preto. Fiquei na ponta dos pés imaginando como seria se eu estivesse de salto. Nunca gostei muito de mostrar minhas pernas, mas alguma coisa naquele vestido fazia a idéia não parecer assim tão ruim.
Estava tão focada no meu reflexo que quase não percebi o que tinha atrás do espelho. Meu coração acelerou, como se de alguma maneira meu subconsciente já soubesse o que eu encontraria ali.
Tirei o espelho do caminho e abaixei ao lado da caixa de papelão. Na tampa tinha uma folha branca com um texto impresso. Passei os olhos rapidamente pelo texto – que mais parecia parte de um testamento –, mas foquei apenas na ultima parte:
“Deixo todas as minhas memórias para Elize Tweener, minha amiga e irmã.”
O lugar onde o nome fora assinado estava borrado por duas gotas d’água, que eram pequenas demais para ser qualquer outra coisa se não lágrimas. Pude imaginar Liz ajoelhada no chão, na mesma posição que eu, lendo aquelas palavras e chorando.
Foi só quando percebi de quem aquela caixa era que o nome assinado na ultima linha do testamento me pareceu mais perceptível, até mesmo legível.
– Ruby Hawthorne – sussurrei, sem saber exatamente para quem.
Então aquele era o nome dela. O nome da antiga melhor amiga de Elize.
E aquelas eram as memórias dela.
Sabia que revirar as memórias de uma garota morta não era nada correto. Principalmente quando essas memórias estão guardadas no fundo de um armário. Em segredo. Mas a curiosidade falava muito mais alto, arrastando cada centímetro da minha alma para o conteúdo daquela caixa.
Segurei a tampa da caiza e respirei fundo antes de começa a abri-la.
– Chlo? – a voz de Elize soava abafada, sabia que ela estava no quarto ainda, mas meu corpo inteiro congelou. – Desaprendeu a por um vestido sozinha?
– To saindo. – respondi, com a voz rouca.
Coloquei a caixa no lugar e me levantei, eu não conseguia sentir minhas pernas então quase cai ao tentar ficar parada. Arrastei novamente o espelho, tomando cuidado para não fazer muito barulho. O que foi muito difícil porque mal conseguia fazer meus braços pararem de tremer, quanto mais arrastar um espelho em silencio.
Sai do closet tentando parecer o mais confiante possível. O que nem era necessário, pois Liz provavelmente presumiria que eu estava nervosa por usar um vestido como aquele.
– Deus... – ela colocou a mão sobre a boca e a outra sobre a barriga, como se estivesse em completo estado de choque. – Chloe, você está linda. – ela pegou o salto e me entregou. – Vamos, veja como fica.
O salto era todo preto, com a sola vermelha. Era mais alto do que a maioria dos meus sapatos, e – por já ser bem alta sem a ajuda de sapato algum, obrigada – eu ficaria que nem um gigante usando aquilo.
Mas experimentei.
Eu ficava realmente mais alta, mais até do que eu gostaria. Porem eu também parecia ter mais postura, e de alguma maneira parecia ter ganhado mais corpo, e destacava mais ainda minhas pernas. Meu reflexo no espelho me fez suspirar.
Minha melhor amiga me abraçou de lado, e sorriu para mim pelo espelho. – Feliz décimo sétimo aniversário, Chlo.
– Obrigada, Liz.
– O bebê milagroso. – ela murmurou e nós duas rimos.
– O bebê milagroso. – ecoei suas palavras, mais para mim do que para ela.
Não me sentia tão milagrosa assim.
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