Angel Devil

2 Passeio Interessante.


Notas iniciais
Boa leitura! ♥

As amolações continuaram. Eu não conseguia mexer minha boca de tão dolorida que estava. É isso que ganho ficar distribuindo sorrisos falsos para essa gente que não merece se quer meu esforço, mas eles faziam questão dele presente no meu rosto sem dar trégua, e eu dei à eles, com minha mãe do meu lado viagiando se tudo saia conforme planejou.

O almoço seguiu bem; muita fartura e assuntos diversos. Estava tão bom que as pessoas transformaram a pequena celebração de boas vindas á família Amorim numa festa que durou a tarde inteira, então chegou anoitecer. Meus pés involuntariamente tomaram um caminho diferente do jardim lotado de ricos exibindo suas vidas perfeitas, e passei a perambular sozinha. As pequenas iluminarias embutidas no chão guiavam meu caminho pela grama bem tratada, eu distrair com a paisagem em volta e o silêncio bom, desejando ficar descalça no chão fofo. Mas preciso aguentar aquelas sandálias apertadas mais um pouco, até consegui fugir. Fugir...Talvez possa trazer problemas. Francisca vai me procurar uma hora ou outra para distribuir mais sorrisos e servi-me como trofeu...‘’Isso não vai prestar’’ — manifestou meu lado racional, tentando me freiar. ‘’Eu não vou fazer falta’’ — rebati teimosa.

Então na minha frente estava finalmente o portão branco por onde chegamos, aberto, num convite silencioso para minha fuga. Era tudo que eu precisava, mas a tensão dentro de mim aumentou, mesmo querendo eu não consegui correr na sua direção imediatamente. As vozes junto com a música rolando na casa ainda me ligava a festa, alertando que Francisca está por ai pronta para me dar o flagra. E pensando na idéia que daqui até minha casa é um longo caminho, a essa hora da noite as ruas estão desertas, fazendo minha vontade de fugi se tornar ainda mais perigosa. Tentei voltar para trás, mas meus olhos não desviavam daquele portão, e feito imas, comecei a caminhar naquela direção como se ele fosse o meu pólo norte, atraíndo-me.

Eu tinha razão em sentir medo, quase nunca violei as regras, era estranho a medida que a saída ficava mais próxima, mas quando a pior parte passou eu pode finalmente respirar aliviada, meus passos se tornaram mais firmes e tomei meu caminho...Bem, feliz com a minha rebeldia.

Eu consegui!

Peguei outra rua vazia, as árvores aqui impediam a luz dos postes adentrar, seus galhos cheios de folhas formavam arcos por cima da minha cabeça, balançando muito e espalhando folhas pelo chão.Até agora tudo ia bem, nenhum acidente ou algo parecido para alimentar minha paranóia. A única coisa ruim era o vendo forte e a falta de iluminação, mas entre os galhos observei a lua me seguindo e não preocupei com os outros detalhes, pelo menos ela esta ali lutando contra a escuridão que as sombras das árvores deixavam.

Uma rua.

Duas rua.

Três ruas.

E na quarta me liguei em algo que não tinha prestado atenção antes. O céu tinha bastante nuvens cinzentas e nenhuma estrela. O vento frio que soprava forte contra mim só significava uma coisa...

– Ah não! — ofeguei.

Meu vocabulário de reclamações é pequeno e infelizmente não foi suficiente para intimidar a chuva que estava preste a cair. Huntington beach é conhecida pelo sol escaldante, brisa fresca, céu limpo...

Nada de chuva!

– Por que justo agora? — resmunguei para o céu todo coberto de cinza.

Dez ruas foram o suficiente para os primeiros pingos violentos começarem a cair. A lua foi tampada pelas nuvens nebulosas e trovões rasgaram o céu de repente. A paisagem em minha volta também se tornou algo sombrio; as casas eram apenas silhuetas no escuro — escuro demais pro meu gosto! É domingo, nada esta aberto a essa hora a não ser o Shopping, mas eu teria que desviar meu caminho totalmente e chegaria em casa bem mais tarde. Só que não tive tempo pra escolhas, uma cortina de água tomou conta de tudo junto com o som violento dela, eu atravessei outra rua, procurando avenida principal que leva ao centro da cidade.

Minhas roupas pesavam, meu cabelo teimava cair sobre meus olhos, e para completar meu desastre eu não conseguia ver um palmo na minha frente enquanto relâmpagos tentando me acertar, só pode. Seus sons eram a trilha sonora perfeita do meu grande plano de ficar longe das garras de Francisca ir ao fracasso. Sim, comecei arrepender de ser uma fraca e não ter agüentado o que não é novidade para mim em todos esses anos. E agora, o que vou fazer?

Em meio a essa loucura toda não consegui ir para lugar nenhum na verdade. As gotas pareciam pedras perfurando meu cardigã, e tive que parar na primeira marquise que encontrei para no minimo concertar meu vestido grudento.

Meu queixo tremia...Minha pele endureceu de frio...O chão gélido não estava agradável...Estou sozinha...''Essa chuva não vai ir embora tão cedo, eu preciso procurar algum lugar seguro já!'' — eram as unicas coisas que minha mente processava.

Quando achei que era seguro, voltei a andar pelo cantinho do passeio, me enfiando entre árvores até adentrar outra rua sem nenhum automóvel ou alguma alma caridosa por perto. – É só encontrar avenida principal, pegar um taxi...Se é que alguem seria louco de dirigir debaixo deste diluviu! Mas esta dentro do carro já seria um grande avanço...

Então em meio aos meus devaneios incoerente eis que surge uma luz forte atrás de mim. Ouvi um motor grunhir, rodas bater contra a água escorrendo na rua, e quando se aproximou pode ouvir também batidas enfurecidas, parecia ser musica ou algo assim, não sei dizer. A nova adrenalina que meu corpo começou a sofrer não me deixava pensar direito, eu só sabia tremer agora de frio e de medo.

Quem em santa consciência dirigiria nessa situação? Um estrupador talvez, aproveitando para pegar vítimas que não estavam preparadas pelo temporal feito eu. ''Meu deus me salva!'' — implorei a primeira coisa que veio em mente como ato de defesa, forçando meus pés andarem mais rápido, ao mesmo tempo tentando disfarçar para não dar na cara que estou ao ponto de gritar por socorro e alarmar o estrupador.

Senti o carro diminuir velocidade, ficando ao meu lado, e automaticamente preparei-me para gritar o mais alto que conseguisse quando uma voz gritou antes: — EI, FUGIU DE CASA, FOI?

Meu coração sofreu duas batidas doloridas, indicando que posso enfartar a qualquer momento. Não olhei na sua direção, ainda tentando parecer menos assustada possível, andando rápido. Senti o carro se aproximar mais, pela minha visão periférica pode ver um braço balançando do lado de fora, talvez tentando me tocar...

Tropecei nos meus próprios pés e puxei a respiração, mas ela não veio.

– ELA NÃO TEM CARA DE FUGIR DE CASA...SERÁ QUE É QUEM PARECE? — outra voz surgiu contra o barulho da chuva, quem quer que fosse não estava sozinho.

– ANÃ DE CABELOS LOIROS, ROUPAS DE FREIRA...O QUE VOCÊ ESTA FAZENDO ESTA HORA SOZINHA AQUI, MELINDA? — não importa! Meu nome saiu da boca do primeiro estranho e foi apenas isso que meu cérebro registrou. Travei e meus calcanhares giraram na direção da voz como se ele tivesse me chamado naturalmente num dia-não-de-chuva.

O carro também parou. E o motorista foi o primeiro que vi quando ergueu seu rosto; encarei seus olhos e estreitei os meus, achando-os muito...Familiares. São os mesmos que me encaravam sem disfarçar no colegio! Lembrei bem como me sentia diante daqueles olhos castanhos e intrusos. Nunca nos falamos, a não ser por essas trocas de olhares estranha que ele direcionava à mim quando estudava no Ocean.

Céus, fazia meses que eu não via Brian...! Sei seu nome porque ele sempre arrumava alguma desculpa para tocar na banda do colégio pra não assisti aula, mas ele nunca compareceu as apresentações oficiais nos festivais e etc. Apesar de ser totalmente sem juízo, o professor gostava dele, os dois se davam muito bem, passavam a tarde inteira tirando um som numa guitarra velha da escola e conversavam sobre muita coisa.

Já eu freqüento as aulas até hoje por outros motivos. Participar como ajudante acumula pontos no meu currículo escolar, assim posso formar o mais cedo possível e ir embora para bem longe, bem longe mesmo!

Lembro que sempre no meu horário de ‘’trabalho’’ ouvia o som berrante da guitarra atravessar a parede de vidro, e as vezes, meio sem querer, me pegava batucando os dedos em qualquer lugar acompanhando e observando como ele desliza seus dedos pelas cordas. Mesmo não sendo o gênero musical que sou acostumada ouvir, eu gostava do sentimento naquelas canções, mas nunca tive coragem de aproximar do garoto que ao meu ver é muito esquisito, no modo de se vestir e falar principalmente.

Brian representa o tipo de pessoa que não posso me misturar — ’’Pessoas mundanas’’ como minha mãe diz e proibi meu envolvimento. Obedecendo-a, sempre fugi dos seus olhares incomodada. Nunca entendir porque fazia isso, como agora também não entendia porque está falando comigo.

– Precisa de ajuda? — ele insistiu.

– Se você poder ligar para São Pedro e pedi para diminuir um pouco o dilúvio seria ótimo! Depois ligar para minha mãe e dizer que sua filha só queria ser deixada em paz...Sim, eu preciso de ajuda — respondi a primeira coisa que veio na cabeça agitada, e me arrependi segundo depois, espremendo meus lábios um no outro pra ter certeza que nenhuma idiotice saisse mais.

Minhas bochechas duras esquentaram, desviei os olhos para a chuva caindo sem trégua sobre nós, esperando-o fugir da minha falta de sanidade...Ao contrario, eles me surpreenderam explodindo numa gargalha escandalosa, parecendo ser mais malucos do que eu...

Pelo menos serviu para mim acordar e perceber que não são tão ameaçadores assim. Era apenas dois adolescentes bêbados, não se importando com o céu desabando e perambulando por ai.

Mas quem disse que adolescentes não podem ser maus?

– Você tem o número do São Pedro, Syn? — algo longo se pendurou na janela de trás, enquanto perguntava. Ele ria sem parar, se equilibrando com a metade do corpo para fora, e eu me perguntei se ajudaria ou não colocá-lo para dentro antes que raxe o cabeça no asfalto.

Brian gargalhou mais uma vez, balançando a cabeça negativamente em resposta. Seu cabelo grudado na testa o impedia de enxerga muito, mas mesmo assim ria para amigo como soubesse o que o outro maluco estava fazendo.

– Sei lá quem é esse cara Jimmy! Mas o número da sua mãe a gente pode arranjar — ergueu o rosto para mim novamente — Entre no carro — e mandou.

Tá, eles provaram que não tem nada ver senti medo, mas não cheguei ao ponto de aceitar carona de desconhecidos, mesmo que sejam mais ou menos desconhecidos.

– Obrigada mas vou andando. Esta pertinho a onde quero ir — menti, fazendo meu teatro de sempre: sendo gentil.

– Acho melhor você não andar sozinha por ai. Não esta protegida atrás dos muros de Huntington Condos.

Eu ignorei a parte dele saber onde moro, obrigando meus olhos não arregalarem de surpresa, e concentrei em dar uma resposta mais convincente, mesmo agradecida por insisti.

– Então, a gente vai passar a noite inteira aqui? Eu preciso vomitar...- o tal do Jimmy falou antes que eu pode-se dar outra desculpa, engasgado.

Ele jogou a cabeça para baixo, pressionando sua cintura contra a porta, e tentava fazer alguma coisa que não sei o que é. O tal Jimmy balançou os braços com as mãos quase tocando o chão, e o mais impressionante daquilo era ele rindo feito criança.

– Aproveita então, porque eu não quero meu carro fedendo seu vômito Jimmy. — Brain foi sincero. Continuei olhar o maluco pendurado, mas o motorista desviou de novo minha atenção: — Ei, você não vai querer ver esta cena, não é? Entre no carro.

– Eu ainda consigo ver luzes vermelhas piscando cara...

– Acho melhor não...

Falamos juntos.

Andar sozinha a essa hora não é uma grande idéia. Entrar no carro de dois adolescente bêbados é pior ainda.

– Vamos lá loira, vai ser uma passeio interessante...- Jimmy tentou soar misterioso, começando ter os primeiros sinais de vômito.

Depois desse comentário não foi preciso pedir pela terceira vez, dei a volta e sentei no passageiro da frente.

A mudança de temperatura fez minha pele arrepiar, esfreguei as mãos nos meus braços, sentindo o calor aconchegante do ambiente, meu corpo agradeceu por isso. Também fui recebida por cheiro de cigarro e um outro muito bom que não consegui identificar.

Meus olhos percorreram todo o painel preto; as luzes florescentes do som, adesivos que não faço a mínima idéia o que significa, Cds enfileirados nas repartição do painel, isqueiro junto com varias palhetas, até encontrar Brian.

Foi...diferente encará-lo. Pela primeira vez estarmos cara a cara num ambiente também diferente e nunca imaginado por mim, tão próximos, parecia outro Brian. Ele encarou um certo ponto do meu corpo, depois se virou para trás e voltou com um moletom preto. Esticou o braço na minha direção, oferecendo o mesmo, e eu só alternei meus olhares ora para sua mão e ora para ele, não entendendo o que significava isto. Brian não disse nada, seus lábios formaram uma linha reta, e correspondia meu olhar demonstrando ter certeza no que fazia.

Mas eu ainda demorei um pouco para reagir, prestando melhor atenção nos traços do seu rosto. A sensação de nunca ter olhando diretamente me fez sem querer observar cada detalhe, concluindo como o conjunto da sua boca com o nariz são bonitos, o maxilar marcante,...Embaraçada com a minha ousadia peguei o moletom, e quando olhei para baixo levei um baita susto.

O pano fino do meu vestido — agora transparente — contornava perfeitamente meus seios cobertos pela peça intima. Olhei para Brian arregalando os olhos, tudo que pode decifrar na sua expressão era: ’’Entendeu, né?’’

Senti meu rosto esquentar como sempre acontece enquanto substituia meu cardigã pelo moletom, deixando a roupa molhada no chão do carro. Fiz todo esse ritual sem consegui forma uma palavrinha para reverte a situação embaraçosa, apenas queria enfiar minha cabeça em qualquer lugar e desaparecer.

O barulho vindo de trás quebrou o silêncio de repente, Jimmy soltou um palavrão quando sua cabeça bateu no teto do carro ao se jogar no banco. Ele não percebeu a tensão rápida que rolou na frente, começando a tagarelar sobre diferentes maneiras de se jogar do carro, como dizia estar tentando fazer aquela hora. Papo de bêbado. Mas chegou uma hora que o silêncio reinou novamente.

Brian dirigia com uma mão enquanto o outro braço descançava na janela fechada e a cabeça apoiada na mão. Seus ombros estavam fora da camiseta preta, destacando no seu braço direito os desenhos tatuados do anti-braço até o cotuvelo. Usava calça preta rasgada e mais apertada do que larga. Ele não era musculoso e nem tão magro, era um ''magro normal'', mas seu desleixo no jeito de se vesti e a confiança na sua postura faziam com que exalasse sexualidade por todos os poros. Até uma cega sentiria isso.

Sabendo que poderia ser flagrada a qualquer momento desvei os olhos com a imagem do roqueiro ainda gravada na minha mente. E foi então que eu reparei pendurado no retrovisor uma corrente com pingente balançando pro lado e pro outro conforme o carro se movia. Encarei a caveira com asas, tentando decifrar — é isso que venho fazendo desde que esses garotos cruzaram meu caminho. Decifrar.

‘’Por quê asas numa caveira?’’ — pensei. A curiosidade falou mais alto: — O que é isso? — e toquei o pingente com cuidado.

– É um Deathbat.

Continuei carregada de duvidas e Brian pareceu ver isso, deixando de prestar atenção na estrada um pouco. — O crânio com asas lembra como se a morte espera por todos nós. Que eu me lembre isso apareceu no século 18, para deixar os cemitérios mais ''harmoniosos'' com as asas. Em seguida apareceu os anjos, quebrando um pouco o símbolo da caveira representando a morte, dando mais conformidade...São histórias religiosas, eu e meus amigos temos um certo fascínio por esses tipo de coisa. E usamos como o símbolo da nossa banda.

Ouvi atentamente, insistindo um contado visual entre nós. A cor castanha parecia areia movediça, me fazendo querer olhar toda hora. Franzi o cenho. Brian passou a esperar algum comentário, critica, ou sei lá, já que eu mesma convivo com religião, mas como combate de uma doença minha mente logo processou: Nada de religião. E automaticamente as palavras a respeito da caveira foram ignoradas, restando: — Você tem uma banda, legal.

Ele não esperou que eu insistisse no assunto sobre a banda, pois quando falei seus olhos fitaram os meus levemente surpresos, talvez esperando que eu fizesse uma palestra sobre religião. Então outro minuto de silêncio se fez. Na verdade, demorou mais do que um minuto, eu voltei encostar no banco percebendo que não ia ter mais conversa.

– James...Jimmy, JIMMY ACORDA! — nem Brian gritando o garoto deitado de mal jeito acordou. Ele bufou, estacionando de frente a uma casa bege de dois andares, varanda e jardim na frente. — Já voltou — falou saindo do carro.

Segudos depois a porta de trás se abriu, Brian começou a puxar seu amigo pelas pernas. Eu assisti aquela cena com as sobrancelhas levantadas, perguntando o que pode acontecer de trágico dessa vez. Os dois vão se machucar! Mas Brain parece que não pensou na possibilidade e com esforço colocou Jimmy no seu ombro. Eu fiquei tão apreensiva que pulei para fora do carro.

– Vocês dois vão cair — avisei mesmo que seja obvio. Brian apenas riu e deu um tapa na bunda de Jimmy.

Fomos até a varanda, onde Brian colocou Jimmy no chão feito uma caixa vazia.

– Brian, não faz isso! — exclamei.

– Calma...- pediu tranqüilo e tocou a campaninha duas vezes, gritando ao mesmo tempo: — CARGA ENTREGUE!

Ele voltou, passando por cima do amigo no chão — Vamos — e me chamou. Fui com ele, mas focalizando Jimmy apagado toda hora.

A porta da casa se abriu, saindo de lá uma mulher que logo encontrou o garoto. — Ah, obrigada Brian! — agradeceu. — James Owen Sullivan, levanta agora daí moçinho!

– Espere mais um pouco, mãe...

Primeiro não consegui acreditar em quem acabou de falar. Jimmy estava fingindo este tempo todo...?

Parei de andar. – Não acredito nisso — e murmurei pousadamente, me sentindo enganada.

– Um pilantra, não é? — Brian concordou e me puxou pelo moletom na direção do seu carro enquanto eu ainda assistia a mulher carregar o maluco para dentro da casa.

De volta ao carro, ele engatou ré e pegamos o caminho ao leste. Na verdade eu não conheço praticamente nada nesta região, onde moro tem tudo que precisamos, por isso as pessoas chamam o condomínio de cidade isolada. Eu só saio de lá para ir a escola, uma opção minha.

Enquanto eu observava lá fora passar como um borrão, notei que minha liberdade não havia indo embora totalmente, agora que eu estava segura aqui dentro eu podia aproveitar mais um pouco dos minutos sem todo aquele estresse caotico.

Este tempo que passei com eles foi o suficiente para algo desperta dentro de mim, fazia tempo que não me sintia pressionada, como se uma faca tivesse pairando sobre minha cabeça e a qualquer erro ela despencaria.

– Então...Brian...- comecei pausadamente, nem sabendo o que eu estava fazendo exatamente, só tinha vontade de conversa com ele. — Além de socorrer donzela indefesa, tocar numa banda e deixar o amigo sã e salvo na porta de casa, o que mais você faz? — um sorriso brotou em seu rosto conforme eu falava, e isso me animou mais.

– Então...Melinda... – ele imitou meu tom de voz. — Se eu disser vou estragar a imagem que você tem sobre mim.

Hm. Será que escolhi um assunto delicado? Por que não falaria sobre sua vida? Eu decidi levar na esportiva: – Ah, então deve não ser tão incrível assim... — a pequena provocação deu um pouco certo. Brian cerrou os olhos e soltou uma risadinha curta, se limitando apenas balançar a cabeça negativamente.

Não estou costumada interessar por alguém tão rapidamente, e quando digo interessar é conversar, descobrir coisas sobre ela, ser eu mesma...Como eu fui agora, com esta simples atitude. Brian foi uma exceção. E pensar nisso senti um certo medo preocupante de repente, até de falar alguma besteira e acabar afastando-o, como sei fazer com as pessoas. Então fiquei convencida não tocar em nenhum assunto mais, e agradeço por ele não ter perguntando nada sobre mim, imagina-se eu tivesse que contar verdades como tentei fazer com ele? Não seria bom. Aliais, prefiro que pense que sou a tal santinha, esta carona não ia nos levar a nada mesmo.

– Eu vou poder entrar? — sua pergunta lembrou-me que já estou perto da realidade, com um suspiro baixo procurei a entrada do condomínio sem mais chances de adiar minha liberdade.

– Ah. Pode entrar por aqui.

Paramos em um das entradas do condominio e o porteiro noturno se aproximou, provavelmente suspeitando de todo aquele disfarce preto. Ele pediu a identificação batendo no vidro do carro, Brian o baixou olhando para mim sem saber o que responder.

O homem franziu a testa ao vê-lo, tentando mais uma vez:- O que deseja rapaz...

– Mike, sou eu, Melinda. — interrompi-o, inclinando na direção de Brian para me ver. Mike se calou, olhando para nós ainda mais desconfiado.

Esperamos dizer alguma coisa como seu papel de porteiro ou liberar a passagem, por fim pigarreou e saiu para dentro da cabine e acionou a lavanca, mas sem antes mandar outro olhar desconfiado.

Brian não precisou ir muito longe para ficar impressionando com o lugar onde moro. – Isso daqui é uma cidade planejada dentro da outra.

– É o que sempre penso — concordei. — Vire a terceira direita, depois a esquerda, é a rua onde moro.

As casas eram imensas. Mansões. No mínimo tinham quatro andares, garagens subterrâneas e outras coisas fabulosas, com jardins enormes as separando e se escondendo uma das outras.

Brian assoviou, elogiando, quando paramos em frente da gigantesca casa branca com enormes janelas francesas e varandas enfeitadas com plantas. Por fora sua arquitetura antiga dava classe à ela, fazendo qualquer um desejar morar num lugar feito esse,...É o que sempre ouço no colégio.

– É herança dos meus tataravós — expliquei enquanto ele ainda encarava o monstro de casa. — Meus pais nunca teriam condições de pagar uma dessas...

– Isso não os tornam menos ricos. — ele desconversou.

Aí, tudo se tornou sério demais. Resolvi que era a hora de ir embora, me preparando para dizer um resumido ‘’Tchau e obrigada pela carona ‘’ e dar o fora antes que cometa a loucura de convidá-lo para entrar. Eu faria isso.

– Então, Mel...Linda... É estranho dizer seu nome, parece que estou chamando duas pessoas.

– Pode me chamar do que quiser — falei baixinho.

Dentro do carro havia pouca iluminação, a unica luz que tinhamos era da rua e ilumivana-nos o suficiente para perceber que havia algo de indescritível naqueles iris castanhas, que me interessou mais do que o normal. Eu não entendia porque acontecia comigo, mas eu gostava de olhar para ele.

Palavras queriam escorregar da minha língua, eu não sabia o que exatamente fazer, eu só queria...O som do motor de repente morreu, quebrando o laço imaginário ligando nós dois brutalmente, e pisquei os olhos muitas vezes.

– Obrigada pela carona...- foi a unica coisa que conseguiu passar pela minha gargante, e sair do carro sem esperar uma resposta sua. Eu também não esperava que teria.

Fora do carro, fechei a porta e balancei minha cabeça disfarçadamente, tentando expulsar aquelass divagações sobre ele, porque eu não ia ver Brian mais, não faz sentindo continuar pensando nesta carona. Mas então, de relance vi um tufo de cabelo preto saindo do carro e eu estaquei na calçada, dando de cara com um Brian do lado de fora em pé, ele deu uns passos até mim, deixando a porta do seu carro aberta.

– O que você pensa esta fazendo? — fui até ele, desesperada. Se minha mãe nos pegar aqui fora é o fim.

– Eu sei que estou forçando a barra — ele ergueu as mãos se rendendo, porque sabe com quem esta falando e quem são meus pais.

– Eu já agradeci pela ajuda. Ou não conta?

– Talvez não...Se você responder uma pergunta, eu posso considerar.

– Manda — fui direta querendo acabar logo com isso. Cruzei os braços, o encarando.

– Você estuda no Ocean ainda?

–...Estudo sim.

– Quantos anos você tem?

Estranhei a pergunta, alem do mais: – Era só uma!

Mas Brian não quis ‘’discutir‘’, me encarando de volta com determinação.

– 17.

– É a última. Juro. — ergueu novamente uma mão, dessa vez em sinal de promessa. — Nesta quarta vai rolar uma festa na praia, nossa banda vai tocar, e...

– Olha, eu fico muito agradecida por você ter me tirado daquele lugar. Mas a gente não pode...Ser amigos — o unico jeito foi ‘’contar o mal pela raiz’’, eu falei tudo de uma vez, terminando com palavras que não fazia o sentindo, mas torci para ele entender mesmo que não fosse sua intenção sermos realmente amigos.

E de uma vez meus pensamentos mais escondidos despertaram, me forçando pedir desculpa e pedí-lo para refazer a pergunta que queria terminar de dizer. Engoli em seco e apertei meus braços cruzados contra o corpo. Já tinha feito o estrago.

– Por quê? — para minha surpresa ele insistiu.

O encarei quase de queixo caido, quero dizer, não no sentindo literal da palavra, pois somente travei, abobada pela segunda pergunta direta. Ele quer mesmo?

– Brian, serio. Sou uma garota complicada...Minha família não deixaria eu ir a essa tal festa, alias. Definitivamente aquela praia é um lugar que não vou. Não perca seu tempo — falei a ultima frase lentamente, esperando que entenda e não me leve a mal. Infelizmente é assim que funciona.

– Pensei que você era mais gentil — brincou mas não chegou a sorrir. — Leve alguma amiga , talvez eles deixam.

– Não...Tenho que ir.

– Beleza...Eu já saquei...E de nada — não ousei olhar para ele depois dessa, mas senti se afastar.

Conformada me virei para casa, ignorando todo arrependimento estranho batendo dentro do meu peito com força. " Tem que ser assim'' — eu disse a mim mesma, obrigando meus pés me levarem para dentro daquela casa fria.

Notas finais
Quem chegou até aqui merece palmas hahaha Capitulo grande, né?
Esta bom assim ou tenho que diminuir?
As Meninas que comentaram, obrigada meeeesmo, esse cap esta aqui por causa de vocês! E obrigada também quem deu um tempinho aqui, mesmo só para ler, até a proxima! :*