Angel Devil
20 Confessando.
Notas iniciais
– Sua família é daqui? Seu pai faz o que? E sua mãe?Tem irmãos? — ele questionou pausadamente enquanto meus olhos se distraiam com o céu cheio dos pontinhos brilhantes, me preparei para responder:
– Não, minha mãe nasceu na França, Paris mesmo. Já meu pai é de Los Angeles. Eles se conheceram quando ele foi estudar na Europa...
– Agora faz sentido — Brian me intorrompeu, soltando este comentário vago do nada.
– O que faz sentido?
– Você. É diferente das garotas daqui, e finalmente achei a explicação para isso. Uma mistura de Europa com America.
Eu concertei minhas costas contra o chão da caçamba, pensando na sua observação inesperada, e nada entendi. – Seja lá o que isso significa...
– É legal, eu quero dizer, você é bem bonita...Não bonita igual as mulheres daqui, você tem algo diferente. Dá para ver que você não é tipo, seus traços, a cor da sua pele, sei lá, não sei se dá pra explicar — balbuciou pela primeira vez sem jeito ao falar comigo, me deixando sem fala. – Continua — pediu então, quebrando o silêncio curto entre nós.
– Então...Tenho duas irmãs. Daiane e Talita. Elas são aquele tipo de aborrecentes ainda...E você, tem irmãos? — mudei minha mirada para ele, esperando que disse-se alguma coisa também sobre sua familia.
Brian só fez que sim com a cabeça e gesticulou para mim continuar. Revirei os olhos. Não quero falar sobre mim, não que seja um problema, eu só queria saber mais sobre ele. É mais interessante.
– Meu pai trabalha como admistrador. Minha mãe é só uma dondoca, fica o dia inteiro fingindo resolver problemas da casa como se não tivesse empregados para isso — eu parei de falar pra ri. — Ela vem de uma criação Catolica muito rigorosa, nós todos tivemos que adaptar ao estilo de vida de Francisca sem chances para escolher. Seus irmãos que estão espelhados por todo canto do mundo também são bastante rigorosos com essa coisa de religião. Nunca fui muito apegada á eles, só meus avos maternos, que já falereceram — fiz mais uma pausa para checar se ele estava prestando atenção na minha história entediante. — Eu não tenho nada de extraordinario para contar Brian. Como viu, não sou Freira, anã de roupas sofisticas, a loira metida,...Nada do que muitos me chamam. Eu não sou assim.
– Eu nunca achei que você se enquadrava nessas merda de apelidos mesmo. Mas sempre achei estranho seu jeito, acho que por isso eu te observava tanto. Seus olhos pareciam dizer tanta coisa, eu me pegava tentando entender o que acontecia no seu dia — Brian falava como se fosse algo muito simples para ele, só que me afetou de muitas maneiras.
Eu percebia seus olhares e estranhei quando falou sobre meus olhos. Pensei que fazia um bom teatro. Pensei que ninguém dava a minima.
– Oh. Achei que sabia esconder atras daquele disfacer politicamente correto.
– E você consegue. Não peça para eu explicar, não sei como consegui ver, eu só via.
Depois dessa foi dificil falar alguma coisa. O silêncio retornou, aproveitei para refleti enquanto apoiava minhas pernas na parede da caçamba. Daqui do alto parece que é quase possivel tocar o céu de tão baixo, com mais estrelas e uma grande lua. O estacionamento do parque agora só tinha dois adolescentes deitados na caçamba da caminhonete enquanto o cenario atras de nós se transformou numa escuridão macabra, tipo aqueles parques abandonado á séculos como em filmes de terro.
– Então, você tem mais alguma observação? — foi minha vez de quebrar o silêncio.
– Pra caralho — confessou sorrindo um pouco. — Você pode ter o que quiser, ir para aonde quiser, viver da melhor maneira possivel, mas as vezes você trata sua família como se nada disso existi-se...É engraçado.
Mordi o labio para não sorri de orelha à orelha. Maior parte da graça não era por causa do significado das suas palavras. Ele realmente me observa! Eu não sei descrever o quão é...Lindo se interessar assim por mim.
– Sabe aquele ditado ''Dinheiro não traz felicidade''? Me enquadro bem nesta frase. Eu não gosto de nada daquilo mesmo, nunca abusei de tudo que o dinheiro da minha família tem a oferecer, pode me chamar de idiota e mal agradecida mas fazer o que? Trocaria mil vez uma casinha humilde com meus pais lutando todo mês para conseguir ao menos pagar as contas da casa. Quem sabe eles não seriam diferentes? Tiranto um pouco meu pai, quando não esta sobre os efeitos de Francisca ele é um cara muito legal. Sempre tentou de algum jeito me animar, a gente passeava bastante quando eu era pequena, e ele sempre voltava para casa com algum presente, mas com tempo eu cresci e não me importava mais com as bonecas da moda — terminei com um sorriso triste nos lábios. Eu realmente gosto de ser filha do John Valentin, mas o resto acaba estragando.
– Mas se seu pai é bom como você fala, como consegui suportar sua mãe? Quer dizer, sei que não conheço ela, não quero ofender...
– Não, tudo bem, ela é bem dificil de lidar mesmo. Só tem o titulo de mãe para mim porque não tem outro jeito. Já ele, acho que apenas aceitou. Fazem a pose de marido e mulher mas na real, há uma espaço inorme entre eles na cama. Isso me lembra que meu pai tem uma amante...
– Serio?! — exclamou.
– Serio! Eu já o ouvi cochichando no telefone. Uma vez entrei no seu escritorio sem bater e ele todo assustado tentou concerta o flagrante: ''Minha secretaria '' — tentei imitar a voz de homem. — Como se ela fosse só isso...
– Essas são as melhores — Brian brincou e eu bati no seu ombro fingindo ficar com raiva. — Por que será eu não fico surpresa?
Rimos até perde a graça e voltar no assunto.
– Alem de sua mãe ser uma dondoca e dificil de lidar, aceita ser chifrada?
– Não acho que ela realmente saiba quem é a mulher, mas deve saber quando seu marido esta estranho, vivem tanto anos juntos...Com certeza ela sabe. Minha mãe é esperta. Mas apenas fingi de desentendida para manter a imagem impecavel da família. As vezes dar vontade de sacudí-la para vida.
Me senti estranha por falar sobre isso tão abertamente, eu nunca tinha feito! Era como se Brian tivesse acabado de entregar o cartãozinho de "confia em mim". Senti-me lisonjeada por ele querer ouvir e me encher de pergunta, mas ao mesmo tempo assustada com a minha facilidade de aceitar e me abrir. Acho que agora é minha vez!
– Só eu estou falando nesta conversa, que eu sabia não é um monólogo.
– O que exatamente quer saber? Você sabe quem eu sou — resmungou baixinho.
– Eu sei o que todos sabem. Mas começa me contar sobre a banda...Sei que você gosta muito de fazer parte — sugeri.
– Matt me chamou para entrar na banda no final do ano passado. Eu queria muito fazer parte disso, minha intenção quando fui estudar música é torná-la o meu estilo de vida. No começo foi duro, meus pais fizeram de tudo para eu desistir e tentar enxergar ''Quantos musicos você já viu crescer na vida?'' Meu pai é um exemplo disso. O tempo passou, nunca alcançou realmente o estrelato, e acham que isso vá acontecer comigo também.
– Eles já te assistiram? Com certeza mudariam de opinião...
– Sim, até deu certo. Mas você já deu um Google, sabe o final da minha ''grande'' história.
Eu acabei concordando com a cabeça meio sem graça. Escondi o rosto puxando algumas mexas do meu cabelo solto para a frente, ele riu de mim e puxou minhas mãos.
– Foi mal, minha curiosidade é maior.
– Claro, claro, eu teria feito mesmo — continuou cheio de gracinhas, me deixando ainda mais vermelha. Eu agir rápido, perguntando sobre sua família também, para esquecer o que eu fiz.
Sua madrasta é dona de casa e seu pai, casado pela segunda vez, mexe com música também. Tem três irmãos: Brent, McKenna, e o Johnny. Era uma família de classe media, com o contididiano normal, nada de dramas exagerados como a minha família.
– Tive uma ideia! Vamos fazer assim: vou te fazer uma pergunta objetiva e você responder mandando outra pergunta em seguida, pode ser?
Ele assentiu, curioso.
– Ok. Hm. Comida predileta?
– A da minha madrasta e qualquer tipo de massa. E a sua?
– Chinesa, na verdade as duas culinárias, Chinesa e Japonesa. Sem dúvida.
Brina fez cara de nojo, olhando para mim como se eu tivesse falado que como rato assado.
– Lesma, comida feito de lesma.
– Você já comeu lesma?
– Não, mas aquilo lembra lesma. É lesma e pronto — concluiu birrento.
– Ah, tá, é bem melhor comer macarrão que parece que tá engolindo minhoca. Porque lembra minhoca não é? — dei uma risada, referindo a massa que ele disse gostar.
Brian levantou as sobrancelhas, fingindo esta ofendido com a minha observação. Pareciamos criança.
– Vamos esquecer isso tá legal? Antes que começamos uma discursão ridicula. Música?
– Qualquer uma do Metallica e Iron Maiden. Conhece?
– Posso ter ouvido falar...Minha casa só toca música Catolica, Francesa e Classicos da Opera. Estou começando conhecer generos diferentes agora, eu quero muito conhecer...
Brian tinha visivelmente se animado com as minhas palavras. – Então qual genero você já gostou?
– Hm, Punk Rock...O cara que furou minha língua aguçou bem minha curiosidade sobre esse. E eu gostei — respondi também animada em falar sobre música com alguém pela primeira vez. Mas se foi ao percebê-lo não compartilhando da mesma animação de segundos atras.
– Se eu te emprestar uns Cds será que mudaria de ideia?
– Talvez. Por quê?
– Punk Rock é bom, mas parece que você gostou mais do cara do que realmente a música. É o que parece – deu de ombros com um ar de atrevimento infantil, tentando me tirar do sério. Não funcionou. Resolvi brincar, deixando suspense sobre o meu certo ''interesse'' pelo Toby.
– Cidade litorania ou urbana? — sei que a resposta pode ser meio obvia, mas talvez ele não goste daqui como eu e quer ir para outro lugar no futuro.
– Sei lá. Eu gosto daqui. E você?
– Eu até passei gostar um pouquinho, mas definitivamente quero morar onde tudo em volta seja predios e não água. Hm...Programa de tv?
– Ainda dou umas boas gargalhadas com o velho Simpsons.
– Ah você não vai acreditar, mas eu adoro assistir aqueles seriados Teen bem frescos e dramaticos — confessei meio envergonhada. Diego, depois que descobriu, tira uma com a minha cara sempre que pode.
– Tipo, só essa merda que você assisti?
– É. Quando estou sozinha em casa. Sei lá, é costume, porque desde pequena tentava ficar ligada no ''outro mundo''. É meio confidente demais, esqueci isso Brian!
Ele só deu uma risada, balançando a cabeça.
– Maluquinha.
Concordei rindo junto com ele.
– Nós temos os gostos completamente diferentes, percebeu? — e perguntou sentando com as pernas do lado de fora da traseira aberta. Eu repeti seu movimento, sentando do seu lado com os nossos braços praticamente se tocando.
– Isso é ruim? Quero dizer, pensando por um lado, se fossemos iguais, de mundos iguais e opiniões iguais, não poderíamos fazer uma série de coisas diferentes. — argumentei, arqueando uma sobrancelha para saber se estou certa.
– Então, quer dizer que você quer fazer coisas diferentes comigo?
– Não era este o proposito? Conhecer cada pedaçinho e se divertir?
Um sorriso cheio de segundas intenções brotou nos seus labios, fazendo meu rosto esquentar, mas me mantive firme, olhando fundo naqueles lindos olhos castanhos.
– Eu disse que vou fazer. E vamos fazer — decidiu por nós. Revoltada com mais um dos seus atrevimentos decidi não brigar com palavras, levei minha mão para seu cabelo, apoiando meu queixo no seu ombro, e acariciei seus fios negros.
– Eu gosto dessa parte, onde deixamos de falar e a diverção começa...- murmurrei perto do seu pescoço, atiçando-o como sei que aconteceria. Senti seu corpo erijecer debaixo da minha mão, Brian procurou meus olhos se inclinando mais para perto.
– O que acha?
– Olha, garota, você está me provocando não é de agora. A hora que eu te pegar de jeito...- avisou como se tentasse controlar um animal, me deixando em um estado de frenesi que era parte onde o medo surgia. Daqui é um pulo para terminarmos o que começou naquele dia, no seu carro. Não podiamos. Ainda não.
Afastei, brincando com seus sentidos mais uma vez. Era essa a intenção na verdade. Eu não posso demonstrar fraqueza todo tempo, ele sempre consegui fazer seus joguinhos, era a minha vez.
Quando voltei olhar para Brian, ele ainda estava na mesma posição, com uma expressão confusa e intensa que eu não sabia diferenciar. Ele desviou seu olhar, fugindo, e passou sua língua pelos lábios secos parecendo pensar em alguma coisa. Foi então que lembrei da sua mensagem de manhã.
Tudo até agora foi uma camuflagem do que realmente deviamos esta dizendo um para o outro, eu não queria, mas nós precisamos conversar!
Sua mão esquerda passeou pelos seus cabelos diversas vezes tenso, ele abriu a boca na tentativa de falar alguma coisa mas fechou quando nossos olhos se encontraram novamente. Chegou a hora.
– Eu...
– Não — tentou me impedir mas não tem jeito. Precisamos conversar.
– São quase três meses depois daquela carona. Eu conto como semanas fora da minha realidade. Muita coisa aconteceu Brian. Mas só vou dizer quando eu souber o que você tem à mim dizer — dei a deixa, torcendo para que ele acabar logo com isso, e que tudo fique mais claro e possivel de suportar.
– E se o que eu tenho para dizer você não querer ouvir?
Mordi o lábio, me sentindo ridicula por achar em algum momento que ele confessaria algo como ''Eu gosto de esta com você'', sei lá, eu esperava no fundo que ele sentia o mesmo que eu. Mas não, claro que não.
– Não estou pedindo para você me agradar. Eu quero saber, não importa o que seja — me aproximei, tocando seu ombro sutilmente descompessada. Não deixei isso transparecer. – Você está com medo de quê, Haner?
Senti o cheiro de tabaco quando ele soltou uma longa respiração. E para minha frustração Brian abriu o espaço entre nós, voltando olhar para frente em reação a minha pergunta.
– Eu não tenho medo de nada. Essa seria minha resposta à quase três meses atras — quase três meses atras...Quando ''não'' nos conheciamos ainda. — Sabe por que eu precisava te ver hoje? Porque queria tentar concertar alguns erros.
- Queria?
- Melinda — disse meu nome debaixo de um outro suspiro. — Eu planejei embebedar você, drogar você, e depois transar com você. Em todos aquelas noites. Todas as vezes. Eu tive perfeitas oportunidades, mas por sorte, por medo, por qualquer outra razão, você escapou. Era isso que eu estava pensando há dois dias, é por isso que fui grosso com você, é por isso que estou aqui arrependido. Eu não consegui...- parou de falar.
Não sei dizer o que tinha atraves daquela mascara dura no seu rosto, mas eu sim estava em choque, sentindo medo.
Com um novo cigarro caído no canto da boca, Brian o acendeu e deu uma longa tragada calado. A fumaça espalhou entre nossos olhos fixados, da mesma forma que isso me dava aflição, decepção, raiva, não consegui evitar de ficar vislumbrada pela beleza misteriosa dele. Droga. Estou com vontade de chorar.
– Por que? — minha voz saiu num sopro sufocado, fiquei em duvida se ele ouviria ou não, mas não quero repitir, não quero demonstrar tudo corroendo dentro de mim, formando um bolo dolorido principalmente no meu estômago.
– Porque eu não paro de pensar em você. Virei um psicopata fodido. Eu queria acabar logo com isso, achei por não ter fudido você ainda fosse o problema, achei que isso só era tensão e tesão acumulado. Mas estava completamente enganado. Você é bem mais do que uma transa de 30 minutos para conquistar.
Agora tudo fazia sentindo...Tequila, bêbados, conversa, carro. Claro! Eu fui esperta no incio, tinha recusado não ir com ele, mas Brian já tinha calculado tudo e não insistiu porque de qualquer jeito eu ia parar dentro do seu carro mesmo.
Fechei os olhos esperendo a raiva vir com mais força, o suficiente para estapeá-lo, ou ferí-lo, sei lá, descontar minha raiva por brincar assim comigo. Mas estragar seu fisico não é a solução, também não tinha tanta vontade assim.
Céus...Por que simplesmente mando ele se fuder e nunca mais pensar em falar comigo?
A traídora decepção em segundos foi embora, a dor ficou guardada numa caixinha longe das minhas lembraças mais preocupantes, e começei a sentir novamente vontade de abraçá-lo perto da sua nuca, sussurrar que esta tudo bem e pedi para nunca mais fazer isso. Só. Beijá-lo também, e olhar seu rosto bonito de formas tão variadas, insuportáveis e profundas.
Desde o começo sei que não ia ser facil, ele demonstrou claramente que foi eu que busquei por tudo isso, eu deixei irmos longe demais, foi a minha escolha, e agora é muito tarde para mandá-lo desaparecer da minha vida.
– Coisas estranhas estão acontecendo, não é?
Assentiu jogando a fumaça para o alto. Ele me deixou chegar nas minhas proprias conclusões, sem perdi desculpas, sem tentar se explicar melhor, sem promessas que isso nunca mais voltara acontecer.
O monstro dentro dele não deixava enxerga que eu precisava disso, de uma certeza, da sua confiança. Um pouco mais decepcionada joguei meu corpo para trás, deitando na caçamba, e tampei meu rosto com as mãos. Coçei meus olhos e observei-os molhados, assustada com as lagrimas.
Há muito tempo eu não chovara, tinha me esquecido como era isso até o momento, porque nada conseguia me atingir forte o suficiente para me fazer chorar assim, com todos os sentimentos em ebulição dentro de mim. É loucura gostar tanto para tão pouco que recebo, ele não merecia, sei disso, mas era dificil dizer ''não'' à Brian. Meu estupido coração não deixava enquanto meu cerebro cheio de piadas afiadas tentava me atingir, jogando varias coisas na minha cara para me fazer senti ainda pior.
''Eu não disse a você que ia acabar se machucando?Taí.''
– Eu quero ir embora — resmunguei por fim tamando uma decisão.
Calado Brian desceu da caçamba, eu limprei meus olhos e fiz o mesmo. Não era somente eu que estava a ponto de explodir. Com suas iris brilhando como facas afiadas de graças contra mim também, Brian me olhou duro para se defender, tentando impedir de ser atingido, mas ele acabou se entregando e sei que era tarde demais para ele também. Estamos envolvidos, mas ele conseguiu ser quem saiu ganhando no final.
Nas suas sobrancelhas quase se encontrando de tão franzidas demonstrou irritação. Também vi nas suas iris um riozinho melancólico, fazendo até o branco dos seus olhos brilharem. Foi como ganhar um soco de aço no meio do estômago. Eu pricisava dizer alguma coisa, falar que eu não estou com raiva como ele deve estar achando, que desisti. Estou com raiva só de mim por ser fraca e não saber encarar a realidade muito bem, eu só preciso pensar e ficar na minha por um tempo. Mas não consegui falar.
Dei as costas para ele, fugindo até a cabine da caminhonete.
[...]
Eu não pode prever a sensação de vazio que me invadiu quando assistia a caminhonete se afastar. Tinha vontade de socar a parede, gritar todos palavrões, mas acima de tudo, senti vontade de me encolher na cama e sofrer sozinha até outro dia chagar.
Corri para o segundo andar, esquecendo que minha família esta dormindo nesse momento, e fiz barulho com meus pés batendo no chão com força. Antes de me esconder dentro meu endredon trancada no quarto, fui no esconderijo do meu pai roubar um cigarro com a esperança de me ajudar relaxar.
Jogada na cama comecei a detonar meus pulmões com o cigarro, chegando-os de fumaça fedorenta.
– Nicotina estupida — xinguei não sentindo melhor como eu queria.
Só havia um jeito.
Ainda sobre o efeito dos turbilhões de sentimentos revirei meu quarto e finalmente achando meu celular perdido entre a bagunça do lençol, roupas e endredon. Joguei o toco do cigarro pela janela e voltei deitar na cama de barriga para baixo, com o aparelho nas mãos procurando o número de Brian nas minhas mensagens.
Não sei a porra do que estou fazendo, só precisava ser feito antes que minha burrada acabe com tudo de uma vez. Se é que já não esteja acabado...
Então agarrei a unica solução para nós dois: pedir desculpa.
Mas ele não atendeu. Insistir e depois de umas 10 chamadas a linha caiu, me levando a um estado de desespero pertubador. Minhas mãos tremiam enquanto pressionava o aparelho contra minha orelha, e nada novamente.
"Merda, merda, merda! Como você consegue fazer tudo errado, de novo?" — perguntei a mim mesma assistindo a unica chance que tinha não funcionar.
A linha caiu e senti uma lágrima rolar contra minha própria vontade. Eu não queria admitir que é melhor esquecer tudo isso, insistindo colar o celular na minha orelha não perdendo as esperanças idiotas. Eu não queria acreditar que era ele quem deveria ligar para pedir desculpa á mim. A unica culpada era eu, porque não sei separar os sentimentos e vejo coisas a onde não tem. Uma grande burra.
Com as costas da mão limpei o rastro molhado na minha bochecha insistindo em mais uma chamada. Eu precisava deixar de ser egoista e contar que sou eu a culpa, para não ficar com raiva de mim. Então depois de mais duas tentativas Brian finalmente atendeu:
– Fala Melinda — disse uma voz desanimada contra meu ouvido.
– Desculpa — tentei. — Eu não deveria ter ignorado você, agido daquele jeito como se eu fosse a vitima. Eu deveria ter conversado, eu deveria...Não queria te magoar...
– Me magoar?! — aumentou a voz. Ele ainda esta irritado. Ouvi um riso seco também. — A ultima coisa que você fez foi me magoar. Sou eu o errado aqui, você não fez nada.
– Não...
– Não o que? É serio. Eu não consigo dominar esse tipo de reação, é como se fosse um impulso para me defender das coisas que você esta me fazendo sentir, fui covarde, só percebi o que fiz e falei depois do estrago. Eu disse a você que não ia gostar de ouvir, sua atitude era o que eu esperava, esta tudo bem, eu entendo...
– Não esta nada bem...Você não entende nada...Droga! — xinguei, as lagrimas idiotas começaram a molhar meu rosto novamente.
O momento não era certo para mim abrir, mas fazer o que? Eu já tinha estragado tudo! Foda-se momento certo, — Olha, estou com problemas, você já deve ter percebido...Não é exatamente ''problemas'', porque não sei se sentimentos podem ser chamados de problemas. Ai como sou tão retardada — tampei meu rosto com a outra mão desoucupada, ainda por cima sentindo vergonha.
– Tudo bem. Não precisa xingar...
– Não, mas é verdade.
– Eu não queria ter feito você chorar, mas fiquei com medo de falar e piorar ainda mais as coisas — confessou agora com uma voz um pouco mais controlada. O aperto no meu coração também afrouxou por ouví-lo bem agora. Era disso o que eu precisava. Respira e ouvi sua voz.
– Desculpa — recomecei — É que eu penso mil vezes antes de agir perto de você, eu queria dizer alguma coisa também, fiquei com medo, ai me embaraçei toda.
– Por que com medo?
– Bem...Porque você me intimida. As vezes sinto que estou sempre pisando em ovos ao seu redor — pelo menos progredir um pouco, admitindo isso.
–...Mas porque isso? Você sabe que não faria nada.
– Eu sei que não. Como é que eu vou te dizer? É que você tem opinião sobre as coisas, age do seu jeito, diz o que pensa sobre tudo...É intimidante. Não quero dizer nada estúpido, porque tenho medo de você se afastar. Afinal, ainda estamos num começo complicado, qualquer pisada em falso parece que tudo vai evaporar das minhas mãos. Quando vi você se afastar naquela hora foi exatamente o que o medo que temia — admiti um pouco mais, ganhando jeito na situação.
A respostas que ganhei foi uma risada, me fazendo virar os olhos automaticamente porque estou aqui fazendo todo esse drama e ele somente...Ri?
– Princesa você precisa parar de pensar no que os outros vão dizer. Gosto muito mais de você quando está dizendo coisas estúpidas do que quando está toda travada com medo de mim — falou honestamente, acusando minha insegurança.
Mordi o lábio para conter um sorriso de orelha á orelha. Ainda estou balançada, mas não consegui evitar a felicidade de ouvir ele me chamar daquele apelido ridiculo de novo e também:- Então você gosta de mim?
– Eu gosto de você — respondeu como se tivesse sido uma pergunta inocente.
– Não assim, você sabe do que quero dizer...Você gosta de mim? — enfatizei o ‘'gosta'’ para que não houver dúvidas no que eu estou falando.
– Você ainda tem dúvidas sobre isso? — respondeu com outro pergunta, tentando ganhar tempo. — E você, gosta de mim?
– Você ainda tem dúvidas sobre isso? — imitei e ouvi um suspiro frustrado do outro lado da linha. Revirei os olhos, ele pode fingir de besta, não é? Então me esforcei para ser mais objetiva — Lógico que gosto de você. Na verdade, acho que ‘gostar’ está muito inferior à extensão dos meus sentimentos por você. Aqueles problemas que eu estava me referindo são muito mais do que um simples ''gostar''...Só não me peça pra explicar como.
– Verdade?
– Sim...E espero que seja recíproco — joguei a indireta, prendendo a respiração.
– É claro que é.
Soltei o ar, fechando os olhos e ficando de costas para cama finalmente sentindo uma coisa boa depois de horas na aflição.
– Eu fui honesto quando disse que não paro de pensar em você. Na verdade não passo cinco minutos sem pensar em você... Tá me deixando louco, sabia? — sussurrou, acrescentando uma pitada de malícia na última frase.
– Cinco minutos? Realemte você é um psicopata. Coitada de mim! — fiz uma cena de teatro bobinha, colocando o pulso na testa como se ele tivesse na minha frete para ver. Nós dois rimos — Sério? — voltei falar, perguntando com um sorriso torto ao mesmo tempo em que lembrava dos nossos amassos. Ele é o psicopata e eu sou a pervetida. Que dupla!
– É sério — antes que pudesse brincar mais uma vez, Brian falou rapidamente: — Ah lembrei de uma coisa que precisava te perguntar. Sei que seria melhor se tudo não tivesse terminado tão mal, mas sabe aquele amigo que falei sobre a parque? — respondi com um ‘urrum’ — Ele também nos chamou para uma festa na casa dele. Não é bem uma festa, é só para amigos, vai ter umas 15 pessoas no máximo. Tá afim?
– Que dia?
Fiquei surpresa com o convite, não é a primeira vez que ele faz isso, mas depois de tudo não achava que ele já estaria disposto me incluir no seu meio social.
– Hoje. A gente não precisa ficar até tarde. Eu te levo para casa a hora que quiser...
– Não se preocupe com isso, eu vou com você — o interrompi, tentando mascarar o fato que eu estava chorando litros e agora estou com o coração saltitando de alegria. Realmete a coisa esta feia pro meu lado.
– Posso te pegar às nove, então?
– Às nove, combinado!
Eu ri mais.
– Qual é a graça? — questionou rindo junto sem saber o que se trata.
– Você é incrível, sabia? — elogiei daquele jeito bobo, deslumbrada por ele.
– Ah, sou?
– Sim, eu faço tudo errado e você ainda quer ficar comigo. Você é o cara mais incrível que já conheci...
– Não, não é esse o caso Mel. Lembra que você me disse que é uma garota complicada? Eu já estava me preparado psicologicamente, esperando que fosse agir como uma louca desvairada qualquer momento — começou com as piadinhas.
– Agora sou louca desvairada, é? — fingir ficar ofendida — Eu digo que você é incrível e você me chama de louca desvairada. Nossa...- balancei a cabeça, mas não consegui ficar seria por muito tempo — Acho que até mereço.
– Merece mesmo — concordou rindo mais abertamente. — Mas isso é uma boa coisa, sabe? Tenho um fraco por pessoas desequilibradas.
– Olha quem esta falando, a perfeição em pessoa! — também brinquei. — Já que você diz...Mas cortando o papo sem noção, eu tenho que domir, fazer uma media com minha mãe para consegui tirar seus olhos de mim esta noite.
– Esta bem. Boa sorte. A gente se fala a noite princesa — despediu casualmente.
– E este princesa, eu nem vou falar nada com voc...- e desligou o telefone na minha cara.
Que idiota!
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