Angel Devil

13 Amizade distorcida I


– Isso é hora de chegar em casa? Você tem noção de como me deixou preocupada? A onde você esteve? Quem são aquelas pessoas? Melinda!

Eu sabia! Feito cão de caça Francisca estava me esperando para farejar as atitudes erradas que andei cometendo com muita satisfação. Retirei os tênis da Vic com calma, pisei descalça no carpete e me inclinei para fechar a porta, tentando atrasar meu castigo em vão.

– Melinda Willians?

– Oi? — fingi ouvir-la somente agora.

Minha família estava na sala de televisão, foi da onde sua voz surgiu, e não demorou muito para vir ao meu encontro pisando duro.

– Precisamos conver...

Grunhir alto o sufiente para ela ouvir e perceber que não estou afim de papo. Francisca parou de falar no mesmo instante surpresa com o meu atrevimento.

– Não temos nada para conversar, mãe. Vou dormir. Boa noite.

Estou piorando as coisas...

Meu atrevimento teria que ser pago, é as regras — regras que não dou a mínima mais.

Me joguei na cama satisfeita em descansar no meu colchão macio durantes horas, mas o barulho dos seus passos vindo atras de mim deixou claro que eu não teria sossego ainda. Tentando não me fazer a Rainha do Drama, gritar para o mundo o quão tudo é injusto, minha vida é uma droga e quero fugir de casa, preferi continuar na minha, esperando a merda dos seus sermões começarem.

– Não vire as costas quando eu estou falando com você, moçinha. Exijo uma explicação e quero saber o que esta acontecendo agora!

Fiquei na duvida: ela esta brigando comigo? (Seu jeito politicamente correto impedia de descer o nível). Ou estamos tento aquela conversa ''seria'' entre mãe e filha desobediente? Eu não tenho paciência para isso, geralmente eu aceitava suas regras só pra não ouví-la tagarelando, mas agora é diferente. E o cão farejador não vai descansar até me fazer cuspir uma explicação cabível de tudo que descobriu dos fofoqueiros que não viam a hora da minha queda — isso esta finalmente acontecendo para alegria deles, eu não me preocupo, eles também não deveriam se preocupar.

– Não tem nada para dizer... — tentei manter a postura despreocupada, olhando para o teto com os braços jogados na altura da minha cabeça.

– Ah não? Que tal começar pelo o que aconteceu na festa da Igreja? Onde você foi? — sugeriu decidida, eu também estava decidida não falar nada, expremendo meus lábios um no outro num bico petulante. – Melinda, não me faça perder a paciência ou se não...

– Vai me mandar rezar até meus joelhos ficarem roxos? Posso fazer isso a noite toda mãe, se quiser é só dizer.

– Por enquantio eu quero saber o que você andou aprontando antes de tomar uma atitude, menina, e você vai me contar...Agora.

– Que mania chata de ficar intrometendo na minha vida! — eu explodir então, diante da suas palavras mandonas. — Você é uma mulher muito ocupada para fazer esse tipo de coisa — ironizei — Oh, não! Esqueci que é somente isso o que você faz. Transforma fofocar numa profissão!

Seu rosto encheu de espanto, vi também seu peito estufar e suas narinas inflarem, contrariada.

- Como ousa falar assim com a sua propria mãe? Não foi assim que te criei! Fala direito comigo! Olha só — sua voz aumentou de nivel, finalmente. Sentei na cama rindo secamente dela. — E que roupas ridiculas são essas? Tire essa porcaria e vá tomar um banho, sua imunda. Conversaremos quando você tiver no minimo apresentável. Mal consigo olhar para você...Olha isso...

Me arrastei para fora da cama pronta para dá um ponto final nessa ‘’conversar‘’, deixando pra lá minha tentativa de acabar sem briga. – Você não esta ouvindo, mãe?! — ficamos frente a frente — Eu. Não. Quero. Conversar. Sobre. Nada. INFERNO!

O resto aconteceu rápido demais. Sua mão voou na minha cara, ela tampou minha boca e apertou com força, calando-me. Cair na cama sentada de mal jeito, meu cabelo chegou á voar nos meus olhos por causa do impacto da sua mão contra mim.

– FRANCISCA! — John entrou no quarto, repreendendo-a.

– Não quero ouvir esta palavra dentro da minha casa, nunca mais! Esta me ouvindo? Você está de castigo até quando eu disser que acabou...PARE COM ISSO SUA ATREVIDA! — se irritou mais, porque comecei imitá-la enquanto falava que estou de castigo e blablablas.

A mulher madura na minha frente tinha um rosto vermelho de raiva, passou a mão no cabelo castanho-escuro tentando não ficar fora de si, e me perguntei, olhando para aqueles traços se ela é realmente minha mãe...Como podemos ser tão diferentes? Em tudo?

Francisca sentia estar perdendo o controle do seu fantoche. Da sua boneca viva. Na minha frente vi ela se desesperar, dando mais motivos para eu não parar o que comecei. É perfeitamente bom ser finalmente eu, sem a porra do controle. Pelo menos tiva uma previa disso.

– Francisca, por favor saia — John ordenou. Ela o fez antes de olhar uma ultima vez minhas roupas curtas e minha aparência: fui ao inferno e voltei para atormentar suas vidas.

Meu pai se virou para mim assim que ficamos sozinhos.

– Desde quando você ficou tão infantil, minha filha?

– Desde quando não pode aproveitar minha infantilidade na hora certa...- percebendo que eu ia continuar sem a minina vontade de me rabaixar para eles, John deu as costas indo na direção a porta e fingindo não me escutar. O segui para ter certeza que me ouviria -...Porque eu estava muito ocupada com responsabilidades que vocês me enfiaram goela abaixo sem pensar duas vezes — ele fechou a porta, calando-me com o barulho da materia. Fiquei olhando para a mesma morrendo de raiva. Como pode virar as costas para mim? Não era o que queriam? Estou falando então droga!

– VOCÊS ESTÃO COLHENDO O QUE PLANTARAM! — gritei para a porta.

Mas cada palavra que queriam sair da minha boca não teria resposta como ânsiei, era só o maldito silencio como se eu tivesse num lugar deserto e medonho, tão distante que posso gritar quanto for que ninguém irá me ouvi. Mas eu estou em um, esta maldita casa é como um deserto, e é terrível saber que não tem ninguém para ouvir meu grito. Eles não me ouvem, eles só querem me sugar.


[...]


Deixei o livro no meu colo e comecei a passar as informações para o caderno, respondendo a quinta pergunta do exercício de Biologia. Passei para outra linha as anotações, totalmente concentrada, em meio ao silêncio comum da Biblioteca, quando...– Tão seria — ele murmurrou quebrando minha concentração.

Ergui os olhos na direção da voz e suspirei, apoiando os cotovelos em cima do caderno aberto e desistindo de anotar porque Diego não fazia o mesmo com seu exercicio.

– Você tem mais o que fazer em vez de ficar me observando.

Diego se inclinou sobre a mesa ao dizer:- Sabe o que é? Eu não consigo prestar atenção quando você esta aqui.

Forcei um sorriso diante daquela declaração.

– Bom saber. Vou indo nessa então...- comecei a fechar minhas coisas, mas ele impediu minha mão de puxar a mochila em cima da cadeira. — Não quero ser a desculpa se você for mal na prova Diego. É melhor a Diretora escolher outra cobaia já que não cumpre sua parte.

– Ok estressadinha, retiro o que eu disse. Só estou tentando deixar o clima mais leve! — voltou encostar na cadeira, erguendo as mãos em sinal de paz.

– Que clima? Estamos aqui para estudar. Concentração, ou está difícil?

– Está difícil — não era para o idiota responder.

Minha cara feia foi o suficiente para ele voltar a grudar seus olhos no livro de matemática modulo-II. Fiquei de olho nele para ter certeza que esta fazendo algo que preste durante um tempo, enquanto lia vi seus lábios se curvaram num sorriso engraçadinho, sabendo que eu o observava em silêncio. Tentei continuar seria mas o riso acabou escapando e o xinguei mais uma vez, desejando acabar logo com isso.

A gente parecia gato e cachorro na maioria das vezes. Mas eu me vi gargalhando ao seu lado, agindo como se fossemos velhos amigos, e até esquecendo que ele é igual a todos por aqui: nada confiavel. E assim foi minha semana, nada de produtivo, mas serviu para tirar o climão que esta lá em casa. Esse é um bom motivo para explicar porque me aproximei de Diego, para agradar Francisca. Não quero que fique desconfiada (mais do que já está) com o que andei fazendo, pois é perigoso mandar sua preciosa filha terminar o colegial num internato Catolico no outro lado do oceano. Sei que é capaz disso, por todo amor que ela sente por mim.

Eu continuou de castigo, mas ao mesmo tempo continuo com a minha vidinha de antes. Casa > Escola. Casa > Escola > As vezes Igreja. Casa > Escola. A diferença mesmo está dentro de mim, antes eu ficava imaginando como deve ser viver sem todo este fardo, eu sentia tanto a vontade de ficar livre disso tudo crescer escondido dentro de mim até parar na superfície esperando um unico impurrãozinho, que sem querer aconteceu quando experimentei aquele mundo novo com eles, e o que vinha de vagarinho virou uma explosão espalhando feito bomba atômica em mim, mudando minhas ideias e meu jeito completamente para nunca mais. Então...A rotina voltou, mas eu não voltei, e não há nada que Francisca ou qualquer outra pessoa pode fazer. O estrago já esta feito.

– Melinda, eu já sei de tudo isso! — Diego bufou, fechando o livro com uma vontade exgerada. — Estou com fome, vamos comer alguma coisa?

Assim que ele tocou no assunto meu estômago se manifestou. Guardamos nossas coisas no armário e dirigimos até a lanchonete da escola. É anormal andar ao lado de Diego pelos corredores, ser companhada por alguém, ter um amigo por perto, conversar normalmente com ele. Eu não fico mais sozinha feito antes, e isso deu mais gás para as pessoas fofocarem pelo resto do mês...

Ela não se isolava? Por que agora anda para cima e para baixo com ele?

Será que estão ficando?

Basta chegar um garoto bonito e já joga suas futilidades para cima dele.

Insuportável! Eu sou muito mais bonita do que ela!

Ouvi dizer que Laura Amorim e Francisca Valentin aceitaram esse namoro fácil demais, para quem dizia ter uma filha santa...

Ele vai cansar rapidinho dela. Todos cansam.

Não é preciso ler suas mentes para saber o que estão pensando. Nem na igreja e nem aqui faziam questão de esconder o interesse. Meus novos amigos também eram alvos, com Brian nem se fala...

Ela esta pegando os dois?

Diego e Brian? Estou chocada!

Você se lembra daquele garoto que transou com uma menina debaixo da arquibancada? Pois é, ele foi na festa da Igreja lá no condominio.

O que Brian foi fazer atrás dela?

É verdade que eles se beijaram na barraca?

Desde quando Melinda conhece gente fora do Condomínio?

Francisca vai acabar com ela quando souber disso.

Eles são uma má influencia, quem não os conhecem e sabe do que são capazes?

Não são aqueles garotos de uma banda demoníaca?

Isto está me incomodando de um jeito...

Se antes era irrespirável imagina agora o quanto de paciência preciso para lidar com esta gente. O pior é as garotas e suas paixonites platônicas para cima de Diego. Já o próprio parece ser imune a esse tipo de aborrecimento, tratava todo mundo bem e com muita paciência. Nunca o ouvi reclamar, a não ser quando estamos estudando, ou tentando, porque ele prefere ficar no ginásio jogando basquete. E eu fico lá junto, sentada no último degrau da arquibancada assistindo o time treinar ao invés de ir para aula ou ajudar Diego nas tarefas. Ele ainda não fez o teste para entrar no time, mas toda tarde os meninos estão jogando à toa enquanto o treinador não chega, e quando não ponho juízo na cabeça daquele projetinho de bom-moço, se juntava ao time para brinca um pouco.

Pra passar o tempo às vezes leio, escuto música, ou meus olhos acompanham cada movimento seu na quadra. As gotículas de suor que se formavam em sua testa e escorriam até o queixo redondo, a bola quicando na quadra e voltando para sua mão com agilidade, os músculos de suas pernas e braços trabalhando, gerando movimentos rápidos e coordenados. A cada cesta perdida, seu estresse era denunciado por um suspiro de lamento. A cada cesta ganha, seu sorriso confiante aparecia e vibrava feito um campeão olímpico...

Foi a parti desses dias que passei a gostar da presença de Diego. Acabei acostumando com a idéia de tê-lo perto de mim e aceitar a estranha amizade distorcida que só nós dois entendemos, ou fingimos entender.

– O que te fez mudar? — Diego perguntou voltando ao assunto que começamos à algumas horas, parecendo minha mãe exigindo uma explicação. Eu franzi o cenho incomodada, dando uma grande mordida no sanduíche natural de frango sem saber o que dizer também. — Cheguei a tempo para perceber que você esta...Diferente.

– Se você diz — dei de ombros com a boca cheia.

O que eles querem que eu diga afinal? Fui para um show de pessoas mundanas, fiquei bêbada, tive desejos pecaminosos, desobedecir regras, incluindo fumar maconha, daí descobrir as melhores coisas da vida e agora eu não quero mais saber de nada a não ser repiti tudo de novo e de novo, até enjoar? Ah não, prefiro manter para mim mesma.

Mas eles só estão cismando com a minha aparência imperfeita de agora, sem minhas sandalias cafonas, roupas justinhas mas nunca mostrando minha barriga, coxas, ombros e colo. É com isso que se importam, aparência.

– Estou tão ruim que chega a incomodar?

– Não é ruim. Você só...Não é assim.

– Eu não sou assim...- murmurrei pensativa com a sua afirmação, não entendo o sentindo. — Eu sempre fui assim, só nunca fui assim fisicamente, mas as pessoas mudam para seu proprio bem, não concorda?

– Até uma parte, pois pode ser só para agradar não a si mesma, agradar outras pessoas...

– Este não é meu caso — eu garanti, entendo sua curiosidade e questionamento afinal, tudo aconteceu na velocidade da luz. Meu mundo simplesmente deu uma volta completa dentro de poucas semanas e parou de cabeça para baixo. Graças a Vic...Graças a Brian....Definitivamente graças a Brian. Eu sorri para meu sanduiche só de pensar no nome dele.

Brian.


Notas finais
mereço reviews? Espero vocês :)