Fazia frio naquela noite, e sem a mínima noção de tempo, dois dos viajantes estavam no quarto de um hotel, tentando se livrar do frio que fazia naquele lugar, enquanto os outros saíram para comer.

Silêncio.

- Parece que você quer falar alguma coisa pra mim, ne Kuro-codilo? — Phi se sentou ao lado do ninja no colchão.

- Desde quando “estudar um pouquinho de magia”, é um argumento suficiente para justificar a sua capacidade de neutralizar aquela barreira mágica e descobrir que estávamos na memória da Princesa? Para descobrir ou neutralizar um truque mágico, uma pessoa precisa ter um poder mágico maior do que o da pessoa que o criou. Sem contar que você não parece ter usado magia em nenhum dos dois casos.

- Acho que você está exagerando as minhas capacidades, ne? – disse sorridente.

Kurogane insistiu olhando torto.

O sorriso do mago se desfez, dando lugar a sua face inexpressiva.

— Realmente, o senhor Kuro... Percebe as coisas mais inconvenientes... – suspirou passando as mãos sobre os cabelos louros, e depois pelos braços na tentativa de esquentá-los.

Sem dizer uma palavra, o moreno retirou o casaco e colocou por cima dos ombros do outro.

- Toma, não estou com frio – explicou virando o rosto.

- Não parece... – Phi argumentou passando as pontas dos dedos pelos braços do ninja – você está arrepiado — acusou.

- I-isso não é nada – ruborizou-se.

- Então vou pegar um cobertor, pra ver se passa esse seu “nada” – riu-se.

O mago caminhou até uma cômoda, tirando de la duas cobertas, e carregando-as para a cama, sentando-se novamente.

- Não era mais fácil ter me devolvido a blusa então? – perguntou de olhos cerrados.

- E-eu... me desculpe.

O loiro levantou-se jogando o casaco na cama, e só então o moreno percebeu ter sido rude.

- Não, espera, eu não quis dizer isso – segurou o pulso de Phi com firmeza, mas o loiro não se atreveu a olhá-lo.

- Phi? Olha pra mim... – nada aconteceu

Silêncio.

- Por que... – inspirou e não teve coragem de continuar.

Escorregou sua mão do pulso, para a mão do mago sem se dar conta.

Phi não se pronunciou, puxou a mão e dirigiu-se para a sua cama, enfiando-se debaixo das cobertas.

- Ainda estou esperado uma resposta – sentiu o colchão afundar ao seu lado.

- Kurogane... – parou a frase ao sentir suas madeixas serem acariciadas.

O ninja pensou em tirar a mão, afinal, que porra era aquela que ele estava fazendo? Mas... do cabelo dele desprendia um cheiro tão bom...

- Eu não quero que ninguém seja infeliz por ter se envolvido comigo – argumentou ainda com o olhar triste.

O moreno puxou-o pela gola da blusa para alinhar seus olhares.

- Ai! Ta doendo viu? – disse com a falsa alegria.

- Eu te disse, que eu não tenho nada a ver com isso, não disse?

- Sim, você disse! Por isso não se preocupe comig-

- Eu não tenho o menor interesse no seu passado – Phi arregalou os olhos – Portanto, vê se para com essa baboseira toda, e seja o que você realmente quer ser.

O loiro riu-se.

- Pra mim... É difícil demais.

Kurogane se irritou e largou-o na cama novamente.

- Você mudou, pelo pivete e pela princesa. Para que eles pudessem sorrir, ainda que por um breve instante. Não diga que é difícil ser o que você quer ser agora!

- Eu não mereço ser o que eu quero ser.

- Para de se martirizar! Se você quer tanto morrer, pode deixar que eu vou te matar! Mas até la, você vai viver! VOCÊ ME OUVIU?

Um sorriso calmo, porém verdadeiro foi visto na face do mago.

O ninja sentou-se de costas para o outro, e cerrou os olhos em sinal de irritação.

- O Kuro... – passava a mão sobre algumas cicatrizes visíveis na parte superior do braço dele – já passou por muita coisa, não é?

Kurogane virou para olhá-lo nos olhos.

- Como se você também não tivesse passado.

O vento castigava a janela do lado de fora, e a chuva caia forte.

- Phi, por qu-

Um trovão ecoou pelo quarto, cortando o final da frase pela metade. O mago suspirou e cerrou os olhos deitando-se de barriga para cima, espreguiçando-se.

Ao ver a posição em que o loiro se encontrava, o ninja aproveitou, segurou seus pulsos sobre a cabeça, e sentou nas coxas dele, impedindo-o de se movimentar.

- Mas o que-

- Não quero que você fuja do assunto. Então vamos conversar.

- Eu posso usar magia em você, sabia? – sorriu.

- Eu sei que pode. Mas você não vai usar, não é?

- Não – riu-se – O que você quer? – olhou um pouco mais sério.

- O que eu quero.. – parou para pensar durante um tempo. Aquela poderia ser a coisa mais imbecil que ele diria, mas era sua única chance – Eu queria que você soubesse sentir, da mesma maneira que sabe fingir.

- So-sobre o que está falando Kuro-puu? – perguntou um pouco aturdido com a sinceridade do moreno em cima de si.

- Sobre você só correr atrás de coisas sem sentido. Olha pra mim Phi, e me diz o que o seu eu de verdade quer. Eu não sei por quê, mas eu quero realizar, seja o que for.

O loiro deixou seu corpo amolecer, e percebeu que não ia ter por onde fugir.

- Eu... realmente tenho uma queda por coisas que não fazem sentido algum – começou sem ter coragem de mergulhar nos profundos orbes escuros que o encaravam – E eu acho que é por isso que... – não acreditava que ia dizer aquilo – Eu gosto de você, afinal, gostar não faz sentido mesmo.

Silêncio.

- Por favor Kurogane, não me odeie, eu só.. Ah droga! – deixou uma lágrima escorrer por seu rosto e tentou se soltar, sendo segurando ainda mais forte.

- Seu idiota – a respiração do moreno estava próxima demais, fazendo-o se assustar e descobrir os olhos azuis, sentindo-se ser encarado por mares escuros a milímetros de seu rosto.

Mas no instante seguinte, nada viu. Seus instintos de nada serviram, e sua mente gritava que estava fazendo a coisa errada, mas seu coração se aqueceu, e o frio de seu corpo esvaiu-se quando o ninja resolveu eliminar a distância entre os dois rostos, num mero roçar de lábios.

Continua...

Notas finais
Espero que gostem :3