Anatomia de um amor imortal
21 Tudo o que temos é coragem

Regina se deita na cama e inspira profundamente. Ao seu lado, o religioso e seus dois amigos, além de Emma e de Dandara. Toda ajuda seria bem vinda para algo arriscado demais.
— Durma, minha querida. Quando acordar, teremos mais armas contra essa invasora atrevida. – Dandara se inclina e beija a testa da jovem.
E tudo é iniciado. Regina sente o corpo inteiro formigar e seus sentidos são invadidos por uma sonolência suave, mas que não lhe rouba a consciência. Ela se sente leve e sem que consiga perceber o exato momento, começa a deixar a própria cama, mas sem se mover.
Uma sensação de estar deitada sobre a água e flutuar sem forças para afundar. Apenas flutua sem molhar-se. É algo prazeroso demais!
E ela se sobressalta quando percebe que está vendo o topo das cabeças das pessoas que observavam seu corpo adormecido sobre a cama. O teto se aproxima e ela fecha os olhos, temendo o impacto contra sua superfície. Mas isso não ocorre.
Regina flutua por algum espaço amarelado e abafado, como se um véu estivesse cobrindo seu rosto e dificultando sua respiração. Algo tolerável. E dentro daquela bolha quente e amarela, Regina consegue identificar lugares já vistos em sua caminhada e ouvir barulhos de pessoas e da cidade agitada. Algo assustador.
Mas ela se controla e continua seu passeio sereno, com a mesma sensação de quem havia tomado morfina e não sabia onde terminava a realidade e começava o delírio. E deixa-se conduzir até um local cinzento, cheio de caixas grandes, frias, estranhamente sem vida embora ostentassem flores diversas. Um local protegido por anjos com expressões serenas e amedrontadoras. Muitos anjos com rostos longos e narizes aquilinos.
E Vladimir estava entre eles, adormecido e protegido por roupas escuras. Parecia cansado e seu belo rosto mostrava a palidez dos doentes. Mas ele estava vivo e move-se, abrindo os olhos como se procurasse algo. E ele consegue ver algo, mesmo sem saber se era real ou em sonho. Ele estende as mãos e pede ajuda, ficando ofegante e desesperado quando esse algo lhe é retirado.
Regina sente ser repuxada e começa a sentir-se sufocada dentro daquela bolha amarela e quente. O desejo de estender as mãos e apanhar Vladimir enche seu peito de agonia e o ar começa a ficar rarefeito ali dentro. Ela grita e busca oxigênio.
Abre os olhos e sente as mãos de Dandara tocando seu rosto. Ela se senta e inspira profundamente, olhando para os lados e reconhecendo rostos amigos. Todos os amigos em torno da cama, exibindo expressões de preocupação.
Momentos mais tarde, Regina é amparada e acomodada numa poltrona. Ela ainda sente a leveza da tontura, como se tivesse saltado de um penhasco.
— Quanto tempo eu fiquei desacordada?
— Por quatro horas, depois que teve parada respiratória. Tive de fazer respiração boca a boca. – Killian sorri e beija o rosto da amiga. – Pensamos que a tínhamos perdido e meu coração ficou cheio de desespero.
— O que viu? – Dandara sorri curiosa. Toca os cabelos de Regina.
— Eu vi Vlad e ele está debilitado. Não sei identificar exatamente onde ele está, mas recordo-me de ter visto um local concretado, cinza e frio, com caixas com flores e anjos assustadores. Era um lugar sem vida, enfeitado por flores. Muitos anjos cinza...
Kane e o religioso se entreolham. Sorriem.
— Cemitério! Reyninna levou Vlad para algum cemitério e o está mantendo em algum mausoléu. Quem ousaria procurá-los ali? – Kane apanha sua jaqueta. – Vamos nos dividir e procurar pelos três cemitérios da cidade, antes que a noite caia.
— E quanto ao Lenine?
— Ele não sairá sozinho do mosteiro, porque o cerquei. Vou com Dandara até lá... – o religioso sorri e também apanha uma blusa.
Durante as horas seguintes, o grupo vasculha os cemitérios simultaneamente em busca de pistas sobre a presença de Vladimir.
Enquanto acompanhava o religioso e mostrado-se solícito, Lenine aproveita a rápida movimentação dos soldados que lutavam contra o tempo do anoitecer e envia mensagens pelos ventos. Sua alma fala para a alma de sua Condessa:
“Os soldados de Regina estão sabendo que nosso Conde está em um mausoléu. Saia rapidamente daí e vá esconder-se no subsolo do nosso casarão. É obvio demais para desconfiarem. Em breve me juntarei a vocês!”
Pouco depois das nove horas da noite, o grupo consegue chegar ao cemitério onde encontra vestígios da presença de Vladimir naquele cubículo sujo de poeira e teia de aranhas.
— Ele esteve aqui, mas foi levado. – Killian ilumina o cômodo com sua lanterna e encontra marcas no chão empoeirado. – Tem marcas de luta aqui.
— Para onde? – Regina inspira profundamente e fica pensativa. – Para onde?
Quando saem do mausoléu, percebem que Lenine havia desaparecido.
— Eu avisei vocês. Eu estava certo! – Killian se mostra nervoso demais a ponto de chorar.
Kane se aproxima do filho e o obriga a controlar-se. Beija-lhe a testa e o encara.
— Todas as forças policiais estão alertas e agora o caso é oficial, Killian. A foto de Reyninna e os retratos falados de Lenine e Mérida estão em poder de todas as centrais de polícia. É um policial que está em poder de raptores e isso é crime!
— Eles são vampiros, pai! Eles vão conseguir uma maneira de ludibriar as blitz nas fronteiras e aeroportos!!
— Temos de confiar em nossos companheiros, Killian. Estamos cansados e não seremos páreo para essas criaturas demoníacas.
O Reverendo Costa se aproxima dos policias e atrai sua atenção. Sorri.
— Nós vamos conseguir resgatar nosso menino. Agora, precisaremos descansar ou morreremos todos.
Era madrugada e Regina ainda estava desperta. Olhava a noite lá fora e tinha Dandara como companhia.
— Onde ele está? Como ele está?
— Vlad está firme e forte. Ele é um guerreiro e vai manter-se vivo para que nosso trabalho valha a pena. Ele não vai facilitar para a Condessa e isso é certo! Vlad tem o seu amor e tem Jonny como motivos para lutar contra a criatura. E esse amor irá libertá-lo.
Regina se vira para a mulher bizarra.
— Quero que me ajude a viajar de novo. Tenho certeza de que conseguirei descobrir o paradeiro deles, porque da última vez eu quase o toquei e ele me viu.
— Será perigoso demais, Regina. Outra viagem somente poderá ser feita em duas semanas.
Regina abaixa a cabeça, mas mantém os olhos fixos no rosto da outra mulher. Sob hipótese alguma, ela iria permitir que se passasse tanto tempo até encontrar seu marido. Afasta-se dali e sai da casa, sem informar para onde iria. Era certo que ela iria viajar de novo.
Momentos depois, Zelena se mostra estática diante do pedido da irmã. Era algo impensado e que causava surpresa e horror. Jamais pensaria que estaria ouvindo aquilo.
— Não sabia que você havia despertado suas habilidades. Por que não nos comunicou?
— Isso não vem ao caso. Irá me ajudar ou não?
— Não serei perdoada por isso. – Zelena se afasta da irmã e caminha para o quarto. – Sabe o que está me pedindo? Nossa mãe irá arrancar a minha cabeça!
— Uma viagem extracorpórea, Zelena. Já li muito a respeito e preciso usar essa arma para encontrar Vlad, antes que a Condessa o transforme.
Era manhã quando Vladimir desperta subitamente ao sentir mãos afagando seu rosto. Alguém estava com ele naquela cabine fétida e apertada daquele navio cargueiro. Eram mãos conhecidas, suaves e amorosas. As mãos de sua amada Regina.
— Regina, você veio!! – ele se senta na pequena cama, apenas para ver a imagem de sua esposa tornar-se nuvem e desaparecer. – Regina, volte!!
Horas depois naquela mesma manhã, Regina é deixada na Unidade Semi Intensiva. Emma sai do quarto e vai conversar com a família de sua amiga.
— Como ela está? – Cora segura as mãos da médica.
— Dormindo. As funções estão normais e ela está apenas dormindo. Ficará sob observação e acredito que amanhã iremos transferi-la para o quarto.
— Segundo Dandara, ela pediu nova viagem e menos de vinte e quatro horas. – Kane fala e atrai os olhares. – Ela insistiu e pediu para Zelena que estava desavisada.
— Eu não queria, mas não sabia que Regina já havia feito a viagem. E agora?
— Agora teremos de focar nossas atenções para Regina e Johnathon. Deixar que as autoridades cuidem do rapto de meu genro. Sem saber o que Regina viu durante a viagem, não há como manter conexão com Vlad.
— Vamos ao trabalho. – Kane murmura de forma triste e sai do campo de visão das mulheres.
Elas apenas observam o homenzarrão afastar-se derrotado. Era algo jamais pensado: ver Kane se sentir derrotado.
Dias depois, o navio cargueiro aporta numa cidade da Itália. Alguma estranha doença havia acometido a tripulação do navio, provocando várias mortes e por isso as autoridades tinham decretado quarentena e investigação. Todos os passageiros vivos foram internados em hospitais próximos e os corpos encontrados na embarcação, levados para o IML.
Era noite, quando Lenine foge do IML e furtivamente dirige-se para o hospital onde Vladimir havia sido internado para a quarentena. Mérida providencia um local adequado para acomodar sua Condessa e o Conde, afinal, precisavam de algo decente e luxuoso.
Ficariam alguns dias naquela cidade e depois encontrariam alguma forma de continuar a viagem sem chamar a atenção. E é o que acontece. Seguem de trem pelas fronteiras até chegarem próximos à fronteira de sua terra natal. Dali, alugam um jatinho e entram em seu país onde não teriam problema algum com autoridades.
Outros dias são deixados para trás e o castelo em Bucareste se torna cenário para a vinda do Conde Vlades Bognan Tepescu em seu retorno para sua família, sua esposa e seus criados. Ele teria de aceitar a situação.
Do outro lado do oceano, Regina ainda permanecia adormecida. Sua segunda viagem fora de seu corpo em tão pouco tempo, havia provocado sua reclusão ao sono. Era a resposta de seu corpo àquela empreitada atrevida e irresponsável.
Revezando-se nos cuidados com Regina, a irmã e a mãe permaneciam ao seu lado no hospital. Os cuidados do pequeno Johnathon tinham sido entregues a Kane e Killian, com a ajuda de Emma.
— Onde está papai, tio Killian?
— Papai está viajando.
— A mamãe vai morrer?
— De forma alguma. Ela está doente e vai ficar no hospital dormindo. Você ficará com o vovô e eu. Não quer isso?
— Eu quero meu papai e minha mamãe...
— Eu também, meu amor. Eu também os quero.
Fale com o autor