Anatomia de um amor imortal
22 Meu Conde, minha vida

Vladimir se olha no espelho e precisa reconhecer que está com aspecto mais saudável do que estava quando chegara à Romênia. Não iria acostumar-se jamais com aquelas acomodações, aqueles mimos e aquela prisão, mas teria de seguir as orientações de Regina quando ela estava em posição de negociação. Não poderia vacilar e iria aproveitar todas as oportunidades para empreitar sua fuga.
— Senhor meu marido, está cada vez mais bonito! – Reyninna se aproxima dele sem ser ouvida e provoca pânico no homem, que se afasta dela. – Não tenha medo de mim, eu lhe imploro!
— Procure se fazer ouvir quando quiser conversar, criatura do mal! Faça barulho, bata o pé no chão, arrote ou faça qualquer som!
As mãos guenzas de Reyninna seguram os braços de Vlad e o obrigam e ficar de frente para ela. Os dedos fortes, finos como se fossem canos de ferro fundido, apertam a carne quente e viva sob eles. Era muito prazeroso sentir o calor que emanava do corpo vivo de seu Conde.
— Eu mandei vir os mais finos tecidos para a confecção de suas roupas. Terá as mais poderosas essências de perfume vindas de Riad apenas para que sua pele fique ainda mais aromatizada. Terá criados para atenderem seus pedidos diversos e poderá inclusive andar a cavalo quando desejar. – ela sorri. Tenta tocar o rosto barbado dele, mas é repudiada. – Pode dormir durante o dia, caso queira, mas as noites serão minhas.
— Não gostaria de estar em sua pele, quando os meus entes desembarcarem atrás de você. Penso que você menosprezou as habilidades daqueles que me amam.
— Tenho servos em todas as partes e eles identificarão Regina, quando ela desembarcar aqui. Sobretudo, agora que ela despertou novamente as habilidades e tornou-se uma bruxinha poderosa. Ela é um farol em meio à escuridão. Muitos saberão da presença dela e a estadia aqui não será fácil.
Vladimir respira pesadamente e busca o controle de suas emoções. Não estava lidando com um ser humano e sua força física não era útil naquele momento. Lento, ele se desvencilha das mãos frias de Reyninna.
— Você não tem direito de tocar em meu corpo. Eu não tenho obrigações conjugais com você, porque não somos casados. Portanto, mantenha suas mãos e seu desejo sexual longe de mim.
— Com o tempo eu quebrarei a sua frigidez, meu amado.
— Jamais me acostumarei e nem aceitarei a ideia de ser seu esposo ou o seu homem.
Ela sorri e torna-se assustadora.
— Mas irá conviver com fato de que agora você é meu, outra vez.
Mais luas surgem no céu noturno e partem quando os sóis surgem exibindo todas as cores dos dias. Longas semanas e longos meses começam a fazer parte da vida de Vladimir dentro daquele castelo, daquela mastaba escura e atemorizante.
— Seus cabelos são lindos! – Mérida passa suavemente a toalha pela massa escura e ondeante em que havia se transformado os cabelos de Vladimir. – Eu havia me esquecido de como eram belos e volumosos. Entendo a paixão que a Condessa tinha por eles e a maneira como ela os perfumava e cuidava deles.
Vladimir permanece calado. Não conseguia esconder seu ódio e o seu pavor com a convivência com aquelas coisas medonhas e frias. Sabia que a força daquelas criaturas poderiam facilmente quebrar seus ossos e produzir dor e medo. Por isso, evitava confronto sempre que conseguia controlar-se.
— O senhor sempre foi um belo homem e despertou desejos em muitas jovens da sociedade abastada. Muitas o queriam como marido e muitas choraram quando a Condessa foi entregue para ser sua esposa. O senhor se recorda de seu encontro com a Condessa?
— Claro que me lembro. Ela estava invadindo o meu jardim e eu descarreguei o pente de minha arma contra ela. Eu deveria ter sido mais eficiente.
Mérida emite um som risonho e afasta-se do homem.
— Suas roupas estão sobre sua cama. Quando o senhor estiver devidamente aprumado, avise-me e virei buscá-lo para que Lenine o leve ao encontro da Condessa. Ela está ansiosa para vê-lo, meu Conde.
Momentos depois, Vladimir é conduzido por um corredor imenso e abafado daquela prisão medonha. Ao seu lado, Lenine ia tecendo comentários sobre as telas em óleo espalhadas pelas paredes, mas sequer era ouvido pelo prisioneiro.
Na imensa biblioteca do castelo, Reyninna o aguardava. Linda, perfumada e enfeitada com um vestido escarlate, exibia sem piedade as curvas de seu corpo como tentativa de sedução. Sabia que o homem estava celibatário há meses e sabia que se insistisse de maneira mais ousada, conseguiria tê-lo em seus braços e em seu corpo.
— Meu Conde amado! – ela sorri e estende as mãos para ele, mas logo desfaz o gesto ao vê-lo inerte diante da oferta. – Seus cabelos estão maravilhosos e sua aparência é a mesma do meu soldado valoroso! Meu General!
O homem a olha de forma altiva e desdenhosa. Reyninna diz:
— Você me olhava desta forma quando cheguei a este castelo. Era um acordo para nosso casamento e eu fui a moeda de troca. Eu estava assustada com aquele homem que parecia me odiar e durante muitas semanas tive medo de você.
Vladimir inclina a cabeça para o lado e interessa-se pela história. Começava a surgir uma luz naquele túnel escuro: iria aproveitar-se daquelas recordações para conseguir algum controle da situação e angariar a total confiança da criatura ensandecida.
— Por que eu a olhava assim?
A pergunta causa estranheza na Condessa.
— Eu era bem jovem, assustada, temerosa com o meu destino. Ouvia rumores das criadas, sobre o que um homem rude, um soldado feroz, poderia fazer a uma mulher indefesa.
— Cometi grosserias contra você?
— Ah, sim! Era rude nas ordens, não me queria por perto, mantinha-me sempre em meu quarto e não me permitia transitar pelo castelo. Muitas noites, chorei sozinha para o Céu, o único que em escutava.
O policial acha graça e esboça um sorriso.
— Eu fugi numa ocasião e você ordenou que me deixassem na floresta por dias. Mas havia soldados me vigiando e protegendo-me sem que eu soubesse. Quando fui resgatada, lembro-me de ter avançado e batido em você com minhas forças pequenas. Ao despertar, você estava ao lado da minha cama e olhava-me com admiração e desejo.
— Violei você?
— Não!! De forma alguma! Nós nos casamos para que você pudesse me tocar. E quando isso aconteceu, fui em viagem para o Céu, levada pelo seu corpo e pelo seu amor.
— Como sabia que eu a amava? Poderia se apenas desejo de um homem velho por uma garota virgem.
Reyninna sorri e caminha para um ponto da biblioteca.
— Você me dizia isso em todos os nossos momentos. Quando você saía em luta, eu ficava sozinha em nosso castelo, cavalgando, treinando o uso da espada e lendo. Mas ao ouvir o som dos cascos do Lorde Negro, eu sabia que meu Conde estava de volta. E você vinha sedento por mim, da mesma forma como eu estava sedenta por você. Nosso amor era louco e selvagem!
— Por que não tivemos filhos? Herdeiros?
— Você não queria me dividir com mais ninguém. Mas eu engravidei sim e não pude dizer a você, porque tudo aconteceu rápido demais. Boris me enganou, você se suicidou, eu fui presa e na cadeia descobri a gravidez. Ficamos sozinhos, meu filho e eu.
Vladimir estreita os olhos e cruza os braços na frente do peito.
— Conheci Lenine na prisão e ele cuidou de mim para que o bebê nascesse. Eu fui transformada, consegui matar Boris, fugi de lá e retomei a minha vida e o controle de minhas terras. Governei pelo terror e tornei-me respeitada e temida, até que o tempo foi passando e eu tive de forjar a minha morte. Meu filho cresceu e deu-me netos, bisnetos, tataranetos e assim a vida seguiu.
— E você sempre fingindo ser descendente de alguém que era você mesma. Patético!
— Veja algo, meu amado. Isso provará que sempre estive certa.
Movimentando as tiras da persiana, Reyninna começa a exibir aos olhos de Vladimir, uma tela pintada em óleo e que retratava um homem de rosto feroz e cabelos escuros volumosos. Um homem bonito com olhos semelhantes aos olhos de uma raposa.
Incrédulo, sufocado com a revelação, o policial sente o conteúdo de seu estômago começar a revirar-se e sua boca a encher-se de água. Ele cobre a boca com uma das mãos e tenta controlar a horrorosa sensação de que tudo estava girando dentro dele. As pernas ficam moles e ele percebe que vai desfalecer. Misericórdia! O que estava acontecendo naquele lugar insano?
— Eu quero sair daqui...
É prontamente atendido. Acomodado sobre sua cama, Vladimir recebe suaves massagens com um pano úmido sobre sua testa. Já não tinha mais nada em seu estômago e continuava a sofrer espasmos.
— A recordação em casos como o seu sempre provocam grande comoção, meu amado.
Ele se senta na cama e encara Reyninna. Não iria concordar com ela, cedendo tão facilmente.
— Criatura vil e mentirosa! Aproveitou-se de suas habilidades demoníacas e criou aquele quadro apenas para impressionar-me e ferir-me. Não conseguirá incutir essa mentira dentro de minha alma, porque não sou aquele homem. – ele se movimenta para sair dali. – Não sou Vlades Bognan Tepescu, porque nasci Vladimir Tepes!
Reyninna o detém e o imobiliza sobre o colchão, apenas para presenciar todo o desespero daquele homem debaixo dela. Ele estava protegendo-se na escuridão dos olhos fechados e lágrimas corriam pela lateral de seu rosto bonito.
— Não faça isso, Vlades, meu amor! Não torne isso ainda mais difícil para nós dois! Aceite o fato de que o destino nos uniu novamente e que você voltou para meus braços e para minha vida!!
— Você não está viva!! – ele chora compulsivamente. – Você é uma coisa fria e sem vida! E quer fazer-me igual a você!! Isso não é amor!!
Incomodada e irritada, Reyninna o abandona sobre a cama e sai do quarto, batendo a porta atrás de si. Vladimir se senta na cama e inspira profundamente, esboçando um sorriso aliviado por ter conseguido manter-se vivo por mais uma noite.
E depois de adormecer, ele recebe a visita de sua esposa. Regina surge no quarto e fica ao seu lado, por horas, falando baixinho e rindo do que ele também falava. Era seu momento de delírio que conseguia proteger a sua sanidade. Desde que chegara naquele país, Regina o visitava e prometia salvá-lo daquele lugar. Era sua amada real!
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