Anatomia de um amor imortal

23 Amor, venha na hora marcada


Killian entra no quarto de Regina e cumprimenta Zelena.

— Por que você trouxe Jonny? – a ruiva pergunta ao ver o menino correr para junto da cama da mãe. – Isso é tortura para ele! Combinamos que...

— Eu não combinei nada com ninguém. Vou trazer Jonny para ficar com a mãe, em todas as vezes que ele me pedir. – Killian é rude e não se sente incomodado com isso. – Quer subir na cama, companheiro?

— Quero deitar com a mamãe.

Killian apanha o sobrinho nos braços e o coloca sobre a cama. Sorri ao vê-lo acomodar-se junto ao corpo adormecido de Regina.

— Posso beijar a mamãe?

— Quantas vezes você quiser, companheiro.

Zelena não diz nada. Apenas volta seus olhos para o livro que lia.

O garoto se acomoda com o rosto perto do rosto de sua mãe e começa a beijar-lhe os cílios. Tinham sido quatro meses desde que a mamãe decidira dormir sem se despedir. Ele sentia saudades do papai e não poderia conversar com a mamãe.

— O tio Killian não sabe contar histórias, mamãe. Ele não faz a voz do pato. – Johnathon se inclina e beija repetidas vezes o rosto de Regina. – Acorde, acorde, acorde...

Muito distante dali, a alma de Regina conseguia estender a mão e sentir a maciez da pele de Vladimir. Ambos se viam e podiam sentir o amor de forma etérea, quando se tocavam nos sonhos dele. Era a forma que ela havia conseguido encontrar para protegê-lo e mostrar que não o havia esquecido. E iria continuar suas carícias confortantes, quando começa a ouvir seu nome ser insistentemente chamado pela boca de uma criança. Era seu pequeno menino, fruto de seu amor por Vladimir e ele a estava clamando.

“Acorde, acorde, acorde, mamãe!”

Regina sente ser puxada para longe de Vladimir e ainda consegue vê-lo estender os braços, implorando para que ela não o abandonasse naquele covil de espectros do mal. Mas a força que a puxava era intensa demais e não havia como lutar contra ela.

Num sobressalto em busca de oxigênio, Regina abre a boca e emite um grito gutural, pedindo ajuda para respirar. Abre a boca e os olhos, como se estivesse levando um choque térmico provocado por uma onde de água fria atirada em suas costas.

Horas depois, Emma autoriza a entrada dos familiares no quarto e não há como conter a emoção diante do reencontro. Johnathon era o mais histérico de todos. Mamãe havia acordado e estava olhando para ele!

— Como se sente, filha? – Kane acaricia os cabelos longos dela.

— Eu sou uma guerreira de ferro! Nasci de Cora Mills e fui talhada pelas mãos do melhor mestre para que eu fosse uma policial! O que quero mais da vida?

Todos riem, felizes pela volta de Regina, após longos e tristes quatro meses de ausência.

— Preciso de uma semana de treinamento, porque tenho uma missão para cumprir. – ela sorri e abraça o filho. – Vlad está na Romênia e é prisioneiro de Reyninna. Precisamos ir para lá e resgatá-lo, já que as autoridades não puderam fazer nada para salvá-lo. Será que as pessoas ainda se lembram dele ou Vlad virou estatística?

— Não tínhamos provas concretas, apenas suspeitas, filha. – Kane olha para o rosto sisudo de Killian e sente um súbito terror ao reconhecer insanidade naqueles belos olhos celestes furiosos. – Foi feito tudo o que poderia, dentro da lei.

— Mas agora vou agir fora da lei. Vou desrespeitar tudo o que você me ensinou a respeitar. E vou trazer Vlad de volta, usando meus conhecimentos de policial e as habilidades que herdei de minha mãe.

Do outro lado do oceano, Reyninna se arruma de maneira bastante sensual para conseguir provocar alguma reação em seu belo Conde. Queria que ele a tomasse em seus braços e a amasse como fazia quando retornava de suas batalhas. Queria o homem selvagem e faminto.

— Eu não sei o que você faz, Vlades, mas está cada vez mais formoso em todos os nossos encontros...- ela para de falar ao sentir um odor característico na pele do homem, mesmo recém banhado. – Por que você busca prazer sozinho, uma vez que há uma mulher sedenta pelo seu corpo?

Ela se aproxima da cama e sobe no colchão, estendendo as mãos e tocando atrevidamente as coxas nuas do homem. Vladimir vira o rosto para o lado, repugnando-se com aquele toque. Era mais forte que ele, e a sensação de repúdio revirava o conteúdo de seu estômago. Provocava arrepios em sua pele, como se aquele toque frio conseguisse queimá-lo.

Reyninna se inclina e roça o rosto gelado nas coxas dele, aguçando seu olfato e conseguindo identificar um aroma conhecido e sentido quando estava do outro lado do oceano. Era o cheiro de Regina e por que estava tão nítido naquela pele?

— Não entendo como consegue manter o cheiro de Regina em sua pele, depois de mais de quatro meses afastado dela. O que acontece para que isso seja possível? Ela não está aqui, mas o perfume dela fica em seu corpo, em todas as vezes que você busca prazer em si mesmo! – ela se senta de novo e encara o homem.

Vladimir começa a rir. Sua risada é debochada e consegue provocar arrepios em Reyninna. Mesmo depois de ter vivido tantas eras, não se lembrava de sentir tanto pavor com som algum. Ela consegue sentir medo.

— Lamento decepcioná-la, mas você não está tão protegida como pensa!

Era madrugada, quando Regina desperta e encontra Killian sentado numa poltrona ao lado de sua cama. O homem estava acordado e mantinha o olhar fixo em algum ponto no quarto.

— Killian, podemos conversar?

— Por isso fiquei aqui. Sei que temos algo para combinar sem ter a intervenção dos nossos parentes.

— Precisamos ir atrás de Vlad. Mas eu quero contar somente com a sua ajuda.

— E sempre protegi meu irmão e ele sempre me protegeu, desde que fugimos do orfanato. Eles mandaram Vlad embora, mas ele retornou para me resgatar. Desde então, nunca mais nos separamos e não quero ficar sem meu irmão.

— Eu sei exatamente onde Vlad está. Preciso apenas de sua ajuda para sairmos o mais rápido possível.

— Dissimile por mais dois dias, querida. – Killian se levanta. – Vou providenciar passaportes falsos e embarcaremos sem sermos rastreados. Vamos pela fronteira terrestre e depois sairemos pelo aeroporto internacional da Capital do país vizinho.

Regina estende a mão e fecha o acordo com o cunhado.

— Vou deixar Jonny com seus pais e tão logo tudo esteja organizado, virei buscar você. Esteja preparada e use o tempo para seu treinamento físico.

Era noite chuvosa nas terras misteriosas da Romênia e Mérida se dirige ao policial com um pequeno lanche após o jantar e o encontra absorto na admiração da tela em óleo que retrava o rosto do Conde Vlades Tepescu.

— Sua beleza é maior do que a do Conde. Reyninna já encomendou outra tela e em alguns dias o senhor posará para que o pintor retrate os seus traços.

— Por que Lenine afirma que Reyninna não é completamente transformada? Que tipo de monstro ela é? – ele a olha por cima do ombro.

— Minha Condessa não permitiu que a transformação fosse completa e por isso ela pode alimentar-se uma vez por semana. – Mérida coloca a bandeja sobre um móvel. – Mas ela cometeu um desatino quando atacou os internos do mosteiro e bebeu mais do que devia.

— Isso significa...

— Minha Condessa está beirando a loucura dos vampiros. Ela está caminhando para a demência, por isso sugiro que não a desafie.

Vladimir vai sentar-se e acomoda-se para o pequeno lanche.

— Você acredita que sou o tal Conde?

Um sorriso infantil é a primeira resposta de Mérida.

— O senhor é apenas um sósia. Eu adoro olhar a web, em busca de sósias e encontro pessoas idênticas umas às outras. O senhor é apenas mais uma delas, porém, a Condessa e Lenine acreditam que o Conde retornou. Ele não poderia retornar porque...não se suicidou...um cigano o matou.

O policial aponta para o rosto do retrato.

— E você escondeu isso por todas essas décadas? Sabe o que acontecerá se Reyninna descobrir que foi transformada em vampira apenas para viver uma mentira?

Mérida brinca com as próprias mãos. Depois levanta o rosto e sorri apaixonada.

— Quando acabou aquela confusão no castelo, os ciganos e eu recolhíamos o corpo do Conde e descobrimos que ele ainda estava vivo. Não havia conseguido atingir o próprio coração com a adaga roubada do traidor Boris. – ela abaixa a cabeça. – Então, eu retirei a adaga e a cravei na região da omoplata dele, atingindo diretamente o coração, como faziam os torturadores quando usavam as Misericórdias.

— E o que eram as Misericórdias?

— Adagas finíssimas que eram usadas para acabar com o sofrimento do torturado. Enfiavam pela omoplata de cima para baixo e atingiam o coração do infeliz. Depois que matei o Conde, desmembramos o corpo dele e cada um dos ciganos levou o pedaço para ser enterrado em algum lugar, desconhecido pelos demais.

— E isso garantiria que o Conde não retornaria? – Vladimir começa a comer.

A jovem abaixa a cabeça e confirma.

— Pensávamos isso na época e, além disso, os meus irmãos ciganos sabiam do meu amor pelo Conde. Eu era a amante dele, quando era solteiro, mas depois que a Condessa veio para o castelo...ele se esqueceu de meu corpo. Então, eu não iria permitir que ele retornasse para continuar a vida ao lado da esposa. Essa era a crença: quem cometia o suicídio, deveria retornar e continuar a trajetória, mesmo que em outra época. Crendices ignorantes.

— Você o amava?

— Mais do que amei qualquer homem ao longo desse suplício que chamo de vida. – ela se senta diante dele. – Vlades e eu crescemos juntos e a vida fez com que nos tornássemos amantes quando jovens. Sempre imaginei que ele romperia com as convenções e quisesse casar-se comigo, tornar-me uma mulher honrada e com um sobrenome poderoso. Mas ele preferiu à moça virgem, vinda de Campina e filha de comerciantes.

O som da porta sendo aberta produz silêncio entre o casal. Era a Condessa quem se aproximava e sua expressão não era agradável.

— Saia, Mérida! Vá procurar o que fazer e longe do Conde!

Vladimir sorri e empertiga-se na cadeira, sentindo o ímpeto de começar a provocar a criatura possessiva. Apanha uma mecha longa de seu próprio cabelo e a leva para junto do nariz, cheirando-o.

— Essa essência usada em meus cabelos, provocam lembranças do cheiro do sabonete que Regina usa em meu filho.

— Poderá ter seu filho ao nosso lado. Basta que me diga a frase certa, meu amado.

— Vá para o inferno, que é o seu lugar. – ele sorri. – Essa é frase certa?

— Não deveria ser rude comigo.

— Já posso sentir o cheiro de sua carne sendo queimada. Como não há sangue em seu corpo, o cheiro que será exalado será de carvão mineral. – ele a olha por cima do ombro. – Seu coração bate?

A pergunta sobressalta a Condessa. Ela sorri pelo interesse do homem.

— Sempre que há alguma emoção inesperada, ele volta a mostrar-se vivo.

— Ótimo! Então saberei localizá-lo de forma certeira, quando enfiar a Misericórdia em seu corpo. Não! Talvez decepando a sua cabeça, eu me livre de sua existência.

Furiosa, Reyninna salta sobre o homem e o derruba da cadeira, imobilizando-o contra o soalho acarpetado da biblioteca. O ódio estava crescendo dentro dela e não conseguiria suportar o escárnio dele, por mais tempo.

— Vá em frente, assassina! Faça comigo o que você fez aos internos indefesos lá no mosteiro! Tire a minha vida ou faça-me igual a você! Vamos, o que está esperando? Falta convicção ou coragem?

Ela se levanta e começa a arrumar os cabelos que se desarrumaram. As mãos trêmulas e o suor rubro que brotava em sua testa, denunciava sua falta de controle. Observa as mãos e percebe que estavam magras demais, confirmando que ficaria deformada em breve, caso não se recolhesse ao sono sepulcral.

— Você não retornará para sua Regina, Vlades! Eu preciso ser sepultada para evitar que a loucura me aflija, mas antes eu o farei como eu, para que seja enterrado comigo!

— Você poderá apenas provocar a minha morte, caso tente me transformar, sua demente! – ele se senta no chão e seu movimento brusco desloca parte de sua camisa e exibe seu peito aos olhos famintos da criatura dourada. Era quase um convite. – Apenas Lenine conseguirá me fazer como vocês e isso dará a ele a minha paternidade. Serei criatura dele e não sua!

— Pare com isso, Vlades! Por que não para de repudiar o meu amor??

Ele sorri e cospe para o lado. Olha-a com o mais absoluto desprezo.

— Você me dá nojo! Poderá agredir-me, usar suas habilidades e violar o meu corpo e nada disso será suficiente para que consiga despertar prazer em mim!

— Eu o esperei por muitos séculos e tolerei dores, mutilações quando fui perseguida...não´é justo que me trate como tratou todas as mulheres com quem você se deitou, antes de nosso casamento!!

— E quais garantias você teve de que foi a única em meu leito, enquanto éramos casados? – ele se move e exibe-se ainda mais os olhos dela. Era pura provocação.

Reyninna nega e prende a cabeça entre as mãos. Não queria ouvir aquilo.

— Talvez, a garota que você matou fosse mesmo uma de minhas amantes e o filho que ela carregava fosse meu!

— Como sabe sobre isso? – ela explode num grito rouco.

— Mérida e Lenina me contaram sobre seu arroubo contra a jovem. Ela foi o pivô de minha morte e de sua traição. Como quer agora que eu a perdoe e a aceite novamente em meu coração? Você provocou a minha morte! – Vladimir a provoca com seu sorriso ferino. – Pensa mesmo que em dez anos, eu fui fiel aos seus beijos e abraços? Nos campos de batalhas, eu me deleitei com as jovens que eram espólios de minhas conquistas! Fiz muitos filhos e filhas!

— Desgraçado, pare com isso!! Está mentindo! O meu Conde não faria tamanha monstruosidade!! Está mentindo! – ela se vira e começa a esmurrar o que encontra pela frente.

Vladimir gargalha e antes que pudesse entender o que estava havendo, é retirado do cômodo pelas mãos fortes de Mérida, enquanto Lenine controlava o destempero da Condessa. Tudo acontece rápido demais.

— Regina está vindo! Regina está vindo! – ele gargalha ensandecido.