Anatomia de um amor imortal
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Notas iniciais

Regina é conduzida por um corredor longo e decorado com belas peças e telas, já apresentando o gosto particular da dona daquele casarão. A policial havia viajado muitas horas, saindo do outro lado do oceano para chegar à Bucareste, cidade de sua parenta desconhecida. Cansada, não consegue admirar a decoração.
— A Condessa Reyninna a está esperando no escritório, Sra. Mills. – um homem magro e velho a conduz até o lugar indicado. Abre a porta e a convida para entrar. – Boa noite!
Regina sorri ao ver uma mulher de cabelos amarelos e traços desbotados, aproximar-se dela com os braços abertos.
— Você é ainda mais linda do que nas fotografias! – a Condessa se aproxima e envolve Regina num abraço maternal. Depois segura seu rosto e a encara sorridente. – Como você é linda!
— Olhar a senhora é olhar-me no espelho, Condessa...apenas loira.
— Não sou loira. Perdi minha melanina depois de ser acometida por uma doença rara. – a mulher indica um sofá para que a convidada se sente. – Espero que aceite meu convite para hospedar-se em minha casa.
Um sorriso tímido é a resposta da policial.
— Pedi uma licença curta e não poderei ficar muito tempo por aqui. Vim apenas porque minha irmã insistiu para que eu a conhecesse. – Regina se senta e recebe uma pequena taça com licor. – Como nos descobriu?
Acomodando-se elegantemente ao lado da visitante, a Condessa a admira por alguns instantes, antes de falar.
— Minha assistente pessoal fez um trabalho árduo por vários anos. Fiquei feliz por ter conseguido reencontrar você, antes de ser devorada pela minha doença. Eu sempre soube de sua existência, mas Cora a tirou de circulação e a perdi de vista. Porém, quando a reencontrei, jurei a mim mesma que não a perderia de novo. – ela gesticula. – Eis a minha linda parenta!
Cansada, louca por um banho e por um farto jantar, Regina coloca a taça de licor sobre uma mesa. Pisca pesadamente e tenta sorrir.
— Já pedi para que providenciasse um banho relaxante e digno de uma nobre. Caso consiga, desça para o jantar.
E depois de muito esforço, Regina se dirige para a sala onde a Condessa a aguardava para o jantar.
— Você conseguiu superar a sua beleza cansada! Jante comigo e depois se entregue para uma noite merecida de descanso, minha querida!
Durante o jantar, a Condessa faz perguntas e aguarda pacientemente as respostas pausadas da policial. Sabia que as horas de viagem estavam provocando um retardamento nos reflexos da jovem.
— Você está casada, minha querida?
— Há oito anos. Casei-me com um colega de trabalho e temos um menino com três anos de idade.
— Perdi tudo isso de sua vida? Eu me lembro de que a acompanhei até sua entrada na universidade. Depois, não soube mais de sua vida. – desfazendo o sorriso, a Condessa olha Regina de forma indiscreta. – Não me canso de admirar a sua beleza.
Massageando as frontes, a policial não consegue conter o cansaço. Precisava muito de uma cama.
— Vou deixá-la dormir.
Na manhã seguinte, as duas mulheres caminham pelo jardim e conversam trocando informações sobre suas vidas e suas experiências.
— Não tive filhos e passei minha vida investindo no sucesso dos filhos alheios. Isso sempre me envaideceu: ser um mecenas. – Reyninna segura a mão da policial e continua sua caminhada. – Como é ser uma policial e comandar homens?
— Divertido! Eu sou responsável pelas negociações em casos com reféns. Comando homens e mulheres e não enfrento problemas. O meu marido é um dos atiradores de elite.
— Ele atirou e acertou você.
As duas começam a rir.
— Ele sempre foi atrevido e ousado. Conquistou-me com humor e sedução.
— Também fui casada com um soldado, mas ele se suicidou. E eu fui a responsável pela decisão dele em tirar a própria vida. Eu o traí e ele tomou essa atitude para proteger-me.
— Lamento muito.
Reyninna exibe um sorriso amarelo e triste,
— Eu lamento em todas as noites. Meu amor cego e perverso o empurrou para a morte. – a mulher inspira profundamente. – Posso ver alguma fotografia de sua família?
Alargando um sorriso orgulhoso, Regina apanha seu celular e começa a busca pelas fotos que tirara com seu esposo e outra foto de seu menininho. Consegue uma foto em que todos estão sorridentes. Três lindos sorrisos!
— Este é Vladimir e este meu pequeno Johnathon! Meus dois homens amados!
A Condessa sorri e segura o aparelho, fitando a tela grande e os sorrisos que pareciam ser para ela. Emudece. Não consegue ver absolutamente nada, além do belo rosto do homem moreno e aqueles olhos em um conhecido tom de avelã. Era o mesmo rosto, os mesmo lábios e a mesma expressão furiosa em pleno sorriso. Ele estava ali de volta para ser envolvido pelos braços e pelo amor de sua esposa arrependida e nostálgica.
E a cena que retorna à sua mente, mostra os últimos momentos de vida do seu Conde, seu amado Conde, valente e justo soldado, vítima de uma emboscada criada por sua esposa:
“Os ventos trouxeram Vlades de volta de um pequeno confronto em um território de exploração de minério. Ele retornou sedento pelo corpo e pelo aroma de sua Condessa, mas o que encontrou foi uma estátua fria com cabelos humanos.
— Fico feliz que esteja de volta, meu marido. – não havia calor naqueles olhos escuros.
— Há algo que não sei, amada?
Reyninna sorriu e gesticulou para que uma jovem se aproximasse do casal. Percebeu o olhar questionador do marido, descendo para o ventre redondo da desconhecida.
— Conhece esta jovem, Vlades?
— Não.
— Olhe bem para o rostinho dela, porque será a última vez que a verá, meu valente soldado.
— Que brincadeira é essa, Reyninna?
— Esta é a mulher que carrega o seu filho no ventre, maldito corsário! – um grito alto foi ouvido.
Antes que tudo fosse esclarecido, Reyninna apanhou uma espada que estava adormecida sobre uma mesa e com um gesto brusco e rápido, cortou a barriga da garota, fazendo com que o bebê caísse sobre o chão de pedras.
— Você enlouqueceu, Reyninna?
— Matei o seu filho, Conde Vlades, assim como você matou o meu amor! Morte ao traidor!
Saídos dos corredores, vários soldados turcos avançaram na direção do Conde, que se defendeu como se estivesse possuído por algum ser sobrenatural, auxiliado pelo general Radu. Lá pelas tantas, vários soldados turcos mortos e outros tantos feridos, Radu tomba morto, mas Vlades continua sua luta usando seu corpo ferido. Iria morrer pelas mãos de seus inimigos. Dizia a lenda que se um dos amigos morresse, o outro não sobreviveria para contar suas batalhas.
Foi quando Boris surgiu garboso, sorridente e acompanhado pelo temido Sultão Muhameed. Ambos sorriram maldosos e aproximaram-se de homem ferido, para desferir o golpe de misericórdia. Porém, ele foi mais rápido e arrancou a adaga que estava da faixa na cintura do Sultão e cravou no próprio coração.
.- Não, maldito, não! – o grito do Sultão se confundiu com o som da invasão dos soldados de Vlades, vindos numa caravana após à chegada do Conde.”
O toque de Regina em seu ombro, a tira de seu louco devaneio e a traz de volta para os dias atuais, tristes e longos, sem brilho e sem novidades...até aquele momento. Ela sorri e devolve o celular para a policial.
— Sua família é linda! Por instantes, eu me lembrei da minha.
— Mas esta é a sua família! A partir de hoje, poderá frequentar nossa casa, conviver com meu filho e com Vladimir, além de saber mais de nós!
— Você me autoriza entrar em sua casa? Sabe que lares são lugares sagrados?
Sorrindo, Regina abraça a mulher mais velha e beija-lhe o rosto frio.
— Você tem nosso sangue e será bem vinda!
“Terei o seu sangue e ainda serei bem vinda?”
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