Regina guarda seu walk talk e informa Kane sobre a atual negociação com os dois homens que mantinham uma família inteira, como refém.

— Há crianças na casa?

— Não, Kane. Há duas mulheres adultas e duas adolescentes. O homem é o avô da família. Mas uma mulher está grávida e deve ser solta em cinco minutos.

Dentro do tempo estipulado, uma mulher sai da casa e está acompanhada por um homem velho. Os dois mantêm as mãos erguidas e suas expressões são de horror. Atendidos pela equipe médica, são retirados da linha de frente da casa.

— Convença-os a libertarem mais uma refém. – Kane é direto.

Momentos depois da negociação, Regina retorna sorridente. Havia conseguido mais uma vitória e outra refém sairia em breve. É o que realmente acontece.

No cair da tarde, os bandidos apresentam as suas exigências básicas para a libertação das adolescentes. Kane conversa com os bandidos e faz as anotações, para que a saída fosse feita em segurança.

Do telhado da casa em frente à casa invadida, um policial se aproxima rastejando do companheiro que estava deitado e observava a situação.

— Vim assim que fui liberado. Como está a situação? – ele esfrega uma das mãos contra a outra, ansioso.

— Estou com cãibra na bunda. – Killian fala e não olha para o lado.

— Continua firme nos estudos? – Vladimir se deita ao lado do companheiro e direciona sua arma para o foco estipulado.

— Eu garanto que vou entrar na Universidade de Rockfort.*

— E na Universidade de Oxford?

— Também. – Killian imita o colega e coloca a aba do boné para trás. – Daqui, eu poderia arrancar um piercing do mamilo de um deles.

Vladimir exibe seu sorriso sarcástico.

— Do direito ou do esquerdo?

Mais duas horas são usadas na negociação, até que movimentos da porta principal da casa, indicam que alguém sairia por ali. E de fato, os dois bandidos saem usando lenços para cobrirem a cabeça das vitimas e as deles. Assim, evitariam que os atiradores fossem certeiros.

— A primeira menina é mais alta que o bandido. Ele está atrapalhado em movimentar-se e manter a menina presa, além de segurar a arma. – Killian sorri e comunica Regina pelo rádio. – O bandido da esquerda é meu! Aguardo sua ordem!

— Sua posição, Vladimir!

— Posso acertar o bandido que está com a menina menor. Tenho boa visão daqui.

Os bandidos estavam assustados e as garotas choravam. Regina se aproxima e exibe-se sem armas, argumentando para que os bandidos aceitassem o colete à prova de balas. E os incautos aceitam a proposta. É naquele momento que tudo acontece.

Quando os dois atiradores chegam à central de polícia, são recebidos com cumprimentos pelos colegas, com abraços e beijos. Aplaudidos pelo sucesso de sua empreitada.

Killian e Vladimir agradecem e continuam discutindo sobre algum assunto desconhecido sem dar importância à ovação. Acomodam-se em uma mesa.

— Isso muito é perigoso, Vlad! Sugiro que não tente, porque mais perigoso que isso é tentar fazer exame da próstata do Volverine!

— Mais perigoso é permitir o Volverine fazer o exame em você. – Vladimir bebe um gole do café de uma policial. Exibe um sorriso maroto.

— Vocês são médicos para realizar esse exame em alguém? – ela apanha o copo de volta e gargalha com a própria pergunta.

Outros policiais começam a rir também. Mas para Kane e Regina, que entram naquele momento, a situação era outra.

— Penso que temos um problema mais importante do que a próstata do Volverine. – Kane fala ficando em pé diante dos dois policiais. Cruza os braços na frente da barriga. – Querem o meu fígado exposto numa bandeja de prata?

O xerife se dirige para Killian e o encontra inexpressivo, encarando-o como se desconhecesse a fúria do líder.

— Atirar na refém para atingir o bandido? Ideia inteligente?

— Um projétil no braço não produz morte, chefe. Ela era mais alta que o bandido e foi o único modo que encontrei em atingi-lo, antes que vestisse o colete. O braço dela estava bem na direção do peito do imbecil...pensei rápido e ! – ele gesticula como se estivesse com uma arma na mão.

Kane olha para Vladimir e o encontra sereno e cínico.

— Sua versão...

— Bom, fiz o cálculo do trajeto do projétil, para que ele ricocheteasse e acertasse o meliante. O projétil me obedeceu e descumpriu o acordo do trajeto.

— Vocês vão escrever isso nos relatórios? – Regina se manifesta.

— Ou vocês poderão escrever. – Vladimir responde e mantém sua postura ereta, aguardando licença para poder relaxar.

— Eu serei inquirido sobre suas atitudes. Poderiam estar errados em suas decisões. O que aconteceria se seus cálculos estivessem 0,1 fora do acerto?

Killian e Vladimir se entreolham. Encaram seus superiores.

— Teríamos quatro mortos na frente da casa. E mais dois mortos aqui dentro de seu escritório, Chefe. – Killian aponta para ele e para o irmão.

Os olhos de Regina se estreitam e ela desiste de tentar fazê-los entender a gravidade daquela manobra arriscada. A equipe tinha sido exitosa, mas mesmo assim, a corregedoria e a prefeita iriam fazer declarações contrárias. E a ação dos policiais não tarda a receber manifestações de apoio e de repúdio na imprensa e por parte dos internautas. Mas nada parecia abalar a confiança dos dois profissionais.

— Eles salvaram a nossa vida! Os bandidos nos disseram que tão logo conseguissem embarcar no helicóptero, seríamos jogadas lá de cima! O policial foi incrível! Viu a posição do meu braço e calculou exatamente onde estaria o coração do bandido! Eu nem senti dores, apenas senti queimação e cheiro de carne queimada! Gritei e cai no chão, quando o bandido caiu morto! – declara uma das jovens reféns, sendo incentivada pelos membros de sua família.

— Não entendo nada de calibre de armas, essas coisas, mas meu avô me disse que eu não correria o risco de ser atingida pelo mesmo projétil! O policial calculou até isso! Ele foi o nosso herói! – diz a outra adolescente feita prisioneira naquela casa.

Durante toda a semana, a ação dos atiradores gera comentários diversos, até que algo maior tomasse a vez daquele acontecimento. O jornal de hoje embrulhará o peixe, amanhã.