Anatomia de um amor imortal

27 O amor existe, porque existe


Eles estão mais perto. Até o anoitecer estaremos lá. Mas...

— Já nos disse três vezes, padre: o senhor não irá entrar no presídio. – Killian está na dianteira e não olha para trás.

Todos estavam reforçados por uma proteção espacial colocada por Regina e seus músculos toleravam a caminhada até aquele ponto.

— Eu pensei bem e quero entrar.

— Não vou proteger a sua retaguarda, Tobbar. Iremos lidar oficialmente com duas vampiras velhas. E se existirem mais bichos lá dentro?

— É um risco que irei correr. Quero estar lá dentro com vocês.

Killian olha o padre de soslaio. Diminui os passos e espera Regina se aproximar.

— Tenha fé, minha amiga! Em breve Vlad estará conosco e teremos mais duas criaturas mortas.

Mas eu não desejo a morte de Reyninna. Eu a amo e ela me ama. Vlad não pode ser o preferido dela, porque nós duas temos uma ligação de sangue. Reyninna não merece morrer apenas porque amou demais.

— Está me ouvindo, Regina?

— Vamos resgatar meu marido. E é tudo! – ela acelera os passos de deixa Killian para trás, provocando estranheza no policial.

A lua estava a pino, fixada no manto noturno e enchendo aquela parte do mundo com sua luz poderosa e azulada. Era um dia disfarçado e com menos intensidade.

— É imponente demais! – Regina comenta ao estar tão próxima aquela grandiosidade pedras e matas. – É perfeito e imenso!

Tobbar aponta na direção sudeste dos montes.

— A entrada do presídio é naquela direção. Serão mais algumas horas de caminhada.

Virando-se para seus companheiros, Regina gesticula e reforça a proteção sobre eles, deixando-os mais resistentes à nova caminhada. A alma da mulher gritava e sofria com as decisões que deveria tomar quando entrasse naquele espaço. Qualquer eu fosse sua atitude derradeira seria provocadora de lamentos futuros.

Lá dentro da prisão, Vladimir se encontra em desvantagem mais uma vez. Parado junto a uma parede fria, ele aguarda o ataque de fúria de Reyninna. Os dois estão frente à frente e não dizem nada durante muito tempo.

— Eu desmembrei Mérida... – ela quebra o silêncio sepulcral.

Sem conter-se, o policial gargalha.

— Eu não entendo você, Condessa. Convive por séculos com uma pessoa, sendo servida por ela, acordando e dormindo com ela, dividindo as angústias e alegrias...e em vez de acreditar nas palavras de Mérida, não hesita em questionar sua fidelidade.

— Ela me traiu...

— Mas se arrependeu e dedicou a existência fantasmagórica a servi-la para compensar o mal que fez. – ele exibe um olhar risonho. – Eu não fiz nada por você, mas mesmo assim, a minha palavra decretou o fim de sua fiel serva.

— Mérida matou você, Vlades!!!

— Eu-não-sou-Vlades. Eu me chamo Vladimir. O seu Conde morreu e foi desmembrado. Des-mem-bra-do!

Reyninna exibe suas mãos cobertas de sangue.

— Perdi Lenine...matei Mérida...vou ficar sozinha?

— Não. Você irá me converter e eu irei assombrar as suas noites por toda a eternidade. Para onde você for, eu irei. Eu a defenderei de qualquer ataque, porque ninguém terá o direito além de mim, de fazê-la sofrer.

A Condessa se repugna com a quantidade de sangue em suas mãos. Olha para o prisioneiro.

— O quarto quase explodiu totalmente com a sua traquinagem. Perdemos roupas, livros, moedas de ouro voaram...estamos com a nossa roupa do corpo e ainda não poderemos retornar ao castelo. Eu sobrevivo sem alimento e água...mas e você?

Dando de ombros, o policial começa a andar na direção da criatura. Abre caminho com a força do corpo. É seguido por ela e mais alguns metros depois, sente o braço ser segurado pela mão forte da Reyninna.

— Você quer se casar comigo, Vlades?

Sem olhar naqueles olhos dourados e sentindo-se derrotado, o policial tenta manter altivo.

— Sim. Eu aceito o seu pedido. Estarei atado a você, como se fosse preso por uma corrente. Atados com o jogador ao seu jogo; como o verme à podridão e como a garrafa ao beberrão. Maldita será mil vezes! Jamais serei liberto desse cativeiro e nem a libertarei dele...

— Ser amado é ser cativo? Sente-se prisioneiro por ser merecedor de um sentimento que venceu a morte e o tempo?

— Isso é danação, Reyninna. Você me condenou, bebeu de mim, conectou-se ao meu corpo e jamais me deixará livre outra vez. Perdi a mulher que amo, não estarei presente na vida de meu filho e não tornarei a ver meu irmão e meu pai. O único rosto que verei será o seu rosto frio, seu rosto morto e sem expressão. Sou privilegiado?

Reyninna liberta o braço do homem e abraça-se, protegendo-se do frio que sentia. Sua vida tinha ficado reduzida a um corredor escuro num presídio de pedras, ao lado de um homem que já decretara a morte em vida. Vampiros precisam de energia para viver e continuarem belos. Como retirar isso de um humano que estava perdendo a chama da vida? Um lindo humano de alma decadente e sem brilho?

— É muito triste saber que você abomina o meu amor, depois de nutrir a esperança de nosso encontro, durante séculos.

— É a segunda vez em sua existência que confia mais em um estranho do que em quem diz amar. No passado, Boris a ludibriou e você perdeu Vlades. Hoje, eu a ludibriei e você perdeu Mérida. Você fez tudo errado. – ele se vira para a Condessa. – Serei o seu filho pela conversão e vou dedicar a minha nova existência a apagar a chama daquilo que você denomina alma.

— Ser odiada por amar demais...é o meu pecado.

Vladimir estende a mão e a convida a sair dali.

— Vamos realizar a nossa cerimônia de casamento. A união de dois desgraçados, dois perdidos numa noite fria. Ambos fomos abandonados pelos que amamos...

O silêncio súbito de Reyninna provoca incômodo na alma de Vladimir. Ela levanta uma das sobrancelhas e inclina a cabeça para o lado porque estava ouvindo algo que ele não ouvia. Ela parecia sentir cheiros que ele não sentia e perceber perigos iminentes.

— Vamos retornar ao que resta do nosso quarto.

O quarto estava parcialmente destruído. O fogo tinha se espalhado e provocado a explosão de um dos lampiões, enquanto o terceiro ainda estava incólume. Num canto escuro do cômodo, a massa retorcida representava o que havia restado do corpo de Mérida. Num outro canto, Vladimir identifica a cabeça chamuscada com fios de cabelos ruivos.

— Sim, a imagem de um vampiro destroçado é horrível, meu amado. – Reyninna olha em volta e encontra um pano em meio aos escombros. Levanta uma mesa e cobre o móvel. Apanha em meio à bagunça, uma peça em ouro e quebra em duas partes. – Não temos a nossa aliança aqui, mas isso servirá como troca de símbolo.

— Esse cheiro é nauseante...

— É cheiro que o acompanhará, porque será aqui a sua transformação. Vou beber de você e darei meu sangue a você para convertê-lo. Haverá dor, seu corpo perderá os fluídos humanos e restará somente o sangue. Você morrerá como homem e ressurgirá poderoso como meu companheiro.

— Isso não me é atraente.

— O tempo o fará dependente de mim e irá aprender a amar-me. – ela para outra vez e demonstra que está aguçando sua audição. – Não temos tempo porque o dia irá chegar. Quero que quando a próxima noite cair, você já esteja em meu mundo.

Reyninna entrega a parte da peça em ouro ao homem e vira-se para a mesa coberta com o retalho.

— Venha, meu amado, faça de conta que este é o altar onde selaremos a nossa aliança.

Vladimir segura a peça de ouro na palma da mão e fecha seus olhos.

Direcione a sua oração para a fonte de sua fé e proteção e ofereça em consagração o que desejar, para que se torne sagrado.” Kane havia dito um dia para Killian e ele.

E é o que o policial faz: torna aquele pedaço simples de metal em um objeto consagrado ao Bem. Seria mais uma arma para conseguir empreender mais uma tentativa de fuga, agora que o dia não tardava a nascer e entraria pelas frestas das paredes.

— Vou fazer o meu juramento e depois você fará o seu, amado.

Olhando a criatura de soslaio, Vladimir percebe que aquela fração de segundos de distração seria o seu momento e então ele golpeia o pescoço alvo da criatura, porém, ela é muito mais rápida que ele e a peça de ouro cai longe. Com um golpe potente, Reyninna o derruba e senta-se sobre ele, que luta indiscriminadamente e desfere seus golpes inúteis contra aquela superfície fria e rígida.

— Regina!!! – ele grita usando as últimas forças de seus pulmões.

— Você não precisa machucá-lo, Reyninna.

A voz de Regina chega aos ouvidos da Condessa como a mais doce melodia já ouvida em alguma orquestra. A voz humana: o som mais lindo já criado no universo. Mantendo o homem ainda preso, a criatura olha por cima do ombro e vê a figura altiva de sua descendente. Ao lado dela, o policial de olhos perversos: o general Radu. Mais afastado, um religioso que não emanava tanta confiabilidade e, portanto não era sagrado a ponto de ser respeitado.

Reyninna se levanta e traz Vladimir com ela, mantendo-o preso pela parte de trás do pescoço.

— Minha menina, você veio! Venceu os obstáculos para buscar o seu homem!

— Não. Eu não vim por ele, mas vim por você. Despertei as minhas habilidades apenas para vir protegê-la, porque a amo.

Como uma criança que pede os braços de adultos, Vladimir estende os braços para Regina.

— Você iria fazê-lo sua criatura? Pensei que seria privilégio apenas para mim.

— Iríamos começar a cerimônia do nosso casamento, Regina, minha menina. Depois de pedir durante duzentos dias, ele finalmente aceitou seu meu esposo, outra vez.

— Eu ainda tenho uma aliança com ele, Reyninna. Ele não pode criar outra aliança, sem terminar finalizar o compromisso que tem comigo.

— Para isso daremos um jeito. – a criatura dá um passo para frente e para ao ver Killian ou Radu fazer o mesmo. Como aquele homem de olhos perversos a assustava, desde tempos remotos. – Vai disparar essas setas em mim, general Radu? Pensa que elas serão mais rápidas que meus dedos contra o pescoço do Conde Vlades?

Killian não responde. Mantém a besta apontada na direção da criatura e não demonstra temor. Aquele olhar sempre provocara medo na alma de Reyninna e ela sabia que o general gostava disso.

— Eu apenas amo o meu Conde...- ela soluça pelo choro. – Tudo o que eu quero é viver ao lado dele e de quem mais quiser me amar...não cometi crime algum...nem sequer matei meu Conde...foi Mérida que o tirou de mim...não mereço morrer porque quero amar...

Abaixando a besta, Killian se empertiga e assume uma postura ereta militar. Continua mudo.

— Eu sei que fiz tudo errado, porém a loucura tomou conta de mim quando vi aquela fotografia. Lá estava o amor de minha vida, sorrindo ao lado de outra mulher, que havia lhe dado um filho. Você teve um filho com o meu amado, enquanto eu tive o meu filho em meio à podridão, acusada de matar o meu marido...quando vi a possibilidade de ter minha família de volta...perdi a razão que me manteve viva até hoje...

— Deixe-o ir, Reyninna. Não é do Vlad que você precisa: é de mim. Você acompanhou os descendentes de seu filho até que me viu nascer. Eu sou a sua menina e serei a companheira, porque Vlades deixou de existir na noite em que houve a invasão do castelo. Ele não voltará mais e o homem que você quer converter não é o seu Conde.

Killian ergue novamente a besta e parecia estar convicto de que não falharia o seu disparo. Os olhos de Reyninna permanecem fixos neles, porque sentia que o general estava com alguma carta dentro da manga. Observa-o tocar as pontas das duas setas e fechar os olhos por alguns segundos, como se estivesse orando.

— Os fantasmas de seu castelo contaram-me toda a sua saga, Reyninna, e decidi que quero estar ao seu lado, porque sinto que você deveria ter sido a minha verdadeira mãe. Eu a quero como a minha mãe. – Regina estende aos braços. – Entregue-me o homem e mantenha os braços estendidos para mim. Eu lhe imploro!

A Condessa chora lágrimas vermelhas intensas. Ela empurra Vladimir com violência para cima dos homens e rosna transfigurando seu rosto. Vladimir praticamente voa para cima do padre e do seu irmão, caindo os três.

Antes que todos pudessem entender a confusão, Regina gesticula e provoca um pequeno desabamento de pedras em uma das paredes. A criatura vira-se para ver o desabamento e ao distrair-se por segundos, Killian, ainda caído, dispara duas setas e atinge o abdômen dela.

Regina gesticula e envia uma onda de energia contra Reyninna, empurrando-a pelo orifício. Em seguida, atira-se no orifício e some na escuridão.

Killian abraça e beija o irmão, depois o entrega para o padre assustado.

— Leve meu irmão para a igreja e cuide dele! Caso não voltemos em quatro dias, leve meu irmão para meu pai e será muito bem recompensado!!

O policial diz isso e invade o orifício que Regina havia aberto na parede. Iria atrás de sua cunhada e da criatura, mas desejava trazer somente uma de volta.