Anatomia de um amor imortal
28 O amor é persistente

Na entrada do quarto dia, a porta da casa paroquial é aberta e Killian entra fugindo do frio. É abraçado pelo irmão e pelo padre, incrédulos em sua volta.
Momentos depois...
— Usei meus recursos e os recursos que encontrei naquele lugar para vasculhar as celas. Eu explorei todos os espaços e não encontrei vestígios da presença delas duas. Em meu retorno, fui ao castelo e os ciganos me permitiram entrar em todos os cômodos, mas ali elas não haviam estado. Elas sumiram, Vlad, e eu falhei.
— Não falhou, meu irmão, porque elas ainda estão vivas. Tenho conexão com as duas e ainda as sinto vivas. Aqui fora, a conexão com Regina, que pensei ter perdido voltou à minha alma. Regina está viva e a Condessa ainda caminha sobre a Terra.
Killian bebe mais um gole da sopa.
— Não poderemos desistir de Regina, meu irmão. – pede Vladimir. – Ela não desistiu de mim.
— E o que você sugere?
— Eu apenas preciso de mais alguns dias para fortalecer o meu corpo e iremos atrás de Regina. Mas teremos de conseguir alguma arma poderosa que acabe de vez com a Condessa.
— Tem ideia de onde elas estariam?
Vladimir sorri e confirma com um movimento de cabeça.
— Reyninna veio de uma família de comerciantes da região de Campina. E elas estão naquele lugar, porque era o nicho onde iríamos viver depois do casamento. Você e eu iremos para lá em mais alguns dias.
Massageando a cabeça, Killian demonstra fraqueza e cansaço.
— Preciso de um banho e de muitas horas de sono. Mas antes, preciso fazer um retiro e limpar minha alma das sujeiras que vi naquele lugar horrendo. Preciso jejuar e fazer meus momentos de limpeza espiritual. – ele estende a mão para o irmão. – Vamos fazer essa limpeza juntos?
Algum tempo depois, Killian abre sobre a mesa uma trouxa feita com um lençol e exibe vários objetos de ouro. Tobbar não consegue conter sua gula e apanha os objetos como se fossem salvar a sua vida com aquilo. Ri histérico e brinca com as moedas.
— Onde conseguiu isso?
— Mesmo naquela bagunça que estava aquela cela ou quarto, havia muita peça de ouro espalhada por ali. Eu recolhi o que conseguia carregar. Pode ficar com parte disso e a outra parte usarei para as minhas despesas com meu irmão.
Na manhã seguinte, os irmãos chegam ao imenso castelo da Condessa. Ficariam ali porque Vladimir estaria em um local limpo e aquecido para conseguir recuperar-se mais rapidamente. Por ter vivido ali por mais de seis meses, Vladimir é bem recebido pelos empregados e pelos ciganos que ainda serviam de segurança.
— A Condessa não retornou ao castelo depois que o senhor esteve aqui. – a governanta comenta com Killian e aponta para o salão principal. – O Senhor Lenine e Mérida também não retornaram.
Killian e os ciganos entreolham-se.
— Mérida está com a Condessa, enquanto Lenine não está mais no país. – Killian responde e troca um olhar cúmplice com os ciganos. Ele sabia que os demais empregados desconheciam o segredo de Reyninna.
— O seu quarto ainda está intacto. O senhor conhece o castelo. – a governanta tenta sorrir para Vladimir, mas acredita que ele não retribuiria o sorriso. Foram mais de seis meses sem ver tal expressão do belo homem.
Mas ela se engana. O policial sorri e agradece a recepção. A expressão provoca encantamento na mulher e ela consegue entender a obsessão da Condessa sobre o seu hóspede que nunca havia sorrido.
— Vamos ficar aqui por uns dias até que os advogados de Reyninna venham dominar tudo. – Killian abre a cortina e olha para fora do quarto.
— O que houve com Lenine? O padre Tobbar me contou e não entendi.
— Nem eu entendi, mesmo tendo visto. A seta que cravei no corpo dele o transformou em numa fera peluda e depois em pedra, mas antes disso alguns fantasmas entraram no corpo dele. Deve haver uma guerra lá dentro, agora. Quando estive aqui procurando Regina e a vampira, os ciganos me ajudaram a tirar a estátua do salão principal para enviar às docas. A estátua ficará lá até que retornemos para casa. Vou levá-la para Dandara ou o Reverendo Costa.
— Ele está morto dentro da pedra?
— Lenine, Mérida e a Condessa são mortos, meu irmão. Transgressores que insistem em ficar entre os vivos, mas já estão mortos há séculos. – ele estala os dedos.
— Eu incitei a fúria de Reyninna e ela destroçou Mérida...mas enquanto eu estive aqui neste castelo, Mérida me tratou muito bem. Cuidou de mim, zelou por mim quando eu acreditava que havia sido abandonado.
Killian corre para o irmão e o detém pelos ombros.
— Síndrome de Estocolmo não!! Mérida ajudou a raptar você e o mantinha forte para que Condessa o pudesse transformar com saúde. Tobbar me disse que se alguém doente é convertido, transforma-se num vampiro demente e irracional!! Nem ela e nenhum dos espectros têm algo de bom em seus corações! E nós jamais o abandonaríamos, irmão!
— Tentei cravar uma peça de ouro consagrada no pescoço de Reyninna, mas ela percebeu e foi mais rápida. Caso vocês não tivessem chegado a tempo, eu seria um vampiro, agora.
— Procure descansar, Vlad. Vou providenciar algo para que possamos comer. E nada de sentir piedade dessas coisas horrendas! São monstros!
Tendo deixado o irmão protegido no quarto, Killian se encontra com um grupo de ciganos num dos corredores. Entrega várias peças de ouro aos homens.
— Ninguém além de mim, entra e sai deste castelo, até sermos comunicados judicialmente. E tudo o que vocês me virem fazendo não ficará dentro de suas lembranças. – ele fala em romeno.
— E o que o senhor pretende fazer?
— Vou saquear o castelo antes que os assessores da bruxa venham cuidar disso tudo. Preciso de homens de confiança, para transportarem o que eu conseguir, para o mesmo local para onde levamos o desgraçado do Lenine.
— O senhor confia tanto em nós?
Killian gargalha e nega com a cabeça
— Confio no valor das peças de ouro e em minha pontaria. Jamais se esqueçam de que também sou um mercenário, mas com um distintivo para proteger e explicar meus crimes.
— Acordo fechado, irmão do Conde.
Killian e os ciganos acham graça na brincadeira do homem.
Mais dias são vividos...
— O que é isso, Vlad?
— Era um hábito de Reyninna: diários. Aqui e em vários outros, ela citava os momentos mais intensos do período em que vivi no castelo.
— Pois eu encontrei papéis mais interessantes: títulos ao portador. – Killian explode numa gargalhada e assombra o irmão. – Pense nisso como uma indenização, irmãozinho! Você e eu perdemos os nossos empregos por abandono de cargo, Regina também está fora da corporação e pense nos momentos em que Johnathon está sem os pais.
— Você já pegou várias peças de ouro para nossas despesas. Não acha que isso será roubo?
Killian se inclina para frente e franze o nariz.
— E como pensa que Reyninna e os seus morceguinhos conseguiram manter a fortuna do Conde, durante tantos séculos? Boa administração financeira? Eu cuidarei dessa parte e você cuide de recuperar sua saúde. Em dois dias, nós partiremos para Campina.
Vladimir se volta para a mesa, onde lia os diários de Reyninna.
Dentro do tempo estabelecido, a motocicleta comprada por Killian e Vladimir segue para a estrada em direção à cidade natal da Condessa secular. Era atrás do pilar daquela família que os dois irmãos estavam em busca: Regina. A peça mais valiosa de todas.
— Este lugar é bonito demais. – Killian bebe mais um gole de água. Observa o irmão pensativo ao apreciar a paisagem. – O que há, Vlad? Você está sentindo Regina e ela está sentindo você! Será o encontro perfeito!
Vladimir olha por cima do ombro.
— E se Regina fez a escolha dela quando pulou naquele orifício na parede? E se ela sempre esteve interessada em Reyninna? Lembra-se de como ela se recusava a acreditar na má índole da Condessa? Ela sempre tinha uma explicação para o comportamento do monstro!
— Você também sentiu piedade de Mérida, irmãozinho. Essas criaturas são sedutoras e fortes. Posso apostar que Regina descobriu que não é força física que a fará vencer Reyninna e convencê-la a nos deixar em paz. – Killian beija o irmão. – Suba primeiro na moto porque eu vou na garupa! Regina está cansada de esperar!
Era começo de noite, quando a motocicleta entra por um corredor amplo e ladeado por muros de pedras, no final de uma rua. O corredor era uma rua estreita que dava acesso ao outro quarteirão e no meio de um dos muros, havia um portão grande em madeira, sem maçaneta externa. Param o veículo, observam em volta e dão mais uma volta em torno da imensa construção, preparando a armadilha para começar o tormento de Reyninna.
Quando retornam para a frente do portão, os dois descem da motocicleta e ficam em silêncio observando a construção velha e suntuosa.
Vladimir espalma as mãos sobre a superfície de madeira maciça. Sente: o amor de sua vida estava lá dentro.
Reyninna muda sua atenção das teclas do piano. Sente: o amor de sua vida estava lá fora.
Regina interrompe sua apreciação à melodia e começa a ouvir as batidas de seu coração. Sente: o amor de sua vida estava bem próximo e viera buscá-la.
Momentos depois, o serviçal chega à sala e comunica a Condessa sobre a presença dos visitantes. Ela gesticula e assume sua postura altiva para receber os dois homens naquela reunião conciliadora entre dois lados adversos e inimigos. O que eles queriam propor? Haveria um novo ataque? Eram insistentes demais!
Regina não se preocupa em disfarçar seus sentimentos, aliás, a confusão de sentimentos e emoções. Estava inquieta e feliz por saber o quanto era amada. Havia lutado para salvar o amor de sua vida e fora exitosa. Agora, queria sentir e saber até onde seu amado iria por ela.
Quando os policias são deixados pelo serviçal naquela sala, conseguem identificar figuras disformes e amarelas escondidas entre as frestas da grade do mezanino de madeira, onde ficavam algumas estantes de livros. Eram coisas fortes e assustadoras, prontas para pularem dali e iniciarem alguma luta.
Todos permanecem em silêncio, olhando-se como se nunca tivessem se encontrado. O desejo era mútuo de um abraço e de perguntas criadas e guardadas por mais de seis meses.
Regina sente o peito queimar, tamanho seu anseio em tomar o marido nos braços e beijá-lo até que ele ficasse sem fôlego.
Reyninna não controla o sorriso ao rever o seu belo Conde, elegante em roupas modernas e com seu aspecto saudável de quem havia sido bem cuidado. Crispa as mãos para controlar seu ímpeto para agarrar o seu soldado e fugir com ele dali.
Vladimir luta contra seu desespero e confusão. Por que Regina estava controlando-se em vez de atirar-se em seus braços e dizer que o amava? Depois de todas aquelas luas, os dois frente a frente como se fossem dois estranhos! Mas ele sabia que sua guerreira tinha tudo sobre controle e não seria ele a pôr tudo a perder. Esperaria que sua Rainha se movesse naquele tabuleiro de xadrez.
Killian sorri vitorioso, curioso e excitado em saber como Reyninna havia lidado com as feridas provocadas pelas setas consagradas. Queria correr para abraçar Regina, mas diante da reação de todos, decide aguardar o desenrolar dos fatos. Aquilo era real?
— Vocês foram corajosos em vir aqui.
— Não viemos por você, Condessa. Estamos incomodados com a ausência de Regina. – Vladimir sorri para a esposa e recebe o lindo sorriso dela como resposta. – Ainda não assimilei o que houve naquela prisão.
— Eu fiz a minha escolha, Vlad. – a voz de Regina é segura.
O sorriso de Vladimir se desfaz e o tudo desbarranca em volta dele. Tudo se transforma num funil e escurece em sua volta, permitindo que a luz chegue apenas sobre Regina, como um foco. Incrédulo, ele a olha como estivesse assistindo sua transformação em alguma coisa parecida com Reyninna. Aquilo era mentira, mas doía demais!
— C-como é?
— Eu vim para resgatar você com vida. Fui exitosa e então decidi fazer a minha escolha. Você partirá com Killian, deixando-me aqui com a minha parenta. Isso foi o que sempre eu quis.
— Ser seduzida pelo mal?
— Não, Vlad, meu amor. Eu fui seduzida pelo que esta vida pode proporcionar para a minha! Aqui, como Reyninna, eu terei tudo o que sempre sonhei! Você não tem ideia do que eu vivi em tão poucos dias, aprendi mais informações sobre minhas habilidades e nunca me senti tão linda como me sinto agora!
— Isso é alguma brincadeira? – Vladimir se volta para Reyninna. – É a sua vingança, maldita? Magnetizou Regina para que ela a escolhesse em detrimento à nossa família? Você bebeu de minha esposa, monstro amaldiçoado?
Reyninna estende a mão e em segundos está bem próxima ao seu Conde.
— Jamais faria isso com minha menina, porque ela não é forte como você, meu amado. – ela lhe toca o rosto. – Apenas ofereci a ela, tudo o que ofereci a você. A diferença é que Regina foi sábia e aceitou. Ela quer poder, beleza e juventude eternas, enquanto você queria voltar para casa.
— Em troca, ela irá vender a alma a um demônio como você? – ele volta seus olhos para Regina e a encontra calma. Queria gritar, urrar e protestar contra o que estava ouvindo. – Isso não pode ser real!
Ele se vira e começa a andar de um lado a outro, até ser detido pelas mãos de sua amada.
— Vlad, isso é minha escolha! – Regina segura o rosto do homem entre as mãos. – Quando eu vi você sendo atacado por ela, refutando o dom que iria receber, pensei que se fosse comigo jamais deixaria de aceitar um presente como aquele!
— Presente, Regina? Ela iria converter-me e criar um novo monstro para alimentar-se de pessoas! É isso o que coisas como ela, fazem! Usam o nosso mundo como um celeiro de alimentos! – Vladimir aponta para Reyninna. – Tudo o que ela lhe oferecer é engodo! Uma grande mentira! Eu vivi com ela por mais de seis meses e sei o que meus olhos viram, Regina! Não ensandeci pois o amor que sinto por você e por Jonny, conseguiu fazer com que eu soubesse o que era real e o que era enganação!!
— Você não entenderia a minha decisão, Vlad, porque você sempre foi um fraco! Sempre foi um homem submisso, medíocre e que fez com que eu me cansasse da vida morna que você me proporcionava! Eu quero vida! Eu quero ser uma bruxa poderosa! E somente Reyninna poderá me dar o que eu quero! Eu a amo!!
— Abrir mão de sua vida e de seus amores para prostituir-se com um demônio?
Rápida, Regina desfere uma bofetada contra o rosto do marido.
— Você se prostituiu antes de mim, covarde! – ela o olha com o mais absoluto desprezo e afasta-se do homem. — Essa vida é maravilhosa, Vlad! – ela grita, crispando as mãos. Abre os braços e gira em torno do próprio corpo. – Olhe em volta! Eu jamais teria a chance de ter tudo isso, continuando em minha vida de policial! Eu sempre estaria em risco e as pessoas não enxergariam a minha beleza e o meu brilho!
Vladimir e Killian se entreolham.
— Você irá volta comigo, Regina. Você veio me resgatar e não iremos permitir que fique sob a mercê desse demônio...
— Reyninna é minha parenta e em nossas veias corre o mesmo sangue. — o rosto de Regina se torna sombrio. – Vocês irão embora e eu vou permanecer aqui, aprendendo tudo o que Reyninna estiver disposta a ensinar-me. Caso vocês tentem usar a força física, eu usarei as minhas habilidades contra os dois.
Vladimir dá um passo adiante e Killian o detém suavemente, quando Regina ergue uma das mãos em chamas.
— Considere-se derrotado, Vlades. – Reyninna atrai a atenção dos homens. – Você me feriu, me humilhou, provocou a morte de Lenine e Mérida, zombou do meu amor e de minha espera por séculos, sentiu nojo de mim...lembra-se de que um dia, virou o rosto e cuspiu? E das vezes que vomitou quando eu o toquei intimamente? Você tentou cravar aquela peça de ouro em meu pescoço como resposta ao oferecimento do meu amor. Eu ofereci amor e você me deu a morte.
— Você é uma besta patética, doente e pútrida. – Vladimir fala nervosamente, controlando seus sentimentos para não explodir e chorar diante de sua adversária. – Vai afundar na loucura dos vampiros e sua única saída será atirar-se numa fogueira, para poupar os humanos de sua presença maldita.
Levantando o queixo em sinal de altivez, Reyninna tenta convencer de a presença de seu Conde não a afetava mais.
— Regina escolheu a mim e darei a ela tudo o que o meu dinheiro puder comprar. Ela será uma Condessa e não esconderá as habilidades e a beleza, como precisava fazer quando se escondia no mísero papel de esposa de um policial. Viva você em sua mediocridade, mas não impeça que Regina conheça a grandiosidade de ser uma nobre. – a Condessa alarga seu sorriso e envolve os ombros de Regina. – A menina tem o meu sangue e decidiu viver onde terá poder de verdade, não o engodo de um distintivo de plástico.
Os olhos cor de avelã do policial se voltam lentos para o rosto frio de Regina. Embora ela quisesse exibir tranquilidade, o rubor de sua pele denunciava a temperatura de seu corpo e de sua alma.
— Espero que sua escolha valha a perda do seu filho. Não pense que permitirei o convívio de vocês duas com ele. Agora, assim como vocês conhecem o meus, eu também conheço todos os seus pontos fracos e sei como combater tanto vampiros como bruxos. Esqueça-se do que você viveu até o dia de hoje, Regina, porque nossa nova vida começará daqui para frente.
— Eu terei beleza, poder e juventude eternas, Vlad. Você refutou tudo isso porque é um ignorante e provinciano, que se contenta com pouco. – Regina não sorri. Fecha o rosto e cruza os braços na frente do corpo. – Uma casa, um emprego, reuniões em família no final de semana e o título de melhor atirador de elite. Bah! Miséria! Você não tem visão de conquista e vai terminar os seus dias, na mais profunda mediocridade, como um velho barrigudo que brinca com os netinhos! Eu quero o mundo e para ter o mundo, terei de ser forte e poderosa como Reyninna! E isso você jamais entenderá e jamais poderá me dar!
Vladimir estreita os olhos que se queimavam pelas lágrimas que foram impedidas de sair.
— Você olha em volta e consegue apenas ver uma casa grande. Mas eu olho em volta e vejo possibilidades. E para que essas possibilidades se tornem realidade, não posso ter raízes fincadas. – Regina se afasta de todos e vai sentar-se num cadeira, mantendo os olhos fixos na lareira.
Os olhos apaixonados de Reyninna se fixam em seu Conde. Olha-o de cima a baixo e é neste momento que consegue ver uma aliança no dedo do homem. E era a aliança que Vlades usava na noite de sua morte. Ia avançar a arrancar a joia do homem, mas ele estava protegido demais para permitir algum toque, e ela estava frágil.
— Eu lhe ofereci a aliança e você a devolveu! – ela rosna com os dentes travados. Estende a mão. – Quero que tire o que não lhe pertence!
Vladimir olha a aliança em seu dedo anelar e brinca com a joia com desdém.
— Eu gosto dela, porque é o troféu que me lembrará de que um dia lutei contra o sobrenatural...e venci.
Mantendo sua postura, Reyninna aponta para a saída da casa. Leva discretamente a mão ao abdômen e tenta disfarçar a dor que sentia desde que as setas consagradas tinham sido cravadas em seu corpo.
— Vamos, Vlad. Tudo está consumado e não há o que possamos fazer para dissuadir Regina desse delírio inocente e ganancioso. – Killian conduz o irmão para a saída, mas para e olha a Condessa de soslaio. – As feridas causadas por minhas setas, jamais serão cicatrizadas em seu corpo e irão aumentar em todas as noites, até que seu corpo transforme-se numa imensa ferida purulenta, fétida e cheias de vermes. Existem duas formas de cura: a fogueira e o sepultamento em sua terra natal.
Regina se levanta de onde estava e caminha até junto da Condessa. Seu peito queimava, gritava e clamava com o olhar para que os homens não pusessem a perder tudo o que havia planejado.
— Não pense que a palavra final desta história será a sua, Condessa. – Killian aponta ao redor. – Espero que esta casa seja suficiente para sanar todas as suas necessidades e sonhos, porque este será o seu sepulcro. E eu sou o seu algoz!
Continuando seu trajeto para saírem dali, os homens voltam sua atenção quando Regina chama pelo nome do marido.
— Diga ao Johnathon que hoje a Fada do Carvalho não irá transformar a mamãe em uma menina de verdade. – Regina retira a aliança de casamento do seu dedo e a atira aos pés de seu marido. – Está tudo consumado, Vlad. Saia desta casa, porque tudo o que viveu naquele castelo não será nada comparado ao que poderá ver aqui dentro.
— Eu sempre terei a conexão com vocês duas. Saberei, se tentarem uma aproximação de Jonny e vou jurar pela luz das estrelas, que matarei vocês.
— Sempre amarei vocês...
— Sei disso, meu amor. – Vladimir sorri.
Os policiais saem do casarão e quando atingem o lado de fora do portão, ouvem os ferrolhos sendo fechados lá dentro. E é naquele instante, que Vladimir cai ajoelhado e desaba em lágrimas poderosas e venenosas. Killian se ajoelha e abraça o irmão. Ele chora pelo choro de Vladimir.
Lá dentro, Reyninna se despede de sua menina e caminha para longe dela. Esconde-se num cômodo e destempera-se, abafando o choro com as mãos. Definitivamente, tinha perdido o seu Conde amado mais uma vez. Fizera tudo errado e ele escorrera pelos seus dedos e estando ferida não iria voltar a vê-lo, porque sabia que seria consumida pela segunda morte. O general Radu tinha razão sobre as formas de cura e o sepultamento somente seria eficaz após muitos séculos de dormência. E quando despertasse, Vladimir ou Vlades não estariam mais vivos.
Regina sai da sala e entra na biblioteca da casa. Fecha a porta atrás de si e escorrega sentando-se no chão. Doía tanto trair seus amores! Doía tanto ter de escolher entre Reyninna e Vlad! Mas o que era certo a fazer...era certo.
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