Anatomia de um amor imortal

14 Como é irritante esperar demais!


Na janela do cômodo mais alto da casa alugada, Reyninna olhava a noite lá fora. Sorri ao perceber a aproximação de Lenine, que lhe toca o ombro que havia sido alvejado, já cicatrizado.

— O que a senhora pretendia fazer ao Conde, atacando-o daquela forma?

— Eu não conseguia acreditar que ele havia tentado me matar. Apenas quis tocar nele...

— Mas a senhora já planejou a morte dele, em um passado remoto. Quem sabe, essa recordação foi avivada. A senhora sentiu ódio e quis matá-lo, e eu vi isso.

Virando-se para seu velho criador, Reyninna o abraça e busca proteção. Depois se afasta dele.

— Não quis matar meu Conde. Mas ele disparou contra mim! Meu sangue borbulhou e ferveu e e eu quis beber dele! Será que Vlades está me odiando?

— O homem estava assustado, Condessa. Ele apenas defendia o homenzinho patético que estava escondido e também defendia a própria vida. Nós nos expusemos muito aos olhos dos humanos e causamos horror.

— Somos lindos, Lenine! Nossa pele é reluzente e nossos olhos são mágicos. Como eles podem sentir horror diante da beleza?

Lenine sorri.

— Não nos apresentamos belos, Condessa. Então, sugiro que se declare para ele, para que resolvamos aquilo que viemos resolver.

— E caso eu seja repudiada?

— A senhora mudou o foco de sua busca por Regina, quando viu a fotografia do Conde no celular dela. – ele dá de ombros como se fosse falar a coisa mais óbvia. – Agora, apenas deve estender suas mãos e apanhar o que sempre lhe pertenceu: o seu falecido marido. Lembre-se de que foi por causa desse momento, que a senhora aceitou o meu presente naquela prisão.

— Por uma questão de honra e pelo amor que carreguei em meu coração por tantas luas, vou controlar meus instintos e trazer à tona todas as lembranças de meu marido. Quando estivermos juntos outra vez, poderei aninhar em meus seios a minha descendente e ela continuará meu legado quando eu me for.

— Isso é muito romântico, Condessa, mas jamais se esqueça de que estamos lidando com dois soldados moldados à moda contemporânea. Além disso, o casal se ama e não está disposto a abrir espaço para mais alguém no relacionamento.

Reyninna olha o seu criador com o mais profundo desprezo. Abaixa as pontas da boca.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que com o passar do tempo, a senhora terá de escolher apenas um deles. Ter os dois sob sua proteção, será o seu fim.

Mais uma semana é engolida pelo calendário. Naquela dia...

“Tenho reunião com a Secretária de Segurança e chegarei mais tarde em casa. Mas Killian e Emma estarão com vocês, antes do anoitecer.”

— Estamos bem, Gigia. A casa está bem protegida pela quantidade de pétalas de rosas espalhadas pelo jardim. Sua mãe exagerou.

“Caso comece a anoitecer e Killian não chegue, quero que vá para a casa de minha mãe. Encha o carro com pétalas e vá!”

— Não se preocupe, meu amor. Não pretendo vacilar com Reyninna e se ela for mesmo uma vampira, não virá durante o dia.

“Não seja tão confiante, amor. Essas criaturas podem nos surpreender. Vigie e não confie totalmente nas pétalas de rosas. Lembre-se de que Reynina é também uma habilidosa.”

E a tarde cai naquele canto do mundo...

Vladimir e seu filho continuavam sentados no carpete da sala, brincando com os blocos coloridos e criando peças para se divertiram.

— Meu robô é maior que o seu, papai! Ele se parece com o meu avô Kane! Grandão e forte!

— Gordão e forte, você quer dizer. – Vladimir acha graça na resposta.

De repente, um forte odor conhecido de terra molhada invade a sala e atiça a curiosidade de Vladimir. Um odor tão nítido, como se um desbarrancamento recente tivesse ocorrido dentro da casa. Subitamente, ele sente todos os pelos de seu corpo ficarem eriçados e uma onda de frio percorre toda sua estatura. Associa o cheiro à presença de Reyninna.

Ele olha em volta e fita a janela exibindo o entardecer, mas sua atenção é atraída pela nuvem de pétalas voando levadas por um vento.

— Vamos para a cama, companheiro... – ele apanha o menino nos braços e para repentinamente, percebendo que algo não estava certo e que não teria tempo de atingir o quarto. Muda sua rota e corre para a cozinha, rapidamente subindo na mesa, sentando-se ali com o garoto, apertado junto ao peito.

— O que foi, papai?

— Vamos ficar aqui em cima, amigão...haja o que houver, não iremos descer daqui...

— Por que você está fazendo isso, Vlad?

Aquele som invade sua alma e ele sente como se uma corrente elétrica estivesse passando pelos seus músculos. Da passagem que separava a sala principal da cozinha, surge a figura magra e elegante de Reyninna. Linda, perfumada e altiva em um belíssimo vestido justo, acentuando todas as curvas de seu belo corpo.

Logo atrás dela, uma mulher de cabelos crespos e ruivos, exibe um olhar curioso e descaradamente apaixonado para homem sentado sobre a mesa. Era a mesma mulher que o havia visitado no hospital e que estava no casarão de pedras, na noite do jantar.

— É a tia da mamãe! – afirma Johnathon curioso e assustado com a atitude do pai.

— Elas não vão machucar você, meu amor. – ele encara as mulheres. – Vocês não são bem vindas em minha casa! Estão nos assustando!

— Somos bem vindas sim, meu amado. Você me convidou para entrar em sua casa e deu-me vinho para beber, além de expor sua intimidade aos meus olhos. – ela aponta para as fotografias. – Então, somos bem vindas, sim.

— Não podemos pegá-los, Condessa. – comenta a mulher ruiva. — Eles estão protegidos!

— Cale a boca e não fale estultices, Mérida! – a Condessa sorri e apanha uma cadeira, sentando-se a certa distância da mesa. – Diga ao menino que não sou má.

O garoto funga algumas vezes e esconde o rostinho contra o peito do pai. Não conseguia olhar aquela mulher de rosto amarelado e cabelos claros, embora ela se parecesse muito com a mamãe.

— Por que você subiu na mesa, meu amado? – ela sorri e aproxima-se do móvel.

— Não sei... – ele fica ofegante.

— Claro que sabe. Há muitos e muitos anos, nosso amigo Padre Kovak nos falou em nosso casamento, sobre os altares sagrados de nossa casa: a mesa onde se coloca o pão e a cama onde dorme o casal. Lembra-se de que nenhum governante poderia ser morto sobre sua cama, em nosso país?

— Não sei do que está falando. Vá embora!

— Veja, o nosso menino está mais calmo. – a Condessa estende as mãos e observa Vladimir proteger ainda mais o filho. – Ele gosta de mim. Por que não diz a ele quem realmente eu sou?

Vladimir estava ilhado e não havia como fugir. Sabia que não seria páreo para aquelas mulheres, depois de conhecer a força física delas. Então, decide acalmar-se e negociar. A segunda opção seria mais fácil do que conseguir controlar seu pavor.

— Eu não sabia que estava grávida, Vlades. Nosso filho nasceu pouco depois que eu fugi daquela prisão de pedras. Pensei que ele não sobreviveria naquele inferno construído nos Montes Cárpatos. Lembra-se de lá?

O Policial tenta ganhar tempo para conseguir controlar-se.

— P-por que e-esteve presa?

— Porque fiz um conluio com seu irmão Boris e culminou em seu suicídio, meu amado.

— E por que... fiz isso? – Vladimir acaricia os cabelos do filho e o embala, torcendo para que a criança conseguisse relaxar. O menino queria ouvir a conversa e estava atento.

Reynina sorri com aquela demonstração de amor.

— Porque você conhecia as leis e sabia que seu irmão não poderia reivindicar seu governo, seus exércitos e sua viúva, caso você tirasse sua própria vida. Fez isso por extremo amor. – a Condessa fala e mergulha mais uma vez, nas imagens de seu passado.

E num momento qualquer da história, a chegada de Boris, o meio irmão do Conde, aconteceu para marcar a vida daquela família. Efeminado, gentil ao extremo, não tardou a tornar-se próximo da Condessa. Ela viu nele o fim de seus dias sem glamour ou de falta de brilho ou ostentação. A partir daquele momento, as batalhas de campo tornaram-se coisas do passado e uma amizade começou a fortalecer entre os dois. E com a amizade, surgiu a confiança e a confidência. Ela confidencia a Boris, o seu profundo desejo em ser mãe. E seu segredo se tornou sua perdição.

Numa manhã fria, Boris lhe apresentou uma bela jovem recém-chegada à puberdade, com o ventre redondo pela existência de uma criança ali dentro. A notícia: a jovem carregava um filho de Vlades. A jovem camponesa havia sido escolhida para carregar o primeiro herdeiro de Vlades. Segundo Boris, o irmão havia se dado conta de que um Conde sem herdeiros é um Conde sem história, e por isso uma jovem na flor da idade fora escolhida para dar-lhe um filho.

O ódio surgiu na alma de Reynina e todos os sentimentos bons foram dissipados como nuvens ao vento forte. Por dez anos a sua dedicação ao Conde não valera absolutamente nada. Em troca de seu amor, sua devoção, sua juventude, tinha recebido a medalha de uma traição.

O Conde se mostrara sujo, reles e impiedoso. A verdadeira face da monstruosidade estava sendo exibida sem o mínimo pudor e respeito. Ódio. Ódio. Ódio. Nada mais habitava o coração de Reynina e nos próximos dias, sua mente vagaria num lamaçal de desejo de vingança. Mas tudo seria na hora certa e da mesma forma humilhante.

— Você precisa mostrar ao Vlades, os sentimentos de uma mulher traída. Seu amor foi vilipendiado, seu esforço das batalhas foi esquecido e o seu direito de ser mãe...foi usurpado. Vingue-se, querida. Mostre a ele que você é a Condessa Mills Tepescu e não é aquela garotinha que se deixou engravidar em troca de casa e comida. Mostre a sua inteligência e todo o brilho que nasce na pele da mulher madura.”

Controlando-se, o policial vasculha rapidamente o local em busca de uma rota de fuga. Em vão, porque não havia uma saída próspera.

— Como... meu irmão... agiu? – ele a traz de volta com sua pergunta.

Reyninna sai de sua viagem ao passado e encara o homem. Inclina a cabeça para o lado e sorri.

— Boris se aliou ao exército turco e traiu a minha confiança, mentiu para mim e enganou-me. Facilitei a entrada de soldados inimigos em nosso castelo...você lutou e antes de ser morto, usou a adaga do Sultão para cravar em seu coração. – Reynina fala como se estivesse vendo a cena outra vez.

— Papai... – menino segura o bíceps do pai, buscando segurança.

— Está tudo bem, meu amor. Elas não vão assustar você. – ele acaricia os cabelinhos do menino.

Inclinando a cabeça para o lado, Reyninna se encanta com a beleza da cena.

— Vocês dois são lindos! Você retornou para meus braços e trouxe o nosso filho, como um presente para mim. – ela sorri. – Quando a mulher-loba, general Ruby descobriu que eu havia facilitado a entrada dos turcos em nossa casa, ela me condenou à morte e enviou-me para a mais terrível prisão que existia. Foi quando conheci a pessoa que me encheu de vida e esperanças de lutar para ter nosso reino, nosso amor e nossa vida de volta.

Vladimir observa a maneira como a mulher evitava tocar a mesa, como se aquilo a queimasse e a repudiasse com alguma força e com algum poder.

— Retomei nosso castelo abandonado e criei um exército forte para derrotarmos os nossos inimigos. Passei a governar e isso provocou pavor em torno do meu nome.

O policial tenta sorrir.

— Eu jurei que o esperaria, Vlades. Mesmo coxa, ferida ou mutilada, lutei para permanecer aqui. Sobrevivi por muitas luas, fui perseguida por religiosos, escapei da fogueira da Inquisição, fugi da forca e de setas envenenadas, apenas para reviver este momento maravilhoso. O nosso reencontro...

Tenso, apavorado e tentando não demonstrar, embora seu coração o denunciasse, o policial exibe um sorriso largo.

— Não sei do que está falando, Reyninna...

— Preservei minha existência para aguardar o seu retorno. Enquanto você não voltava, protegi meu filho, todos os meus descendentes até conhecer Regina Mills. Mas a mãe dela a roubou de mim e por muitos anos fiquei sem notícias de minha menina. Um dia, eu a reencontrei e ao lado dela estava o meu homem amado, que havia despertado e que não retornou para meus braços.

Ela se volta furiosa e esmurra a pia, quebrando parte da pedra. Mérida solta uma gargalhada horrenda, aguda e que se parecia com o grasnar de um corvo. Ela emite um brado muito alto.

— Mas ele estava casado com a minha menina! – o rosto de Reynina se transfigura e ela se torna horrenda, com pupilas douradas e imensos colmilhos projetados para fora da boca.

Vladimir se inclina e esconde o filho em um espaço criado entre seus braços, peito e joelhos. Abaixa a cabeça e tranca os olhos, horrorizado com o que tinha começado a ver. Ele se balança para frente e para trás e começa a cantar algo em tom sussurrante, lutando para distrair a atenção da criança.

— Eu não quero nada que não me pertença! Nós juramos amor diante do altar e isso é tudo o que quero! Meu amado Conde, meu amado homem, meu esposo! – a Condessa grita e levanta-se furiosa, esmurrando uma das paredes. – Eles querem tirar você dos meus braços!

O policial continua com o rosto escondido e com o corpo curvado, protegendo seu pequeno menino. Ele canta mais alto para acalmar o filho.

— Não tenha medo de mim, meu amado! – Reyninna grita e ajoelha-se, estendendo as mãos numa súplica. – Eu desobedeci as regras para esperar pela sua volta! Viajei tantos espaços para caber em seu abraço e não mereço ser vista como um monstro! Não tenha medo de mim, eu lhe imploro, meu marido amado!

Vladimir não olha a visitante. Aumenta mais o tom de voz para ocultar os gritos horríveis dela.

— Não me repudie...- ela abaixa o tom de voz e sussurra chorando.

De repente, dois belos pares de olhos cor de avelã se fixam nela, olhando-a com curiosidade.

— Papai...a tia da mamãe está...machucada...- um dedinho infantil é apontado na direção dela.

Rapidamente, Reyninna enxuga seu rosto e as lágrimas vermelhas que escorriam ali. Não queria amedrontar ainda mais, os dois homens de sua vida e de sua espera.

— Ela ficará bem, meu amor. A titia vai ficar bem... ela vai embora e vai ficar bem...

— Vou ficar bem, querido...- ela se levanta e tenta sorrir.

— Você disse que nos ama. Então, em nome desse amor...vá embora...eu lhe imploro... – Vladimir também estava descontrolado e lágrimas claras corriam pelo seu rosto. Ele se senta novamente sobre a mesa e aponta para a porta do fundo da cozinha.

O som da porta da sala anterior sendo aberta é ouvido e rouba a atenção de Reyninna e Mérida. Elas olham para a mesma direção e mostram-se incomodadas e furiosas.