Anatomia de um Corretor de Merda
3 Capítulo 3: Pulsação e Pixels
Konoha estava em polvorosa. O início do ano letivo na UMK sempre trazia um ar de renovação para a vila, mas este ano o assunto principal não era a nota de corte ou os novos professores de Jutsus Médicos. O assunto era o "Nara Sedutor".
Shikadai caminhava pelas ruas pavimentadas, passando pelo famoso Restaurante Ichiraku, tentando manter o capuz do casaco sobre o rosto. Ele precisava chegar ao pavilhão de Enfermagem para a aula integrada de Sinais Vitais, mas sentia que cada par de olhos que cruzava o seu estava julgando sua "performance" no grupo de mensagens.
— Que saco... — murmurou ele, sentindo o celular vibrar contra sua coxa.
O aparelho parecia ter ganhado vida própria. O Corretor Preditivo Nin-Tech 5.0, desenvolvido pelos laboratórios de tecnologia da vila, era persistente. Ele havia detectado que Shikadai estava "em silêncio por muito tempo" e decidiu enviar uma mensagem automática de bom dia para o grupo de calouros para "manter o engajamento".
A mensagem enviada foi: "Bom dia, flores do meu jardim. Acordei pensando em como examinar cada uma de vocês hoje."
Shikadai só viu a mensagem quando Inoojin, seu amigo de infância que também cursava Desenho Industrial, o parou no corredor rindo até perder o fôlego.
— Cara, o seu pai era o mestre das sombras, mas você é o mestre da cantada pesada! O grupo está um caos! — Inoojin mostrava a tela do próprio celular, onde centenas de mensagens se acumulavam abaixo da frase desastrosa de Shikadai.
— Inoojin, eu não escrevi aquilo! É esse troço! — Shikadai apontou para o bolso, quase chorando de frustração. — Eu só queria dizer que estava a caminho da aula de exame físico!
— Pois agora a metade da turma de Enfermagem está te esperando com o estetoscópio na mão e medo no coração — brincou o loiro, seguindo para sua própria sala.
Shikadai entrou no laboratório de práticas integradas com o rosto mais baixo que o Monumento dos Hokages em dia de chuva. A sala estava cheia. No centro, as macas de exame estavam organizadas. Ele procurou por um rosto familiar e, para seu alívio (e desespero), viu Hilana organizando alguns esfigmomanômetros (aparelhos de pressão) manuais.
Hilana estava radiante. Diferente das outras meninas, que usavam tablets para anotar a frequência cardíaca dos colegas, ela tinha um relógio de bolso antigo e uma caderneta de couro.
— Olha só, se não é o "Jardineiro de Konoha" — disse Hilana, com um brilho divertido nos olhos quando Shikadai se aproximou da sua bancada.
— Hilana, por favor... me diz que você não viu aquela mensagem — implorou ele, sentando-se na banqueta ao lado dela.
— Eu não tenho o aplicativo, lembra? Mas a Taene fez questão de vir até aqui me mostrar, rindo como se tivesse ganhado a loteria de Ryos — Hilana deu de ombros, profissional. — Mas esquece isso. Hoje a aula é sobre sentir o pulso. E para sua sorte, o professor proibiu o uso de sensores digitais hoje. É tudo no dedo e no ouvido.
Shikadai sentiu um alívio genuíno. Sem telas, ele se sentiu mais confiante diante da turma. Sua capacidade de concentração poderia ser sua maior arma.
— Vamos lá — disse ela, estendendo o braço. — Tente achar meu pulso radial.
Shikadai hesitou. Tocar em Hilana era diferente de tocar em um boneco de treinamento. Ele posicionou os dedos médio e indicador no pulso dela. A pele de Hilana era morna e macia. Ele fechou os olhos, focando na contagem.
Tum-tum... tum-tum...
— Está um pouco acelerado — observou Shikadai, concentrado. — Cerca de 85 batimentos por minuto. Você está nervosa?
Hilana desviou o olhar por um segundo, algo raro para sua personalidade direta.
— Talvez seja o calor de Konoha. Agora é minha vez.
Ela segurou o pulso de Shikadai. No exato momento em que os dedos dela pressionaram a pele dele, o celular de Shikadai, que estava sobre a mesa, acendeu a tela. O sensor de proximidade detectou o movimento e a IA interpretou a situação.
O corretor, agindo como um cupido cibernético descontrolado, abriu o gravador de voz e enviou um áudio de 5 segundos para Hilana (mesmo ela não tendo o app instalado, o sistema enviou via SMS de áudio).
O som que saiu do aparelho, em volume máximo para todo o laboratório ouvir, foi o som das batidas do coração de Shikadai, acelerando freneticamente ao toque de Hilana, seguido por uma voz eletrônica dizendo: "Diagnóstico: Taquicardia por Paixão Aguda."
O silêncio no laboratório foi sepulcral. O professor parou de falar. Hilana ainda segurava o braço de Shikadai, os dedos sentindo o pulso dele realmente disparar para 120 batimentos.
Shikadai olhou para o celular, depois para Hilana, cujo rosto estava agora tão vermelho quanto o dela.
— Eu... eu vou jogar esse aparelho no Rio Naka — sussurrou Shikadai, a voz trêmula.
Hilana, para surpresa de todos, não riu dessa vez. Ela soltou o braço dele lentamente, mas manteve o olhar fixo no dele.
— Sabe, Shikadai... pela primeira vez, acho que esse seu aparelho estúpido disse algo que você não teve coragem de falar.
Ela pegou o celular dele, desligou-o e o entregou de volta.
— Mas da próxima vez, tente fazer meu coração acelerar sem usar sinal de satélite. É um desafio, gênio da estratégia. Você aceita?
Shikadai sentiu o peso do desafio. Pela primeira vez em Konoha, ele não achou que aquilo era um saco. Ele guardou o celular, não no bolso, mas no fundo da mochila, e olhou para Hilana com uma determinação que nem o maior estrategista do clã Nara jamais teve.
— Desafio aceito — respondeu ele, com um sorriso de lado.
A aula continuou, mas entre o cheiro de ervas medicinais e o barulho da metrópole de Konoha lá fora, dois jovens começavam a aprender que a melhor conexão é aquela que não precisa de barras de sinal.
Fale com o autor