Anabel
14 Traição
Notas iniciais
– Eu sinto muito – Bel abraçou-me com todo o carinho do mundo. Agarrei-a como nunca e deixei escapar algumas lágrimas. Ao senti-las em seu ombro, Anabel afastou-se e secou meu rosto.
– Tenho medo de como vou criar o menino agora... é... muito difícil, sabe? – falei com as mãos em sua cintura. Ela se afastou e sentou no sofá. Tranquei a fechadura da porta.
– Por que você não deixa o Daniel morar com os avós, Leo? – engoliu seco – Talvez seja melhor. Você pode visitá-lo nos fins de semana e... – interrompi-a.
– Não! – umedeci meus lábios e fui até o sofá – Eu não consigo, eu... eu quero criá-lo, Bel. Os pais da Deb se ofereceram, disseram a mesma coisa que você mas... eu não gosto dessa ideia – dei um gole no copo d'água que estava na mesa de centro.
– E os seus pais? – retrucou.
– Mamãe disse que queria que eu voltasse a morar com ela porque seria melhor para cuidar do Daniel. Falou que as babás dos meus irmãos poderiam ajudar e que assim eu poderia voltar a trabalhar – cocei a cabeça. Anabel afagou-a.
– Talvez seja melhor mesmo.
– Eu pedi para pensar mas... não posso demorar muito. Não quero mais depender do dinheiro deles, sabe? – suspirei. Anabel acenou a cabeça positivamente, de lábios apertados.
Daniel, subitamente, fez um barulho estranho, como se estivesse rindo.
Para a minha sorte de pai solteiro, Daniel era um bebê extremamente calmo; inclusive quase não chorava. Eu gostaria de poder passar o dia todo segurando-o em meus braços, ninando-o e cantando músicas bonitas. Era divertido o quanto ele parecia se sentir alegre quando eu cantava There Is A Light That Never Goes Out para ele.
Anabel se esticou até o carrinho para vê-lo. Sorriu de uma forma da qual poucas vezes eu a vera sorrir. Pegou-o no colo e ficou afagando a cabeça dele, apoiada em seus ombros.
– Ele é muito gracioso. Quero te ajudar com tudo que eu puder, tá? – disse Bel sorrindo para mim.
– Quer ser a madrinha dele? – perguntei de supetão. Ela nunca parecera tão felizmente surpresa. Não me aguentei e comecei a gargalhar.
– É claro! – riu – Eu adoraria... – deu um beijo na testa do bebê.
– Quer ser minha namorada de novo? – outra pergunta inesperada. Desta vez ela não pareceu estar alegre quanto a surpresa.
– Leo, eu... – pôs cuidadosamente o menino no carrinho novamente no carrinho – eu não acho uma boa ideia. Vamos viver assim, ok? Como melhores amigos e, agora... compadres? – riu para amenizar a situação. Talvez para me deixar menos triste.
– Eu te amo. Você não me ama? – perguntei quase chorando. Ela umedeceu os lábios e hesitou em responder.
– Eu... – passou as mãos por todo o rosto.
– Fala! – quase gritei.
– Eu só não sei se acredito mais tanto nisso assim. Eu achei que você tinha mudado, Leonardo, e que você era maduro suficiente para lidar com tudo aquilo mas... você não soube. Ao invés de você me deixar te ajudar, você me afastou de você... você... não precisava de mim... – respirou fundo, segurando as lágrimas.
Senti como se fosse explodir. Ela estava realmente dizendo que não sabia se acreditava no meu amor?! Respirei fundo, bem fundo, para não enlouquecer.
– Você tá doida? – levantei do sofá – Você tá completamente doida, Anabel! – gritei enquanto ela me olhava espantada. Acho que nunca havia falado de forma tão rude com alguém assim.
– Quer saber?! Você é um babaca, Leonardo. Uma criança! – levantou do sofá – Coitado do meu afilhado! – pegou a bolsa que estava em cima do sofá, andou em direção a porta, destrancando a fechadura e foi embora.
Acho que, definitivamente, nunca mais voltaríamos.
**
– Ele é lindo, Leo – disse Anabel, acariciando a barriga do Daniel. Estávamos ali, sobre uma cama de casal, olhando o quão lindo e fofo era aquele bebê. Tão pequeno, tão gordinho, tão belo. Era inevitável não se apaixonar. Anabel, como uma legítima madrinha, cuidava do meu filho como se fosse seu. Talvez fosse uma ligeira mistura do amor que criara por um feto que não nascera com a compaixão por um ser tão indefeso que perdera a mãe.
– Ele é encantador. E quando ele ri, mesmo sem ter nenhum dente, me lembra muito a Deb – falei em um tom nostálgico.
Sentia muito, quase que sempre, a falta de Deborah. Haveramos nos aproximado de um modo único desde a descoberta da sua gravidez. Ela se tornara uma das minhas maiores companhias. Contava-me histórias e fazia planos sobre a vida do nosso pequeno Daniel. Dizia o quanto que gostaria que ele fosse íntegro, inteligente e maduro – que, principalmente, não cometesse os mesmos erros que os pais. Deb havera se tornado em oito meses o que não havia se tornado em anos: uma grande amiga, quase que irmã.
– Você já decidiu se voltará a morar com os seus pais? – perguntou ela, apoiando a cabeça sobre as mãos deitadas na cama. Seus olhos ficavam ainda mais verdes com a luz do Sol incidindo sobre nós.
– Acho que vou. É melhor. Eu preciso voltar a trabalhar, a estudar... – suspirei, coçando a cabeça – e também não posso deixar o Daniel sobre sua responsabilidade. Mas também não posso deixá-lo sozinho... lá vão ter as babás dos meus irmãos que vão poder me ajudar.
Anabel deu um sorriso apertado.
– Que bom, então. – respondeu, levantando-se da cama – Preciso voltar para o Loretto. Vou aproveitar e comprar um presente para o meu afilhado que está fazendo dois meses... – sorriu. Não resisti e sorri também.
– Obrigado – levantei-me e peguei Daniel para ficar no meu colo.
Ela me deu um beijo estalado na bochecha e outro na testa do pequeno. Instantaneamente senti falta dos lábios doces e passionais de Bel. Na verdade, sentia uma enorme saudade de Anabel como minha namorada. Ela, infelizmente, havera decidido que era melhor terminarmos; e manteve esta decisão até agora. Criei expectativas de que, como ela dissera que me ajuda ria com o Daniel, acabaríamos voltamos. Mas já havia se passado dois meses desde a horrível briga que tivemos e nada. Inclusive, desconfiei que ela estivesse saindo com um outro cara.
– Não precisa me levar até a porta. Tchau – sorriu. Quando ela estava quase saindo do quarto, gritei-a.
– Bel! Quer que eu te busque no Loretto? – um tanto tímido, perguntei. Ela deu um sorriso apertado com seus lábios rosados e finos.
– Não, eu... eu não vou voltar para o prédio hoje – sorriu mais uma vez e virou-se. Curioso, fui até ela, com Daniel nos braços.
– Não? – franzi o cenho enquanto sorria forçadamente.
– Eu... – hesitou em responder. Era nítido que estava mentindo – tenho que ir até a minha irmã... lá no Grajaú – riu forçadamente também.
O ciúmes estava tomando meu corpo por completo. Era óbvio que ela estava mentindo; até o pequeno Daniel deve ter notado. Era óbvio também que ela não queria me dizer aonde ia porque, provavelmente, está saindo com alguém.
– Não minta – falei zangado. Engoli seco. Torci para que ela dissesse que iria fazer qualquer coisa menos ir encontrar-se com outra pessoa.
– Eu não preciso te dar satisfação da minha vida! – gritou ela, quase que correndo até a porta. Fui atrás como um louco.
– Ah, não?! Você está saindo com alguém, Anabel? – gritei. Ela ficou boquiaberta por alguns segundos tentando dizer algo ou talvez, pensar em algo, mas não conseguiu. Apenas mexeu a cabeça negativamente. Quando finalmente ela iria responder, eu a interrompi – Você está saindo com alguém! – gritei. Só Deus sabe o quão furioso eu estava naquele momento.
– E se eu estiver, Leonardo, e se eu estiver? Qual é a porra do problema?! – pôs alguns fios de cabelos para trás da orelha.
– Nenhum – dei o sorriso mais falso de toda a minha vida –, nenhum, Anabel. Você sai com quem você quiser. Agora você me dá licença porque o Daniel precisa tomar banho – abri a fechadura da porta para ela. Ela encarava o chão com o cenho franzido.
– Eu não tenho mais nada com você, Leonardo. Aceite isso – falou ela, saindo pela porta. Não aguentei e tive que retrucar.
– Eu aceito. Eu não estou nem aí para... – saí um pouco da porta e olhei para o apartamento de Anabel. Olavo estava parado na porta. Estranhei – Olavo?! – falei.
Anabel arregalou os olhos boquiaberta, encarando-me e olhando para o lado. Começou a apertar o botão do elevador rapidamente.
– Oi! – disse ele, sorrindo. Contudo, não parecia estar muito feliz de me ver. Fui até onde ele estava.
– O que você tá fazendo aqui? – perguntei – E Anabel, para de apertar o botão desse jeito, pelo amor de Deus, o elevador tá vindo! – disse à ela. Bel estava com uma expressão bem esquisita, como se quisesse fugir dali.
– Eu vim ver você! E esse pequenininho aqui! – Olavo respondeu, tentar fazer cócegas na barriga do Daniel.
– Tá, mas... por quê não tocou a campanhia? Parecia que você estava esperando alguém, tipo... – então, finalmente, comecei a racionar. Anabel estava realmente saindo com alguém. E esse "alguém" não era qualquer um: era, pelo visto, o meu melhor amigo. Daí, milhares de coisas começaram a vir na minha cabeça. Perguntas sem fim, que pareciam não ter respostas. Será que eles estavam juntos há quanto tempo? Será que foi antes ou depois de eu e Anabel terminarmos?
– Leo, eu... – Anabel veio até mim, pondo a mão no meu ombro, tentando me acalmar. Eu estava um vulcão prestes a explodir por dentro mas, externamente, graças ao Daniel que estava no meu colo, tentei ficar calmo.
– Não encosta em mim – sequer virei o rosto em sua direção. Apenas falei. Falei do modo mais frio que eu já poderia ter falado com alguém. Estava sentindo tanta raiva, tanto nojo. Sentia-me um completo idiota. As coisas acontecendo bem debaixo do meu nariz; o nervosismo dos dois quando estávamos juntos na noite de Ano Novo, o modo que Anabel evitava falar de Olavo. Agora eu já tinha entendido tudo.
– Não é desse jeito que você tá pensando, eu... não tô com ele... – disse ela, entre soluços, com uma voz bem trêmula.
Virei-me para olhá-la bem nos olhos.
– Ah, não? Anabel, por favor, pelo visto eu já fui otário demais – funguei o nariz – E quanto à você, Olavo... – virei-me para ele – eu nem sei o que dizer. Agora o casal me dê licença porque... eu não consigo ficar em um ambiente com gente tão falsa – engoli o choro e fui para o meu apartamento.
Entrei, tranquei a porta, pus Daniel no carrinho e deitei-me no sofá. Lá apenas conseguia pensar no quanto que eu havera sido enganado sabe-se lá por quanto tempo. Sentia falta de Deborah ali para me consolar. Para fumar um cigarro junto comigo. Para beber mais um copo de vodca comigo. Mas não; eu não podia. Desta vez – pela primeira vez –, eu deveria buscar forças em algo muito maior do que as drogas, a bebida, o cigarro. Deveria buscar forças pelo meu filho.
– Tá vendo o que você faz, Olavo?! – ouvi os gritos no corredor do quarto andar – Você é nojento! Não me procura mais. Nunca mais! – era Anabel gritando. Eu nem sentia mais a mínima vontade de entender. Apenas não queria vê-la mais; afinal, a última coisa que eu esperaria da mulher que eu amo é que ela saísse com o meu melhor amigo. Não queria ver Anabel e nem Olavo. O único garoto que foi meu amigo por toda minha vida, que eu confiei de olhos fechados, me apunhalou pelas costas, sem nem pensar duas vezes.
É, eu estava sozinho desta vez. Somente poderia contar comigo mesmo.
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